
Novo diretor da Faculdade de Teologia, da Universidade Católica Portuguesa, leu a primeira Exortação Apostólica do Papa Leão XIV, «Dilexi Te» e apresenta, aos leitores da Educação Cristã (EDUCRIS), os principais conceitos para perceber um texto que aborda a “opção preferencial pelos pobres”
Resumo dos Conceitos-Chave: Amor e Pobreza na Exortação «Dilexi te»
1. Introdução: Porque é que os Pobres são Centrais para a Fé Cristã?
Caros leitores, este documento oferece uma chave de leitura para os conceitos fundamentais apresentados nos dois primeiros capítulos da Exortação Apostólica «Dilexi te». O nosso objetivo é aprofundar a ligação teológica profunda e inseparável entre o amor a Deus, o amor ao próximo e, de modo muito particular, o cuidado com os pobres.
A questão central que a Exortação explora não é secundária nem opcional para a vida cristã. Pelo contrário, a atenção aos mais necessitados é apresentada como o “núcleo incandescente da missão eclesial” (par. 15). Compreender esta ligação é, portanto, essencial para viver uma fé autêntica e coerente.
Para desvendar este mistério, comecemos por analisar o pilar que sustenta toda a estrutura da caridade cristã: a inseparabilidade do amor a Deus e ao próximo.
2. O Elo Inseparável: Amar a Deus através do Próximo
O ensinamento de Jesus une de forma definitiva os dois maiores mandamentos da tradição bíblica: amar a Deus com todas as forças (Dt 6, 5) e amar o próximo como a si mesmo (Lv 19, 18). É pastoralmente vital compreender que Jesus não os apresenta como dois deveres separados, mas como um único e inseparável mandamento (par. 24).
O Apóstolo João oferece a prova definitiva desta ligação, com uma lógica espiritual irrefutável:
“Aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê.” (1 Jo 4, 20)
Aqui, a Exortação faz uma distinção teológica crucial. O contacto com os pobres transcende a mera solidariedade; ele desloca-se do campo da beneficência para o da Revelação. O texto afirma com clareza: “Não estamos no horizonte da beneficência, mas no da Revelação” (par. 5). Isto significa que o cuidado para com os pobres deixa de ser apenas uma “boa ação” para se tornar um locus theologicus — um lugar fundamental de encontro com o Senhor da história. Esta verdade atinge o seu clímax nas palavras do próprio Cristo, que se identifica diretamente com os mais vulneráveis: qualquer gesto de bondade feito ao “mais pequenino”, é feito a Ele mesmo (Mt 25, 40).
Se o encontro com o pobre é um encontro com Cristo, então a atenção de Deus aos mais frágeis não é um acaso; traduz-se numa “opção” deliberada que brota do Seu próprio coração.
3. O Coração de Deus: A “Opção Preferencial pelos Pobres”
O termo teológico “opção preferencial de Deus pelos pobres” pode parecer complexo, mas a sua essência é simples e profunda. A Exortação esclarece que esta “preferência” não significa que Deus exclua alguém do seu amor. Pelo contrário, sublinha o cuidado particular e compassivo de Deus por aqueles que são discriminados e oprimidos (par. 16). É importante notar que esta expressão surgiu no contexto teológico do continente latino-americano, em particular na Assembleia de Puebla, sendo depois integrada no Magistério universal da Igreja.
Esta opção divina está presente ao longo de toda a Sagrada Escritura. O Antigo Testamento demonstra-o de várias formas (par. 17):
* Deus ouve: Ele está atento ao “clamor do pobre” e intervém diretamente para o libertar da opressão (Ex 3, 7-8; Sl 34, 7).
* Deus denuncia: Através dos profetas, como Amós e Isaías, Ele condena veementemente as injustiças sociais e a exploração dos mais fracos.
* Deus rejeita o culto de quem oprime os pobres: Ele não aceita sacrifícios nem orações de quem, ao mesmo tempo, maltrata os necessitados, ensinando que a liturgia e a justiça social são inseparáveis.
Em última análise, esta opção de Deus está enraizada no seu próprio ser: Ele não ama os pobres à distância, mas fez-se pobre em Jesus Cristo para partilhar a nossa condição humana e, a partir dela, nos libertar (par. 16).
É precisamente na vida e missão de Jesus que esta “opção preferencial” encontra a sua manifestação plena e definitiva.
4. Jesus: O Messias Pobre e o Rosto do Amor de Deus
Jesus de Nazaré é a “plena realização” da predileção de Deus pelos pobres (par. 18). Ele não foi apenas o Messias dos pobres, mas também um Messias pobre, partilhando a sua condição de exclusão e vulnerabilidade desde o nascimento até à morte.
A tabela seguinte ilustra a pobreza radical que Jesus assumiu, não como um acidente biográfico, mas como uma escolha teológica profunda:
| Aspeto da Vida de Jesus | Exemplo Bíblico | Significado |
Nascimento e Infância: Nasceu numa manjedoura por “não haver lugar para eles na hospedaria” (Lc 2, 7) e teve de fugir como refugiado para o Egito (Mt 2, 13-15).
Vida Pública: Era um mestre itinerante que afirmava: “o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Mt 8, 20). Esta precariedade era sinal do seu vínculo com o Pai e condição para o discipulado (par. 20).
Condição Social: Era um artesão (tékt?n), pertencendo a uma classe de trabalhadores manuais que, por não possuírem terras, “eram considerados inferiores em relação aos agricultores” (Mc 6, 3; par. 20). A sua família ofereceu o sacrifício dos pobres no Templo (Lc 2, 22-24).
Morte: Foi crucificado fora dos muros da cidade, numa condição de total exclusão e despojamento (Mc 15, 22; par. 19).
A sua missão reflete esta identidade. Na sinagoga de Nazaré, Jesus define o seu propósito: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres” (Lc 4, 18). Com a sua vida e os seus ensinamentos, “Jesus combateu com firmeza aquele modo de pensar” (par. 22) que associava a pobreza a um castigo divino. Um exemplo claro desta inversão é a parábola do rico avarento e do pobre Lázaro, onde o pobre é consolado na eternidade, enquanto o rico que o ignorou é atormentado (Lc 16, 25).
O exemplo de Jesus não é apenas para ser admirado; constitui um chamado direto e inegociável à ação para todos os que O seguem.
5. Conclusão: Uma Fé que se Transforma em Ação
Com base no exemplo de Cristo e nos ensinamentos bíblicos, a Exortação deixa claro que uma fé autêntica exige obras concretas. Uma fé que permanece apenas no campo das ideias, sem se traduzir em gestos de amor para com os necessitados, é uma fé incompleta e incoerente.
Os apóstolos São Tiago e São João, sublinham com grande veemência esta verdade:
“De que aproveita, irmãos, que alguém diga que tem fé, se não tiver obras de fé? […] Assim também a fé: se ela não tiver obras, está completamente morta.” (Tg 2, 14-17)
“Se alguém possuir bens deste mundo e, vendo o seu irmão com necessidade, lhe fechar o seu coração, como é que o amor de Deus pode permanecer nele?” (1 Jo 3, 17)
Em síntese, a mensagem central dos dois primeiros capítulos de «Dilexi te» é inequívoca: o amor aos pobres é a medida do nosso amor a Deus. Este não é apenas um dever social ou um acessório da vida cristã, mas o caminho privilegiado para um encontro autêntico com Jesus Cristo, que escolheu identificar-se, até ao fim dos tempos, com os mais necessitados da história.
Imagem: Vatican Media
Cónego Luís Miguel Figueiredo Rodrigues

