Aveiro: «Ao professor de EMRC cabe ser peregrino da esperança e aprofundar a verdade», Luís Manuel Silva

Docente de EMRC lembrou que a disciplina deve “ousar procurar respostas” e desafiou os colegas ao amor pois “só este tornará credível o nosso trabalho”.

O professor Luís Silva defendeu que os docentes de Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC) devem assumir-se como “garimpeiros da verdade”, “peregrinos da esperança” e construtores de diálogo no contexto escolar contemporâneo.

A reflexão foi apresentada na conferência «Ser professor de EMRC | Com que calçado se fazem os teus passos?», que decorreu no passado sábado integrada no Encontro de professores das dioceses do centro do país, que decorreu no início da Semana Nacional da EMRC.

A metáfora dos sapatos para pensar a missão educativa

Recorrendo à simbologia dos sapatos e das sandálias, presentes na Bíblia e na tradição cristã, Luís Silva estruturou a sua intervenção em torno de diferentes “modos de caminhar”, representando atitudes e dimensões essenciais da identidade do professor de EMRC.

“Há poucas coisas que revelem tanto sobre a condição de alguém como os seus sapatos”, afirmou, recordando ser filho de sapateiro e explicando que a imagem do calçado serviu como ponto de partida para refletir sobre a missão educativa e evangelizadora da disciplina.

Inspirando-se no livro Os Sapatos de Deus, do padre José Miguel Cardoso, Luís Silva propôs uma leitura simbólica da condição do professor de EMRC através de oito imagens: os pés descalços, os sapatos do romeiro, as sandálias do peregrino, as botas do pescador, os sapatos do pastor, os chinelos de dedo, os sapatos de domingo e os sapatos de noiva.

“Garimpeiros da verdade” num tempo de superficialidade

Ao abordar a imagem dos pés descalços, o professor sublinhou que a busca da verdade exige humildade e espírito crítico.

Num tempo marcado pela “sociedade líquida”, pelas “fake news” e pela inteligência artificial, defendeu que a EMRC deve continuar a ser um espaço de procura autêntica da verdade e de diálogo.

Nesse contexto, contestou ideias feitas, frequentemente associadas à história do cristianismo, como a afirmação de que a Idade Média acreditava numa Terra plana ou a ideia de que Galileu Galilei teria sido executado pela Inquisição.

“O pedido de perdão da Igreja é genuíno, mas isso não significa aceitar caricaturas da história”, afirmou.

O professor de EMRC como “arauto da esperança”

Evocando a tradição dos romeiros de São Miguel, nos Açores, Luís Silva comparou o professor de EMRC a um peregrino que caminha em comunidade e leva esperança aos outros.

“O professor de EMRC deve ser alguém que anuncia o ‘não temais’”, afirmou, recordando as numerosas referências bíblicas à confiança e à esperança.

Partindo do lema jubilar Peregrinantes in spem, destacou ainda a importância de ajudar os alunos a reencontrarem sentido mesmo depois do erro ou do fracasso.

“O peregrino pode errar, mas não permanece errante”, sublinhou.

“Toda a escola é nossa casa”

Na reflexão sobre os “sapatos do pastor”, o conferencista insistiu na necessidade de proximidade, pertença e acompanhamento dos alunos.

“O professor de EMRC não pode viver como funcionário. Toda a escola é sua casa e cada aluno é um irmão”, afirmou.

Luís Silva testemunhou que procura contactar os alunos que abandonam a disciplina, tentando compreender as razões da desistência e recuperar a relação educativa.

“Muitos regressam. Às vezes no mesmo ano, outras vezes mais tarde”, contou.

Identidade cristã e diálogo caminham juntos

Outro dos temas centrais da conferência foi a presença da EMRC na escola pública e a relação entre identidade religiosa e laicidade.

Luís Silva defendeu que a disciplina concretiza uma “laicidade positiva”, baseada na separação cooperante entre Estado e Igrejas prevista na Constituição portuguesa.

Segundo afirmou, o verdadeiro diálogo não exige o apagamento das identidades, mas antes identidades claras e disponíveis para o encontro.

“O problema não se resolve eliminando identidades nem impondo uma identidade única”, declarou.

“Só o amor tornará credível o nosso trabalho”

Na parte final da intervenção, o professor recorreu à imagem do filme The Shawshank Redemption para simbolizar o caminho do educador cristão.

Tal como o protagonista prepara silenciosamente os sapatos com que sairá da prisão rumo à liberdade, também o professor de EMRC “já traz calçados os sapatos com que entrará na eternidade”.

“Os nossos sapatos terão as marcas do caminho que tivermos percorrido”, afirmou.

A conferência terminou com um apelo à autenticidade e à entrega educativa:

“Só o amor é digno de fé. O amor com que nos entregamos à EMRC é que tornará credível o nosso trabalho”, concluiu.

Educris|21.05.2026

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