{"id":1025150037,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/10695-domingo-xix-do-tempo-comum-o-pao-que-da-a-vida"},"modified":"2025-11-07T16:33:47","modified_gmt":"2025-11-07T16:33:47","slug":"domingo-xix-do-tempo-comum-o-pao-que-da-a-vida-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/domingo-xix-do-tempo-comum-o-pao-que-da-a-vida-2\/","title":{"rendered":"Domingo XIX do Tempo Comum: \u00abO p\u00e3o que d\u00e1 a vida\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031.jpg\" \/><\/p>\n<p><p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">1. Continuamos, neste Domingo XIX do Tempo Comum, a revisitar o ch\u00e3o textual e a saborear o p\u00e3o espiritual do grande Evangelho de Jo\u00e3o 6. Hoje temos a gra\u00e7a de escutar a sec\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o 6,41-51. Importa, desde j\u00e1, lembrar o leitor que esta sec\u00e7\u00e3o se enquadra na quinta Parte deste grande Cap\u00edtulo, que se estende pelos vers\u00edculos 25-59 (ver atr\u00e1s, Domingo XVII). Podemos agora mostrar, para efeitos de clareza e melhor compreens\u00e3o, como se apresenta estruturada esta quinta Parte (Jo\u00e3o 6,25-59), para nos ocuparmos depois, mais de perto, do texto deste Domingo (Jo\u00e3o 6,41-51).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">2. Jo\u00e3o 6,25-59 apresenta-se ritmado pelo esquema \u00abpergunta-resposta\u00bb. As perguntas saem da boca de uma \u00abmultid\u00e3o\u00bb n\u00e3o identificada ou dos \u00abjudeus\u00bb, a que se seguem as respostas de Jesus. Seguindo este ritmo, o texto de Jo\u00e3o 6,25-59 mostra-se organizado em cinco sec\u00e7\u00f5es: Jo\u00e3o 6,25-29 (a), Jo\u00e3o 6,30-33 (b), Jo\u00e3o 6,34-40 (c), Jo\u00e3o 6,41-51 (d) e Jo\u00e3o 6,52-59 (e).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">3. O texto que nos ocupa neste Domingo forma, portanto, a quarta sec\u00e7\u00e3o (Jo\u00e3o 6,41-51). O leitor atento come\u00e7a logo por verificar que \u00aba multid\u00e3o\u00bb (<em>ho \u00f3chlos<\/em>) n\u00e3o identificada que at\u00e9 aqui seguia Jesus (Jo\u00e3o 6,2.5.22.24) se transforma subitamente, e sem qualquer explica\u00e7\u00e3o, em \u00abos judeus\u00bb (<em>hoi iouda\u00eeoi<\/em>) (Jo\u00e3o 6,41). \u00c9 vis\u00edvel tamb\u00e9m que, com esta s\u00fabita transforma\u00e7\u00e3o, cresce a hostilidade e a agressividade contra Jesus, aqui traduzida pela presen\u00e7a do verbo \u00abmurmurar\u00bb (<em>gogg\u00fdz\u00f4<\/em>), que lembra o comportamento dos Israelitas no deserto (\u00caxodo 15,24; 16,2 e 7-8; 17,3; N\u00fameros 14,2.27.29.36). A \u00abmurmura\u00e7\u00e3o\u00bb (<em>goggysm\u00f3s<\/em>) \u00e9 uma esp\u00e9cie de rebeli\u00e3o interior, assente na insatisfa\u00e7\u00e3o, desconfian\u00e7a, inveja, ci\u00fame e azedume contra as pessoas e contra Deus, neste caso, contra Jesus.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">4. E qual \u00e9 a raz\u00e3o desta \u00abmurmura\u00e7\u00e3o\u00bb dos judeus contra Jesus? Radica no facto de estes judeus conhecerem bem o \u00abhist\u00f3rico\u00bb de Jesus, o seu pai e a sua m\u00e3e, as suas ra\u00edzes humanas bem humildes, e de n\u00e3o poderem conciliar estes dados muito humanos com a sua origem divina (Jo\u00e3o 6,42-43). Note-se tamb\u00e9m que a \u00abmurmura\u00e7\u00e3o\u00bb consiste em falar mal de algu\u00e9m, n\u00e3o diretamente, tu a tu, mas indiretamente, em 3.\u00aa pessoa: \u00abN\u00e3o \u00e9 este, Jesus, o filho de Jos\u00e9, de quem conhecemos o pai e a m\u00e3e? Como \u00e9 que diz agora: \u201cEu desci do c\u00e9u?\u201d\u00bb (Jo\u00e3o 6,42).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">5. Os judeus dizem conhecer o pai de Jesus. Mas Jesus responde, apelando ao fim da murmura\u00e7\u00e3o: \u00abN\u00e3o murmureis entre v\u00f3s\u00bb (Jo\u00e3o 6,43), e apontando o seu verdadeiro Pai, que os judeus n\u00e3o conhecem (ironia joanina): \u00abNingu\u00e9m pode vir a Mim (<em>elthe\u00een pr\u00f3s me<\/em>), se o Pai, que me enviou, n\u00e3o o arrastar (<em>\u00e9lk\u00f4<\/em>)\u00bb (Jo\u00e3o 6,44). Jesus p\u00f5e, portanto, fim \u00e0 murmura\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, ao falar mal de algu\u00e9m, em 3.\u00aa pessoa, abrindo um discurso novo, direto, pessoal, tu a tu: \u00abVir a Mim\u00bb subverte completamente o \u00abfalar de Mim\u00bb. Mas este \u00abVir a Mim\u00bb \u00e9 obra, n\u00e3o dos homens, que n\u00e3o o sabem nem podem fazer por conta pr\u00f3pria, mas de Deus: \u00abTodos ser\u00e3o ensinados por Deus\u00bb (cf. Isa\u00edas 54,13), e conclui: \u00abTodo aquele que escutou do Pai, e aprendeu, vem a Mim\u00bb (Jo\u00e3o 6,45). Os judeus falam do pai de Jesus, Jos\u00e9. Mas Jesus fala do seu verdadeiro Pai, Deus. De pai para Pai. Jesus aponta o verdadeiro Pai, o \u00fanico que nos leva a Jesus, o p\u00e3o vivo descido do c\u00e9u, que \u00e9 a sua \u00abcarne\u00bb, isto \u00e9, a sua forma de viver, a sua identidade. Claramente: s\u00f3 identificando-nos com Jesus, aderindo \u00e0 sua forma de viver, fazendo nossa a sua vida, deixamos entrar em n\u00f3s a vida eterna. Not\u00e1vel interliga\u00e7\u00e3o: o IV Evangelho j\u00e1 nos tinha ensinado que \u00e9 Jesus que explica o Pai (Jo\u00e3o 1,18) e que conduz ao Pai (Jo\u00e3o 14,6). Nesta passagem, \u00e9 o Pai que explica Jesus e que conduz a Jesus.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">6. Notar-se-\u00e1 por debaixo do falar de Jesus o teclado do Antigo Testamento. Em dois momentos. Um deles \u00e9 aquele: \u00abTodos ser\u00e3o ensinados por Deus\u00bb (Jo\u00e3o 6,45), que \u00e9 uma cita\u00e7\u00e3o de Isa\u00edas 54,13. Todavia, a m\u00fasica \u00e9 diferente: o texto de Isa\u00edas \u00e9 restritivo, pois fala de \u00abTodos os teus filhos\u00bb (de Jerusal\u00e9m). Jesus alarga a perspetiva, falando de todos em geral. O outro \u00e9 aquele: \u00abNingu\u00e9m pode vir a Mim (<em>elthe\u00een pr\u00f3s me<\/em>), se o Pai, que me enviou, n\u00e3o o\u00a0<em>arrastar<\/em>\u00a0(<em>\u00e9lk\u00f4<\/em>)\u00bb (Jo\u00e3o 6,44), que tem por debaixo Jeremias 31,3 [38,3 LXX], que refere: \u00abCom um amor eterno, Eu te amei; por isso te\u00a0<em>arrastei<\/em>\u00a0(<em>mashak<\/em>\u00a0TM;\u00a0<em>\u00e9lk\u00f4<\/em>\u00a0LXX) com carinho\u00bb. \u00c9 demasiado pobre n\u00e3o reparar nisto. \u00c9 demasiado belo reparar nisto. H\u00e1 neste amor de Deus por n\u00f3s uma paix\u00e3o declarada, for\u00e7a ou coa\u00e7\u00e3o que o verbo (hebraico e grego) traduz bem. Entenda-se: Deus n\u00e3o desiste de n\u00f3s, j\u00e1 n\u00e3o pode passar sem n\u00f3s!<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">7. Como os judeus cortam la\u00e7os e cavam fossos, murmurando, tamb\u00e9m Elias (1 Reis 19,4-8) se afasta de Deus e do mundo e de si mesmo. Murmurando. De acordo com a murmura\u00e7\u00e3o de Elias, Deus n\u00e3o age como devia agir, o mundo est\u00e1 todo pervertido, de pernas para o ar, j\u00e1 n\u00e3o faz sentido continuar a viver. Porque Deus n\u00e3o age como ele quer, porque o mundo n\u00e3o \u00e9 como ele quer, Elias, desgostoso e desanimado, corre para a morte, que ele v\u00ea como a \u00fanica sa\u00edda para a sua vida sem Deus e sem sentido. Tudo somado, Elias n\u00e3o \u00e9 mesmo melhor do que os seus pais (1 Reis 19,4), os do tempo do \u00caxodo e da travessia do deserto, e, tal como eles, tamb\u00e9m murmura, falando mal de Deus, dos outros e do mundo.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">8. Mas Deus, o verdadeiro Deus, n\u00e3o fala mal de Elias, mas ama Elias, e vai conduzi-lo ao caminho certo. N\u00e3o deixa morrer Elias, e vai dar-lhe li\u00e7\u00f5es de vida verdadeira. Manda o seu anjo, que lhe toca (como toca em n\u00f3s um anjo?), fala-lhe, alimenta-o, e abre-lhe um caminho imenso para uma nova nascente. Tamb\u00e9m n\u00e3o fala mal de n\u00f3s, mas ama-nos.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">9. Na linha do que bem faz hoje o Ap\u00f3stolo Paulo para n\u00f3s na Carta aos Ef\u00e9sios (4,30-5,2): \u00abNada de azedumes, irrita\u00e7\u00e3o, c\u00f3lera, insultos, maledic\u00eancias, maldade\u00bb (Ef\u00e9sios 4,31). Em vez disso, bons (<em>chr\u00easto\u00ed<\/em>, leitura viva:\u00a0<em>christo\u00ed<\/em>) uns para com os outros, misericordiosos, perdoadores (Ef\u00e9sios 4,32), \u00abimitadores (<em>mim\u00eat\u00eas<\/em>) de Deus, como filhos amados\u00bb (Ef\u00e9sios 5,1). Outra vez: Deus n\u00e3o fala mal de n\u00f3s, mas ama-nos! E vistas as coisas do nosso lado: \u00abo amor n\u00e3o faz mal ao pr\u00f3ximo\u00bb (Romanos 13,10).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">10. O Salmo 34 p\u00f5e nos l\u00e1bios dos pobres a b\u00ean\u00e7\u00e3o (<em>b<sup>e<\/sup>rakah<\/em>), que os une a Deus para sempre, e o louvor jubiloso e intenso (<em>t<sup>e<\/sup>hillah<\/em>), que \u00e9 a sua verdadeira raz\u00e3o de viver (v. 2-3). O pobre enche o olhar de Deus e fica radiante, luminoso (v. 6), sabe que Deus o escuta e o salva, e convida a saborear a bondade de Deus (v. 9), como cantamos hoje repetidamente no refr\u00e3o: \u00abSaboreai e vede que Bom \u00e9 o Senhor\u00bb. Vers\u00e3o grega dos LXX: \u00ab<em>Ge\u00fasasthe ka\u00ec \u00eddete h\u00f3ti chr\u00east\u00f3s ho K\u00fdrios<\/em>\u00bb, ou, na pron\u00fancia viva: \u00ab<em>Ge\u00fasasthe ka\u00ec \u00eddete h\u00f3ti christ\u00f3s ho K\u00fdrios<\/em>\u00bb, o que d\u00e1 lugar a um jogo de palavras (<em>chr\u00east\u00f3s\/christ\u00f3s<\/em>) com resultados \u00e0 vista na tradi\u00e7\u00e3o patr\u00edstica, que l\u00ea o texto em clave cristol\u00f3gica e eucar\u00edstica, cujos primeiros resultados se podem ver j\u00e1 na Primeira Carta de S. Pedro: \u00abComo crian\u00e7as rec\u00e9m-nascidas, desejai o puro leite espiritual, para crescerdes com ele para a salva\u00e7\u00e3o, se \u00e9 que j\u00e1 saboreastes que bom \u00e9 o Senhor\u00bb (<em>h\u00f3ti chr\u00east\u00f2s ho k\u00fdrios<\/em>) (1 Pe 2,2-3). Em pron\u00fancia viva: \u00abque Cristo \u00e9 o Senhor\u00bb. Sim, v\u00ea-se daqui melhor a Bondade e o Amor fiel e comprometido, com Rosto e com Nome. Deus segue sempre o pobre de perto, cerca-o de amor (v. 8), protege at\u00e9 os seus ossos para n\u00e3o serem quebrados (v. 21), tal como \u00e9 dito do cordeiro pascal, o mais alto s\u00edmbolo de liberta\u00e7\u00e3o. No seu\u00a0<em>Caminho de perfei\u00e7\u00e3o<\/em>, Santa Teresa de \u00c1vila deixa-nos, talvez, um dos mais belos e e incisivos discursos sobre a pobreza: \u00abA pobreza \u00e9 um bem que cont\u00e9m em si todos os bens do mundo; ela confere um imp\u00e9rio imenso, torna-nos verdadeiramente donos de todos os bens c\u00e1 de baixo desde o momento em que os faz cair aos p\u00e9s\u00bb.<\/p>\n<p class=\"inline-ad-slot\" data-adtags-visited=\"true\" data-adtags-width=\"450\" id=\"inline-ad-3\">\u00a0<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u00c0 entrada de agosto,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Com o sol no rosto,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">D\u00e1 Deus o descanso<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">De um ribeiro manso,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Uma roseira brava,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Um sil\u00eancio em lava,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Uma bilha de \u00e1gua,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">P\u00e3o folhado a arder na fr\u00e1gua<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Um anjo \u00e0 cabeceira,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Celestial pulseira,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Com que o c\u00e9u nos guia<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">De noite e de dia,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Pelo deserto ardente,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Rumo \u00e0 nascente<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Da alegria.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u00a0<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. 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