{"id":1082084041,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/326-vaticano\/12950-vaticano-documento-denuncia-graves-violacoes-da-dignidade-humana"},"modified":"2025-11-07T16:34:45","modified_gmt":"2025-11-07T16:34:45","slug":"vaticano-documento-denuncia-graves-violacoes-da-dignidade-humana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/vaticano-documento-denuncia-graves-violacoes-da-dignidade-humana\/","title":{"rendered":"Vaticano: Documento denuncia \u00abgraves viola\u00e7\u00f5es\u00bb da dignidade humana"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/unsplash_dignidade_240410040453.jpg\" \/><\/p>\n<p><p><em>\u00abDignitas infinita\u00bb, do Dicast\u00e9rio para a Doutrina da F\u00e9 aborda tem\u00e1ticas que colocam em causa a dignidade de cada ser humano. Da guerra \u00e0 pobreza, da viol\u00eancia contra os migrantes \u00e0 situa\u00e7\u00e3o das mulheres, do aborto \u00e0 eutan\u00e1sia, da teoria do g\u00e9nero \u00e0 viol\u00eancia digital, o novo recurso integra o magist\u00e9rio do Papa Francisco e demorou cinco anos a concluir<\/em><\/p>\n<p class=\"destaque3\" style=\"text-align: center\"><strong>Declara\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0<strong><em>Dignitas infinita<\/em><\/strong><\/p>\n<p class=\"destaque3\" style=\"text-align: center\"><strong>sobre a dignidade humana<\/strong><\/p>\n<p><strong>Apresenta\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>No Congresso de 15 de mar\u00e7o de 2019, a ent\u00e3o Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9 decidiu encaminhar \u00aba reda\u00e7\u00e3o de um texto, evidenciando a imprescindibilidade do conceito de dignidade da pessoa humana ao interno da antropologia crist\u00e3 e ilustrando o alcance e as implica\u00e7\u00f5es ben\u00e9ficas em n\u00edvel social, pol\u00edtico e econ\u00f4mico, tendo em conta os \u00faltimos desenvolvimentos do tema em \u00e2mbito acad\u00eamico e as suas ambivalentes compreens\u00f5es no contexto hodierno\u00bb. Um primeiro projeto a respeito, elaborado com a ajuda de alguns especialistas durante o ano de 2019, foi considerado insatisfat\u00f3rio pela Consulta reservada da Congrega\u00e7\u00e3o, realizada em 8 de outubro do mesmo ano.<\/p>\n<p>Procedeu-se \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o\u00a0<em>ex novo<\/em>\u00a0de outro delineamento do texto por parte do Of\u00edcio Doutrinal, em base \u00e0 contribui\u00e7\u00e3o de diversos especialistas. O esbo\u00e7o foi apresentado e discutido durante a Consulta reservada de 4 de outubro de 2021. Em janeiro de 2022, o novo esbo\u00e7o foi apresentado na Sess\u00e3o Plen\u00e1ria da Congrega\u00e7\u00e3o, na qual os Membros resolveram abreviar e simplificar o texto.<\/p>\n<p>Em 6 de fevereiro de 2023, o novo texto emendado foi avaliado pela Consulta reservada, que prop\u00f4s algumas ulteriores modifica\u00e7\u00f5es. A nova vers\u00e3o foi submetida \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o da Sess\u00e3o Ordin\u00e1ria do Dicast\u00e9rio (<em>Feria IV<\/em>) de 3 de maio de 2023. Os Membros concordaram que o documento, com algumas modifica\u00e7\u00f5es, poderia ser publicado. O Santo Padre Francisco aprovou os\u00a0<em>Deliberata<\/em>\u00a0desta\u00a0<em>Feria IV<\/em>\u00a0durante a Audi\u00eancia concedida a mim em 13 de novembro de 2023. Nesta ocasi\u00e3o, pediu-me ainda para evidenciar no texto algumas tem\u00e1ticas estreitamente conexas ao tema da dignidade, como por exemplo o drama da pobreza, a situa\u00e7\u00e3o dos migrantes, as viol\u00eancias contra as mulheres, o tr\u00e1fico de pessoas, a guerra e outras. Para honrar o melhor poss\u00edvel tais indica\u00e7\u00f5es do Santo Padre, a Sess\u00e3o Doutrinal do Dicast\u00e9rio dedicou um Congresso ao estudo da Carta enc\u00edclica\u00a0<em>Fratelli tutti<\/em>, que oferece uma original an\u00e1lise e aprofundamento da quest\u00e3o da dignidade humana \u201cpara al\u00e9m de toda circunst\u00e2ncia\u201d.<\/p>\n<p>Com carta datada de 2 de fevereiro de 2024, em vista da\u00a0<em>Feria IV<\/em>\u00a0do sucessivo 28 de fevereiro, foi enviada aos Membros do Dicast\u00e9rio um novo esbo\u00e7o do texto, notavelmente modificado, com a seguinte observa\u00e7\u00e3o: \u00abEsta ulterior reda\u00e7\u00e3o foi necess\u00e1ria para vir ao encontro de um espec\u00edfico pedido do Santo Padre. Ele explicitamente solicitou que se fixasse melhor a aten\u00e7\u00e3o sobre graves viola\u00e7\u00f5es atuais da dignidade humana, no sulco da enc\u00edclica\u00a0<em>Fratelli tutti<\/em>. O Of\u00edcio Doutrinal se incumbiu assim de reduzir a parte inicial\u00a0<sup>[&#8230;]<\/sup>\u00a0e de elaborar mais detalhadamente quanto indicado pelo Santo Padre\u00bb. A Sess\u00e3o Ordin\u00e1ria do Dicast\u00e9rio, em 28 de fevereiro de 2024, enfim aprovou o texto da atual\u00a0<em>Declara\u00e7\u00e3o<\/em>. Na Audi\u00eancia concedida a mim, juntamente com o Secret\u00e1rio da Se\u00e7\u00e3o Doutrinal, Mons. Armando Matteo, em 25 de mar\u00e7o de 2024, o Santo Padre aprovou a presente\u00a0<em>Declara\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0e ordenou a sua publica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A elabora\u00e7\u00e3o do texto, que durou cinco anos, permite entender que se encontra diante de um documento que, pela seriedade e centralidade do tema no pensamento crist\u00e3o, precisou de um not\u00e1vel processo de amadurecimento para chegar \u00e0 reda\u00e7\u00e3o definitiva que hoje publicamos.<\/p>\n<p>Nas primeiras tr\u00eas partes, a\u00a0<em>Declara\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0recorda princ\u00edpios fundamentais e pressupostos te\u00f3ricos, a fim de oferecer importantes esclarecimentos que podem evitar as frequentes confus\u00f5es que se verificam no uso do termo \u201cdignidade\u201d. Na quarta parte, apresenta algumas situa\u00e7\u00f5es problem\u00e1ticas atuais, em que a imensa e inalien\u00e1vel dignidade que corresponde a todo ser humano n\u00e3o \u00e9 adequadamente reconhecida. A den\u00fancia de tais graves viola\u00e7\u00f5es da dignidade humana \u00e9 um gesto necess\u00e1rio porque a Igreja nutre a profunda convic\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se pode separar a f\u00e9 da defesa da dignidade humana, a evangeliza\u00e7\u00e3o da promo\u00e7\u00e3o de uma vida digna, a espiritualidade do empenho pela dignidade de todos os seres humanos.<\/p>\n<p>Tal dignidade de todos os seres humanos pode, de fato, ser entendida como \u201cinfinita\u201d (<em>dignitas infinita<\/em>), como S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II afirmou em um encontro com pessoas portadoras de certas limita\u00e7\u00f5es ou defici\u00eancias,<sup>[*]<\/sup>\u00a0a fim de mostrar como a dignidade de cada ser humano vai al\u00e9m de toda apar\u00eancia exterior ou de toda caracter\u00edstica da vida concreta das pessoas.<\/p>\n<p>Papa Francisco, na Carta enc\u00edclica\u00a0<em>Fratelli tutti<\/em>, quis sublinhar com particular insist\u00eancia que esta dignidade existe \u201cpara al\u00e9m de toda circunst\u00e2ncia\u201d, convidando todos a defend\u00ea-la em todo contexto cultural, em todo momento da exist\u00eancia de uma pessoa, independentemente de qualquer defici\u00eancia f\u00edsica, psicol\u00f3gica, social ou tamb\u00e9m moral. A este prop\u00f3sito, a\u00a0<em>Declara\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0se esfor\u00e7a por mostrar que nos encontramos diante de uma verdade universal, que todos precisamos reconhecer como condi\u00e7\u00e3o fundamental para que as nossas sociedades sejam verdadeiramente justas, pac\u00edficas, sadias e, por fim, autenticamente humanas.<\/p>\n<p>O elenco dos temas escolhidos pela\u00a0<em>Declara\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0n\u00e3o \u00e9 certamente exaustivo. Os assuntos tratados s\u00e3o, por\u00e9m, aqueles que permitem exprimir v\u00e1rios aspectos da dignidade humana que hoje podem ser obscurecidos na consci\u00eancia de muitas pessoas. Alguns ser\u00e3o facilmente compartilh\u00e1veis por diversos setores das nossas sociedades, outros menos. Seja como for, todos nos parecem necess\u00e1rios, porque no seu conjunto ajudam a reconhecer a harmonia e a riqueza do pensamento, que brota do Evangelho, acerca da dignidade.<\/p>\n<p>Esta\u00a0<em>Declara\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0n\u00e3o tem a pretens\u00e3o de exaurir um argumento t\u00e3o rico e decisivo, mas deseja fornecer alguns elementos de reflex\u00e3o que ajudam a t\u00ea-lo presente no complexo momento hist\u00f3rico em que vivemos. Assim, em meio a tantas preocupa\u00e7\u00f5es e ansiedades, n\u00e3o perderemos a estrada e n\u00e3o nos exporemos a mais lacerantes e profundos sofrimentos.<\/p>\n<p>V\u00edctor Manuel Card. Fern\u00e1ndez<\/p>\n<p><em>Prefeito<\/em><\/p>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>1. (<em>Dignitas infinita<\/em>) Uma dignidade infinita, inalienavelmente fundada no seu pr\u00f3prio ser, \u00e9 inerente a cada pessoa humana, para al\u00e9m de toda circunst\u00e2ncia e em qualquer estado ou situa\u00e7\u00e3o se encontre. Este princ\u00edpio, que \u00e9 plenamente reconhec\u00edvel tamb\u00e9m pela pura raz\u00e3o, coloca-se como fundamento do primado da pessoa humana e da tutela de seus direitos. A Igreja, \u00e0 luz da Revela\u00e7\u00e3o, reafirma de modo absoluto esta dignidade ontol\u00f3gica da pessoa humana, criada \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus e redimida em Cristo Jesus. Desta verdade extrai as raz\u00f5es do seu empenho em favor daqueles que s\u00e3o mais fracos e menos dotados de poder, insistindo sempre \u00absobre o primado da pessoa humana e sobre a defesa da sua dignidade para al\u00e9m de toda circunst\u00e2ncia\u00bb.<sup>[1]<\/sup><\/p>\n<p>2. Desta dignidade ontol\u00f3gica e do valor \u00fanico e eminente de cada mulher e de cada homem que existem neste mundo fez-se eco a\u00a0<em>Declara\u00e7\u00e3o universal dos direitos do homem<\/em>\u00a0(10 de dezembro de 1948) por parte da Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas.<sup>[2]<\/sup>\u00a0Fazendo mem\u00f3ria do 75\u00ba anivers\u00e1rio deste Documento, a Igreja v\u00ea a ocasi\u00e3o para proclamar novamente a pr\u00f3pria convic\u00e7\u00e3o de que, criado por Deus e redimido por Cristo, cada ser humano deve ser reconhecido e tratado com respeito e com amor, em raz\u00e3o da sua inalien\u00e1vel dignidade. Tal anivers\u00e1rio oferece \u00e0 Igreja tamb\u00e9m a oportunidade para esclarecer alguns equ\u00edvocos que surgem frequentemente acerca da dignidade humana e para enfrentar algumas graves e urgentes quest\u00f5es concretas relacionadas a esta.<\/p>\n<p>3. Desde o in\u00edcio da sua miss\u00e3o, impelida pelo Evangelho, a Igreja se esfor\u00e7ou para afirmar a liberdade e para promover os direitos de todos os seres humanos.<sup>[3]<\/sup>\u00a0Nos \u00faltimos tempos, gra\u00e7as \u00e0 voz dos Pont\u00edfices, desejou formular mais explicitamente tal empenho atrav\u00e9s do renovado apelo pelo reconhecimento da dignidade fundamental que corresponde \u00e0 pessoa humana. S\u00e3o Paulo VI disse que \u00abnenhuma antropologia se iguala \u00e0quela da Igreja sobre a pessoa humana, considerada tamb\u00e9m singularmente, acerca de sua originalidade, sua dignidade, seu car\u00e1ter intoc\u00e1vel, da riqueza de seus direitos fundamentais, sua sacralidade, sua educabilidade, sua aspira\u00e7\u00e3o a um desenvolvimento completo, sua imortalidade\u00bb.<sup>[4]<\/sup><\/p>\n<p>4. S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II, em 1979, durante a Terceira Confer\u00eancia do Episcopado Latino-americano em Puebla, afirmou: \u00aba dignidade humana representa um valor evang\u00e9lico, que n\u00e3o pode ser desprezado sem grave ofensa ao Criador. Esta dignidade \u00e9 espezinhada, em n\u00edvel individual, quando n\u00e3o s\u00e3o considerados devidamente valores como a liberdade, o direito de professar a religi\u00e3o, a integridade f\u00edsica e ps\u00edquica, o direito aos bens essenciais, \u00e0 vida. \u00c9 espezinhada, em n\u00edvel social e pol\u00edtico, quando o homem n\u00e3o pode exercitar o seu direito \u00e0 participa\u00e7\u00e3o, ou \u00e9 submetido a injustas e ileg\u00edtimas coer\u00e7\u00f5es ou a torturas f\u00edsicas ou ps\u00edquicas etc. (&#8230;) Se a Igreja se faz presente na defesa ou na promo\u00e7\u00e3o da dignidade do homem, ela o faz em conformidade \u00e0 sua miss\u00e3o que, mesmo sendo de car\u00e1ter religioso e n\u00e3o social ou pol\u00edtico, n\u00e3o pode renunciar a considerar o homem no seu ser integral\u00bb<sup>[5]<\/sup>.<\/p>\n<p>5. Em 2010, diante da Pontif\u00edcia Academia para a Vida, Bento XVI afirmou que a dignidade da pessoa \u00e9 \u00abum princ\u00edpio fundamental que a f\u00e9 em Jesus Cristo Ressuscitado sempre defendeu, sobretudo quando \u00e9 desatendido em rela\u00e7\u00e3o aos sujeitos mais simples e indefesos\u00bb.<sup>[6]<\/sup>\u00a0Em outra ocasi\u00e3o, falando aos economistas, disse que \u00aba economia e a finan\u00e7a n\u00e3o existem para si mesmas, elas n\u00e3o s\u00e3o outra coisa que um instrumento, um meio. Seu fim \u00e9 unicamente a pessoa humana e sua plena realiza\u00e7\u00e3o na dignidade. \u00c9 este o \u00fanico capital que \u00e9 oportuno salvar\u00bb.<sup>[7]<\/sup><\/p>\n<p>6. Desde os in\u00edcios de seu pontificado, Papa Francisco convidou a Igreja a \u00abconfessar um Pai que ama infinitamente cada ser humano\u00bb e a \u00abdescobrir que \u201ccom isso mesmo lhe confere uma dignidade infinita\u201d\u00bb,<sup>[8]<\/sup>\u00a0sublinhando com for\u00e7a que tal imensa dignidade representa um dado origin\u00e1rio que se precisa reconhecer com lealdade e acolher com gratid\u00e3o. Sobre tal reconhecimento e acolhimento \u00e9 poss\u00edvel fundar uma nova coexist\u00eancia entre os seres humanos, que modele a socialidade em um horizonte de aut\u00eantica fraternidade: unicamente \u00abreconhecendo a dignidade de cada pessoa humana, podemos fazer renascer entre todos uma aspira\u00e7\u00e3o mundial \u00e0 fraternidade\u00bb.<sup>[9]<\/sup>\u00a0Segundo Papa Francisco, \u00abesta fonte de dignidade humana e de fraternidade est\u00e1 no Evangelho de Jesus Cristo\u00bb,<sup>[10]<\/sup>\u00a0mas \u00e9 tamb\u00e9m uma convic\u00e7\u00e3o \u00e0 qual a raz\u00e3o humana pode chegar atrav\u00e9s da reflex\u00e3o e do di\u00e1logo, dado que \u00abse \u00e9 preciso respeitar em toda situa\u00e7\u00e3o a dignidade dos outros, \u00e9 porque n\u00f3s n\u00e3o inventamos ou supomos tal dignidade, mas porque existe efetivamente neles um valor superior em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s coisas materiais e \u00e0s circunst\u00e2ncias, que exige que sejam tratados de outro modo. Que cada ser humano possui uma dignidade inalien\u00e1vel \u00e9 uma verdade correspondente \u00e0 natureza humana, para al\u00e9m de qualquer mudan\u00e7a cultural\u00bb<sup>[11]<\/sup>. Na verdade, conclui Papa Francisco, \u00abo ser humano possui a mesma dignidade inviol\u00e1vel em qualquer \u00e9poca hist\u00f3rica e ningu\u00e9m pode sentir-se autorizado pelas circunst\u00e2ncias a negar esta convic\u00e7\u00e3o ou a n\u00e3o agir em consequ\u00eancia\u00bb.<sup>[12]<\/sup>\u00a0Em tal horizonte, a sua enc\u00edclica\u00a0<em>Fratelli tutti<\/em>\u00a0j\u00e1 constitui uma\u00a0<em>Magna Charta<\/em>\u00a0dos deveres atuais voltados a salvaguardar e promover a dignidade humana.<\/p>\n<p><em>Um esclarecimento fundamental<\/em><\/p>\n<p>7. Ainda que agora exista um consenso quase geral sobre a import\u00e2ncia e tamb\u00e9m sobre o car\u00e1ter normativo da dignidade e do valor \u00fanico e transcendente de cada ser humano,<sup>[13]<\/sup>\u00a0a express\u00e3o \u201cdignidade da pessoa humana\u201d pode prestar-se a muitos significados e assim a poss\u00edveis equ\u00edvocos<sup>[14]<\/sup>\u00a0e \u00abcontradi\u00e7\u00f5es que induzem a perguntar-nos se realmente a igual dignidade de todos os seres humanos [&#8230;] seja reconhecida, respeitada, protegida e promovida em toda circunst\u00e2ncia\u00bb.<sup>[15]<\/sup>\u00a0Tudo isso nos leva a reconhecer a possibilidade de uma qu\u00e1drupla distin\u00e7\u00e3o do conceito de dignidade:\u00a0<em>dignidade ontol\u00f3gica<\/em>,\u00a0<em>dignidade moral<\/em>,\u00a0<em>dignidade social<\/em>\u00a0e, enfim,\u00a0<em>dignidade existencial<\/em>. O sentido mais importante \u00e9 aquele ligado \u00e0\u00a0<em>dignidade ontol\u00f3gica<\/em>, que compete \u00e0 pessoa enquanto tal, pelo simples fato de existir e de ser querida, criada e amada por Deus. Esta dignidade n\u00e3o pode jamais ser cancelada e permanece v\u00e1lida para al\u00e9m de toda circunst\u00e2ncia em que os indiv\u00edduos venham a se encontrar. Quando se fala de\u00a0<em>dignidade moral<\/em>, deseja-se referir ao exerc\u00edcio da liberdade por parte da criatura humana. Esta \u00faltima, ainda que dotada de consci\u00eancia, permanece sempre sujeita \u00e0 possibilidade de agir contra ela. Fazendo assim, o ser humano se comporta de um modo que \u201cn\u00e3o \u00e9 digno\u201d da sua natureza de criatura amada por Deus e chamada a amar os outros. Mas esta possibilidade existe. E n\u00e3o s\u00f3: a hist\u00f3ria atesta que o exerc\u00edcio da liberdade contra a lei do amor revelada pelo Evangelho pode alcan\u00e7ar picos incalcul\u00e1veis de maldade provocada aos outros. Quando isso acontece, encontra-se diante de pessoas que parecem ter perdido qualquer tra\u00e7o de humanidade, qualquer tra\u00e7o de dignidade. A este respeito, a distin\u00e7\u00e3o aqui introduzida ajuda a discernir propriamente entre o aspecto da dignidade moral, que pode ser de fato \u201cperdida\u201d, e o aspecto da dignidade ontol\u00f3gica, que n\u00e3o pode jamais ser anulada. E \u00e9 justamente em raz\u00e3o desta \u00faltima que se dever\u00e1 trabalhar com todas as for\u00e7as para que todos que cometeram o mal possam arrepender-se e converter-se.<\/p>\n<p>8. Restam ainda outras duas acep\u00e7\u00f5es poss\u00edveis de dignidade: social e existencial. Quando se fala de\u00a0<em>dignidade social<\/em>, quer-se referir \u00e0s condi\u00e7\u00f5es nas quais uma pessoa se encontra a viver. Na pobreza extrema, por exemplo, quando n\u00e3o se d\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas para que uma pessoa possa viver segundo a sua dignidade ontol\u00f3gica, diz-se que a vida daquela pessoa t\u00e3o pobre \u00e9 uma vida \u201cindigna\u201d. Esta express\u00e3o n\u00e3o indica de nenhum modo um ju\u00edzo quanto \u00e0 pessoa, mas deseja evidenciar o fato que a sua dignidade inalien\u00e1vel foi contradita pela situa\u00e7\u00e3o na qual \u00e9 obrigada a viver. A \u00faltima acep\u00e7\u00e3o \u00e9 aquela de\u00a0<em>dignidade existencial<\/em>. Sempre mais frequentemente fala-se hoje de uma vida \u201cdigna\u201d e de uma vida \u201cn\u00e3o digna\u201d. Com tal indica\u00e7\u00e3o, quer-se referir a situa\u00e7\u00f5es de tipo existencial: por exemplo, ao caso de uma pessoa que, aparentemente tendo todo o necess\u00e1rio para viver, por diversas raz\u00f5es tem dificuldade de viver em paz, com alegria e esperan\u00e7a. Em outras situa\u00e7\u00f5es, \u00e9 a presen\u00e7a de doen\u00e7as graves, de contextos familiares violentos, de certas depend\u00eancias patol\u00f3gicas e de outras dificuldades que levam a experimentar a pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o de vida como \u201cindigna\u201d diante da percep\u00e7\u00e3o da dignidade ontol\u00f3gica que jamais pode ser obscurecida. As distin\u00e7\u00f5es aqui introduzidas, em todo caso, somente recordam o valor daquela dignidade ontol\u00f3gica enraizada no pr\u00f3prio ser da pessoa humana e que subsiste para al\u00e9m de qualquer circunst\u00e2ncia.<\/p>\n<p>9. \u00c9 \u00fatil, enfim, recordar que a defini\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica da pessoa como \u00absubst\u00e2ncia individual de natureza racional\u00bb<sup>[16]<\/sup>\u00a0explicita o fundamento da sua dignidade. De fato, enquanto \u201csubst\u00e2ncia individual\u201d, a pessoa possui dignidade ontol\u00f3gica (isto \u00e9, no n\u00edvel metaf\u00edsico do pr\u00f3prio ser): ela \u00e9 um sujeito que, recebendo de Deus a exist\u00eancia, \u201csubsiste\u201d, vale dizer exercita a exist\u00eancia de modo aut\u00f4nomo. A palavra \u201cracional\u201d compreende todas as capacidades do ser humano, seja a de conhecer e entender, seja a de querer, amar, escolher, desejar. O termo \u201cracional\u201d compreende tamb\u00e9m todas as capacidades corp\u00f3reas intimamente relacionadas \u00e0quelas j\u00e1 mencionadas. A express\u00e3o \u201cnatureza\u201d indica as condi\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias do ser humano que tornam poss\u00edveis as v\u00e1rias opera\u00e7\u00f5es e experi\u00eancias que o caracterizam: a natureza \u00e9 o \u201cprinc\u00edpio do agir\u201d. O ser humano n\u00e3o cria a sua natureza, mas a possui como um dom recebido, podendo cultivar, desenvolver e enriquecer as pr\u00f3prias capacidades. Exercendo a liberdade para cultivar as riquezas da sua natureza, a pessoa humana se constr\u00f3i no tempo. Mesmo se, por causa dos v\u00e1rios limites ou condi\u00e7\u00f5es, n\u00e3o \u00e9 capaz de atuar tais capacidades, a pessoa subsiste sempre como \u201csubst\u00e2ncia individual\u201d, com toda a sua dignidade. Isto se verifica, por exemplo, em uma crian\u00e7a ainda n\u00e3o nascida, em uma pessoa em estado de inconsci\u00eancia, em um idoso em agonia.<\/p>\n<p><strong>1. Uma progressiva consci\u00eancia sobre o car\u00e1ter central da dignidade humana<\/strong><\/p>\n<p>10. J\u00e1 na antiguidade cl\u00e1ssica<sup>[17]<\/sup>\u00a0se manifesta uma primeira intui\u00e7\u00e3o acerca da dignidade humana, que procede de uma perspectiva social: cada ser humano \u00e9 revestido de uma dignidade particular, segundo o seu grau e ao interno de uma determinada ordem. Do \u00e2mbito social, a palavra passou a descrever a diferente dignidade dos seres presentes no cosmos. Nesta vis\u00e3o, todos os seres possuem uma \u201cdignidade\u201d pr\u00f3pria, segundo a sua coloca\u00e7\u00e3o na harmonia do todo. Certamente, alguns expoentes do pensamento antigo come\u00e7am a reconhecer um lugar singular ao ser humano, enquanto dotado de raz\u00e3o e, por isso mesmo, capaz de assumir responsabilidade quanto a si mesmo e aos outros seres no mundo,<sup>[18]<\/sup>\u00a0mas estamos ainda longe de um pensamento capaz de fundar o respeito pela dignidade de cada pessoa humana, para al\u00e9m de toda circunst\u00e2ncia.<\/p>\n<p><em>Perspectivas b\u00edblicas<\/em><\/p>\n<p>11. A Revela\u00e7\u00e3o b\u00edblica ensina que todos os seres humanos possuem dignidade intr\u00ednseca porque s\u00e3o criados \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus: \u00abDeus disse: \u201cfa\u00e7amos o homem \u00e0 nossa imagem, segundo a nossa semelhan\u00e7a\u201d [&#8230;]. E Deus criou o ser humano \u00e0 sua imagem, \u00e0 imagem de Deus o criou, homem e mulher os criou\u00bb (<em>Gn<\/em>\u00a01, 26-27). A humanidade tem uma qualidade espec\u00edfica que a torna irredut\u00edvel \u00e0 pura materialidade. A \u201cimagem\u201d n\u00e3o define a alma ou as capacidades intelectivas, mas a dignidade do homem e da mulher. Ambos, na m\u00fatua rela\u00e7\u00e3o de igualdade e amor rec\u00edproco, cumprem a fun\u00e7\u00e3o de representar Deus no mundo e s\u00e3o chamados a cuidar do mundo e cultiv\u00e1-lo. Sermos criados \u00e0 imagem de Deus significa, portanto, possuir em n\u00f3s um valor sagrado que transcende toda distin\u00e7\u00e3o sexual, social, pol\u00edtica, cultural e religiosa. A nossa dignidade \u00e9-nos conferida, n\u00e3o \u00e9 nem pretendida e nem merecida. Todo ser humano \u00e9 por si mesmo amado e querido por Deus e, por isso, \u00e9 inviol\u00e1vel na sua dignidade. No\u00a0<em>\u00caxodo<\/em>, cora\u00e7\u00e3o do Antigo Testamento, Deus se mostra como Aquele que escuta o grito do pobre, v\u00ea a mis\u00e9ria do seu povo, cuida dos \u00faltimos e dos oprimidos (cf.\u00a0<em>Ex\u00a0<\/em>3, 7; 22, 20-26). O mesmo ensinamento se encontra no C\u00f3digo Deuteron\u00f4mico (cf.\u00a0<em>Dt<\/em>\u00a012-26): aqui o ensinamento sobre os direitos transforma-se em \u201cmanifesto\u201d da dignidade humana, particularmente em favor da tr\u00edplice categoria do \u00f3rf\u00e3o, da vi\u00fava e do estrangeiro (cf.\u00a0<em>Dt<\/em>\u00a024, 17). Os antigos preceitos do\u00a0<em>\u00caxodo<\/em>\u00a0s\u00e3o retomados e e atualizados pela prega\u00e7\u00e3o dos profetas, os quais representam a consci\u00eancia cr\u00edtica de Israel. Os profetas Am\u00f3s, Oseias, Isa\u00edas, Miqueias e Jeremias t\u00eam inteiros cap\u00edtulos de den\u00fancia da injusti\u00e7a. Am\u00f3s repreende duramente a opress\u00e3o do pobre, o fato de n\u00e3o se reconhecer ao m\u00edsero nenhuma fundamental dignidade humana (cf.\u00a0<em>Am<\/em>\u00a02, 6-7; 4, 1; 5, 11-12). Isa\u00edas pronuncia uma maldi\u00e7\u00e3o contra aqueles que espezinham os direitos dos pobres, negando a eles qualquer justi\u00e7a: \u00abai daqueles que fazem decretos in\u00edquos e escrevem \u00e0s pressas senten\u00e7as opressivas, para negar a justi\u00e7a aos m\u00edseros\u00bb (<em>Is<\/em>\u00a010, 1-2). Este ensinamento prof\u00e9tico \u00e9 retomado na literatura sapiencial. O\u00a0<em>Eclesi\u00e1stico<\/em>\u00a0equipara a opress\u00e3o dos pobres ao homic\u00eddio: \u00abmata o pr\u00f3ximo quem lhe priva do nutrimento, derrama sangue quem nega o sal\u00e1rio ao oper\u00e1rio\u00bb (<em>Eclo<\/em>\u00a034, 22). Nos\u00a0<em>Salmos<\/em>, a rela\u00e7\u00e3o religiosa com Deus passa atrav\u00e9s da defesa do fraco e do necessitado: \u00abdefendei o fraco e o \u00f3rf\u00e3o, ao pobre e ao m\u00edsero fazei justi\u00e7a! Salvai o fraco e indigente, livrai-o da m\u00e3o dos malvados!\u00bb (<em>Sl<\/em>\u00a082, 3-4).<\/p>\n<p>12. Jesus nasce e cresce em condi\u00e7\u00f5es humildes e revela a dignidade dos necessitados e dos trabalhadores<sup>[19]<\/sup>. No decurso do seu minist\u00e9rio, Jesus afirma o valor e a dignidade de todos aqueles que trazem em si a imagem de Deus, independentemente da sua condi\u00e7\u00e3o social e das circunst\u00e2ncias externas. Jesus abateu as barreiras culturais e cultuais, dando novamente dignidade \u00e0s categorias dos \u201cdescartados\u201d ou \u00e0quelas consideradas \u00e0s margens da sociedade: os cobradores de impostos (cf.\u00a0<em>Mt<\/em>\u00a09, 10-11), as mulheres (cf.\u00a0<em>Jo<\/em>\u00a04, 1-42), as crian\u00e7as (cf.\u00a0<em>Mc<\/em>\u00a010, 14-15), os leprosos (cf.\u00a0<em>Mt<\/em>\u00a08, 2-3), os doentes (cf.\u00a0<em>Mc<\/em>\u00a01, 29-34), os estrangeiros (cf.\u00a0<em>Mt\u00a0<\/em>25, 35), as vi\u00favas (cf.\u00a0<em>Lc<\/em>\u00a07, 11-15). Ele cura, alimenta, defende, livra, salva. Ele \u00e9 descrito como um pastor sol\u00edcito, at\u00e9 pela \u00fanica ovelha perdida (cf.\u00a0<em>Mt\u00a0<\/em>18, 12-14). Ele mesmo se identifica com os seus irm\u00e3os mais pequeninos: \u00abaquilo que fizestes ao menor dos meus, a mim o fizestes\u00bb (<em>Mt\u00a0<\/em>25, 40). Na linguagem b\u00edblica, os \u201cpequenos\u201d n\u00e3o s\u00e3o somente as crian\u00e7as, mas tamb\u00e9m os disc\u00edpulos indefesos, os mais insignificantes, os rejeitados, os oprimidos, os descartados, os pobres, os marginalizados, os ignorantes, os doentes, os que s\u00e3o desqualificados pelos grupos dominantes. O Cristo glorioso julgar\u00e1 em base ao amor para com o pr\u00f3ximo, que consiste em ter assistido o faminto, o sedento, o estrangeiro, o nu, o doente, o encarcerado, com os quais Ele mesmo se identifica (cf.\u00a0<em>Mt<\/em>\u00a025, 34-36). Para Jesus, o bem que for feito a cada ser humano, independentemente dos la\u00e7os de sangue e de religi\u00e3o, \u00e9 o \u00fanico crit\u00e9rio de ju\u00edzo. O ap\u00f3stolo Paulo afirma que cada crist\u00e3o deve comportar-se segundo as exig\u00eancias da dignidade e do respeito aos direitos de todos os seres humanos (cf.\u00a0<em>Rm<\/em>\u00a013, 8-10), segundo o mandamento novo da caridade (cf.\u00a0<em>1Cor\u00a0<\/em>13, 1-13).<\/p>\n<p><em>Desenvolvimentos do pensamento crist\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>13. O prosseguimento do pensamento crist\u00e3o estimulou e acompanhou os progressos da reflex\u00e3o humana sobre o tema da dignidade. A antropologia crist\u00e3 cl\u00e1ssica, baseada sobre a grande tradi\u00e7\u00e3o dos Padres da Igreja, colocou em relevo a doutrina do ser humano criado \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus e o seu papel singular na cria\u00e7\u00e3o.<sup>[20]<\/sup>\u00a0O pensamento crist\u00e3o medieval, avaliando criticamente a heran\u00e7a do pensamento filos\u00f3fico antigo, chegou a uma s\u00edntese da no\u00e7\u00e3o de pessoa, reconhecendo o fundamento metaf\u00edsico da sua dignidade, como atestam as seguintes palavras de Santo Tom\u00e1s de Aquino: \u00abpessoa significa o que de mais nobre existe em todo o universo, isto \u00e9, o subsistente de natureza racional\u00bb.<sup>[21]<\/sup>\u00a0Tal dignidade ontol\u00f3gica, na sua manifesta\u00e7\u00e3o privilegiada atrav\u00e9s do livre agir humano, foi posteriormente ressaltada sobretudo pelo humanismo crist\u00e3o do Renascimento.<sup>[22]<\/sup>\u00a0Tamb\u00e9m na vis\u00e3o de pensadores modernos, como Descartes e Kant, n\u00e3o obstante colocassem em discuss\u00e3o alguns fundamentos da antropologia crist\u00e3 tradicional, podem-se encontrar tamb\u00e9m fortes ecos da Revela\u00e7\u00e3o. Sobre a base de algumas reflex\u00f5es filos\u00f3ficas mais recentes sobre o estatuto da subjetividade teor\u00e9tica e pr\u00e1tica, a reflex\u00e3o crist\u00e3 chegou a sublinhar ainda mais a grandeza do conceito de dignidade, alcan\u00e7ando uma perspectiva original, como por exemplo o personalismo no s\u00e9culo XX. Tal perspectiva n\u00e3o s\u00f3 retoma a quest\u00e3o da subjetividade, mas a aprofunda na dire\u00e7\u00e3o da intersubjetividade e das rela\u00e7\u00f5es que ligam entre si as pessoas humanas.<sup>[23]<\/sup>\u00a0A proposta antropol\u00f3gica crist\u00e3 contempor\u00e2nea igualmente se enriqueceu com o pensamento proveniente desta \u00faltima vis\u00e3o.<sup>[24]<\/sup><\/p>\n<p><em>Tempos atuais<\/em><\/p>\n<p>14. Nos nossos dias, o termo \u201cdignidade\u201d \u00e9 utilizado prevalentemente para sublinhar o car\u00e1ter \u00fanico da pessoa humana, incomensur\u00e1vel em rela\u00e7\u00e3o aos outros seres do universo. Neste horizonte, compreende-se o modo em que \u00e9 usado o termo dignidade na\u00a0<em>Declara\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0das Na\u00e7\u00f5es Unidas de 1948, em que se trata \u00abda dignidade inerente a todos os membros da fam\u00edlia humana e dos seus direitos, iguais e inalien\u00e1veis\u00bb. Somente este car\u00e1ter inalien\u00e1vel da dignidade humana permite que se fale de direitos do homem.<sup>[25]<\/sup><\/p>\n<p>15. Para esclarecer melhor o conceito de dignidade, \u00e9 importante assinalar que ela n\u00e3o \u00e9 concedida \u00e0 pessoa por outros seres humanos, a partir de seus talentos e qualidades, de modo que poderia ser eventualmente retirada. Se a dignidade fosse concedida \u00e0 pessoa por outros seres humanos, ent\u00e3o ela se daria de modo condicionado e alien\u00e1vel e o pr\u00f3prio significado de dignidade (ainda que merecedor de grande respeito) permaneceria exposto ao risco de ser abolido. Na verdade, a dignidade \u00e9 intr\u00ednseca \u00e0 pessoa, n\u00e3o conferida\u00a0<em>a posteriori<\/em>, pr\u00e9via a qualquer reconhecimento, n\u00e3o podendo ser perdida. Em consequ\u00eancia, todos os seres humanos possuem a mesma e intr\u00ednseca dignidade, independentemente do fato que sejam ou n\u00e3o capazes de exprimi-la adequadamente.<\/p>\n<p>16. Por isso, o Conc\u00edlio Vaticano II fala da \u00abeminente dignidade da pessoa humana, superior a todas as coisas e cujos direitos e deveres s\u00e3o universais e inviol\u00e1veis\u00bb.<sup>[26]<\/sup>\u00a0Como recorda o\u00a0<em>incipit<\/em>\u00a0da Declara\u00e7\u00e3o conciliar\u00a0<em>Dignitatis humanae<\/em>, \u00abos seres humanos tornam-se sempre mais conscientes da pr\u00f3pria dignidade como pessoa e cresce o n\u00famero daqueles que exigem poder agir por pr\u00f3pria iniciativa, exercendo sua liberdade respons\u00e1vel, movidos pela consci\u00eancia do dever e n\u00e3o obrigados por medidas coercitivas\u00bb.<sup>[27]<\/sup>\u00a0Tal liberdade de pensamento e de consci\u00eancia, seja individual ou comunit\u00e1ria, \u00e9 baseada sobre o reconhecimento da dignidade humana \u00abcomo foi-lhes dada a conhecer pela Palavra de Deus revelada e pela pr\u00f3pria raz\u00e3o\u00bb.<sup>[28]<\/sup>\u00a0O mesmo Magist\u00e9rio eclesial amadureceu, com sempre maior perfei\u00e7\u00e3o, o significado de tal dignidade, junto com as exig\u00eancias e as implica\u00e7\u00f5es a ele conexas, chegando \u00e0 tomada de consci\u00eancia de que a dignidade de cada ser humano \u00e9 tal para al\u00e9m de toda circunst\u00e2ncia.<\/p>\n<p><strong>2. A Igreja anuncia, promove e garante a dignidade humana<\/strong><\/p>\n<p>17. A Igreja proclama a igual dignidade de todos os seres humanos, independentemente da sua condi\u00e7\u00e3o de vida ou das suas qualidades. Este an\u00fancio se apoia sobre uma tr\u00edplice convic\u00e7\u00e3o que, \u00e0 luz da f\u00e9 crist\u00e3, confere \u00e0 dignidade humana um valor incomensur\u00e1vel e refor\u00e7a as suas intr\u00ednsecas exig\u00eancias.<\/p>\n<p><em>Uma indel\u00e9vel imagem de Deus<\/em><\/p>\n<p>18. Em primeiro lugar, segundo a Revela\u00e7\u00e3o, a dignidade do ser humano prov\u00e9m do amor do seu Criador, que imprimiu nele os tra\u00e7os indel\u00e9veis da sua imagem (cf.\u00a0<em>Gn<\/em>\u00a01, 26), chamando-o a conhec\u00ea-lo, am\u00e1-lo e viver uma rela\u00e7\u00e3o de alian\u00e7a consigo, bem como na fraternidade, na justi\u00e7a e na paz com todos os outros homens e mulheres. Nesta vis\u00e3o, a dignidade se refere n\u00e3o s\u00f3 \u00e0 alma, mas \u00e0 pessoa como unidade incind\u00edvel, e assim \u00e9 inerente tamb\u00e9m ao corpo, o qual participa a seu modo do ser imagem de Deus da pessoa humana e \u00e9 chamado igualmente a participar da gl\u00f3ria da alma na beatitude divina.<\/p>\n<p><em>Cristo eleva a dignidade do homem<\/em><\/p>\n<p>19. Uma segunda convic\u00e7\u00e3o procede do fato que a dignidade da pessoa humana foi revelada plenamente quando o Pai enviou seu Filho, que assumiu a exist\u00eancia humana por inteiro: \u00abo Filho de Deus, no mist\u00e9rio da encarna\u00e7\u00e3o, confirmou a dignidade do corpo e da alma, que constituem o ser humano\u00bb.\u00a0<sup>[29]<\/sup>\u00a0Assim, unindo-se de certo modo a cada ser humano atrav\u00e9s da sua encarna\u00e7\u00e3o, Jesus Cristo confirmou que o homem possui uma dignidade inestim\u00e1vel, pelo simples fato de pertencer \u00e0 mesma comunidade humana e que esta dignidade n\u00e3o pode ser perdida jamais.<sup>[30]<\/sup>\u00a0Proclamando que o Reino de Deus pertence aos pobres, aos humildes, \u00e0queles que s\u00e3o desprezados, que sofrem no corpo e no esp\u00edrito; curando todo tipo de doen\u00e7a e de enfermidade, mesmo as mais dram\u00e1ticas como a lepra; afirmando que aquilo que \u00e9 feito a essas pessoas \u00e9 fato a ele, porque ele est\u00e1 presente nessas pessoas, Jesus trouxe a grande novidade do reconhecimento da dignidade de cada pessoa, como tamb\u00e9m e sobretudo daquelas qualificadas como \u201cindignas\u201d. Este princ\u00edpio novo na hist\u00f3ria, pelo qual o ser humano \u00e9 tanto mais \u201cdigno\u201d de respeito e de amor quanto mais \u00e9 fraco, m\u00edsero e sofredor, at\u00e9 o ponto de perder a pr\u00f3pria \u201cfigura\u201d humana, mudou o rosto do mundo, dando vida a institui\u00e7\u00f5es que se dedicam a cuidar daqueles que se encontram em condi\u00e7\u00f5es desfavor\u00e1veis: os rec\u00e9m-nascidos abandonados, os \u00f3rf\u00e3os, os idosos deixados sozinhos, os doentes mentais, os portadores de doen\u00e7as incur\u00e1veis ou com graves malforma\u00e7\u00f5es, os sem-teto.<\/p>\n<p><em>Uma voca\u00e7\u00e3o \u00e0 plena dignidade<\/em><\/p>\n<p>20. A terceira convic\u00e7\u00e3o diz respeito ao destino final do ser humano: depois da cria\u00e7\u00e3o e da encarna\u00e7\u00e3o, a ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo nos revela um aspecto ulterior da dignidade humana. De fato, \u00abo aspecto mais sublime da dignidade do homem consiste na sua voca\u00e7\u00e3o \u00e0 comunh\u00e3o com Deus\u00bb,<sup>[31]<\/sup>\u00a0destinada a durar para sempre. Desse modo, \u00aba dignidade [da vida humana] n\u00e3o \u00e9 ligada s\u00f3 \u00e0s suas origens, ao seu proceder de Deus, mas tamb\u00e9m ao seu fim, ao seu destino de comunh\u00e3o com Deus, conhecendo-o e amando-o. \u00c9 \u00e0 luz desta verdade que Santo Irineu d\u00e1 precis\u00e3o e arremata a sua exalta\u00e7\u00e3o do homem: \u201cgl\u00f3ria de Deus\u201d \u00e9 sim o \u201co homem que vive\u201d, mas \u201ca vida do homem consiste na vis\u00e3o de Deus\u201d\u00bb.<sup>[32]<\/sup><\/p>\n<p>21. Em consequ\u00eancia, a Igreja cr\u00ea e afirma que todos os seres humanos, criados \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus e recriados<sup>[33]<\/sup>\u00a0no Filho feito homem, crucificado e ressuscitado, s\u00e3o chamados a crescer sob a a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo para refletir a gl\u00f3ria do Pai, naquela mesma imagem, participando da vida eterna (cf.\u00a0<em>Jo<\/em>\u00a010, 15-16.17, 22-24;\u00a0<em>2Cor<\/em>\u00a03, 18;\u00a0<em>Ef<\/em>\u00a01, 3-14). De fato, \u00aba Revela\u00e7\u00e3o [&#8230;] faz conhecer a dignidade da pessoa humana em toda a sua amplitude\u00bb.<sup>[34]<\/sup><\/p>\n<p><em>Um empenho pela pr\u00f3pria liberdade<\/em><\/p>\n<p>22. Ainda que cada ser humano possua uma inalien\u00e1vel e intr\u00ednseca dignidade desde o in\u00edcio da sua exist\u00eancia como dom irrevog\u00e1vel, depende da sua decis\u00e3o livre e respons\u00e1vel exprimi-la e manifest\u00e1-la plenamente ou sen\u00e3o ofusc\u00e1-la. Alguns Padres da Igreja \u2013 como S. Irineu e S. Jo\u00e3o Damasceno \u2013 estabeleceram uma distin\u00e7\u00e3o entre a imagem e a semelhan\u00e7a de que fala\u00a0<em>G\u00eanesis<\/em>, permitindo assim um olhar din\u00e2mico sobre a mesma dignidade humana: a imagem de Deus \u00e9 confiada \u00e0 liberdade do ser humano para que, sob a guia e a a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito, cres\u00e7a a sua semelhan\u00e7a com Deus e cada pessoa possa chegar \u00e0 sua mais alta dignidade.<sup>[35]<\/sup>\u00a0Toda pessoa \u00e9 chamada a manifestar em n\u00edvel existencial e moral o car\u00e1ter ontol\u00f3gico da sua dignidade, na medida em que com a pr\u00f3pria liberdade se orienta para o verdadeiro bem, em resposta ao amor de Deus. Desse modo, enquanto \u00e9 criada \u00e0 imagem de Deus, de uma parte, a pessoa humana jamais perde a sua dignidade e n\u00e3o deixa de ser\u00a0<em>chamada<\/em>\u00a0a acolher livremente o bem; de outra parte, enquanto a pessoa humana\u00a0<em>responde<\/em>\u00a0ao bem, a sua dignidade pode livremente, dinamicamente e progressivamente manifestar-se, crescer e amadurecer. Isto significa que o ser humano deve buscar viver \u00e0 altura da pr\u00f3pria dignidade. Compreende-se ent\u00e3o em que sentido o pecado possa ferir e ofuscar a dignidade humana, como ato contr\u00e1rio a ela, mas ao mesmo tempo isso n\u00e3o pode jamais cancelar o fato de o ser humano ter sido criado \u00e0 imagem de Deus. A f\u00e9 contribui de modo decisivo a ajudar a raz\u00e3o na sua percep\u00e7\u00e3o da dignidade humana, bem como para acolher, consolidar e precisar seus tra\u00e7os essenciais, como evidenciou Bento XVI: \u00absem o corretivo fornecido pela religi\u00e3o, tamb\u00e9m a raz\u00e3o pode sofrer distor\u00e7\u00f5es, como acontece quando ela \u00e9 manipulada pela ideologia ou aplicada em modo parcial, que n\u00e3o tem em conta plenamente a dignidade da pessoa humana. Foi este uso distorcido da raz\u00e3o, no fim das contas, que deu origem ao com\u00e9rcio dos escravos e ainda a muitos outros males sociais, n\u00e3o por \u00faltimo as ideologias totalit\u00e1rias do s\u00e9culo XX\u00bb.<sup>[36]<\/sup><\/p>\n<p><strong>3. A dignidade, fundamento dos direitos e dos deveres humanos<\/strong><\/p>\n<p>23. Como j\u00e1 recordado por Papa Francisco, \u00abna cultura moderna, a refer\u00eancia mais pr\u00f3xima ao princ\u00edpio da dignidade inalien\u00e1vel da pessoa \u00e9 a\u00a0<em>Declara\u00e7\u00e3o universal dos direitos do homem<\/em>, que S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II definiu \u201cpedra miliar colocada sobre o longo e dif\u00edcil caminho do g\u00eanero humano\u201d, e como \u201cuma das mais altas express\u00f5es da consci\u00eancia humana\u201d\u00bb.<sup>[37]<\/sup>\u00a0Para resistir \u00e0s tentativas de alterar ou cancelar o significado profundo daquela\u00a0<em>Declara\u00e7\u00e3o<\/em>, vale a pena recordar alguns princ\u00edpios essenciais que devem ser sempre honrados.<\/p>\n<p><em>Respeito incondicionado \u00e0 dignidade humana<\/em><\/p>\n<p>24. Em primeiro lugar, ainda que seja difundida uma sempre maior sensibilidade quanto ao tema da dignidade humana, ainda hoje se observam numerosos mal-entendidos sobre o conceito de dignidade, que distorcem o seu significado. Alguns prop\u00f5em que seria melhor usar a express\u00e3o \u201cdignidade pessoal\u201d (e direitos \u201cda pessoa\u201d) ao inv\u00e9s de \u201cdignidade humana\u201d (e direitos do homem), porque entendem como pessoa somente \u201cum ser que \u00e9 capaz de raciocinar\u201d. Em consequ\u00eancia, sustentam que a dignidade e os direitos se deduzem da capacidade de conhecimento e de liberdade, que nem todos os seres humanos possuem. Logo, n\u00e3o teria dignidade pessoal a crian\u00e7a ainda n\u00e3o-nascida, nem o idoso n\u00e3o autossuficiente, nem o portador de defici\u00eancia mental.<sup>[38]<\/sup>\u00a0A Igreja, ao contr\u00e1rio, insiste no fato que a dignidade de cada pessoa humana, porque \u00e9 intr\u00ednseca, permanece \u201cpara al\u00e9m de toda circunst\u00e2ncia\u201d e o seu reconhecimento n\u00e3o pode absolutamente depender do ju\u00edzo sobre a capacidade da pessoa de entender e de agir livremente. De outro modo, a dignidade n\u00e3o seria, como tal, inerente \u00e0 pessoa, independente dos seus condicionamentos e merecedora de um respeito incondicionado. Somente reconhecendo ao ser humano uma dignidade intr\u00ednseca, que n\u00e3o se perde jamais, \u00e9 poss\u00edvel garantir a tal qualidade um inviol\u00e1vel e seguro fundamento. Sem nenhuma refer\u00eancia ontol\u00f3gica, o reconhecimento da dignidade humana oscilaria \u00e0 merc\u00ea de diferentes e arbitr\u00e1rias avalia\u00e7\u00f5es. A \u00fanica condi\u00e7\u00e3o para que se possa falar de dignidade inerente \u00e0 pessoa \u00e9 a sua perten\u00e7a \u00e0 esp\u00e9cie humana, pelo que \u00abos direitos da pessoa s\u00e3o direitos do ser humano\u00bb.<sup>[39]<\/sup><\/p>\n<p><em>Uma refer\u00eancia objetiva para a liberdade humana<\/em><\/p>\n<p>25. Em segundo lugar, o conceito de dignidade humana foi \u00e0s vezes usado de modo abusivo tamb\u00e9m para justificar uma multiplica\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria de novos direitos, muitos dos quais em contraste com aqueles originalmente definidos e, n\u00e3o raro, postos em contraste com o direito fundamental \u00e0 vida<sup>[40]<\/sup>, como se fosse devido garantir a express\u00e3o e a realiza\u00e7\u00e3o de toda prefer\u00eancia individual ou desejo subjetivo. A dignidade se identificaria ent\u00e3o com uma liberdade isolada e individualista, que pretende impor como \u201cdireitos\u201d, garantidos e financiados pela coletividade, alguns desejos e algumas propens\u00f5es subjetivas. Mas a dignidade humana n\u00e3o pode ser baseada sobre\u00a0<em>standards<\/em>\u00a0meramente individuais, nem identificada somente com o bem-estar psicof\u00edsico do indiv\u00edduo. Ao inv\u00e9s disso, a defesa da dignidade do ser humano \u00e9 fundada sobre exig\u00eancias constitutivas da natureza humana, que n\u00e3o dependem nem do arb\u00edtrio individual, nem do reconhecimento social. Os deveres que brotam do reconhecimento da dignidade do outro e os correspondentes direitos que disso derivam t\u00eam, pois, um conte\u00fado concreto e objetivo, fundado sobre a natureza humana possu\u00edda em comum. Sem uma tal refer\u00eancia objetiva, o conceito de dignidade acabaria por se sujeitar aos mais diversos arb\u00edtrios, como tamb\u00e9m aos interesses de poder.<\/p>\n<p><em>Estrutura relacional da pessoa humana<\/em><\/p>\n<p>26. A dignidade humana, \u00e0 luz do car\u00e1ter\u00a0<em>relacional<\/em>\u00a0da pessoa, ajuda a superar a perspectiva redutiva de uma liberdade autorreferencial e individualista, que pretende criar os pr\u00f3prios valores prescindindo das normas objetivas do bem e da rela\u00e7\u00e3o com os outros seres viventes. Sempre mais frequentemente existe o risco de limitar a dignidade \u00e0 capacidade de decidir de modo discricional sobre si e sobre o pr\u00f3prio destino, independentemente daquele dos outros, sem ter presente a perten\u00e7a \u00e0 comunidade humana. Em tal compreens\u00e3o errada da liberdade, os deveres e os direitos n\u00e3o podem ser mutuamente reconhecidos, de modo que se cuide uns dos outros. Na verdade, como recorda S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II, a liberdade \u00e9 colocada \u00aba servi\u00e7o da pessoa e da sua realiza\u00e7\u00e3o mediante o dom de si e o acolhimento do outro; quando, por\u00e9m, \u00e9 absolutizada em chave individualista, a liberdade \u00e9 esvaziada do seu conte\u00fado origin\u00e1rio e \u00e9 contradita na sua pr\u00f3pria voca\u00e7\u00e3o e dignidade\u00bb.<sup>[41]<\/sup><\/p>\n<p>27. Desse modo, a dignidade do ser humano compreende tamb\u00e9m a capacidade, \u00ednsita na mesma natureza humana, de assumir obriga\u00e7\u00f5es para com os outros.<\/p>\n<p>28. A diferen\u00e7a entre o ser humano e o restante dos seres viventes, que se ressalta gra\u00e7as ao conceito de dignidade, n\u00e3o deve fazer esquecer a bondade dos outros seres criados, que existem n\u00e3o s\u00f3 em fun\u00e7\u00e3o do homem, mas tamb\u00e9m com um valor pr\u00f3prio e, portanto, como dons a ele confiados para que sejam cuidados e cultivados. Assim, enquanto se reserva ao ser humano o conceito de dignidade, deve-se afirmar ao mesmo tempo a bondade criatural do inteiro cosmos. Como sublinha Papa Francisco: \u00abDevido \u00e0 sua dignidade \u00fanica e por ser dotado de intelig\u00eancia, o ser humano \u00e9 chamado a respeitar a cria\u00e7\u00e3o com as suas leis internas [&#8230;]: \u201cCada criatura tem a sua pr\u00f3pria bondade e a sua pr\u00f3pria perfei\u00e7\u00e3o [&#8230;]. As v\u00e1rias criaturas, queridas no seu pr\u00f3prio ser, refletem, cada uma a seu modo, um raio da infinita sabedoria e bondade de Deus. Por isso o homem deve respeitar a bondade pr\u00f3pria de cada criatura, para evitar um uso desordenado das coisas\u201d\u00bb.<sup>[42]<\/sup>\u00a0Ainda mais, \u00abhoje somos obrigados a reconhecer que \u00e9 poss\u00edvel sustentar somente um \u201cantropocentrismo situado\u201d. Quer dizer, reconhecer que a vida humana \u00e9 incompreens\u00edvel e insustent\u00e1vel sem as outras criaturas\u00bb.<sup>[43]<\/sup>\u00a0Nesta perspectiva, \u00abn\u00e3o \u00e9 irrelevante para n\u00f3s que muitas esp\u00e9cies estejam desaparecendo e que a crise clim\u00e1tica esteja colocando em perigo a vida de tantos seres\u00bb.<sup>[44]<\/sup>\u00a0Pertence, de fato, \u00e0 dignidade do homem o cuidado com o ambiente, considerando em particular aquela ecologia humana que lhe preserva o pr\u00f3prio existir.<\/p>\n<p><em>Liberta\u00e7\u00e3o do ser humano de condicionamentos morais e sociais<\/em><\/p>\n<p>29. Estes pr\u00e9-requisitos basilares, ainda que necess\u00e1rios, n\u00e3o bastam para garantir um crescimento da pessoa que seja coerente com a sua dignidade. Mesmo se \u00abDeus criou o homem racional, conferindo-lhe a dignidade de uma pessoa dotada de iniciativa e do dom\u00ednio sobre seus atos\u00bb<sup>[45]<\/sup>\u00a0em vista do bem, o livre-arb\u00edtrio frequentemente prefere o mal ao bem. Por isso, a liberdade humana tem necessidade de ser, por sua vez, libertada. Na\u00a0<em>Carta aos G\u00e1latas<\/em>, afirmando que \u00abCristo nos libertou para que permanec\u00eassemos livres\u00bb (<em>Gal<\/em>\u00a05, 1), S\u00e3o Paulo recorda a tarefa pr\u00f3pria de cada crist\u00e3o, sobre cujos ombros pesa uma responsabilidade de liberta\u00e7\u00e3o extensiva ao mundo inteiro (cf.\u00a0<em>Rm<\/em>\u00a08, 19ss). Trata-se de uma liberta\u00e7\u00e3o que, a partir do cora\u00e7\u00e3o de cada pessoa, \u00e9 chamada a difundir-se e a manifestar a sua for\u00e7a humanizante em todas as rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>30. A liberdade \u00e9 um dom maravilhoso de Deus. Mesmo quando nos atrai com sua gra\u00e7a, Deus o faz de modo tal que jamais a nossa liberdade seja violada. Seria, portanto, um grave erro pensar que, longe de Deus e da sua ajuda, podemos ser mais livres e, em consequ\u00eancia, sentir-nos mais dignos. Desligada do seu Criador, a nossa liberdade n\u00e3o pode sen\u00e3o enfraquecer-se e ofuscar-se. O mesmo acontece se a liberdade se imagina como independente de qualquer refer\u00eancia que n\u00e3o seja si mesma e estima toda rela\u00e7\u00e3o com uma verdade precedente como se fosse uma amea\u00e7a. Consequentemente, tamb\u00e9m o respeito pela liberdade e pela dignidade dos outros ser\u00e1 deteriorado. Papa Bento XVI o explicou: \u00abuma vontade que se cr\u00ea radicalmente incapaz de buscar a verdade e o bem n\u00e3o tem raz\u00f5es objetivas nem motivos para agir, sen\u00e3o aqueles impostos pelos seus interesses moment\u00e2neos e contingentes, n\u00e3o tem uma \u201cidentidade\u201d a ser preservada e constru\u00edda atrav\u00e9s de escolhas verdadeiramente livres e conscientes. N\u00e3o pode, portanto, reclamar o respeito por parte das outras \u201cvontades\u201d, tamb\u00e9m elas desligadas do pr\u00f3prio ser mais profundo, que possam fazer valer outras \u201craz\u00f5es\u201d ou at\u00e9 mesmo nenhuma \u201craz\u00e3o\u201d. A ilus\u00e3o de encontrar no relativismo moral a chave para uma pac\u00edfica conviv\u00eancia \u00e9, de fato, a origem da divis\u00e3o e da nega\u00e7\u00e3o da dignidade dos seres humanos\u00bb.<sup>[46]<\/sup><\/p>\n<p>31. Al\u00e9m disso, n\u00e3o seria real\u00edstico afirmar uma liberdade abstrata, isenta de qualquer condicionamento, contexto ou limite. Ao inv\u00e9s, \u00abo reto exerc\u00edcio da liberdade pessoal exige precisas condi\u00e7\u00f5es de ordem econ\u00f4mica, social, jur\u00eddica, pol\u00edtica e cultural\u00bb<sup>[47]<\/sup>, que permanecem muitas vezes despercebidas. Neste sentido, podemos dizer que alguns t\u00eam maior \u201cliberdade\u201d que outros. Papa Francisco se deteve particularmente sobre este ponto: \u00abalguns nascem em fam\u00edlias de boas condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, recebem boa educa\u00e7\u00e3o, crescem bem nutridos ou possuem naturalmente capacidades not\u00e1veis. Estes seguramente n\u00e3o ter\u00e3o necessidade de um Estado ativo e requerer\u00e3o s\u00f3 liberdade. Mas, evidentemente, n\u00e3o vale a mesma regra para uma pessoa deficiente, para quem nasceu em uma casa pobre, para quem cresceu com uma educa\u00e7\u00e3o de baixa qualidade e com escassas possibilidades de cuidar como se deve das pr\u00f3prias doen\u00e7as. Se a sociedade se rege primariamente pelos crit\u00e9rios da liberdade de mercado e da efici\u00eancia, n\u00e3o haver\u00e1 lugar para estes e a fraternidade ser\u00e1 ao m\u00e1ximo uma express\u00e3o rom\u00e2ntica\u00bb.<sup>[48]<\/sup>\u00a0Torna-se, pois, indispens\u00e1vel compreender que \u00aba liberta\u00e7\u00e3o das injusti\u00e7as promove a liberdade e a dignidade humana\u00bb<sup>[49]<\/sup>\u00a0em todos os n\u00edveis das a\u00e7\u00f5es humanas. Para que seja poss\u00edvel uma aut\u00eantica liberdade, \u00abdevemos recolocar a dignidade humana ao centro e sobre esta pilastra sejam constru\u00eddas as estruturas sociais alternativas de que temos necessidade\u00bb.<sup>[50]<\/sup>\u00a0De modo an\u00e1logo, a liberdade \u00e9 frequentemente obscurecida por tantos condicionamentos psicol\u00f3gicos, hist\u00f3ricos, sociais, educativos, culturais. A liberdade real e hist\u00f3rica precisa sempre ser \u201clibertada\u201d. E deve-se ainda reafirmar o fundamental direito \u00e0 liberdade religiosa.<\/p>\n<p>32. Ao mesmo tempo, \u00e9 evidente que a hist\u00f3ria da humanidade mostra um progresso na compreens\u00e3o da dignidade e da liberdade das pessoas, n\u00e3o isento de sombras e perigos de involu\u00e7\u00e3o. Disso \u00e9 testemunha o fato que existe uma crescente aspira\u00e7\u00e3o \u2013 tamb\u00e9m sob a influ\u00eancia crist\u00e3, que continua a ser fermento, mesmo em sociedades sempre mais secularizadas \u2013 a erradicar o racismo, a escravid\u00e3o, a marginaliza\u00e7\u00e3o das mulheres, crian\u00e7as, doentes e pessoas deficientes. Mas este \u00e1rduo caminho est\u00e1 longe de ser conclu\u00eddo.<\/p>\n<p><strong>4. Algumas graves viola\u00e7\u00f5es da dignidade humana<\/strong><\/p>\n<p>33. \u00c0 luz das reflex\u00f5es aqui feitas acerca do car\u00e1ter central da dignidade humana, esta \u00faltima se\u00e7\u00e3o da\u00a0<em>Declara\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0enfrenta algumas concretas e graves viola\u00e7\u00f5es da mesma. Isto \u00e9 feito no esp\u00edrito pr\u00f3prio do magist\u00e9rio da Igreja, que encontrou plena express\u00e3o no ensinamento dos \u00faltimos Pont\u00edfices, como j\u00e1 recordado. Papa Francisco, por exemplo, de uma parte n\u00e3o se cansa de recordar o respeito \u00e0 dignidade humana: \u00abtodo ser humano tem direito a viver com dignidade e a desenvolver-se integralmente e nenhum pa\u00eds pode negar tal direito fundamental. Cada um o possui, mesmo se \u00e9 pouco eficiente, mesmo se nasceu ou cresceu com limita\u00e7\u00f5es; de fato, isso n\u00e3o diminui a sua imensa dignidade como pessoa humana, que n\u00e3o se funda sobre as circunst\u00e2ncias, mas sobre o valor do seu ser. Quando este princ\u00edpio elementar n\u00e3o \u00e9 salvaguardado, n\u00e3o existe futuro nem para a fraternidade, nem para a sobreviv\u00eancia da humanidade\u00bb.<sup>[51]<\/sup>\u00a0De outra parte, o Papa n\u00e3o cessa de indicar a todos as concretas viola\u00e7\u00f5es da dignidade humana no nosso tempo, chamando cada um a redespertar a responsabilidade e o empenho concreto.<\/p>\n<p>34. Querendo indicar algumas das numerosas e graves viola\u00e7\u00f5es da dignidade humana no mundo contempor\u00e2neo, podemos recordar o ensinamento do Conc\u00edlio Vaticano II. \u00c9 preciso reconhecer que se op\u00f5e \u00e0 dignidade humana \u00abtudo aquilo que \u00e9 contr\u00e1rio \u00e0 vida mesma, como toda esp\u00e9cie de homic\u00eddio, o genoc\u00eddio, o aborto, a eutan\u00e1sia e o suic\u00eddio volunt\u00e1rio\u00bb.<sup>[52]<\/sup>\u00a0Atenta ainda contra a nossa dignidade \u00abtudo aquilo que viola a integridade da pessoa humana, como as mutila\u00e7\u00f5es, as torturas infligidas ao corpo e \u00e0 mente, as constri\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas\u00bb.<sup>[53]<\/sup>\u00a0Enfim, \u00abtudo aquilo que ofende a dignidade humana, como as condi\u00e7\u00f5es de vida sub-humana, os encarceramentos arbitr\u00e1rios, as deporta\u00e7\u00f5es, a escravid\u00e3o, a prostitui\u00e7\u00e3o, o com\u00e9rcio de mulheres e de jovens, ou ainda as ignominiosas condi\u00e7\u00f5es de trabalho com as quais os trabalhadores s\u00e3o tratados como simples instrumentos de lucro e n\u00e3o como pessoas livres e respons\u00e1veis\u00bb.<sup>[54]<\/sup>\u00a0\u00c9 necess\u00e1rio mencionar aqui o tema da pena de morte<sup>[55]<\/sup>, que tamb\u00e9m viola a dignidade inalien\u00e1vel de toda pessoa humana para al\u00e9m de toda circunst\u00e2ncia. Deve-se, ao contr\u00e1rio, reconhecer que \u00aba decidida rejei\u00e7\u00e3o da pena de morte mostra at\u00e9 que ponto \u00e9 poss\u00edvel reconhecer a inalien\u00e1vel dignidade de cada ser humano e admitir que tenha um lugar neste mundo, j\u00e1 que se n\u00e3o o nego ao pior dos criminosos, n\u00e3o o negarei a ningu\u00e9m, darei a todos a possibilidade de partilhar comigo este planeta, malgrado o que nos possa separar\u00bb.<sup>[56]<\/sup>\u00a0Parece oportuno tamb\u00e9m reafirmar a dignidade das pessoas que se encontram encarceradas, muitas vezes obrigadas a viver em condi\u00e7\u00f5es indignas, como tamb\u00e9m que a pr\u00e1tica da tortura afronta, para al\u00e9m de todo limite, a dignidade pr\u00f3pria de cada ser humano, mesmo no caso de algu\u00e9m culpado de graves crimes.<\/p>\n<p>35. Mesmo sem ter a pretens\u00e3o de exaustividade, naquilo que segue chamamos novamente a aten\u00e7\u00e3o sobre algumas graves viola\u00e7\u00f5es da dignidade humana particularmente atuais.<\/p>\n<p><em>O drama da pobreza<\/em><\/p>\n<p>36. Um dos fen\u00f4menos que contribui consideravelmente para negar a dignidade de tantos seres humanos \u00e9 a pobreza extrema, ligada \u00e0 desigual distribui\u00e7\u00e3o da riqueza. Como j\u00e1 sublinhado por S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II, \u00abuma das maiores injusti\u00e7as do mundo contempor\u00e2neo consiste propriamente nisto: que s\u00e3o relativamente poucos aqueles que possuem muito e muitos aqueles que n\u00e3o possuem quase nada. \u00c9 a injusti\u00e7a da m\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o dos bens e dos servi\u00e7os destinados originariamente a todos\u00bb.<sup>[57]<\/sup>\u00a0Al\u00e9m disso, seria ilus\u00f3rio fazer uma distin\u00e7\u00e3o sum\u00e1ria entre \u201cpa\u00edses ricos\u201d e \u201cpa\u00edses pobres\u201d: j\u00e1 Bento XVI reconhecia que \u00abcresce a riqueza mundial em termos absolutos, mas aumentam as disparidades. Nos pa\u00edses ricos, novas categorias sociais se empobrecem e nascem novas pobrezas. Em \u00e1reas mais pobres, alguns grupos t\u00eam uma esp\u00e9cie de super-desenvolvimento dissipador e consumista, que contrasta de modo inaceit\u00e1vel com perdurantes situa\u00e7\u00f5es de mis\u00e9ria desumanizante. Continua \u201co esc\u00e2ndalo de desigualdades clamorosas\u201d\u00bb,<sup>[58]<\/sup>\u00a0em que a dignidade dos pobres \u00e9 duplamente negada, seja pela falta de recursos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para satisfazer as suas necessidades prim\u00e1rias, seja pela indiferen\u00e7a com que s\u00e3o tratados por aqueles que vivem a seu lado.<\/p>\n<p>37. Com Papa Francisco deve-se, portanto, concluir que \u00abaumentou a riqueza, mas sem equidade, e assim o que acontece \u00e9 que \u201cnascem novas pobrezas\u201d. Quando se diz que o mundo moderno reduziu a pobreza, isso se faz medindo-a com crit\u00e9rios de outras \u00e9pocas n\u00e3o compar\u00e1veis com a realidade atual\u00bb.<sup>[59]<\/sup>\u00a0Em consequ\u00eancia, a pobreza se difunde \u00abde muitos modos, como na obsess\u00e3o por reduzir os custos do trabalho, sem dar-se conta das graves consequ\u00eancias que isso provoca, porque o desemprego que se produz tem como efeito direto o alargar-se dos confins da pobreza\u00bb.<sup>[60]<\/sup>\u00a0Entre esses \u00abefeitos destrutivos do imp\u00e9rio do dinheiro\u00bb,<sup>[61]<\/sup>\u00a0deve-se reconhecer que \u00abn\u00e3o existe pior pobreza do que aquela que priva do trabalho e da dignidade do trabalho\u00bb.<sup>[62]<\/sup>\u00a0Se alguns nasceram em um pa\u00eds ou em uma fam\u00edlia onde se tem menos possibilidade de desenvolvimento, \u00e9 necess\u00e1rio reconhecer que isto contrasta com a sua dignidade, que \u00e9 exatamente a mesma daqueles que nasceram em uma fam\u00edlia ou em um pa\u00eds rico. Todos somos respons\u00e1veis, ainda que em diversos graus, desta evidente iniquidade.<\/p>\n<p><em>A guerra<\/em><\/p>\n<p>38. Outra trag\u00e9dia que nega a dignidade humana \u00e9 o prolongar-se da guerra, hoje como em todos os tempos: \u00abguerras, atentados, persegui\u00e7\u00f5es por motivos raciais e religiosos e tantas opress\u00f5es contr\u00e1rias \u00e0 dignidade humana\u00a0<sup>[&#8230;]<\/sup>\u00a0v\u00e3o \u201cmultiplicando-se dolorosamente em muitas regi\u00f5es do mundo, de modo a assumir as fei\u00e7\u00f5es daquela que se poderia chamar uma \u2018terceira guerra mundial em peda\u00e7os\u2019\u201d\u00bb.<sup>[63]<\/sup>\u00a0Com o seu rastro de destrui\u00e7\u00e3o e dor, a guerra ataca a dignidade humana a curto e a longo prazo: \u00abainda que reafirmando o direito inalien\u00e1vel \u00e0 leg\u00edtima defesa, como tamb\u00e9m a responsabilidade de proteger aqueles cuja exist\u00eancia \u00e9 amea\u00e7ada, devemos admitir que a guerra \u00e9 sempre uma \u201cderrota da humanidade\u201d. Nenhuma guerra vale a as l\u00e1grimas de uma m\u00e3e que viu seu filho mutilado ou morto; nenhuma guerra vale a perda da vida, ainda que fosse de uma s\u00f3 pessoa humana, ser sagrado, criado \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a do Criador; nenhuma guerra vale o envenenamento da nossa casa comum; nenhuma guerra vale o desespero de quantos s\u00e3o obrigados a deixar a sua p\u00e1tria e s\u00e3o privados, de um momento a outro, da sua casa e de todos os v\u00ednculos familiares, de amizade, sociais e culturais que foram constru\u00eddos, \u00e0s vezes ao longo de gera\u00e7\u00f5es\u00bb.<sup>[64]<\/sup>\u00a0Todas as guerras, pelo simples fato de contradizer a dignidade humana, s\u00e3o \u00abconflitos que n\u00e3o resolver\u00e3o os problemas, mas os aumentar\u00e3o<em>\u00bb<\/em>.<sup>[65]<\/sup>\u00a0Isto resulta ainda mais grave no nosso tempo, quando se tornou normal que, fora do campo de batalha, morram tantos civis inocentes.<\/p>\n<p>39. Em consequ\u00eancia, tamb\u00e9m hoje a Igreja n\u00e3o pode sen\u00e3o fazer suas as palavras dos Pont\u00edfices, repetindo com S\u00e3o Paulo VI: \u00ab<em>jamais plus la guerre, jamais plus la guerre!<\/em>\u00bb<sup>[66]<\/sup>\u00a0e pedindo, junto com S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II, \u00aba todos, em nome de Deus e em nome do homem: N\u00e3o matai! N\u00e3o preparai aos homens destrui\u00e7\u00e3o e exterm\u00ednio! Pensai nos vossos irm\u00e3os que sofrem fome e mis\u00e9ria! Respeitai a dignidade e a liberdade de cada um!\u00bb.<sup>[67]<\/sup>\u00a0No nosso tempo propriamente, este \u00e9 o grito da Igreja e de toda a humanidade. Papa Francisco sublinha, enfim, que \u00abn\u00e3o podemos mais pensar na guerra como solu\u00e7\u00e3o. Diante desta realidade, hoje \u00e9 muito dif\u00edcil sustentar os crit\u00e9rios racionais maturados em outros s\u00e9culos para falar de uma poss\u00edvel \u201cguerra justa\u201d. Nunca mais a guerra!\u00bb.<sup>[68]<\/sup>\u00a0J\u00e1 que a humanidade recai frequentemente nos mesmos erros do passado, \u00abpara construir a paz \u00e9 necess\u00e1rio sair da l\u00f3gica da legitimidade da guerra\u00bb.<sup>[69]<\/sup>\u00a0A \u00edntima rela\u00e7\u00e3o que existe entre f\u00e9 e dignidade humana torna contradit\u00f3rio que a guerra seja fundada sobre convic\u00e7\u00f5es religiosas: \u00abAqueles que invocam o nome de Deus para justificar o terrorismo, a viol\u00eancia e a guerra n\u00e3o seguem o caminho de Deus: a guerra em nome da religi\u00e3o \u00e9 uma guerra contra a pr\u00f3pria religi\u00e3o\u00bb.<sup>[70]<\/sup><\/p>\n<p><em>O sofrimento dos migrantes<\/em><\/p>\n<p>40. Os migrantes est\u00e3o entre as primeiras v\u00edtimas das m\u00faltiplas formas de pobreza. N\u00e3o s\u00f3 a sua dignidade \u00e9 negada nos seus pa\u00edses,<sup>[71]<\/sup>\u00a0mas a sua pr\u00f3pria vida \u00e9 colocada em risco porque n\u00e3o t\u00eam mais os meios para formar uma fam\u00edlia, para trabalhar ou para nutrir-se.<sup>[72]<\/sup>\u00a0Uma vez que chegam em pa\u00edses que deveriam ser capazes de acolh\u00ea-los, \u00abn\u00e3o s\u00e3o considerados dignos o bastante para participar da vida social como qualquer outro, e se esquece que possuem a mesma intr\u00ednseca dignidade de toda pessoa [&#8230;] N\u00e3o se dir\u00e1 jamais que n\u00e3o s\u00e3o humanos, mas na pr\u00e1tica, com as decis\u00f5es e os modos de trat\u00e1-los, manifesta-se que s\u00e3o considerados de menor valor, menos importantes, menos humanos\u00bb.<sup>[73]<\/sup>\u00a0\u00c9, portanto, sempre urgente recordar que \u00abcada migrante \u00e9 uma pessoa humana que, enquanto tal, possui direitos fundamentais inalien\u00e1veis que devem ser respeitados por todos em todas as situa\u00e7\u00f5es\u00bb.<sup>[74]<\/sup>\u00a0O seu acolhimento \u00e9 um modo importante e significativo de defender \u00aba inalien\u00e1vel dignidade de toda pessoa humana para al\u00e9m da origem, da cor ou da religi\u00e3o\u00bb.<sup>[75]<\/sup><\/p>\n<p><em>O tr\u00e1fico de pessoas<\/em><\/p>\n<p>41. O tr\u00e1fico de pessoas humanas deve tamb\u00e9m ser contado como viola\u00e7\u00e3o grave da dignidade humana.<sup>[76]<\/sup>\u00a0N\u00e3o constitui uma novidade, mas o seu desenvolvimento assume dimens\u00f5es tr\u00e1gicas que est\u00e3o sob os olhos de todos, raz\u00e3o pela qual Papa Francisco a denunciou em termos particularmente fortes: \u00abreafirmo que o \u201ctr\u00e1fico de pessoas\u201d \u00e9 uma atividade indigna, uma vergonha para as nossas sociedades que se dizem civilizadas! Exploradores e clientes em todos os n\u00edveis deveriam fazer um s\u00e9rio exame de consci\u00eancia diante de si mesmos e diante de Deus! A Igreja renova hoje o seu forte apelo para que sejam sempre tuteladas a dignidade e a centralidade de cada pessoa, no respeito dos direitos fundamentais, como a sua Doutrina social evidencia, direitos que ela pede que sejam estendidos realmente l\u00e1 onde n\u00e3o s\u00e3o reconhecidos a milh\u00f5es de homens e mulheres em todos os continentes. Num mundo em que se fala tanto de direitos, parece estranho que o \u00fanico a os ter seja o dinheiro\u00bb.<sup>[77]<\/sup><\/p>\n<p>42. Por tais motivos, a Igreja e a humanidade n\u00e3o devem renunciar a lutar contra fen\u00f4menos como \u00abcom\u00e9rcio de \u00f3rg\u00e3os e tecidos humanos, explora\u00e7\u00e3o sexual de crian\u00e7as, trabalho escravizado, inclu\u00edda a prostitui\u00e7\u00e3o, tr\u00e1fico de drogas e de armas, terrorismo e crime internacional organizado. \u00c9 t\u00e3o grande a dimens\u00e3o dessas situa\u00e7\u00f5es e o n\u00famero de vidas inocentes envolvidas, que devemos evitar qualquer tenta\u00e7\u00e3o de cair em um nominalismo declamat\u00f3rio com efeito tranquilizante sobre as consci\u00eancias. Devemos cuidar para que as nossas institui\u00e7\u00f5es sejam realmente eficazes na luta contra todos esses flagelos\u00bb.<sup>[78]<\/sup>\u00a0Diante de formas t\u00e3o diversas e brutais de nega\u00e7\u00e3o da dignidade humana, \u00e9 necess\u00e1rio ser sempre mais conscientes que \u00abo tr\u00e1fico de pessoas \u00e9 um crime contra a humanidade\u00bb,<sup>[79]<\/sup>\u00a0que nega substancialmente a dignidade humana de dois modos pelo menos: \u00abo tr\u00e1fico [de pessoas] deturpa a humanidade da v\u00edtima, ofendendo a sua liberdade e dignidade, mas, ao mesmo tempo, desumaniza quem o pratica\u00bb.<sup>[80]<\/sup><\/p>\n<p><em>Abusos sexuais<\/em><\/p>\n<p>43. A profunda dignidade inerente ao ser humano na sua inteireza de alma e corpo permite tamb\u00e9m compreender por que todo abuso sexual deixa profundas cicatrizes no cora\u00e7\u00e3o daquele que o sofre: de fato, ele se reconhece ferido na sua dignidade humana. Trata-se de \u00absofrimentos que podem durar toda a vida e a que nenhum arrependimento pode remediar. Tal fen\u00f4meno \u00e9 difuso na sociedade, toca tamb\u00e9m a Igreja e representa um s\u00e9rio obst\u00e1culo \u00e0 sua miss\u00e3o\u00bb.<sup>[81]<\/sup>\u00a0Daqui brota o empenho que a Igreja n\u00e3o cessa de exercitar para colocar fim a todo tipo de abuso, iniciando do seu interior.<\/p>\n<p><em>As viol\u00eancias contra as mulheres<\/em><\/p>\n<p>44. As viol\u00eancias contra as mulheres s\u00e3o um esc\u00e2ndalo global, que \u00e9 sempre mais reconhecido. Se nas palavras se reconhece a igual dignidade da mulher, em alguns pa\u00edses as desigualdades entre mulheres e homens s\u00e3o grav\u00edssimas; tamb\u00e9m nos pa\u00edses mais desenvolvidos e democr\u00e1ticos a realidade social concreta testemunha o fato que frequentemente n\u00e3o se reconhece \u00e0s mulheres a mesma dignidade dos homens. Papa Francisco evidencia este fato quando afirma que \u00aba organiza\u00e7\u00e3o das sociedades em todo o mundo est\u00e1 ainda longe de refletir com clareza que as mulheres t\u00eam exatamente a mesma dignidade e os id\u00eanticos direitos dos homens. Com palavras se afirmam certas coisas, mas as decis\u00f5es e a realidade gritam outra mensagem. \u00c9 um fato que \u201cs\u00e3o duplamente pobres as mulheres que sofrem situa\u00e7\u00f5es de exclus\u00e3o, maus tratos e viol\u00eancia, porque muitas vezes se encontram com menores possibilidades de defender os seus direitos\u201d\u00bb.<sup>[82]<\/sup><\/p>\n<p>45. J\u00e1 S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II reconhecia que \u00abmuito ainda resta por fazer para que o ser mulher e m\u00e3e n\u00e3o comporte uma discrimina\u00e7\u00e3o. \u00c9 urgente obter em toda parte a efetiva igualdade dos direitos da pessoa e assim a paridade de sal\u00e1rio em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 paridade de trabalho, tutela da trabalhadora-m\u00e3e, justas progress\u00f5es na carreira, igualdade entre os c\u00f4njuges no direito de fam\u00edlia, o reconhecimento de tudo quanto \u00e9 ligado aos direitos e aos deveres do cidad\u00e3o em um regime democr\u00e1tico\u00bb.<sup>[83]<\/sup>\u00a0As desigualdades nestes aspectos s\u00e3o diversas formas de viol\u00eancia. E recordava tamb\u00e9m que \u00ab\u00e9 hora de condenar com vigor, dando vida a apropriados instrumentos legislativos de defesa, as formas de\u00a0<em>viol\u00eancia sexual<\/em>\u00a0que, n\u00e3o raro, t\u00eam por objeto as mulheres. Em nome do respeito \u00e0 pessoa, n\u00e3o podemos n\u00e3o denunciar a difusa cultura hedonista e mercantil que promove a sistem\u00e1tica explora\u00e7\u00e3o da sexualidade, induzindo inclusive jovens em tenra idade a cair nos circuitos da corrup\u00e7\u00e3o e a fazerem do seu corpo uma mercadoria\u00bb.<sup>[84]<\/sup>\u00a0Entre as formas de viol\u00eancia exercidas sobre as mulheres, como n\u00e3o citar a constri\u00e7\u00e3o ao aborto, que fere seja a m\u00e3e que o filho, t\u00e3o frequente para satisfazer o ego\u00edsmo dos homens? E como n\u00e3o citar tamb\u00e9m as pr\u00e1ticas da poligamia que \u2013 como recorda o\u00a0<em>Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica<\/em>\u00a0\u2013 \u00e9 contr\u00e1ria \u00e0 igual dignidade das mulheres e dos homens e \u00e9 ainda contr\u00e1ria \u00abao amor conjugal, que \u00e9 \u00fanico e exclusivo\u00bb?<sup>[85]<\/sup><\/p>\n<p>46. Neste horizonte de viol\u00eancia contra as mulheres, jamais se condenar\u00e1 o suficiente o fen\u00f4meno do feminic\u00eddio. Neste\u00a0<em>front<\/em>\u00a0o empenho da inteira comunidade internacional deve ser compacto e concreto, como reafirmou Papa Francisco: \u00abO amor por Maria nos deve ajudar a gerar atitudes de reconhecimento e gratid\u00e3o para com a mulher, para com nossas m\u00e3es e av\u00f3s, que s\u00e3o um baluarte na vida das nossas cidades. Quase sempre silenciosas, levam adiante a vida. \u00c9 o sil\u00eancio e a for\u00e7a da esperan\u00e7a. Obrigado pelo vosso testemunho!\u00a0<sup>[&#8230;]<\/sup>\u00a0mas olhando as m\u00e3es e as av\u00f3s, desejo convidar-vos a lutar contra uma chaga que fere o nosso continente americano: os numerosos casos de feminic\u00eddio. E s\u00e3o muitas as situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia mantidas em sil\u00eancio al\u00e9m de tantas paredes. Convido-vos a lutar contra esta fonte de sofrimento, pedindo que se promova uma legisla\u00e7\u00e3o e uma cultura de rep\u00fadio a toda forma de viol\u00eancia\u00bb.<sup>[86]<\/sup><\/p>\n<p><em>Aborto<\/em><\/p>\n<p>47. A Igreja n\u00e3o cessa de recordar que \u00aba dignidade de cada ser humano tem um car\u00e1ter intr\u00ednseco e vale desde o momento da sua concep\u00e7\u00e3o at\u00e9 a sua morte natural. A afirma\u00e7\u00e3o de uma tal dignidade \u00e9 o pressuposto irrenunci\u00e1vel para a tutela de uma exist\u00eancia pessoal e social, como tamb\u00e9m a condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para que a fraternidade e a amizade social possam realizar-se entre todos os povos da terra\u00bb.<sup>[87]<\/sup>\u00a0Sobre a base deste valor intoc\u00e1vel da vida humana, o magist\u00e9rio eclesial sempre se pronunciou contra o aborto. A prop\u00f3sito, escreve S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II: \u00abEntre todos os delitos que o homem pode cometer contra a vida, o aborto procurado apresenta caracter\u00edsticas que o tornam particularmente grave e deplor\u00e1vel. [&#8230;] Mas hoje, na consci\u00eancia de muitos, a percep\u00e7\u00e3o da sua gravidade foi-se progressivamente obscurecendo. A aceita\u00e7\u00e3o do aborto na mentalidade, no costume e na pr\u00f3pria lei \u00e9 sinal eloquente de uma perigos\u00edssima crise do senso moral, que se torna sempre mais incapaz de distinguir entre o bem e o mal, mesmo quando est\u00e1 em jogo o direito fundamental \u00e0 vida. Diante de uma t\u00e3o grave situa\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso mais que nunca ter a coragem de encarar a verdade e de\u00a0<em>chamar as coisas pelo seu nome<\/em>, sem ceder a compromissos de comodidade ou \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o do autoengano. A tal prop\u00f3sito, ressoa categ\u00f3rica a den\u00fancia do Profeta: \u201cAi daqueles que chamam de bem o mal e o mal de bem, que mudam as trevas em luz e a luz em trevas\u201d (<em>Is<\/em>\u00a05, 20). Propriamente no caso do aborto, registra-se a difus\u00e3o de uma terminologia amb\u00edgua, como aquela de \u201cinterrup\u00e7\u00e3o da gravidez\u201d, que tende a esconder sua verdadeira natureza e a atenuar sua gravidade na opini\u00e3o p\u00fablica. Talvez este pr\u00f3prio fen\u00f4meno lingu\u00edstico seja sintoma de um mal-estar das consci\u00eancias. Mas nenhuma palavra consegue mudar a realidade das coisas: o aborto\u00a0<em>procurado \u00e9 o assass\u00ednio deliberado e direto, seja qual for o modo de sua atua\u00e7\u00e3o, de um ser humano na fase inicial da sua exist\u00eancia, compreendida entre a concep\u00e7\u00e3o e o nascimento<\/em>\u00bb.<sup>[88]<\/sup>\u00a0As crian\u00e7as nascituras s\u00e3o assim \u00abos mais indefesos e inocentes de todos, aos quais hoje se quer negar a dignidade humana para poder fazer deles o que se quer, tirando deles a vida e promovendo legisla\u00e7\u00f5es de modo que ningu\u00e9m o possa impedir\u00bb.<sup>[89]<\/sup>\u00a0Deve-se, portanto, afirmar com toda for\u00e7a e clareza, tamb\u00e9m no nosso tempo, que \u00abesta defesa da vida nascente \u00e9 intimamente ligada \u00e0 defesa de qualquer direito humano. Sup\u00f5e a convic\u00e7\u00e3o de que um ser humano \u00e9 sempre sagrado e inviol\u00e1vel, em qualquer situa\u00e7\u00e3o e em toda fase de seu desenvolvimento. \u00c9 um fim em si mesmo e jamais um meio para resolver outras dificuldades. Se esta convic\u00e7\u00e3o cai, n\u00e3o restam s\u00f3lidos e permanentes fundamentos para a defesa dos direitos humanos, que seriam sempre sujeitos \u00e0s conveni\u00eancias contingentes dos poderosos de ocasi\u00e3o. A pura raz\u00e3o \u00e9 suficiente para reconhecer o valor inviol\u00e1vel de toda vida humana, mas se a contemplamos tamb\u00e9m a partir da f\u00e9, \u201ccada viola\u00e7\u00e3o da dignidade pessoal do ser humano grita por repara\u00e7\u00e3o diante da face de Deus e se configura como ofensa ao Criador do homem\u201d\u00bb.<sup>[90]<\/sup>\u00a0Merece aqui ser recordado o generoso e corajoso empenho de Santa Teresa de Calcut\u00e1 pela defesa de todo concebido.<\/p>\n<p><em>Maternidade sub-rogada<\/em><\/p>\n<p>48. Al\u00e9m disso, a Igreja toma posi\u00e7\u00e3o contra a pr\u00e1tica da maternidade sub-rogada, atrav\u00e9s da qual a crian\u00e7a, imensamente digna, torna-se mero objeto. A este prop\u00f3sito, as palavras de Papa Francisco s\u00e3o de uma clareza \u00fanica: \u00abo caminho da paz exige o respeito pela vida, de toda vida humana, a partir daquela do nascituro no ventre da m\u00e3e, que n\u00e3o pode ser suprimida, nem se tornar mercadoria. Quanto a isso, considero deplor\u00e1vel a pr\u00e1tica da assim chamada maternidade sub-rogada, que lesa gravemente a dignidade da mulher e do filho. Esta [pr\u00e1tica] se funda sobre a explora\u00e7\u00e3o de uma situa\u00e7\u00e3o de necessidade material da m\u00e3e. Uma crian\u00e7a \u00e9 sempre um dom e nunca objeto de um contrato. Fa\u00e7o votos, portanto, que haja um empenho da comunidade internacional para proibir em n\u00edvel universal tal pr\u00e1tica\u00bb.\u00a0<sup>[91]<\/sup><\/p>\n<p>49. A pr\u00e1tica da maternidade sub-rogada viola, antes de tudo, a dignidade da crian\u00e7a. Cada crian\u00e7a, desde a concep\u00e7\u00e3o, do nascimento e no seu crescimento como menino ou menina, tornando-se adulto, possui uma dignidade intoc\u00e1vel que se exprime claramente, ainda que de modo singular e diferenciado, em cada fase da sua vida. A crian\u00e7a tem pois o direito, em virtude da sua inalien\u00e1vel dignidade, de ter uma origem plenamente humana e n\u00e3o conduzida artificialmente, e de receber o dom de uma vida que manifeste, ao mesmo tempo, a dignidade de quem a doa e de quem a recebe. O reconhecimento da dignidade da pessoa humana comporta ainda aquele da dignidade da uni\u00e3o conjugal e da procria\u00e7\u00e3o humana em todas as suas dimens\u00f5es. Nesta dire\u00e7\u00e3o, o leg\u00edtimo desejo de ter um filho n\u00e3o pode ser transformado em um \u201cdireito ao filho\u201d que n\u00e3o respeita a dignidade deste mesmo filho, como destinat\u00e1rio do dom gratuito da vida.<sup>[92]<\/sup><\/p>\n<p>50. A maternidade sub-rogada viola, ao mesmo tempo, a dignidade da mulher que \u00e9 obrigada ou que decide livremente submeter-se a tal pr\u00e1tica. Com esta, a mulher se separa do filho que nela cresce e se torna um simples meio, sujeito ao lucro ou ao desejo arbitr\u00e1rio de outrem. Isso afronta totalmente a dignidade fundamental de todo ser humano e o seu direito de ser sempre reconhecido por si mesmo e n\u00e3o como instrumento para outros fins.<\/p>\n<p><em>Eutan\u00e1sia e suic\u00eddio assistido<\/em><\/p>\n<p>51. Existe um caso particular de viola\u00e7\u00e3o da dignidade humana que \u00e9 mais silencioso, mas que est\u00e1 ganhando muito terreno. Apresenta a peculiaridade de utilizar um conceito errado de dignidade humana para faz\u00ea-lo voltar-se contra a vida mesma. Tal confus\u00e3o, muito comum hoje, vem \u00e0 luz quando se fala de eutan\u00e1sia. Por exemplo, as leis que reconhecem a possibilidade da eutan\u00e1sia ou do suic\u00eddio assistido designam-se \u00e0s vezes como \u201cleis da morte digna\u201d (<em>death with dignity acts<\/em>). \u00c9 muito difusa a ideia que a eutan\u00e1sia ou o suic\u00eddio assistido sejam coerentes com o respeito \u00e0 dignidade da pessoa humana. Diante desse fato, deve-se reafirmar com for\u00e7a que o sofrimento n\u00e3o faz perder ao doente aquela dignidade que lhe \u00e9 pr\u00f3pria de modo intr\u00ednseco e inalien\u00e1vel, mas pode tornar-se ocasi\u00e3o para refor\u00e7ar os v\u00ednculos da m\u00fatua perten\u00e7a e para tomar maior consci\u00eancia da preciosidade de cada pessoa para a humanidade inteira.<\/p>\n<p>52. Certamente, a dignidade do doente em condi\u00e7\u00f5es cr\u00edticas ou terminais requer esfor\u00e7os adequados e necess\u00e1rios para aliviar o seu sofrimento mediante os oportunos cuidados paliativos, evitando toda obsess\u00e3o terap\u00eautica ou interven\u00e7\u00f5es desproporcionais. Os cuidados paliativos respondem ao \u00abdever constante de compreens\u00e3o pelas necessidades do doente: necessidades de assist\u00eancia, al\u00edvio da dor, necessidades emocionais, afetivas e espirituais\u00bb.\u00a0<sup>[93]<\/sup>\u00a0Mas tal esfor\u00e7o \u00e9 totalmente diverso, distinto, antes contr\u00e1rio \u00e0 decis\u00e3o de eliminar a pr\u00f3pria vida ou a vida de outrem sob o peso do sofrimento. A vida humana, mesmo em uma condi\u00e7\u00e3o de dor, \u00e9 portadora de uma dignidade que deve ser sempre respeitada, que n\u00e3o pode ser perdida e cujo respeito permanece incondicionado. N\u00e3o existem algumas condi\u00e7\u00f5es, em falta das quais a vida humana deixe de ser dignamente tal e por isso possa ser suprimida: \u00abA vida tem a mesma dignidade e o mesmo valor para cada um: o respeito pela vida do outro \u00e9 o mesmo que se deve pela pr\u00f3pria exist\u00eancia\u00bb.<sup>[94]<\/sup>\u00a0Ajudar o suicida a matar-se \u00e9, portanto, uma ofensa objetiva contra a dignidade da pessoa que o pede, mesmo que se esteja realizando um seu desejo: \u00abdevemos acompanhar at\u00e9 a morte, mas n\u00e3o provocar a morte ou ajudar qualquer forma de suic\u00eddio. Recordo que deve ser sempre privilegiado o direito ao cuidado e ao cuidado para todos, para que os mais fracos, em particular os idosos e doentes, n\u00e3o sejam jamais descartados. A vida \u00e9 um direito, n\u00e3o a morte, a qual precisa ser acolhida, n\u00e3o aplicada. E este princ\u00edpio \u00e9tico se refere a todos, n\u00e3o s\u00f3 aos crist\u00e3os ou aos que t\u00eam f\u00e9\u00bb.<sup>[95]<\/sup>\u00a0Como j\u00e1 acenado, a dignidade de cada um, ainda que fraco ou sofredor, implica a dignidade de todos.<\/p>\n<p><em>O descarte das pessoas com defici\u00eancia<\/em><\/p>\n<p>53. Um crit\u00e9rio para verificar a real aten\u00e7\u00e3o \u00e0 dignidade de cada indiv\u00edduo \u00e9, obviamente, a assist\u00eancia fornecida aos mais desvalidos. O nosso tempo, infelizmente, n\u00e3o se distingue muito por tal cuidado: na verdade, vai-se impondo uma cultura do descarte.<sup>[96]<\/sup>\u00a0Para contrastar tal tend\u00eancia, \u00e9 merecedora de especial aten\u00e7\u00e3o e solicitude a condi\u00e7\u00e3o daqueles que se encontram em uma situa\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>deficit<\/em>\u00a0f\u00edsico ou ps\u00edquico. Tal condi\u00e7\u00e3o de particular vulnerabilidade,<sup>[97]<\/sup>\u00a0t\u00e3o relevante nas narra\u00e7\u00f5es do Evangelho, interroga universalmente sobre o que significa ser pessoa humana, propriamente a partir de um estado de defici\u00eancia. A quest\u00e3o da imperfei\u00e7\u00e3o humana comporta claras implica\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m do ponto de vista sociocultural, j\u00e1 que em algumas culturas as pessoas com defici\u00eancia sofrem marginaliza\u00e7\u00e3o, sen\u00e3o opress\u00e3o, sendo tratadas como \u201cdescart\u00e1veis\u201d. Realmente, cada ser humano, seja qual for a condi\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade em que venha a se encontrar, recebe a sua dignidade pelo fato mesmo de ser querido e amado por Deus. Por tal motivo, deve-se favorecer o mais poss\u00edvel a inclus\u00e3o e a participa\u00e7\u00e3o ativa na vida social e eclesial de todos aqueles que s\u00e3o de alguma forma marcados pela fragilidade ou defici\u00eancia.<sup>[98]<\/sup><\/p>\n<p>54. Numa perspectiva mais ampla, deve-se recordar que a \u00abcaridade, cora\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito da pol\u00edtica, \u00e9 sempre um amor preferencial pelos \u00faltimos, o qual est\u00e1 por detr\u00e1s de toda a\u00e7\u00e3o realizada em favor deles. [&#8230;] \u201cCuidar da fragilidade quer dizer for\u00e7a e ternura, quer dizer luta e fecundidade em meio a um modelo funcionalista e privatista, que conduz inexoravelmente \u00e0 \u2018cultura do descarte\u2019. [&#8230;] Significa assumir o presente na sua situa\u00e7\u00e3o mais marginal e angustiante e ser capaz de ungi-lo com dignidade\u201d. Assim, certamente dar-se-\u00e1 vida a uma atividade intensa, porque \u201ctudo deve ser feito para tutelar a condi\u00e7\u00e3o e a dignidade da pessoa humana\u201d\u00bb.<sup>[99]<\/sup><\/p>\n<p><em>Teoria de g\u00eanero<\/em>\u00a0(gender)<\/p>\n<p>55. A Igreja deseja, em primeiro lugar, \u00abreafirmar que cada pessoa, independentemente da pr\u00f3pria orienta\u00e7\u00e3o sexual, deve ser respeitada na sua dignidade e acolhida com respeito, cuidando de evitar \u201ctoda marca de injusta discrimina\u00e7\u00e3o\u201d e particularmente toda forma de agress\u00e3o e viol\u00eancia\u00bb.<sup>[100]<\/sup>\u00a0Por esta raz\u00e3o, denuncia-se como contr\u00e1rio \u00e0 dignidade humana o fato que em alguns lugares n\u00e3o poucas pessoas s\u00e3o encarceradas, torturadas e at\u00e9 mesmo privadas da vida unicamente pela sua orienta\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>56. Ao mesmo tempo, a Igreja evidencia os intensos pontos cr\u00edticos da teoria de g\u00eanero (<em>gender<\/em>). A tal prop\u00f3sito, Papa Francisco recordou que: \u00abo caminho da paz exige o respeito dos direitos humanos, segundo aquela simples, mas clara, formula\u00e7\u00e3o contida na\u00a0<em>Declara\u00e7\u00e3o universal dos direitos humanos<\/em>, cujo 75\u00ba anivers\u00e1rio celebramos h\u00e1 pouco. Trata-se de princ\u00edpios racionalmente evidentes e comumente aceitados. Infelizmente, as tentativas realizadas nas \u00faltimas d\u00e9cadas para introduzir novos direitos, n\u00e3o plenamente consistentes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0queles originalmente definidos e n\u00e3o sempre aceit\u00e1veis, deram espa\u00e7o a coloniza\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas, entre as quais tem um papel central a teoria de g\u00eanero (<em>gender<\/em>), que \u00e9 perigos\u00edssima porque cancela as diferen\u00e7as na pretens\u00e3o de tornar todos iguais\u00bb.<sup>[101]<\/sup><\/p>\n<p>57. Em m\u00e9rito \u00e0 teoria de g\u00eanero, sobre cuja consist\u00eancia cient\u00edfica muitas t\u00eam sido as discuss\u00f5es na comunidade dos especialistas, a Igreja recorda que a vida humana, em todos os seus componentes, f\u00edsicos e espirituais, \u00e9 um dom de Deus, que se deve acolher com gratid\u00e3o e colocar a servi\u00e7o do bem. Querer dispor de si, como prescreve a teoria de g\u00eanero, independentemente desta verdade basilar da vida humana como dom, n\u00e3o significa outra coisa sen\u00e3o ceder \u00e0 antiqu\u00edssima tenta\u00e7\u00e3o do homem que se faz Deus e entrar em concorr\u00eancia com o verdadeiro Deus do amor, revelado no Evangelho.<\/p>\n<p>58. Uma segunda observa\u00e7\u00e3o sobre a teoria de g\u00eanero refere-se \u00e0 sua tentativa de negar a maior das diferen\u00e7as poss\u00edveis entre os seres viventes: a diferen\u00e7a sexual. Tal diferen\u00e7a fundante \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 a maior, mas a mais bela e a mais potente: na dualidade homem-mulher, ela alcan\u00e7a a mais admir\u00e1vel reciprocidade e \u00e9 assim a fonte daquele milagre, que n\u00e3o deixa de surpreender-nos, qual \u00e9 a chegada de novos seres humanos ao mundo.<\/p>\n<p>59. Neste sentido, o respeito ao pr\u00f3prio corpo e \u00e0quele dos outros \u00e9 essencial diante da prolifera\u00e7\u00e3o dos pretensos novos direitos, propostos pela teoria de g\u00eanero. Tal ideologia \u00abprop\u00f5e uma sociedade sem diferen\u00e7as de sexo e esvazia a base antropol\u00f3gica da fam\u00edlia\u00bb.<sup>[102]<\/sup>\u00a0\u00c9, pois, inaceit\u00e1vel que \u00abalgumas ideologias deste tipo, que pretendem responder a certas aspira\u00e7\u00f5es \u00e0s vezes compreens\u00edveis, tentem impor-se como um pensamento \u00fanico que determine a educa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as. N\u00e3o se deve ignorar que o sexo biol\u00f3gico (<em>sex<\/em>) e o papel sociocultural do sexo (<em>gender<\/em>) podem-se distinguir, mas n\u00e3o separar\u00bb.<sup>[103]<\/sup>\u00a0Devem-se rejeitar todas aquelas tentativas de obscurecer a refer\u00eancia \u00e0 insuprim\u00edvel diferen\u00e7a sexual entre homem e mulher: \u00abN\u00e3o podemos separar o que \u00e9 masculino e feminino da obra criada por Deus, que \u00e9 anterior a todas as nossas decis\u00f5es e experi\u00eancias e onde existem elementos biol\u00f3gicos que n\u00e3o podem ser ignorados\u00bb.<sup>[104]<\/sup>\u00a0Cada pessoa humana, somente quando pode reconhecer e aceitar esta diferen\u00e7a na reciprocidade, torna-se capaz de descobrir plenamente a si mesma, a pr\u00f3pria dignidade e a pr\u00f3pria identidade.<\/p>\n<p><em>Mudan\u00e7a de sexo<\/em><\/p>\n<p>60. A dignidade do corpo n\u00e3o pode ser considerada inferior \u00e0quela da pessoa como tal. O\u00a0<em>Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica<\/em>\u00a0nos convida expressamente a reconhecer que \u00ab<em>o corpo<\/em>\u00a0do homem participa da dignidade de \u201cimagem de Deus\u201d\u00bb.\u00a0<sup>[105]<\/sup>\u00a0Tal verdade merece ser recordada sobretudo quando se trata do tema da mudan\u00e7a de sexo. O ser humano \u00e9 composto de corpo e alma, unidos de modo incind\u00edvel, sendo que o corpo \u00e9 o lugar vivente em que a interioridade da alma se expande e se manifesta, inclusive atrav\u00e9s da rede das rela\u00e7\u00f5es humanas. Constituindo o ser da pessoa, alma e corpo participam daquela dignidade que conota o ser humano.<sup>[106]<\/sup>\u00a0A prop\u00f3sito, deve-se recordar que o corpo humano participa da dignidade da pessoa, enquanto \u00e9 dotado de significados pessoais, particularmente na sua condi\u00e7\u00e3o sexuada.<sup>[107]<\/sup>\u00a0\u00c9 no corpo, de fato, que cada pessoa se reconhece gerada por outros e \u00e9 atrav\u00e9s do seu corpo que homem e mulher podem estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o de amor capaz de gerar outras pessoas. Sobre a necessidade de respeitar a ordem natural da pessoa humana, Papa Francisco ensina que \u00aba cria\u00e7\u00e3o nos precede e deve ser reconhecida como dom. Ao mesmo tempo, somos chamados a cuidar da nossa humanidade e isso significa em primeiro lugar respeit\u00e1-la e aceit\u00e1-la assim como foi criada\u00bb.<sup>[108]<\/sup>\u00a0Daqui deriva que qualquer interven\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7a de sexo normalmente se arrisca a amea\u00e7ar a dignidade \u00fanica que a pessoa recebeu desde o momento da concep\u00e7\u00e3o. Isto n\u00e3o significa excluir a possibilidade que uma pessoa portadora de anomalias dos genitais, j\u00e1 evidentes desde o nascimento ou que se manifestem sucessivamente, possa decidir-se por receber assist\u00eancia m\u00e9dica com o fim de resolver tais anomalias. Neste caso, a interven\u00e7\u00e3o n\u00e3o configuraria uma mudan\u00e7a de sexo no sentido aqui entendido.<\/p>\n<p><em>Viol\u00eancia digital<\/em><\/p>\n<p>61. O progresso das tecnologias digitais, que oferecem muitas possibilidades para promover a dignidade humana, tende sempre mais \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de um mundo em que crescem a explora\u00e7\u00e3o, a exclus\u00e3o e a viol\u00eancia, que podem chegar a lesar a dignidade da pessoa humana. Pense-se como \u00e9 f\u00e1cil, atrav\u00e9s desses meios, colocar em perigo a boa fama de qualquer pessoa com not\u00edcias falsas e cal\u00fanias. Sobre este ponto, Papa Francisco sublinha que \u00abn\u00e3o \u00e9 sadio confundir a comunica\u00e7\u00e3o com o simples contato virtual. Realmente, \u201co ambiente digital \u00e9 tamb\u00e9m um territ\u00f3rio de solid\u00e3o, manipula\u00e7\u00e3o, explora\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia, at\u00e9 o caso extremo da\u00a0<em>dark web<\/em>. Os meios de comunica\u00e7\u00e3o digitais podem expor ao risco de depend\u00eancia, de isolamento e de progressiva perda de contato com a realidade concreta, obstaculizando o desenvolvimento de rela\u00e7\u00f5es interpessoais aut\u00eanticas. Novas formas de viol\u00eancia se difundem atrav\u00e9s das redes sociais, por exemplo o\u00a0<em>cyberbullying<\/em>; a\u00a0<em>web<\/em>\u00a0\u00e9 tamb\u00e9m um canal de difus\u00e3o da pornografia e de explora\u00e7\u00e3o das pessoas para fins sexuais ou atrav\u00e9s dos jogos de azar\u201d\u00bb.<sup>[109]<\/sup>\u00a0E \u00e9 assim que, ali onde crescem as possibilidades de conex\u00e3o, paradoxalmente acontece que cada um se encontre sempre mais isolado e empobrecido de rela\u00e7\u00f5es interpessoais: \u00abna comunica\u00e7\u00e3o digital, quer-se mostrar tudo e cada indiv\u00edduo torna-se objeto de olhares que esquadrinham, desnudam e divulgam, muitas vezes de maneira an\u00f4nima. Dilui-se o respeito pelo outro e assim, ao mesmo tempo em que o apago, ignoro e mantenho \u00e0 dist\u00e2ncia, posso invadir a sua vida, sem nenhum pudor, at\u00e9 ao extremo\u00bb.<sup>[110]<\/sup>\u00a0Tais tend\u00eancias representam um lado obscuro do progresso digital.<\/p>\n<p>62. Nesta perspectiva, se a tecnologia deve servir \u00e0 dignidade humana, e n\u00e3o causar-lhe dano, e se ela deve promover a paz ao inv\u00e9s da viol\u00eancia, ent\u00e3o a comunidade humana deve ser proativa no enfrentar estas tend\u00eancias, no respeito pela dignidade humana, e promover o bem: \u00abneste mundo globalizado \u201cos\u00a0<em>mass<\/em>\u00a0<em>media<\/em>\u00a0podem ajudar a fazer-nos sentir mais pr\u00f3ximos uns dos outros; a fazer-nos perceber um renovado sentido de unidade da fam\u00edlia humana que impele \u00e0 solidariedade e ao empenho s\u00e9rio por uma vida mais digna. [&#8230;] Podem ajudar-nos nisto, particularmente hoje, quando as redes da comunica\u00e7\u00e3o humana alcan\u00e7aram desenvolvimentos inauditos. Em especial, a\u00a0<em>internet<\/em>\u00a0pode oferecer maiores possibilidades de encontro e de solidariedade entre todos, e esta \u00e9 uma coisa boa, \u00e9 um dom de Deus\u201d. \u00c9, por\u00e9m, necess\u00e1rio verificar continuamente se as atuais formas de comunica\u00e7\u00e3o nos orientam efetivamente ao encontro generoso, \u00e0 busca sincera da verdade plena, ao servi\u00e7o, \u00e0 proximidade aos \u00faltimos, ao esfor\u00e7o de construir o bem comum\u00bb.<sup>[111]<\/sup><\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>63. Na ocorr\u00eancia do 75\u00ba anivers\u00e1rio da promulga\u00e7\u00e3o da\u00a0<em>Declara\u00e7\u00e3o universal dos direitos do homem<\/em>\u00a0(1948), Papa Francisco reafirmou que esse documento \u00ab\u00e9 como uma via preferencial sobre a qual muitos passos adiante j\u00e1 foram dados, mas faltam ainda tantos outros, e \u00e0s vezes infelizmente se volta atr\u00e1s. O empenho pelos direitos humanos n\u00e3o termina nunca! A este prop\u00f3sito, sou pr\u00f3ximo a todos aqueles que, sem publicidade, na vida concreta de cada dia, lutam e pagam pessoalmente para defender os direitos de quem n\u00e3o conta\u00bb.<sup>[112]<\/sup><\/p>\n<p>64. \u00c9 nesse esp\u00edrito que, com a presente\u00a0<em>Declara\u00e7\u00e3o<\/em>, a Igreja ardentemente exorta a colocar\u00a0<em>o respeito pela dignidade da pessoa humana, para al\u00e9m de toda circunst\u00e2ncia,<\/em>\u00a0ao centro dos esfor\u00e7os pelo bem comum e de todo ordenamento jur\u00eddico. O respeito pela dignidade de cada um e de todos \u00e9, de fato, a base imprescind\u00edvel para a exist\u00eancia mesma de cada sociedade que se pretende fundada sobre o justo direito e n\u00e3o na for\u00e7a do poder. Sobre a base do reconhecimento da dignidade humana se sustentam os direitos humanos fundamentais, que precedem e fundam toda conviv\u00eancia civil.<sup>[113]<\/sup><\/p>\n<p>65. A cada pessoa e, ao mesmo tempo, a cada comunidade humana compete portanto a tarefa da concreta e efetiva realiza\u00e7\u00e3o da dignidade humana, enquanto aos Estados compete n\u00e3o somente tutel\u00e1-la, mas tamb\u00e9m garantir aquelas condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para que ela possa florescer na promo\u00e7\u00e3o integral da pessoa humana: \u00abna atividade pol\u00edtica \u00e9 preciso recordar que \u201cal\u00e9m de qualquer apar\u00eancia, cada um \u00e9 imensamente sagrado e merece o nosso afeto e a nossa dedica\u00e7\u00e3o\u201d\u00bb.<sup>[114]<\/sup><\/p>\n<p>66. Tamb\u00e9m hoje, diante de tantas viola\u00e7\u00f5es da dignidade humana que amea\u00e7am seriamente o futuro da humanidade, a Igreja encoraja a promo\u00e7\u00e3o da dignidade de cada pessoa humana, sejam quais forem as suas qualidades f\u00edsicas, ps\u00edquicas, culturais, sociais e religiosas. Ela o faz com esperan\u00e7a, certa da for\u00e7a que brota do Cristo Ressuscitado, que revelou plenamente a dignidade integral de todo homem e de toda mulher. Esta certeza torna-se apelo nas palavras de Papa Francisco: \u00abA cada pessoa deste mundo pe\u00e7o que n\u00e3o se esque\u00e7a desta sua dignidade, que ningu\u00e9m tem direito de tirar-lhe\u00bb.<sup>[115]<\/sup><\/p>\n<p><em>O Sumo Pont\u00edfice Francisco, na Audi\u00eancia concedida ao subscrito Prefeito, juntamente com o Secret\u00e1rio para a Se\u00e7\u00e3o Doutrinal do Dicast\u00e9rio para a Doutrina da F\u00e9, no dia 25 de mar\u00e7o de 2024, aprovou a presente\u00a0<\/em>Declara\u00e7\u00e3o<em>, decidida na Sess\u00e3o Ordin\u00e1ria deste Dicast\u00e9rio, realizada em 28 de fevereiro de 2024, e ordenou a sua publica\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p>Dado em Roma, na sede do Dicast\u00e9rio para a Doutrina da F\u00e9, aos 2 de abril de 2024, 19\u00ba anivers\u00e1rio de morte de S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II.<\/p>\n<p>V\u00edctor Manuel Card. Fern\u00e1ndez<\/p>\n<p><em>Prefeito<\/em><\/p>\n<p>Mons. Armando Matteo<\/p>\n<p><em>Secret\u00e1rio para a Se\u00e7\u00e3o Doutrinal<\/em><\/p>\n<p>EX AUDIENTIA DIE 25.03.2024<\/p>\n<p>FRANCISCUS<\/p>\n<p>__________________<\/p>\n<p><sup>[*]\u00a0<\/sup>S. Jo\u00e3o Paulo II<em>, Angelus com pessoas portadoras de defici\u00eancia na Catedral de Osnabr\u00fcck<\/em>\u00a0(16 de novembro de 1980):\u00a0<em>Insegnamenti III\/2<\/em>\u00a0(1980), 1232.<\/p>\n<p><sup>[1]<\/sup>\u00a0Francisco, Exort. ap.\u00a0<em>Laudate Deum<\/em>\u00a0(4 de outubro de 2023), n. 39:\u00a0<em>L\u2019Osservatore Romano<\/em>\u00a0(4 de outubro de 2023), III.<\/p>\n<p><sup>[2]<\/sup>\u00a0Em 1948, as Na\u00e7\u00f5es Unidas adotaram a\u00a0<em>Declara\u00e7\u00e3o universal dos direitos do homem<\/em>, que se comp\u00f5e de trinta artigos. A palavra \u201cdignidade\u201d aparece por cinco vezes, em pontos estrat\u00e9gicos: nas primeiras palavras do\u00a0<em>Pre\u00e2mbulo<\/em>\u00a0e na primeira frase do\u00a0<em>Artigo 1\u00ba<\/em>. Esta dignidade \u00e9 declarada \u00abinerente a todos os membros da fam\u00edlia humana\u00bb (<em>Pre\u00e2mbulo<\/em>) e \u00abtodos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos\u00bb (<em>Artigo 1\u00ba<\/em>).<\/p>\n<p><sup>[3]<\/sup>\u00a0Pondo aten\u00e7\u00e3o somente \u00e0 \u00e9poca moderna, v\u00ea-se como a Igreja progressivamente acentuou a import\u00e2ncia da dignidade humana. O tema foi desenvolvido em particular na Enc\u00edclica\u00a0<em>Rerum novarum<\/em>\u00a0(1891) do Papa Le\u00e3o XIII, na Enc\u00edclica\u00a0<em>Quadragesimo anno<\/em>\u00a0(1931) do Papa Pio XI e no\u00a0<em>Discurso ao Congresso da Uni\u00e3o Cat\u00f3lica Italiana das Obst\u00e9tricas\u00a0<\/em>(1951) do Papa Pio XII. O Conc\u00edlio Vaticano II aprofundou particularmente esta tem\u00e1tica, dedicando-lhe um inteiro documento, com a Declara\u00e7\u00e3o\u00a0<em>Dignitatis humanae<\/em>\u00a0(1965) e discutindo a liberdade humana na Constitui\u00e7\u00e3o pastoral\u00a0<em>Gaudium et spes<\/em>\u00a0(1965).<\/p>\n<p><sup>[4]<\/sup>\u00a0S. Paulo VI,\u00a0<em>Audi\u00eancia geral\u00a0<\/em>(4 de setembro de 1968):\u00a0<em>Insegnamenti VI<\/em>\u00a0(1968), 886.<\/p>\n<p><sup>[5]<\/sup>\u00a0S. Jo\u00e3o Paulo II<em>, Discurso \u00e0 III\u00aa Confer\u00eancia Geral do Episcopado Latino-americano\u00a0<\/em>(28 de janeiro de 1979), III.1-2:\u00a0<em>Insegnamenti<\/em>\u00a0<em>II\/1<\/em>\u00a0(1979), 202-203.<\/p>\n<p><sup>[6]<\/sup>\u00a0Bento XVI,\u00a0<em>Discurso aos participantes da Assembleia Geral da Pontif\u00edcia Academia para a Vida (13 de fevereiro de 2010): Insegnamenti VI\/1<\/em>\u00a0(2011), 218.<\/p>\n<p><sup>[7]<\/sup>\u00a0Bento XVI,<strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><em>Discurso aos participantes da reuni\u00e3o do Banco de Desenvolvimento do Conselho da Europa<\/em>\u00a0(12 de junho de 2010):\u00a0<em>Insegnamenti VI\/1<\/em>\u00a0(2011), 912-913.<\/p>\n<p><sup>[8]<\/sup>\u00a0Francisco, Exort. ap.\u00a0<em>Evangelii gaudium\u00a0<\/em>(24 de novembro de 2013), n. 178:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a0105 (2013), 1094, que cita S. Jo\u00e3o Paulo II<em>, Angelus com pessoas portadoras de defici\u00eancia na Catedral de Osnabr\u00fcck<\/em>\u00a0(16 de novembro de1980):\u00a0<em>Insegnamenti III\/2<\/em>\u00a0(1980), 1232.<\/p>\n<p><sup>[9]<\/sup>\u00a0Francisco, Carta enc.\u00a0<em>Fratelli tutti<\/em>\u00a0(3 de outubro de 2020), n. 8:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a0112 (2020), 971.<\/p>\n<p><sup>[10]<\/sup>\u00a0<em>Ibidem<\/em>, n. 277:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a0112 (2020), 1069.<\/p>\n<p><sup>[11]<\/sup>\u00a0<em>Ibidem<\/em>, n. 213:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a0112 (2020), 1045.<\/p>\n<p><sup>[12]<\/sup>\u00a0<em>Ibidem<\/em>, n. 213:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a0112 (2020), 1045, que cita Francisco,\u00a0<em>Mensagem aos participantes da Confer\u00eancia internacional \u201cOs direitos humanos no mundo contempor\u00e2neo: conquistas, omiss\u00f5es, nega\u00e7\u00f5es\u201d\u00a0<\/em>(10 de dezembro de 2018):\u00a0<em>L\u2019Osservatore Romano\u00a0<\/em>(10-11 de dezembro de 2018), 8.<\/p>\n<p><sup>[13]<\/sup>\u00a0A\u00a0<em>Declara\u00e7\u00e3o\u00a0<\/em>de 1948 das Na\u00e7\u00f5es Unidas foi seguida e ulteriormente elaborada pelo\u00a0<em>Pacto internacional das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre os direitos civis e pol\u00edticos,\u00a0<\/em>de 1966, e pelo\u00a0<em>Ato final da Confer\u00eancia sobre a seguran\u00e7a e a coopera\u00e7\u00e3o na Europa,<\/em>\u00a0de 1975.<\/p>\n<p><sup>[14]<\/sup>\u00a0Cf. Comiss\u00e3o Teol\u00f3gica Internacional,\u00a0<em>Dignidade e direitos da pessoa humana<\/em>\u00a0(1983), Introdu\u00e7\u00e3o, 3. Um comp\u00eandio do ensinamento cat\u00f3lico sobre a dignidade humana se encontra no\u00a0<em>Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica<\/em>, no cap\u00edtulo intitulado \u201cA dignidade da pessoa humana\u201d, nn. 1700-1876.<\/p>\n<p><sup>[15]<\/sup>\u00a0Francisco, Carta enc.\u00a0<em>Fratelli tutti<\/em>\u00a0(3 de outubro de 2020), n. 22:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a0112 (2020), 976.<\/p>\n<p><sup>[16]<\/sup>\u00a0Bo\u00e9cio,\u00a0<em>Contra Eutychen et Nestorium,\u00a0<\/em>c. 3: PL 64, 1344: \u00abpersona est rationalis naturae individua substantia\u00bb. Cf. S. Boaventura,\u00a0<em>In I Sententiarum<\/em>, d. 25, a. 1, q. 2; S. Tom\u00e1s de Aquino,\u00a0<em>Summa Theologiae<\/em>, I, q. 29, a. 1,\u00a0<em>resp<\/em>.<\/p>\n<p><sup>[17]<\/sup>\u00a0Como n\u00e3o \u00e9 a finalidade desta\u00a0<em>Declara\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0redigir um tratado exaustivo sobre a no\u00e7\u00e3o de dignidade, por exig\u00eancia de brevidade acena-se em via exemplificativa somente \u00e0 cultura cl\u00e1ssica greco-romana, enquanto ponto de refer\u00eancia da primeira reflex\u00e3o filos\u00f3fica e teol\u00f3gica crist\u00e3.<\/p>\n<p><sup>[18]<\/sup>\u00a0Cf. p. ex. C\u00edcero,\u00a0<em>De officiis<\/em>\u00a0I, 105-106: \u00abSed pertinet ad omnem officii quaestionem semper in promptu habere, quantum natura hominis pecudibus reliquisque beluis antecedat\u00a0<sup>[\u2026]<\/sup>. Atque etiam si considerare volumus, quae sit in natura excellentia et dignitas, intellegemus, quam sit turpe diffluere luxuria et delicate ac molliter vivere quamque honestum parce, continenter, severe, sobrie\u00bb (<em>Scriptorum Latinorum Bibliotheca Oxoniensis<\/em>, ed. M. Winterbottom, Oxford 1994, 43). Tradu\u00e7\u00e3o: \u00abEm toda investiga\u00e7\u00e3o sobre o dever, \u00e9 preciso ter presente quanto a natureza do homem \u00e9 superior \u00e0quela dos animais dom\u00e9sticos e de todas as outras feras\u00a0<sup>[&#8230;]<\/sup>. E ainda, se pensamos na excel\u00eancia e na dignidade da natureza humana, compreenderemos quanto seja torpe nadar nos prazeres e viver na lasc\u00edvia e na moleza; ao contr\u00e1rio, quanto seja decoroso conduzir uma vida parca, moderada, s\u00e9ria e s\u00f3bria\u00bb.<\/p>\n<p><sup>[19]<\/sup>\u00a0Cf. S. Paulo VI,\u00a0<em>Discurso durante a Peregrina\u00e7\u00e3o \u00e0 Terra Santa: Visita \u00e0 Bas\u00edlica da Anuncia\u00e7\u00e3o em Nazar\u00e9<\/em>\u00a0(5 de janeiro de 1964):\u00a0<em>AAS\u00a0<\/em>56 (1964), 166-170.<\/p>\n<p><sup>[20]<\/sup>\u00a0Entre as inumer\u00e1veis refer\u00eancias, cf. p. ex. S. Clemente de Roma, 1 Clem. 33, 4s: PG 1, 273; Te\u00f3filo de Antioquia, Ad Aut. I, 4: PG 6, 1029; S. Clemente de Alexandria,\u00a0<em>Strom.<\/em>\u00a0III, 42, 5-6: PG 8, 1145;\u00a0<em>Ibidem<\/em>, VI, 72, 2: PG 9, 293; S. Irineu de Li\u00e3o,\u00a0<em>Adv. haer<\/em>. V, 6, 1: PG 7, 1137-1138; Or\u00edgenes,\u00a0<em>De princ.<\/em>\u00a0III, 6,1: PG 11, 333; S. Agostinho,\u00a0<em>De Gen. ad litt.<\/em>\u00a0VI, 12: PL 34, 348.\u00a0<em>De Trin.<\/em><strong>\u00a0<\/strong>XIV, 8, 11: PL 42, 1044-1045.<\/p>\n<p><sup>[21]<\/sup>\u00a0S. Tom\u00e1s de Aquino,\u00a0<em>Summa Theologiae<\/em>, I, q. 29, a. 3,\u00a0<em>resp<\/em>.: \u00abpersona significat id quod est perfectissimum in tota natura, scilicet subsistens in rationali natura\u00bb.<\/p>\n<p><sup>[22]<\/sup>\u00a0Pode-se pensar p. ex. a Pico della Mirandola e ao seu conhecido texto\u00a0<em>Oratio de hominis dignitate\u00a0<\/em>(1486).<\/p>\n<p><sup>[23]<\/sup>\u00a0Para um pensador judeu como E. Levinas (1906-1995), o ser humano \u00e9 qualificado pela sua liberdade enquanto se descobre infinitamente respons\u00e1vel pelo outro ser humano.<\/p>\n<p><sup>[24]<\/sup>\u00a0Alguns grandes pensadores crist\u00e3os dos s\u00e9culos XIX e XX, come S\u00e3o J. H. Newman, Beato A. Rosmini, J. Maritain, E. Mounier, K. Rahner, H. U. von Balthasar, entre outros, chegaram a propor uma vis\u00e3o do homem que pode validamente dialogar com as correntes de pensamento do in\u00edcio de s\u00e9culo XXI, qualquer que seja a sua inspira\u00e7\u00e3o, sem excluir os p\u00f3s-modernos.<\/p>\n<p><sup>[25]<\/sup>\u00a0Por este motivo, a \u00ab<em>Declara\u00e7\u00e3o universal dos direitos do homem<\/em>\u00a0<sup>[\u2026]<\/sup>\u00a0sugere implicitamente que a origem dos direitos humanos inalien\u00e1veis se situa na dignidade de toda pessoa humana\u00bb: Comiss\u00e3o Teol\u00f3gica Internacional,\u00a0<em>Em busca de uma \u00e9tica universal: novo olhar sobre a lei natural\u00a0<\/em>(2009), n. 115.<\/p>\n<p><sup>[26]<\/sup>\u00a0Conc. Ecum. Vat. II, Const. past.\u00a0<em>Gaudium et spes\u00a0<\/em>(7 de dezembro de 1965), n.<em>\u00a0<\/em>26:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a058 (1966), 1046; todo o primeiro cap\u00edtulo da primeira parte da Constitui\u00e7\u00e3o (nn. 11-22) \u00e9 dedicado \u00e0 \u201cDignidade da pessoa humana\u201d.<\/p>\n<p><sup>[27]<\/sup>\u00a0Conc. Ecum. Vat. II, Decl.\u00a0<em>Dignitatis humanae\u00a0<\/em>(7 de dezembro de 1965), n.<em>\u00a0<\/em>1:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a058 (1966), 929.<\/p>\n<p><sup>[28]<\/sup>\u00a0<em>Ibidem<\/em>, n.<em>\u00a0<\/em>2:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a058 (1966), 931.<\/p>\n<p><sup>[29]<\/sup>\u00a0Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9, Instru\u00e7\u00e3o\u00a0<em>Dignitas personae\u00a0<\/em>(8 de setembro de 2008), n. 7:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a0100 (2008), 863. Cf. S. Irineu de Li\u00e3o,\u00a0<em>Adv. haer<\/em>. V, 16, 2: PG 7, 1167-1168.<\/p>\n<p><sup>[30]<\/sup>\u00a0Como \u00abcom a encarna\u00e7\u00e3o o Filho de Deus se uniu de certo modo a cada homem\u00bb (Conc. Ecum. Vat. II, Const. past.\u00a0<em>Gaudium et spes\u00a0<\/em>(7 de dezembro de 1965), n. 22:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a058 (1966), 1042), a dignidade de cada homem nos \u00e9 revelada por Cristo na sua plenitude.<\/p>\n<p><sup>[31]<\/sup>\u00a0Conc. Ecum. Vat. II, Const. past.\u00a0<em>Gaudium et spes\u00a0<\/em>(7 de dezembro de 1965), n.<em>\u00a0<\/em>19:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a058 (1966), 1038.<\/p>\n<p><sup>[32]<\/sup>\u00a0S. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc.\u00a0<em>Evangelium vitae\u00a0<\/em>(25 de mar\u00e7o de 1995),<em>\u00a0<\/em>n. 38:<em>\u00a0AAS<\/em>\u00a087 (1995), 443, que cita S. Irineu de Li\u00e3o,\u00a0<em>Adv. haer<\/em>. IV, 20,7: PG 7, 1037-1038.<\/p>\n<p><sup>[33]<\/sup>\u00a0Cristo deu aos batizados uma nova dignidade, aquela de \u201cfilhos de Deus\u201d: cf.\u00a0<em>Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica<\/em>, nn. 1213, 1265, 1270, 1279.<\/p>\n<p><sup>[34]<\/sup>\u00a0Conc. Ecum. Vat. II, Decl.\u00a0<em>Dignitatis humanae\u00a0<\/em>(7 de dezembro de 1965), n. 9:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a058 (1966), 935.<\/p>\n<p><sup>[35]<\/sup>\u00a0Cf. S. Irineu de Li\u00e3o,\u00a0<em>Adv. haer<\/em>. V, 6, 1. V, 8, 1. V, 16, 2: PG 7, 1136-1138. 1141-1142. 1167-1168; S. Jo\u00e3o Damasceno,\u00a0<em>De fide orth<\/em>. 2, 12: PG 94, 917-930.<\/p>\n<p><sup>[36]<\/sup>\u00a0Bento XVI,\u00a0<em>Discurso em Westminster Hall<\/em>\u00a0(17 de setembro de 2010):<em>\u00a0Insegnamenti<\/em>\u00a0<em>VI\/2<\/em>\u00a0(2011), 240.<\/p>\n<p><sup>[37]<\/sup>\u00a0Francisco,\u00a0<em>Audi\u00eancia geral\u00a0<\/em>(12 de agosto de 2020):\u00a0<em>L\u2019Osservatore Romano<\/em>\u00a0(13 de agosto de 2020), 8, que cita S. Jo\u00e3o Paulo II,\u00a0<em>Discurso \u00e0 Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas<\/em>\u00a0(2 de outubro de 1979), 7 e Id.,\u00a0<em>Discurso \u00e0 Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas<\/em>\u00a0(5 de outubro de 1995),<strong>\u00a0<\/strong>2.<\/p>\n<p><sup>[38]<\/sup>\u00a0Cf. Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9, Instru\u00e7\u00e3o\u00a0<em>Dignitas personae\u00a0<\/em>(8 de setembro de 2008), n. 8:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a0100 (2008), 863-864.<\/p>\n<p><sup>[39]<\/sup>\u00a0Comiss\u00e3o Teol\u00f3gica Internacional,\u00a0<em>Liberdade religiosa para o bem de todos\u00a0<\/em>(2019), n. 38.<\/p>\n<p><sup>[40]<\/sup>\u00a0Francisco,\u00a0<em>Discurso aos membros do Corpo Diplom\u00e1tico acreditado junto \u00e0 Santa S\u00e9 para as felicita\u00e7\u00f5es de ano novo\u00a0<\/em>(8 de janeiro de 2024):\u00a0<em>L\u2019Osservatore Romano<\/em>\u00a0(8 de janeiro de 2024), 3.<\/p>\n<p><sup>[41]<\/sup>\u00a0S. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc.\u00a0<em>Evangelium vitae\u00a0<\/em>(25 de marzo de 1995), n. 19:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a087 (1995), 422.<\/p>\n<p><sup>[42]<\/sup>\u00a0Francisco, Carta enc.\u00a0<em>Laudato si\u2019\u00a0<\/em>(24 de maio de 2015),<em>\u00a0<\/em>n. 69:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a0107 (2015), 875, que cita o\u00a0<em>Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica<\/em>, n. 339.<\/p>\n<p><sup>[43]<\/sup>\u00a0Francesco, Exort. ap.\u00a0<em>Laudate Deum<\/em>\u00a0(4 de outubro de 2023), n. 67:\u00a0<em>L\u2019Osservatore Romano<\/em>\u00a0(4 de outubro de 2023), IV.<\/p>\n<p><sup>[44]<\/sup>\u00a0<em>Ibidem<\/em>, n. 63:\u00a0<em>L\u2019Osservatore Romano<\/em>\u00a0(4 de outubro de 2023), IV.<\/p>\n<p><sup>[45]<\/sup>\u00a0<em>Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica,\u00a0<\/em>n.<em>\u00a0<\/em>1730.<\/p>\n<p><sup>[46]<\/sup>\u00a0Bento XVI,\u00a0<em>Mensagem para a celebra\u00e7\u00e3o da 44<sup>a<\/sup>\u00a0Jornada mundial da paz<\/em>\u00a0(1\u00ba de janeiro de 2011), n. 3:\u00a0<em>Insegnamenti VI\/2<\/em>\u00a0(2011), 979.<\/p>\n<p><sup>[47]<\/sup>\u00a0Pontif\u00edcio Conselho para a Justi\u00e7a e a Paz,\u00a0<em>Comp\u00eandio da Doutrina social da Igreja<\/em>, n. 137.<\/p>\n<p><sup>[48]<\/sup>\u00a0Francisco, Carta enc.\u00a0<em>Fratelli tutti\u00a0<\/em>(3 de outubro de 2020), n. 109:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a0112 (2020), 1006.<\/p>\n<p><sup>[49]<\/sup>\u00a0Pontif\u00edcio Conselho para a Justi\u00e7a e a Paz,<em>\u00a0Comp\u00eandio da Doutrina social da Igreja<\/em>, n. 137.<\/p>\n<p><sup>[50]<\/sup>\u00a0Francisco,\u00a0<em>Discurso aos participantes do Encontro mundial dos movimentos populares\u00a0<\/em>(28 de outubro de 2014):\u00a0<em>AAS\u00a0<\/em>106 (2014), 858.<\/p>\n<p><sup>[51]<\/sup>\u00a0Francisco, Carta enc.\u00a0<em>Fratelli tutti\u00a0<\/em>(3 de outubro de 2020), n. 107:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a0112 (2020), 1005-1006.<\/p>\n<p><sup>[52]<\/sup>\u00a0Conc. Ecum. Vat. II, Const. past.\u00a0<em>Gaudium et spes\u00a0<\/em>(7 de dezembro de 1965), n. 27:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a058 (1966), 1047.<\/p>\n<p><sup>[53]<\/sup>\u00a0<em>Ibidem<\/em>.<\/p>\n<p><sup>[54]<\/sup>\u00a0<em>Ibidem<\/em>.<\/p>\n<p><sup>[55]<\/sup>\u00a0Cf.\u00a0<em>Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica<\/em>, n. 2267 e Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9,\u00a0<em>Carta aos Bispos sobre a nova reda\u00e7\u00e3o do n. 2267 do Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica sobre a pena de morte<\/em>\u00a0(1\u00b0 de agosto de 2018), nn. 7-8.<\/p>\n<p><sup>[56]<\/sup>\u00a0Francisco, Carta enc.\u00a0<em>Fratelli tutti\u00a0<\/em>(3 de outubro de 2020), n. 269:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a0112 (2020), 1065.<\/p>\n<p><sup>[57]<\/sup>\u00a0S. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc.\u00a0<em>Sollicitudo rei socialis\u00a0<\/em>(30 de dezembro de 1987), n. 28:\u00a0<em>AAS\u00a0<\/em>80 (1988), 549.<\/p>\n<p><sup>[58]<\/sup>\u00a0Bento XVI, Carta enc.\u00a0<em>Caritas in veritate\u00a0<\/em>(29 de junho de 2009), n. 22:\u00a0<em>AAS\u00a0<\/em>101 (2009), 657, que cita S. Paulo VI, Carta enc.\u00a0<em>Populorum progressio<\/em>\u00a0(26 de mar\u00e7o de 1967), n. 9:\u00a0<em>AAS\u00a0<\/em>59 (1967), 261-262.<\/p>\n<p><sup>[59]<\/sup>\u00a0Francisco, Carta enc.\u00a0<em>Fratelli tutti\u00a0<\/em>(3 de outubro de 2020), n. 21:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a0112 (2020), 976, que cita Bento XVI, Carta enc.\u00a0<em>Caritas in veritate\u00a0<\/em>(29 de junho de 2009), n. 22:\u00a0<em>AAS\u00a0<\/em>101 (2009), 657.<\/p>\n<p><sup>[60]<\/sup>\u00a0Francisco, Carta enc.\u00a0<em>Fratelli tutti\u00a0<\/em>(3 de outubro de 2020), n. 20:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a0112 (2020), 975-976. Cf. tamb\u00e9m a \u201cOra\u00e7\u00e3o ao Criador\u201d ao final da mesma enc\u00edclica.<\/p>\n<p><sup>[61]<\/sup>\u00a0<em>Ibidem<\/em>, n. 116:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a0112 (2020), 1009, que cita Id.,\u00a0<em>Discurso aos participantes do Encontro mundial dos movimentos populares<\/em>\u00a0(28 de outubro de 2014):\u00a0<em>AAS\u00a0<\/em>106 (2014), 851-852.<\/p>\n<p><sup>[62]<\/sup>\u00a0Francisco, Carta enc.\u00a0<em>Fratelli tutti\u00a0<\/em>(3 de outubro de 2020), n. 162:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a0112 (2020), 1025, que cita Id.,\u00a0<em>Discurso aos membros do Corpo Diplom\u00e1tico acreditado junto \u00e0 Santa S\u00e9<\/em>\u00a0(12 de janeiro de 2015):\u00a0<em>AAS\u00a0<\/em>107 (2015), 165.<\/p>\n<p><sup>[63]<\/sup>\u00a0Francisco, Carta enc.\u00a0<em>Fratelli tutti\u00a0<\/em>(3 de outubro de 2020), n. 25:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a0112 (2020), 978, que cita Id.,\u00a0<em>Mensagem para a 49\u00aa Jornada mundial da paz\u00a0<\/em>(1\u00b0 de janeiro de 2016):\u00a0<em>AAS\u00a0<\/em>108 (2016), 49.<\/p>\n<p><sup>[64]<\/sup>\u00a0Francisco,\u00a0<em>Mensagem aos participantes da VI edi\u00e7\u00e3o do \u201cForum de Paris sur la Paix\u201d<\/em>\u00a0(10 de novembro de 2023):\u00a0<em>L\u2019Osservatore Romano<\/em>\u00a0(10 de novembro de 2023), 7, que cita Id.,\u00a0<em>Audi\u00eancia geral<\/em>\u00a0(23 de mar\u00e7o de 2022):\u00a0<em>L\u2019Osservatore Romano<\/em>\u00a0(23 de mar\u00e7o de 2022), 3.<\/p>\n<p><sup>[65]<\/sup>\u00a0Francisco,<em>\u00a0Discurso \u00e0 Confer\u00eancia das Partes da Conven\u00e7\u00e3o-Quadro das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas (COP 28)\u00a0<\/em>(2 de dezembro de 2023):\u00a0<em>L\u2019Osservatore Romano<\/em>\u00a0(2 de dezembro de 2023), 2.<\/p>\n<p><sup>[66]<\/sup>\u00a0Cf. S. Paulo VI,\u00a0<em>Discurso \u00e0s Na\u00e7\u00f5es Unidas<\/em>\u00a0(4 de outubro de 1965):\u00a0<em>AAS\u00a0<\/em>57 (1965), 881.<\/p>\n<p><sup>[67]<\/sup>\u00a0S. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc.\u00a0<em>Redemptor hominis\u00a0<\/em>(4 de mar\u00e7o de 1979),<em>\u00a0<\/em>n. 16:\u00a0<em>AAS\u00a0<\/em>71 (1979), 295.<\/p>\n<p><sup>[68]<\/sup>\u00a0Francisco, Carta enc.\u00a0<em>Fratelli tutti\u00a0<\/em>(3 de outubro de 2020), n. 258:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a0112 (2020), 1061.<\/p>\n<p><sup>[69]<\/sup>\u00a0Francisco,\u00a0<em>Discurso ao Conselho de Seguran\u00e7a das Na\u00e7\u00f5es Unidas<\/em>\u00a0(14 de junho de 2023):\u00a0<em>L\u2019Osservatore Romano<\/em>\u00a0(15 de junho de 2023), 8.<\/p>\n<p><sup>[70]<\/sup>\u00a0Francisco,\u00a0<em>Discurso na Jornada mundial de ora\u00e7\u00e3o pela paz\u00a0<\/em>(20 de setembro de 2016):\u00a0<em>L\u2019Osservatore Romano<\/em>\u00a0(22 de setembro de 2016), 5.<\/p>\n<p><sup>[71]<\/sup>\u00a0Cf. Francisco, Carta enc.\u00a0<em>Fratelli tutti\u00a0<\/em>(3 de outubro de 2020), n. 38:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a0112 (2020), 983: \u00abEm consequ\u00eancia, \u201cseja reafirmado o direito a n\u00e3o emigrar, isto \u00e9, a estar em condi\u00e7\u00f5es de permanecer na pr\u00f3pria terra\u201d\u00bb, que cita Bento XVI,\u00a0<em>Mensagem para a 99\u00aa Jornada mundial do Migrante e do Refugiado<\/em>\u00a0(12 de outubro de 2012):\u00a0<em>AAS\u00a0<\/em>104 (2012), 908.<\/p>\n<p><sup>[72]<\/sup>\u00a0Cf. Francisco, Carta enc.\u00a0<em>Fratelli tutti\u00a0<\/em>(3 de outubro de 2020), n. 38:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a0112 (2020), 982-983.<\/p>\n<p><sup>[73]<\/sup>\u00a0<em>Ibidem<\/em>, n. 39:\u00a0<em>AAS\u00a0<\/em>112 (2020), 983.<\/p>\n<p><sup>[74]<\/sup>\u00a0Bento XVI, Carta enc.\u00a0<em>Caritas in veritate\u00a0<\/em>(29 de junho de 2009), n. 62:\u00a0<em>AAS\u00a0<\/em>101 (2009), 697.<\/p>\n<p><sup>[75]<\/sup>\u00a0Francisco, Carta enc.\u00a0<em>Fratelli tutti\u00a0<\/em>(3 de outubro de 2020), n. 39:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a0112 (2020), 983.<\/p>\n<p><sup>[76]<\/sup>\u00a0Pode ser \u00fatil aqui recordar a declara\u00e7\u00e3o de Paulo III sobre a dignidade dos homens descobertos nas terras do \u201cNovo Mundo\u201d, na Bula\u00a0<em>Pastorale officium<\/em>\u00a0(29 de maio de1537), onde estabelece \u2013 sob pena de excomunh\u00e3o \u2013 que os habitantes daqueles territ\u00f3rios, \u00abmesmo se est\u00e3o fora do seio da Igreja\u00a0<sup>[\u2026]<\/sup>\u00a0n\u00e3o devem ser privados da sua liberdade ou do dom\u00ednio sobre as suas coisas, porque s\u00e3o homens e, por isso, capazes de f\u00e9 e de salva\u00e7\u00e3o\u00bb (\u00ablicet extra gremium Ecclesiae existant, non tamen sua libertate, aut rerum suarum dominio\u00a0<sup>[\u2026]<\/sup>\u00a0privandos esse, et cum homines, ideoque fidei et salutis capaces sint\u00bb): DH 1495.<\/p>\n<p><sup>[77]<\/sup>\u00a0Francisco,\u00a0<em>Discurso aos participantes da Plen\u00e1ria do Pontif\u00edcio Conselho da Pastoral para os Migrantes e os Itinerantes<\/em>\u00a0(24 de maio de 2013):\u00a0<em>AAS\u00a0<\/em>105 (2013), 470-471.<\/p>\n<p><sup>[78]<\/sup>\u00a0Francisco,\u00a0<em>Discurso \u00e0 Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas\u00a0<\/em>(25 de setembro de 2015):\u00a0<em>AAS\u00a0<\/em>107 (2015), 1039.<\/p>\n<p><sup>[79]<\/sup>\u00a0Francisco,\u00a0<em>Discurso<\/em>\u00a0<em>a um grupo de Embaixadores por ocasi\u00e3o da apresenta\u00e7\u00e3o das Credenciais\u00a0<\/em>(12 de dezembro de 2013):\u00a0<em>L\u2019Osservatore Romano<\/em>\u00a0(13 de dezembro de 2013), 8.<\/p>\n<p><sup>[80]<\/sup>\u00a0Francisco,\u00a0<em>Discurso aos participantes da Confer\u00eancia internacional sobre o tr\u00e1fico de pessoas\u00a0<\/em>(11 de abril de 2019):\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a0111 (2019), 700.<\/p>\n<p><sup>[81]<\/sup>\u00a0<em>Documento Final da XV Assembleia Geral Ordin\u00e1ria do S\u00ednodo dos Bispos\u00a0<\/em>(27 de outubro de 2018), n. 29.<\/p>\n<p><sup>[82]<\/sup>\u00a0Francisco, Carta enc.\u00a0<em>Fratelli tutti\u00a0<\/em>(3 de outubro de 2020), n. 23:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a0112 (2020), 977, que cita Id., Exort. ap.\u00a0<em>Evangelii gaudium\u00a0<\/em>(24 de novembro de 2013), n. 212:\u00a0<em>AAS\u00a0<\/em>105 (2013), 1108.<\/p>\n<p><sup>[83]<\/sup>\u00a0S. Jo\u00e3o Paulo II,\u00a0<em>Carta \u00e0s mulheres<\/em>\u00a0(29 de junho de 1995), n. 4:\u00a0<em>Insegnamenti<\/em>\u00a0<em>XVIII\/1<\/em>\u00a0(1997), 1874.<\/p>\n<p><sup>[84]<\/sup>\u00a0<em>Ibidem<\/em>, n. 5:\u00a0<em>Insegnamenti<\/em>\u00a0<em>XVIII\/1<\/em>\u00a0(1997), 1875<em>.<\/em><\/p>\n<p><sup>[85]<\/sup>\u00a0<em>Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica<\/em>, n. 1645.<\/p>\n<p><sup>[86]<\/sup>\u00a0Francisco,\u00a0<em>Discurso por ocasi\u00e3o da Celebra\u00e7\u00e3o Mariana \u2013 Virgen de la Puerta<\/em>\u00a0(20 de janeiro de 2018):\u00a0<em>AAS\u00a0<\/em>110 (2018), 329.<\/p>\n<p><sup>[87]<\/sup>\u00a0Francisco,\u00a0<em>Discurso aos participantes da Assembleia Plen\u00e1ria da Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9<\/em>\u00a0(21 de janeiro de 2022):\u00a0<em>L\u2019Osservatore Romano<\/em>\u00a0(21 de janeiro de 2022), 8.<\/p>\n<p><sup>[88]<\/sup>\u00a0S. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc.\u00a0<em>Evangelium vitae<\/em>\u00a0(25 de mar\u00e7o de 1995), 58:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a087 (1995), 466-467. Sobre o tema do respeito devido aos embri\u00f5es humanos, cf. Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9, Instru\u00e7\u00e3o\u00a0<em>Donum vitae<\/em>\u00a0(22 de fevereiro de 1987): \u00abA praxe de manter em vida embri\u00f5es humanos,\u00a0<em>in vivo<\/em>\u00a0ou\u00a0<em>in vitro<\/em>, para finalidades experimentais ou comerciais, \u00e9 totalmente contr\u00e1ria \u00e0 dignidade humana\u00bb (I, 4):\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a080 (1988), 82.<\/p>\n<p><sup>[89]<\/sup>\u00a0Francisco, Exort. ap.\u00a0<em>Evangelii gaudium\u00a0<\/em>(24 de novembro de 2013), 213:\u00a0<em>AAS\u00a0<\/em>105 (2013), 1108.<\/p>\n<p><sup>[90]<\/sup>\u00a0<em>Ibidem<\/em>.<\/p>\n<p><sup>[91]<\/sup>\u00a0Francisco,\u00a0<em>Discurso aos membros do Corpo Diplom\u00e1tico acreditado junto \u00e0 Santa S\u00e9 para as felicita\u00e7\u00f5es de ano novo\u00a0<\/em>(8 de janeiro de 2024):\u00a0<em>L\u2019Osservatore Romano<\/em>\u00a0(8 de janeiro de 2024), 3.<\/p>\n<p><sup>[92]<\/sup>\u00a0Cf. Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9, Instru\u00e7\u00e3o\u00a0<em>Dignitas personae\u00a0<\/em>(8 de setembro de 2008), n. 16:\u00a0<em>AAS\u00a0<\/em>100 (2008), 868-869. Todos estes aspectos s\u00e3o recordados com precis\u00e3o na Instru\u00e7\u00e3o\u00a0<em>Donum vitae<\/em>\u00a0(22 de fevereiro de 1987):\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a080 (1988),<em>\u00a0<\/em>71-102, da mesma Congrega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><sup>[93]<\/sup>\u00a0Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9, Carta\u00a0<em>Samaritanus bonus\u00a0<\/em>(14 de julho de 2020), V, n. 4:\u00a0<em>AAS\u00a0<\/em>112 (2020), 925.<\/p>\n<p><sup>[94]<\/sup>\u00a0Cf.\u00a0<em>Ibidem<\/em>, V, n.1:\u00a0<em>AAS\u00a0<\/em>112 (2020), 919.<\/p>\n<p><sup>[95]<\/sup>\u00a0Francisco,\u00a0<em>Audi\u00eancia geral<\/em>\u00a0(9 de fevereiro de 2022):\u00a0<em>L\u2019Osservatore Romano<\/em>\u00a0(9 de fevereiro de 2022), 3.<\/p>\n<p><sup>[96]<\/sup>\u00a0Cf. sobretudo Francisco, Carta enc.\u00a0<em>Fratelli tutti<\/em>\u00a0(3 de outubro de 2020), nn. 18-21:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a0112 (2020), 975-976: \u201cO descarte mundial\u201d. O n. 188 da mesma enc\u00edclica chega a identificar uma \u201ccultura do descarte\u201d.<\/p>\n<p><sup>[97]<\/sup>\u00a0Cf. Francisco,\u00a0<em>Discurso aos participantes do Congresso promovido pelo Pontif\u00edcio Conselho para a Promo\u00e7\u00e3o da Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o\u00a0<\/em>(21 de outubro de 2017):\u00a0<em>L\u2019Osservatore Romano<\/em>\u00a0(22 de outubro de 2017), 8: \u00abA vulnerabilidade pertence \u00e0 ess\u00eancia do homem\u00bb.<\/p>\n<p><sup>[98]<\/sup>\u00a0Cf. Francisco,\u00a0<em>Mensagem por ocasi\u00e3o da Jornada internacional das pessoas com defici\u00eancia\u00a0<\/em>(3 de dezembro de 2020):\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a0112 (2020), 1185-1186.<\/p>\n<p><sup>[99]<\/sup>\u00a0Francisco, Carta enc.\u00a0<em>Fratelli tutti\u00a0<\/em>(3 de outubro de 2020), nn. 187-188:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a0112 (2020), 1035-1036, que cita Id.,\u00a0<em>Discurso ao Parlamento Europeu\u00a0<\/em>(25 de novembro de 2014):\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a0106 (2014), 999, e Id.,\u00a0<em>Discurso \u00e0 classe dirigente e ao Corpo diplom\u00e1tico, Bangui \u2013 Rep\u00fablica Centro-africana<\/em>\u00a0(29 de novembro de 2015):\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a0107 (2015) 1320.<\/p>\n<p><sup>[100]<\/sup>\u00a0Francisco, Exort. ap.\u00a0<em>Amoris laetitia\u00a0<\/em>(19 de mar\u00e7o de 2016), n. 250:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a0108 (2016), 412-413, que cita\u00a0<em>Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica<\/em>, n. 2358.<\/p>\n<p><sup>[101]<\/sup>\u00a0Francisco,\u00a0<em>Discurso aos membros do Corpo Diplom\u00e1tico acreditado junto \u00e0 Santa S\u00e9 para as felicita\u00e7\u00f5es de ano novo\u00a0<\/em>(8 de janeiro de 2024):\u00a0<em>L\u2019Osservatore Romano<\/em>\u00a0(8 de janeiro de 2024), 3.<\/p>\n<p><sup>[102]<\/sup>\u00a0Francisco, Exort. ap.\u00a0<em>Amoris laetitia\u00a0<\/em>(19 de mar\u00e7o de 2016), n. 56:\u00a0<em>AAS\u00a0<\/em>108 (2016), 334.<\/p>\n<p><sup>[103]<\/sup>\u00a0<em>Ibidem<\/em>, que cita a XIV Assembleia Geral Ordin\u00e1ria do S\u00ednodo dos Bispos,\u00a0<em>Relatio finalis<\/em>\u00a0(24 de outubro de 2015), 58.<\/p>\n<p><sup>[104]<\/sup>\u00a0Francisco, Exort. ap.\u00a0<em>Amoris laetitia\u00a0<\/em>(19 de mar\u00e7o de 2016), n. 286:\u00a0<em>AAS\u00a0<\/em>108 (2016), 425.<\/p>\n<p><sup>[105]<\/sup>\u00a0<em>Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica<\/em>, n. 364.<\/p>\n<p><sup>[106]<\/sup>\u00a0Isto vale tamb\u00e9m para o respeito devido aos corpos dos defuntos; cf. p. ex. Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9, Instru\u00e7\u00e3o\u00a0<em>Ad resurgendum cum Christo\u00a0<\/em>(15 de agosto de 2016), n. 3:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a0108 (2016), 1290: \u00abSepultando os corpos dos fi\u00e9is defuntos, a Igreja confirma a f\u00e9 na ressurrei\u00e7\u00e3o da carne e pretende ressaltar a alta dignidade do corpo humano como parte integrante da pessoa, de cuja hist\u00f3ria o corpo participa\u00bb. Para uma abordagem mais completa, cf. Comiss\u00e3o Teol\u00f3gica Internacional,\u00a0<em>Problemas atuais de escatologia\u00a0<\/em>(1990), n. 5: \u201cO homem chamado \u00e0 ressurrei\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><sup>[107]<\/sup>\u00a0Cf. Francisco, Carta enc.\u00a0<em>Laudato si\u2019\u00a0<\/em>(24 de maio de 2015), n. 155:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a0107 (2015), 909.<\/p>\n<p><sup>[108]<\/sup>\u00a0Francisco, Exort. ap.\u00a0<em>Amoris laetitia<\/em>\u00a0(19 de mar\u00e7o de 2016), n. 56:\u00a0<em>AAS\u00a0<\/em>108 (2016), 344.<\/p>\n<p><sup>[109]<\/sup>\u00a0Francisco, Exort. ap.\u00a0<em>Christus vivit\u00a0<\/em>(25 de mar\u00e7o de 2019), n. 88:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a0111 (2019), 413, que cita o\u00a0<em>Documento Final da XV Assembleia Geral Ordin\u00e1ria do S\u00ednodo dos Bispos\u00a0<\/em>(27 de outubro de 2018)<em>,<\/em>\u00a0n. 23.<\/p>\n<p><sup>[110]<\/sup>\u00a0Francisco, Carta enc.\u00a0<em>Fratelli tutti\u00a0<\/em>(3 de outubro de 2020), n. 42:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a0112 (2020), 984.<\/p>\n<p><sup>[111]<\/sup>\u00a0Francisco, Carta enc.\u00a0<em>Fratelli tutti\u00a0<\/em>(3 de outubro de 2020), n. 205:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a0112 (2020), 1042, que cita Id.,\u00a0<em>Mensagem para a 48<sup>a<\/sup>\u00a0Jornada mundial das Comunica\u00e7\u00f5es Sociais\u00a0<\/em>(24 de janeiro de 2014):\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a0106 (2014), 113.<\/p>\n<p><sup>[112]<\/sup>\u00a0Francisco,\u00a0<em>Angelus\u00a0<\/em>(10 de dezembro de 2023):\u00a0<em>L\u2019Osservatore Romano<\/em>\u00a0(11 de dezembro de 2023), 12.<\/p>\n<p><sup>[113]<\/sup>\u00a0Cf. Comiss\u00e3o Teol\u00f3gica Internacional,\u00a0<em>Dignidade e direitos da pessoa humana<\/em>\u00a0(1983), n. 2.<\/p>\n<p><sup>[114]<\/sup>\u00a0Francisco, Carta enc.\u00a0<em>Fratelli tutti\u00a0<\/em>(3 de outubro de 2020), n. 195:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a0112 (2020), 1038, que cita Id., Exort. ap.\u00a0<em>Evangelii gaudium\u00a0<\/em>(24 de novembro de 2013), n. 274:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a0105 (2013), 1130.<\/p>\n<p><sup>[115]<\/sup>\u00a0Francisco, Carta enc.\u00a0<em>Laudato si\u2019\u00a0<\/em>(24 de maio de 2015), n. 205:\u00a0<em>AAS<\/em>\u00a0107 (2015), 928.<\/p>\n<p>[00588-PO.01] [Texto original: Italiano]<\/p>\n<p>Imagem: Unsplash<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abDignitas infinita\u00bb, do Dicast\u00e9rio para a Doutrina da F\u00e9 aborda tem\u00e1ticas que colocam em causa a dignidade de cada ser 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