{"id":1024788182,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/10686-domingo-xvii-do-tempo-comum-onde-compraremos-pao"},"modified":"2025-11-07T16:33:47","modified_gmt":"2025-11-07T16:33:47","slug":"domingo-xvii-do-tempo-comum-onde-compraremos-pao-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/domingo-xvii-do-tempo-comum-onde-compraremos-pao-2\/","title":{"rendered":"Domingo XVII do Tempo Comum: \u00abOnde compraremos p\u00e3o?\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031.jpg\" \/><\/p>\n<p><p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">1. O grande texto que forma o Cap\u00edtulo 6 do Evangelho de Jo\u00e3o, e que vamos ter a gra\u00e7a de escutar nestes cinco Domingos, pode dividir-se em seis Partes: a primeira Parte, que funciona como Introdu\u00e7\u00e3o ou prepara\u00e7\u00e3o do cen\u00e1rio, engloba os v. 1-4 e apresenta as personagens (Jesus, uma grande multid\u00e3o, os disc\u00edpulos), o lugar (na \u00aboutra margem do mar da Galileia\u00bb, na \u00abmontanha\u00bb) e o tempo (\u00abestava pr\u00f3xima a P\u00e1scoa dos judeus\u00bb); a segunda Parte, que se estende pelos v. 5-15, abre com uma pergunta pedag\u00f3gica de Jesus dirigida a Filipe (\u00abFilipe, onde compraremos p\u00e3o para que eles comam?\u00bb), n\u00e3o corretamente respondida por Filipe e Andr\u00e9, mas resolvida por Jesus; a terceira Parte, que compreende os v. 16-21, mostra-nos os disc\u00edpulos a atravessar, no escuro, o mar encapelado, e Jesus vindo ao seu encontro caminhando sobre o mar; a quarta Parte, entre os v. 22-24, apresenta-nos um novo come\u00e7o, no dia seguinte, mostrando-nos a multid\u00e3o que nota a aus\u00eancia de Jesus e parte \u00e0 sua procura para Cafarnaum; a quinta Parte, que compreende a longa extens\u00e3o de texto entre os v. 25-59, traz para a cena a importante discuss\u00e3o, travada entre Jesus e a multid\u00e3o ou os judeus, sobre o p\u00e3o vindo do c\u00e9u; a sexta Parte, que contempla os \u00faltimos vers\u00edculos (v. 60-71), estende a discuss\u00e3o aos disc\u00edpulos, mostrando a deser\u00e7\u00e3o de muitos (v. 60-66), em contraponto com a confiss\u00e3o de f\u00e9 de Pedro (v. 67-71).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">2. Dois Cap\u00edtulos \u00e0 frente de Jo\u00e3o 4, em Jo\u00e3o 6 (este agrafo de Jo\u00e3o 4 a Jo\u00e3o 6 \u00e9 oportuno e necess\u00e1rio), diz-nos o narrador que Jesus subiu \u00e0 montanha, que se sentou l\u00e1 com os seus disc\u00edpulos, e que uma grande multid\u00e3o acorria a Jesus (Jo\u00e3o 6,3 e 5). \u00c9 nessas circunst\u00e2ncias que Jesus retoma o tema do alimento. Descendo agora ao n\u00edvel dos disc\u00edpulos, Jesus diz a Filipe: \u00ab<em>Onde<\/em>\u00a0(<em>p\u00f3then<\/em>)\u00a0<em>compraremos<\/em>\u00a0(<em>agor\u00e1z\u00f4<\/em>) p\u00e3o para que eles comam?\u00bb (Jo\u00e3o 6,5). De facto, o verbo\u00a0<em>comprar<\/em>\u00a0\u00e9 corrente nos l\u00e1bios dos disc\u00edpulos, mas \u00e9 estranho na boca de Jesus. No cen\u00e1rio anterior, de Jesus e da Samaritana (Jo\u00e3o 4), os disc\u00edpulos passam quase o tempo todo a\u00a0<em>comprar<\/em>, enquanto Jesus fala de\u00a0<em>dar<\/em>, e\u00a0<em>d\u00e1-se<\/em>\u00a0mesmo.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">3. Na chamada \u00abprimeira multiplica\u00e7\u00e3o dos p\u00e3es\u00bb, que podemos ler nos Evangelhos de Mateus e de Marcos, Jesus recusa mesmo a solu\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>comprar<\/em>\u00a0(<em>agor\u00e1z\u00f4<\/em>), avan\u00e7ada pelos disc\u00edpulos, e prop\u00f5e a de\u00a0<em>dar<\/em>\u00a0(<em>d\u00edd\u00f4mi<\/em>) (Mateus 14,15-16; Marcos 6,36-37). Por que ser\u00e1, ent\u00e3o, que Jesus fala agora de\u00a0<em>comprar<\/em>, ainda para mais conjugando o verbo na 1.\u00aa pessoa do plural, Ele inclu\u00eddo: \u00abOnde\u00a0<em>compraremos<\/em>\u00bb? Mas a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas sobre\u00a0<em>comprar<\/em>. \u00c9 sobre \u00ab<em>Onde comprar<\/em>\u00bb. Face \u00e0 l\u00f3gica da miseric\u00f3rdia, da condivis\u00e3o e da partilha proposta por Jesus, j\u00e1 os disc\u00edpulos, c\u00e9ticos, se tinham perguntado: \u00ab\u201c<em>De onde<\/em>\u201d (<em>p\u00f3then<\/em>) poder\u00e1 algu\u00e9m saciar estas pessoas de p\u00e3es num lugar deserto?\u00bb (Marcos 8,4). Esse \u00ab<em>Onde<\/em>\u00bb (<em>p\u00f3then<\/em>) j\u00e1 tinha sido ouvido em Jo\u00e3o 1,48, quando Natanael pergunta a JESUS: \u00ab\u201c<em>De onde<\/em>\u201d (<em>p\u00f3then<\/em>) me conheces?\u00bb. Ser\u00e1 tamb\u00e9m ouvido em Jo\u00e3o 2,9, em que o narrador nos informa que o chefe-de-mesa \u00abn\u00e3o sabia \u201c<em>de onde<\/em>\u201d (<em>p\u00f3then<\/em>) era\u00bb a \u00e1gua feita vinho. Da mesma forma, Nicodemos tamb\u00e9m n\u00e3o sabe, acerca do Esp\u00edrito, \u00ab\u201c<em>de onde<\/em>\u201d (<em>p\u00f3then<\/em>) vem nem para onde vai\u00bb (Jo\u00e3o 3,8). Tal como a mulher samaritana n\u00e3o sabe \u00ab\u201c<em>de onde<\/em>\u201d (<em>p\u00f3then<\/em>) Jesus tira a \u00e1gua viva (Jo\u00e3o 4,11). E as autoridades de Jerusal\u00e9m confirmam que, \u00abquando vier o Cristo, ningu\u00e9m saber\u00e1 \u201c<em>de onde<\/em>\u201d (<em>p\u00f3then<\/em>) Ele \u00e9\u00bb (Jo\u00e3o 7,27). E, mais \u00e0 frente, em pol\u00e9mica com os fariseus, Jesus afirma: \u00abEu sei \u201c<em>de onde<\/em>\u201d (<em>p\u00f3then<\/em>) venho; v\u00f3s, por\u00e9m, n\u00e3o sabeis \u201c<em>de onde<\/em>\u201d (<em>p\u00f3then<\/em>) venho\u00bb (Jo\u00e3o 8,14). E na cena da cura do cego de nascen\u00e7a, os fariseus acabam por afirmar acerca de Jesus: \u00abEsse n\u00e3o sabemos \u201c<em>de onde<\/em>\u201d (<em>p\u00f3then<\/em>) \u00e9\u00bb (Jo\u00e3o 9,29), ao que o cego curado responde, apontando a cegueira deles: \u00abIsso \u00e9 espantoso: v\u00f3s n\u00e3o sabeis \u201c<em>de onde<\/em>\u201d (<em>p\u00f3then<\/em>) Ele \u00e9; e, no entanto, Ele abriu-me os olhos!\u00bb (Jo\u00e3o 9,30). Na narrativa do IV Evangelho, tudo isto conflui para a quest\u00e3o posta por Pilatos: \u00ab\u201c<em>De onde<\/em>\u201d (<em>p\u00f3then<\/em>) \u00e9s TU?\u00bb (Jo\u00e3o 19,9). E, no Evangelho de Lucas,\u00a0 Isabel tamb\u00e9m exclama: \u00ab\u201c<em>De onde<\/em>\u201d (<em>p\u00f3then<\/em>) a mim isto: \u201cQue venha a m\u00e3e do meu Senhor ter comigo?\u201d\u00bb (Lucas 1,43). E, no Evangelho de Marcos, como no de Mateus, os conterr\u00e2neos de JESUS, apontando as Suas humildes e bem conhecidas ra\u00edzes geogr\u00e1ficas e familiares que, na mentalidade antiga, determinam a identidade e a capacidade da pessoa, exclamam acerca d\u2019ELE: \u00ab\u201c<em>De onde<\/em>\u201d (<em>p\u00f3then<\/em>) a ESTE estas coisas, e que sabedoria \u00e9 esta a ESTE dada, e os prod\u00edgios que pelas m\u00e3os d\u2019ELE v\u00eam?\u00bb (Marcos 6,2; cf. Mateus 13,54.56).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">4. Retornando \u00e0 pergunta feita a Filipe: \u00ab<em>Onde<\/em>\u00a0comparemos p\u00e3o para que eles comam?\u00bb (Jo\u00e3o 6,5), o narrador anota outra vez com perspic\u00e1cia que Jesus disse isto para p\u00f4r Filipe \u00e0 prova (<em>peir\u00e1z\u00f4<\/em>), pois bem sabia o que havia de fazer (Jo\u00e3o 6,6). Com esta anota\u00e7\u00e3o, o narrador deixa-nos declaradamente perante uma pergunta pedag\u00f3gica, um teste, pelo que ficamos \u00e0 espera de saber se Filipe re\u00fane ou n\u00e3o compet\u00eancia para resolver o problema. E, enquanto temos os olhos postos em Filipe, e dado que se trata de um teste, tamb\u00e9m n\u00f3s nos vamos perguntando: \u00abE eu, ser\u00e1 que saberei responder e resolver o teste?<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">5. N\u00e3o temos de esperar muito tempo. Filipe \u00e9 r\u00e1pido a fazer contas, e diz logo que duzentos den\u00e1rios (um den\u00e1rio corresponde ao sal\u00e1rio de um dia) de p\u00e3o n\u00e3o chegam para que cada um receba ainda que seja s\u00f3 uma migalhinha (Jo\u00e3o 6,7). O leitor atento, mas incauto, \u00e9 com certeza levado a concordar com Filipe. Se a pergunta \u00e9: \u00ab<em>Onde<\/em>\u00a0<em>comprar<\/em>\u00a0p\u00e3o\u00bb, o leitor pensar\u00e1 logo certamente como Filipe no dinheiro e no shopping. E ser\u00e1 tamb\u00e9m levado a concluir que, para tanta gente, feitas as contas em termos de mercado, pouco ou nada haver\u00e1 a fazer. Mas o \u00ableitor impl\u00edcito\u00bb ou \u00ableitor modelo\u00bb, que a an\u00e1lise narrativa ou narratologia define como aquele que est\u00e1 apto a fazer as opera\u00e7\u00f5es mentais e afetivas que o mundo do relato dele requer, ter\u00e1 certamente estranhado que Filipe se tenha deixado levar t\u00e3o depressa pelo verbo \u00abcomprar\u00bb da pergunta de Jesus, dado que se trata de um verbo que Jesus n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o usa, como at\u00e9 recusa.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">6. Andr\u00e9, que estava ali ao lado e que tamb\u00e9m ter\u00e1 ouvido a pergunta, passa a Jesus a informa\u00e7\u00e3o preciosa de que havia ali um rapazito (<em>paid\u00e1rion<\/em>) que tinha cinco p\u00e3es de cevada e dois peixinhos, mas apressou-se logo a minar a utilidade do achado, dada a imensa despropor\u00e7\u00e3o entre t\u00e3o pouco alimento e tanta gente (Jo\u00e3o 6,8-9). Se a l\u00f3gica de mercado de Filipe o levou, e a n\u00f3s com ele, a desistir rapidamente de apresentar uma solu\u00e7\u00e3o positiva \u00e0 pergunta de Jesus, a l\u00f3gica de Andr\u00e9 levou-o, e a n\u00f3s outra vez tamb\u00e9m com ele, a desvalorizar os dons que descobrimos nos outros, nomeadamente nos nossos irm\u00e3os mais pequeninos.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">7. Parece agora claro para o leitor que a pergunta de Jesus: \u00ab<em>Onde<\/em>\u00a0<em>compraremos<\/em>\u00a0p\u00e3o para que eles comam?\u00bb, n\u00e3o obteve de Filipe a resposta adequada, e que a ajuda de Andr\u00e9 t\u00e3o-pouco se ter\u00e1 revelado satisfat\u00f3ria.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">8. Filipe ouviu a pergunta de Jesus. E Andr\u00e9, pelos vistos, tamb\u00e9m a ouviu. Mas nem Filipe nem Andr\u00e9 sabiam que se tratava de uma prova, de um teste. S\u00f3 o leitor o sabe, porque foi disso informado pelo narrador. E ent\u00e3o a pergunta agora \u00e9: e eu e tu, leitores informados, ser\u00e1 que sabemos resolver a quest\u00e3o que Filipe e Andr\u00e9 deixaram sem resposta? Ou ser\u00e1 que preferimos prestar toda a nossa aten\u00e7\u00e3o ao desempenho de Jesus, dado que tamb\u00e9m fomos informados de que ele sabia bem o que havia de fazer? A a\u00e7\u00e3o de Jesus reclama a nossa aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">9. Soberanamente, Jesus, que bem sabia o que havia de fazer, ordenou \u00e0queles disc\u00edpulos, com certeza estupefactos, que fizessem reclinar (<em>anap\u00edpt\u00f4<\/em>) as pessoas (<em>\u00e1nthr\u00f4poi<\/em>) para comer (Jo\u00e3o 6,10). O verbo usado,\u00a0<em>anap\u00edpt\u00f4<\/em>, implica mesmo dispor-se \u00e0 mesa para comer. O narrador anota agora que \u00abos homens (<em>\u00e1ndres<\/em>) eram em n\u00famero de cerca cinco mil\u00bb, a que acrescenta a sugestiva anota\u00e7\u00e3o de que \u00abhavia muita erva (<em>ch\u00f3rtos<\/em>) naquele lugar\u00bb (Jo\u00e3o 6,10). Depois, Jesus, que preside \u00e0 mesa, RECEBEU (<em>lamb\u00e1n\u00f4<\/em>) os p\u00e3es, e TENDO DADO GRA\u00c7AS (<em>eucharist\u00e9\u00f4<\/em>), DISTRIBUIU-OS (<em>diad\u00edd\u00f4mi<\/em>) ele mesmo aos que estavam reclinados \u00e0 mesa (<em>anakeim\u00e9nois<\/em>), e o mesmo fez com os peixinhos, tanto quanto queriam (Jo\u00e3o 6,11). Fic\u00e1mos a saber que Jesus recolheu a informa\u00e7\u00e3o preciosa de Andr\u00e9 acerca dos p\u00e3es e dos peixinhos do rapazito, e que, ao contr\u00e1rio de Andr\u00e9, n\u00e3o os depreciou. E quando todos foram saciados (<em>enepl\u00easth\u00easan<\/em>), Jesus, que preside \u00e0 mesa, deu ordens aos seus disc\u00edpulos para que reunissem (<em>syn\u00e1g\u00f4<\/em>) os peda\u00e7os que sobraram (<em>perisse\u00fa\u00f4<\/em>). Note-se que o verbo usado para dizer \u00absobrar\u00bb \u00e9 o verbo\u00a0<em>perisse\u00fa\u00f4<\/em>, que implica o excesso que ultrapassa toda a medida e a abund\u00e2ncia que transborda, tornando curtas todas as nossas normas, regras e medidas. \u00c9 assim normal que o narrador nos informe de que, com os peda\u00e7os que sobraram, os disc\u00edpulos encheram doze cestos (Jo\u00e3o 6,12-13), s\u00edmbolo da plenitude transbordante e inesgot\u00e1vel.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">10. De notar que, aos olhos at\u00f3nitos dos disc\u00edpulos e dos nossos, Jesus n\u00e3o fez uma opera\u00e7\u00e3o de \u00abmultiplica\u00e7\u00e3o\u00bb dos p\u00e3es, mas de \u00abdivis\u00e3o\u00bb e \u00abcom-divis\u00e3o\u00bb, \u00abpartilha\u00bb dos p\u00e3es! O milagre de Jesus \u2013 aquilo que suscita surpresa e maravilha \u2013 n\u00e3o consiste em aumentar a quantidade do p\u00e3o (que permanece a mesma), mas em abrir os olhos aos seus disc\u00edpulos e a n\u00f3s que, como cegos, s\u00f3 conhecemos e pensamos na l\u00f3gica do mercado, do vender e do comprar, e n\u00e3o chegamos a saborear a l\u00f3gica da gratuidade, que \u00e9 a do nosso Pai celeste que faz nascer o sol para os bons e para os maus. Entrar nesta l\u00f3gica \u00e9 acreditar na for\u00e7a do dom, e ir por este mundo consumista, partindo o p\u00e3o e dividindo-o, com a clara consci\u00eancia de que onde isto acontecer, n\u00e3o s\u00f3 se instaura o necess\u00e1rio para todos (\u00abtodos comeram e foram saciados\u00bb), mas instaura-se igualmente o \u00abexcesso\u00bb, a superabund\u00e2ncia da gra\u00e7a (\u00abos disc\u00edpulos encheram doze cestos\u00bb).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">11. A multid\u00e3o, por\u00e9m, face ao sucedido, n\u00e3o viu o \u00abexcesso\u00bb, a superabund\u00e2ncia da gra\u00e7a (Romanos 5,20; 1 Tim\u00f3teo 1,14), mas tornou-se apenas materialmente\u00a0<em>dependente<\/em>\u00a0de Jesus, procurando-o por toda a parte (Jo\u00e3o 6,24), como se de verdadeira fonte de rendimento se tratasse (velha l\u00f3gica consumista). E, quando o encontra no \u00aboutro lado do mar\u00bb (Jo\u00e3o 6,25), \u00e9 duramente recriminada por Jesus, com estas palavras solenes: \u00abEm verdade, em verdade, vos digo: \u201cv\u00f3s procurais-me, n\u00e3o porque vistes sinais, mas porque comestes dos p\u00e3es e vos\u00a0<em>enchestes<\/em>\u00a0(<em>chort\u00e1z\u00f4<\/em>)\u201d\u00bb (Jo\u00e3o 6,26). E continua: \u00abTrabalhai, n\u00e3o pelo alimento que\u00a0<em>perece<\/em>, mas pelo que\u00a0<em>permanece<\/em>\u00a0at\u00e9 \u00e0 vida eterna\u00bb (Jo\u00e3o 6,27).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">12. Pouco depois, Jesus revelar\u00e1: \u00ab<em>Eu sou o p\u00e3o da vida<\/em>\u00bb (Jo\u00e3o 6,35 e 48) e \u00ab<em>Eu sou o p\u00e3o vivo descido do c\u00e9u<\/em>\u00bb (Jo\u00e3o 6,41 e 51), e retirar\u00e1 da\u00ed um rol de consequ\u00eancias em termos da\u00a0<em>sua carne<\/em>\u00a0e do\u00a0<em>seu sangue dados<\/em>\u00a0para a vida do mundo. Jesus compreende ent\u00e3o que os judeus e os seus disc\u00edpulos murmuravam por causa disso (Jo\u00e3o 6,61), e o narrador informa-nos que muitos deles se afastaram de Jesus (Jo\u00e3o 6,66). \u00c9 ent\u00e3o a hora decisiva de Jesus perguntar aos Doze: \u00abV\u00f3s tamb\u00e9m quereis ir embora?\u00bb (Jo\u00e3o 6,67), ao que Sim\u00e3o Pedro responder\u00e1 exemplarmente: \u00abSenhor,\u00a0<em>a quem iremos<\/em>?\u00a0<em>Tu tens palavras de vida eterna<\/em>\u00bb (Jo\u00e3o 6,68).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">13. O leitor que seguiu atentamente tudo desde o princ\u00edpio, desde a primeira pergunta pedag\u00f3gica de Jesus: \u00ab<em>Onde<\/em>\u00a0<em>compraremos<\/em>\u00a0p\u00e3o para que eles comam?\u00bb, e que assistiu ao falhan\u00e7o das respostas dos disc\u00edpulos, e que ter\u00e1, porventura, verificado a sua pr\u00f3pria incapacidade para responder, e que prestou depois toda a aten\u00e7\u00e3o ao desempenho de Jesus, e que viu entretanto a deser\u00e7\u00e3o de judeus e disc\u00edpulos dececionados, ter\u00e1 com certeza compreendido a \u00faltima resposta de Sim\u00e3o Pedro: \u00abSenhor, a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna\u00bb, como a verdadeira resposta \u00e0 primeira pergunta pedag\u00f3gica de Jesus. Com a resposta de Pedro, fica estabelecida a conjun\u00e7\u00e3o entre palavra e alimento. Mas falta ainda um agrafo que explique aquele estranho verbo\u00a0<em>comprar<\/em>, estranhamente usado por Jesus. \u00c9 um trabalho de casa que o leitor competente tem de fazer sozinho. E nem \u00e9 dif\u00edcil, pois ele sabe que \u00e9 preciso conhecer as Escrituras. Percorrendo-as, encontrar\u00e1 esta passagem de Isa\u00edas:<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">\u00abTodos v\u00f3s, que tendes sede, vinde \u00e0s \u00e1guas! V\u00f3s, que\u00a0<em>n\u00e3o tendes dinheiro<\/em>, vinde!\u00a0<em>Comprai<\/em>\u00a0(<em>agor\u00e1z\u00f4<\/em>\u00a0LXX) cereal e comei!\u00a0<em>Comprai<\/em>\u00a0cereal\u00a0<em>sem dinheiro<\/em>, e sem pagar, vinho e leite. (\u2026)\u00a0<em>Ouvi-me, ouvi-me, e comei<\/em>\u00a0o que \u00e9 bom!\u00bb (Isa\u00edas 55,1-2).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">14. Est\u00e1 aqui o elo que faltava: o verbo\u00a0<em>comprar<\/em>, significativamente n\u00e3o agrafado com\u00a0<em>dinheiro<\/em>.\u00a0<em>Comprar<\/em>\u00a0cereal\u00a0<em>sem dinheiro<\/em>. Mas esta li\u00e7\u00e3o de Isa\u00edas refor\u00e7a ainda a conjun\u00e7\u00e3o entre palavra e alimento, com aquela proposta: \u00ab<em>Ouvi-me, ouvi-me, e comei<\/em>!\u00bb, que soa tamb\u00e9m a abrir o Livro do grande profeta: \u00abSe vierdes e escutardes, o melhor da terra (<em>t\u00fbb ha\u2019arets<\/em>) comereis\u00bb (Isa\u00edas 1,19), clarificada pelo confronto: \u00abMas se vos recusardes (<em>ma\u2019na<\/em>) e vos rebelardes (<em>marah<\/em>), ser\u00e1 a espada que vos comer\u00e1\u00bb (Isa\u00edas 1,20). Mas tamb\u00e9m sai esclarecida ainda aquela disjun\u00e7\u00e3o mostrada por Jesus entre \u00abo alimento que perece\u00bb e \u00abo que permanece at\u00e9 \u00e0 vida eterna\u00bb (Jo\u00e3o 6,27). O que perece \u00e9 a \u00aberva\u00bb (ou \u00abfeno\u00bb) (<em>ch\u00f3rtos<\/em>), seja ela qual for, que compramos com dinheiro e nos cala a boca e enche (<em>chort\u00e1z\u00f4<\/em>) o est\u00f4mago, fartando-nos como animais (cf. Jo\u00e3o 6,26). O que permanece \u00e9 a palavra que Deus diz, e que \u00e9 por n\u00f3s ouvida, recebida e respondida. Mas esta disjun\u00e7\u00e3o, a que podemos agora acrescentar a sugestiva anota\u00e7\u00e3o de que \u00abhavia muita erva (<em>ch\u00f3rtos<\/em>) naquele lugar\u00bb (Jo\u00e3o 6,10), pode ainda ser melhor explicitada se lermos outro texto de Isa\u00edas:<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">\u00ab(\u2026) Toda a carne \u00e9 erva (<em>ch\u00f3rtos<\/em>\u00a0LXX), e toda a sua gra\u00e7a como a flor do campo. Seca a erva (<em>ch\u00f3rtos<\/em>\u00a0LXX) e murcha a flor, mas a palavra do Senhor permanece para sempre\u00bb (Isa\u00edas 40,6 e 8).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">15. Os leitores que se julgam super-competentes, mas que na verdade nada entendem, gostam de ver na anota\u00e7\u00e3o de que \u00abhavia muita erva naquele lugar\u00bb a evoca\u00e7\u00e3o do Salmo 23,2:<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">\u00abO Senhor \u00e9 meu pastor, nada me falta: num lugar de \u2018erva verde\u2019 (<em>t\u00f3pos chl\u00f3\u00eas<\/em>\u00a0LXX) me faz repousar\u00bb.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">16. Nem reparam que o vocabul\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 o do Salmo. O leitor instru\u00eddo nas Escrituras saber\u00e1 agora responder \u00e0 estranha pergunta de Jesus: \u00ab<em>Onde<\/em>\u00a0<em>compraremos<\/em>\u00a0p\u00e3o para que eles comam?\u00bb \u00c9 claramente em Deus. Tamb\u00e9m este cen\u00e1rio transborda de pedagogia. Jesus que, no cen\u00e1rio anterior (Jo\u00e3o 4), desceu ao n\u00edvel da mulher da Samaria para ganhar a mulher da Samaria, desce agora ao n\u00edvel dos disc\u00edpulos para ganhar os disc\u00edpulos (Jo\u00e3o 6). A iniciativa \u00e9 sempre de Jesus. Os disc\u00edpulos tinham ficado na linha do comprar (Jo\u00e3o 4). \u00c9 a\u00ed que Jesus os vai buscar, formulando a pergunta: \u00abOnde\u00a0<em>compraremos<\/em>\u00a0p\u00e3o, para que eles comam?\u00bb (Jo\u00e3o 6,5). Vimos atr\u00e1s que o verbo \u00abcomprar\u00bb \u00e9 estranho na boca de Jesus, mas usual na dos disc\u00edpulos. Usando agora o verbo \u00abcomprar\u00bb, Jesus desce ao n\u00edvel dos disc\u00edpulos. N\u00e3o, por\u00e9m, simplesmente para dizer com eles, mas para os levar a dizer com ele. Depois de muitos mal-entendidos e deser\u00e7\u00f5es, uma \u00faltima interpela\u00e7\u00e3o de Jesus acaba por lhes dar a oportunidade de se dizerem com Jesus. A multid\u00e3o \u00e9 levada pelo interesse meramente material, tornando-se dependente, no mau sentido, de Jesus. \u00c9 duramente recriminada por Jesus. O leitor encontra, neste cen\u00e1rio, um jogo de muitas surpresas, de muitos olhares. E \u00e9 o leitor o que mais tem a ganhar, se verdadeiramente entrar no jogo empenhativo do relato.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">17. A narrativa do Segundo Livro dos Reis (4,42-44) reclama j\u00e1 as diferentes cenas de \u00abmultiplica\u00e7\u00e3o\u00bb dos p\u00e3es presentes nos Evangelhos. Nos Evangelhos, \u00e9 Jesus o protagonista. Em 2 Reis 4,42-44 \u00e9 o profeta Eliseu que, com vinte p\u00e3es de cevada alimenta at\u00e9 \u00e0 saciedade cem pessoas. Claro que por detr\u00e1s do profeta est\u00e1 sempre a Palavra de Deus que tudo orienta e clarifica: \u00abComer\u00e3o e ainda sobrar\u00e1\u00bb (2 Reis 4,43). E assim sucedeu. E assim suceder\u00e1 ao longo das p\u00e1ginas da Escritura Santa. Experimente o leitor.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">18. S. Paulo lembra-nos, na li\u00e7\u00e3o da sua Carta aos Ef\u00e9sios 4,1-6, que a fome n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 de p\u00e3o. \u00c9 tamb\u00e9m de paz e de unidade. A matar esta fome que nos vai matando, l\u00e1 est\u00e1, reafirma Paulo, um s\u00f3 Senhor, um \u00fanico Esp\u00edrito, um s\u00f3 Deus e Pai de todos. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida: uma comunidade unida e reunida sabe partilhar com alegria. E \u00e9 assim que se resolvem todas as fomes, tamb\u00e9m a de p\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">19. Fica bem hoje cantar com alegria renovada o grande hino alfab\u00e9tico que \u00e9 o Salmo 145, at\u00e9 que vibrem as cordas do nosso cora\u00e7\u00e3o. E enquanto saboreamos as imensas riquezas que nos v\u00eam de Deus: a sua gra\u00e7a, miseric\u00f3rdia, amor e bondade (Salmo 145,8-9), usando, para o efeito, toda a gama de sabores e todas as letras do alfabeto, continuemos a cantar: \u00abAbris, Senhor, a vossa m\u00e3o, e saciais a nossa fome!\u00bb (Salmo 145,16).<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. 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