{"id":1031391308,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/11625-domingo-xxiii-do-tempo-comum-operacao-de-coracao-aberto"},"modified":"2025-11-07T16:33:52","modified_gmt":"2025-11-07T16:33:52","slug":"domingo-xxiii-do-tempo-comum-operacao-de-coracao-aberto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/domingo-xxiii-do-tempo-comum-operacao-de-coracao-aberto\/","title":{"rendered":"Domingo XXIII do Tempo Comum: \u00abOpera\u00e7\u00e3o de cora\u00e7\u00e3o aberto\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031.jpg\" \/><\/p>\n<p><p data-adtags-visited=\"true\">Sb 9,13-19; Sl 90; Flm 9-10.12-17; Lc 14,25-33<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">1. Desde Lucas 9,51 que Jesus est\u00e1 decididamente A CAMINHO de Jerusal\u00e9m. E assim continuar\u00e1 at\u00e9 Lucas 19,28. Com este belo recurso \u00e0 tipologia do CAMINHO (<em>hod\u00f3s<\/em>) e do verbo CAMINHAR (<em>pore\u00faomai<\/em>), Lucas exemplifica e clarifica o modo crist\u00e3o de viver. Porque todo o CAMINHO abre o mundo ao meio, ao mesmo tempo que vai desenhando e atualizando a nossa vida em duas partes: \u00abpara a frente\u00bb e \u00abpara tr\u00e1s\u00bb. Note-se que Lucas \u00e9, de longe, o Autor do Novo Testamento que mais vezes usa estes voc\u00e1bulos, sensivelmente 40 em 100 vezes \u00abcaminho\u00bb (<em>hod\u00f3s<\/em>) e 88 em 150 vezes \u00abcaminhar\u00bb (<em>pore\u00faomai<\/em>). Num mundo plano como o nosso, o Evangelho de Lucas rasga CAMINHOS e procede a verdadeiras opera\u00e7\u00f5es de CORA\u00c7\u00c3O aberto. CAMINHO que abre CAMINHOS novos, novas maneiras de viver, com Jesus, que \u00e9 o CAMINHO, sabe o CAMINHO, mostra o CAMINHO e faz o CAMINHO, a enxertar a plenitude nesta nossa imensa e chata planitude.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">2. E a\u00ed est\u00e1 o Evangelho deste Domingo XXIII do Tempo Comum (Lucas 14,25-33) a abrir com a indica\u00e7\u00e3o de que \u00abCAMINHAVAM com Ele multid\u00f5es numerosas\u00bb (Lucas 14,25). E Jesus, sempre com tempo, a voltar-se para nos dizer palavras cortantes como bisturis: \u00abSe algu\u00e9m vem ter comigo e n\u00e3o\u00a0<em>odeia<\/em>\u00a0(<em>mis\u00e9\u00f4<\/em>) o pr\u00f3prio pai e a m\u00e3e e a mulher e os filhos e os irm\u00e3os e as irm\u00e3s, e at\u00e9 a pr\u00f3pria vida, n\u00e3o pode ser meu disc\u00edpulo\u00bb (Lucas 14,26-27). O que se diz aqui da fam\u00edlia mais direta e da pr\u00f3pria vida, dir-se-\u00e1 um pouco mais \u00e0 frente dos \u00abpr\u00f3prios bens\u00bb (Lucas 14,33).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">3. Compreenda-se, antes de mais, o sentido daquele \u00abodiar\u00bb (<em>mis\u00e9\u00f4<\/em>). \u00c9 \u00f3bvio que n\u00e3o se trata de \u00f3dio em sentido pr\u00f3prio. Colidiria, por exemplo, com Lucas 18,20, em que Jesus, citando os mandamentos ao homem rico, refere a \u00abhonra devida ao pai e \u00e0 m\u00e3e\u00bb. E contradiria tamb\u00e9m o mandamento do amor ao pr\u00f3ximo. O \u00abodiar\u00bb acima referido \u00e9, na verdade, a tradu\u00e7\u00e3o do modo de dizer aramaico, hebraico e sem\u00edtico em geral, l\u00ednguas que n\u00e3o t\u00eam outro verbo para dizer \u00abpreferir\u00bb. V\u00ea-se melhor com exemplos: em G\u00e9nesis 29,31, l\u00ea-se literalmente: \u00abO Senhor viu que Lia\u00a0<em>era odiada<\/em>\u00bb, e em G\u00e9nesis 29,33, ap\u00f3s ter concebido Sime\u00e3o, l\u00ea-se literalmente: \u00abO Senhor viu que eu\u00a0<em>era odiada<\/em>\u00bb. Em Deuteron\u00f3mio 21,15-17, l\u00ea-se literalmente: \u00abSe forem para um homem duas mulheres, e ele amar uma e\u00a0<em>odiar a outra<\/em>, e gerarem para ele filhos, a que \u00e9 amada e\u00a0<em>a que \u00e9 odiada<\/em>, e se for o filho primog\u00e9nito\u00a0<em>da odiada<\/em>\u2026\u00bb. Nos dois textos do G\u00e9nesis, a locu\u00e7\u00e3o\u00a0<em>era odiada<\/em>\u00a0aparece sempre traduzida por\u00a0<em>n\u00e3o era amada<\/em>. No texto do Deuteron\u00f3mio, que apresenta o contraponto entre a mulher amada e a\u00a0<em>mulher odiada<\/em>, a mulher odiada \u00e9 a\u00a0<em>n\u00e3o amada<\/em>\u00a0ou\u00a0<em>de que n\u00e3o gosta<\/em>. Portanto, \u00e9 facilmente compreens\u00edvel que o sentido do texto acima n\u00e3o passa por \u00abodiar\u00bb a fam\u00edlia ou a pr\u00f3pria vida, mas por algu\u00e9m \u00abpreferir\u00bb ou \u00abp\u00f4r antes\u00bb, \u00ab\u00e0 frente\u00bb, do seguimento de Jesus a fam\u00edlia, a pr\u00f3pria vida ou os bens.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">4. Posto isto, entenda-se bem que o CAMINHO de Jesus \u00e9 um CAMINHO de decis\u00f5es fortes. Sendo que \u00abdecis\u00e3o\u00bb deriva de \u00ab<em>decidere<\/em>\u00bb, cuja etimologia remete para \u00abcortar\u00bb. A\u00ed estamos outra vez ent\u00e3o no dom\u00ednio do bisturi e da opera\u00e7\u00e3o de CORA\u00c7\u00c3O aberto que tem de fazer todo o disc\u00edpulo de Jesus. A liga\u00e7\u00e3o do disc\u00edpulo a Jesus deve estar antes e ser a chave de leitura de todas as outras liga\u00e7\u00f5es: consigo pr\u00f3prio, com a fam\u00edlia, com os amigos, com os bens. \u00abDespedir-se\u00bb (<em>apot\u00e1ssomai<\/em>) de todos os seus bens n\u00e3o significa deit\u00e1-los fora, fugir deles. Significa, antes, dar-lhes o uso correto. Verifica\u00e7\u00e3o: as mulheres que seguiam Jesus e os seus disc\u00edpulos desde a Galileia serviam-nos (<em>diakon\u00e9\u00f4<\/em>) com os seus bens (Lucas 8,3).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">5. Sendo um CAMINHO de decis\u00f5es fortes, de cortes, \u00e9 tamb\u00e9m um CAMINHO de pondera\u00e7\u00e3o e delibera\u00e7\u00e3o atenta e serena. Por isso, por duas vezes, o dizer de Jesus convida a \u00absentar-se primeiro\u00bb (Lucas 14,28 e 31). Sim, seguir Jesus no seu CAMINHO implica ser fiel a Jesus da mesma maneira que Jesus \u00e9 fiel ao Pai. N\u00e3o se pode compor uma esp\u00e9cie de cristianismo \u00e0 medida, selecionando de Jesus os aspetos que nos agradam, deixando outros de lado.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">6. A Assembleia Dominical \u00e9 um tempo extraordinariamente denso e intenso, em que os disc\u00edpulos de Jesus e as multid\u00f5es se sentam para ouvir a Palavra de Deus, e para tomar as decis\u00f5es consent\u00e2neas com a for\u00e7a da Palavra que escutamos. Decis\u00f5es s\u00e3o cortes. S\u00e3o incis\u00f5es. Todos os disc\u00edpulos de Jesus se devem sujeitar urgentemente a esta opera\u00e7\u00e3o de CORA\u00c7\u00c3O aberto.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">7. Sim, os nossos passos e pensamentos s\u00e3o fal\u00edveis, e andamos muitas vezes cansados com o peso das preocupa\u00e7\u00f5es do dia-a-dia. Tudo, sobre a terra, requer trabalho e sacrif\u00edcio. At\u00e9 o p\u00e3o que comemos requer trabalho duro. Mas Deus d\u00e1-o aos seus amigos at\u00e9 durante o sono (Salmo 127,2). E d\u00e1 tamb\u00e9m a Sabedoria, para nos guiar, e sem a qual nada vale. Pe\u00e7amo-la ao Senhor, enquanto estamos sentados a ponderar e discernir. Sem ela, nada do c\u00e9u conseguimos saber. E \u00e9 urgente conhecer a vontade de Deus, para nos vincularmos a ela. A li\u00e7\u00e3o \u00e9 do Livro da Sabedoria 9,13-18.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">8. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio \u00abodiar\u00bb ningu\u00e9m. Mas \u00e9 preciso, \u00e9 decisivo e incisivo \u00abamar mais\u00bb, para sermos e termos \u00abmais\u00bb irm\u00e3os. Ainda h\u00e1 muitos \u00abOn\u00e9simos\u00bb \u00e0 espera de um amor novo que os liberte, que nos liberte. Vai nesse sentido o bilhete postal que Paulo envia a Fil\u00e9mon 9-17, para que receba On\u00e9simo como filho, e n\u00e3o como escravo. Esta pequena Carta, quase um bilhete postal (tem apenas 25 vers\u00edculos), j\u00e1 foi definida como uma \u00abpequena obra prima de fino trato e de cora\u00e7\u00e3o\u00bb. Em dia de Domingo, \u00e9 hoje a \u00fanica oportunidade que a liturgia nos oferece para a conhecermos melhor por dentro e por fora. \u00c9 sintom\u00e1tico que tenhamos encontrado um bilhete postal semelhante do escritor latino Pl\u00ednio, o Jovem (61-112), quase contempor\u00e2neo de S. Paulo, endere\u00e7ado a um certo Sabiniano em favor de um escravo fugido. E a \u00fanica raz\u00e3o que Pl\u00ednio invoca para mudar em suavidade a c\u00f3lera do patr\u00e3o \u00e9 a da superioridade da mansid\u00e3o sobre a ira e da generosidade sobre a viol\u00eancia. \u00abEnvio-to, ele que \u00e9 as minhas entranhas (<em>spl\u00e1gchna<\/em>)\u00bb (v. 12), isto \u00e9, a ternura que h\u00e1 em mim. \u00abRecebe-o como se fosse a mim pr\u00f3prio\u00bb (v. 17), como \u00abirm\u00e3o amado\u00bb\u2026 \u00abno Senhor\u00bb (v. 16). Deixamos aqui algumas palavras de uma pequena, mas bela homilia que fez Lutero num Domingo de setembro de 1522, exatamente sobre este pequeno escrito paulino que traduz \u00abde modo magistral um delicioso exemplo de amor crist\u00e3o\u00bb. (\u2026) \u00abCristo representa-nos a todos junto do Pai e ama-nos tanto. E n\u00f3s somos todos seus On\u00e9simos\u00bb.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">9. O Salmo 90 p\u00f5e em cena a eternidade e a solidez de Deus em confronto com a fragilidade e o sabor ef\u00e9mero da vida humana, sempre vista no microsc\u00f3pio de Deus. Este confronto \u00e9 cantado na elegia sapiencial dos v. 1-10, sendo de s\u00faplica os v. 11-17. O primeiro movimento pode resumir-se na afirma\u00e7\u00e3o do v. 4: \u00abMil anos aos teus olhos s\u00e3o o dia de ontem que passou, como uma vig\u00edlia da noite\u00bb. E o segundo movimento tem o seu ponto alto no v. 12: \u00abEnsina-nos a bem contar os nossos anos, para chegarmos \u00e0 sabedoria do cora\u00e7\u00e3o\u00bb. Estar de passagem e sermos t\u00e3o fr\u00e1geis como a flor da erva (v. 5-6) n\u00e3o nos leva para o pessimismo, mas para viver intensamente a vida que Deus nos d\u00e1, Ele que \u00e9 e permanece o nosso ref\u00fagio de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o (v. 1). Um dos cl\u00e1ssicos estudiosos dos Salmos, Artur Weiser (1893-1978), alem\u00e3o, de tradi\u00e7\u00e3o Evang\u00e9lica, expressa bem esta realidade: \u00abNa luz da gra\u00e7a de Deus, um reflexo de eternidade cai tamb\u00e9m sobre a vida e sobre a obra do homem. Da parte de Deus, a fragilidade recebe subsist\u00eancia, a mis\u00e9ria torna-se gl\u00f3ria, aquilo que parecia sem sentido, alcan\u00e7a significado\u2026 \u00c9 como se a estrela de outro mundo viesse fazer luz sobre o fluir dos nossos dias\u00bb.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sb 9,13-19; Sl 90; Flm 9-10.12-17; Lc 14,25-33 1. Desde Lucas 9,51 que Jesus est\u00e1 decididamente A CAMINHO de Jerusal\u00e9m. 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