{"id":1095235508,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/11959-domingo-vi-do-tempo-comum-habitar-nas-alturas"},"modified":"2025-11-07T16:33:54","modified_gmt":"2025-11-07T16:33:54","slug":"domingo-vi-do-tempo-comum-habitar-nas-alturas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/domingo-vi-do-tempo-comum-habitar-nas-alturas\/","title":{"rendered":"Domingo VI do Tempo Comum: \u00abHabitar nas Alturas\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031.jpg\" \/><\/p>\n<p><p data-adtags-visited=\"true\">Sir 15,16-21; Sl 119; 1 Cor 2,6-10; Mt 5,17-37<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">1. Continuamos a escutar, neste VI Domingo do Tempo Comum, o sublime Discurso da Montanha, hoje as quatro primeiras das famosas \u00abseis ant\u00edteses\u00bb (Mateus 5,17-48), cujos temas s\u00e3o: o homic\u00eddio (1), o adult\u00e9rio (2), o div\u00f3rcio (3), o perj\u00fario (4), a lei de tali\u00e3o (5), o amor ao pr\u00f3ximo (6). Ouviremos ent\u00e3o, neste VI Domingo do Tempo Comum, o sublime dizer de Jesus sobre os primeiros quatro temas: homic\u00eddio, adult\u00e9rio, div\u00f3rcio e perj\u00fario (Mateus 5,17-37), enquanto nos preparamos para ouvir no pr\u00f3ximo Domingo, VII do Tempo Comum, os \u00faltimos dois importantes temas: a lei de tali\u00e3o e o amor que a todos devemos (Mateus 5,38-48).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">2. N\u00e3o nos esque\u00e7amos que continuamos na Montanha, nas alturas, pois h\u00e1 certas maneiras de viver e de sentir que s\u00f3 podem ter o seu\u00a0<em>habitat<\/em>\u00a0nas alturas. O Papa S. Jo\u00e3o Paulo II escreveu na Carta Apost\u00f3lica\u00a0<em>Novo Millennio Ineunte<\/em>\u00a0[2001], n.\u00ba 31, que perguntar a um catec\u00fameno se ele quer receber o batismo \u00e9 o mesmo que perguntar-lhe se ele quer ser santo, e fazer-lhe esta \u00faltima pergunta \u00e9 coloc\u00e1-lo no caminho do Serm\u00e3o da Montanha. E logo a seguir, na mesma Carta e no mesmo n\u00famero, S. Jo\u00e3o Paulo II define a santidade como a \u00ab\u201dmedida alta\u201d da vida crist\u00e3 ordin\u00e1ria\u00bb. \u00c9, portanto, imperioso que o crist\u00e3o aprenda a ganhar altura, n\u00e3o para se separar dos caminhos lamacentos do quotidiano, mas para os encher de um amor maior.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">3. Cada uma das \u00abseis ant\u00edteses\u00bb abre com as palavras de Jesus: \u00abOuvistes o que foi dito [\u2026]; por\u00e9m, eu digo-vos\u00bb, fazendo-nos compreender, com o uso desta locu\u00e7\u00e3o, que fala com a autoridade de Deus. Em termos formais, Jesus usa a t\u00e9cnica de contraponto, e n\u00e3o quer que se desperdice nada do Antigo Testamento; quer antes ench\u00ea-lo (<em>pl\u00ear\u00f3\u00f4<\/em>), levar quanto a\u00ed \u00e9 dito, que \u00e9 Palavra de Deus, ao seu ponto mais fundo e mais alto. Por exemplo, quando ouvimos o que foi dito: \u00abN\u00e3o matar\u00e1s!\u00bb (Mateus 5,21), para cumprirmos este mandamento, n\u00e3o basta determo-nos no limiar do assass\u00ednio, como manda a letra, de acordo com uma leitura literalista e legalista da Palavra de Deus. \u00c9 preciso ir mais fundo e mais alto: mondar todas as ra\u00edzes da ira, do ci\u00fame, da inveja, do \u00f3dio, desprezo e desamor, e encher todos os regos e cicatrizes de mais amor, mais amor, mais amor, s\u00f3 amor. N\u00e3o se trata apenas de travar a fundo no \u00faltimo momento, evitando o acidente; trata-se de viver permanentemente a nova cultura do amor. Neste sentido, escreve S. Jo\u00e3o, com ponta fina de diamante, n\u00e3o na pedra ou no papiro ou no papel, mas no nosso cora\u00e7\u00e3o meio embotado e engessado: \u00abQuem n\u00e3o ama o seu irm\u00e3o, \u00e9 homicida\u00bb (1 Jo\u00e3o 3,15).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">4. \u00abN\u00e3o matar\u00e1s!\u00bb. Palavra fort\u00edssima e de extrema mansid\u00e3o, inscrita no Rosto ou viso nu do Outro, de qualquer outro, pobre e nu e senhor, pobre porque nu, e senhor porque pobre e nu, que de improviso te visita e te elege, e te ordena, de forma imperativa e n\u00e3o optativa [soa: \u00abN\u00e3o me matar\u00e1s!\u00bb, e n\u00e3o: \u00abse quiseres, podes n\u00e3o me matar!\u00bb], entregando-te uma palavra que \u00e9 um mandamento, que n\u00e3o te deixa em estado de decis\u00e3o, que n\u00e3o se dirige, portanto, \u00e0 tua liberdade de escolha, mas \u00e0 tua responsabilidade, pois te manda responder a ele e por ele, pela sua vida, resposta que n\u00e3o podes adiar nem delegar. Na verdade, foi a ti que ele elegeu, \u00e9 a ti que ele dirige o seu mandamento: \u00abN\u00e3o matar\u00e1s!\u00bb, obrigando-te, portanto, a responder, e n\u00e3o te dando a possibilidade de n\u00e3o responder. Reclama a tua responsabilidade: por muito que te custe compreender, trata-se de uma responsabilidade anterior \u00e0 liberdade! Coisa simples, que s\u00f3 n\u00e3o compreendes se n\u00e3o quiseres. \u00c9 o \u201cbom dia\u201d antes do\u00a0<em>cogito<\/em>. Devemos estar atentos, porque o rosto pobre e nu do outro \u00e9 o \u00fanico soberano que existe. Pode estar em coma \u00e0 beira da estrada, na soleira da tua porta, na cama de um hospital. N\u00e3o tem nenhum poder (n\u00e3o te aponta uma arma, n\u00e3o tem dinheiro para te seduzir ou para te pagar\u2026), e, todavia, obriga-te, sem te obrigar, a debru\u00e7ares-te sobre ele. Quando d\u00e1s por ti, est\u00e1s debru\u00e7ado sobre ele a prestar-lhe todos os cuidados. V\u00eas, ent\u00e3o, como ele \u00e9 soberano? \u00c9 o \u00fanico que te pode libertar dos cadeados da tua\u00a0<em>Sinngebung<\/em>\u00a0(da tua capacidade de produ\u00e7\u00e3o de sentido subjetivo). Os que t\u00eam espingardas e dinheiro, na verdade, pouco podem fazer por ti: apenas te podem escravizar! N\u00e3o te podem libertar! S\u00e3o tiranos e prepotentes. N\u00e3o s\u00e3o soberanos! Seguem as leis da natureza. N\u00e3o sabem fazer milagres!<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">5. E assim tamb\u00e9m o adult\u00e9rio, o div\u00f3rcio, o perj\u00fario. Qualquer destes pontos representa o fim de um amor, que \u00e9 sempre um acontecimento dram\u00e1tico. Veja-se atentamente, neste mundo cinzento e ins\u00edpido, sem sol e sem sal, em que vivemos, o drama imenso que cada div\u00f3rcio comporta. Digo-o em termos de sociedade e de humanidade. E o estranho \u00e9 que, no meio deste nevoeiro de \u00abcompromissos enlatados\u00bb ou \u00abrela\u00e7\u00f5es de bolso\u00bb, ainda haja gente perversa ou simplesmente imersa na piscina da banalidade a contar os div\u00f3rcios com imensa vol\u00fapia, pensando de forma sarc\u00e1stica e mordaz que \u00e9 a Igreja Cat\u00f3lica que est\u00e1 em perda e a afundar-se. Nem imaginam que o terreno tamb\u00e9m lhes est\u00e1 a fugir de debaixo dos p\u00e9s! Mas, para encher de sentido o \u00abpor\u00e9m, eu digo-vos\u00bb de Jesus sobre estes pontos precisos, tamb\u00e9m n\u00e3o basta viver uma vida cinzenta e mentirosa e evitar em cima da linha chegar ao adult\u00e9rio, ao div\u00f3rcio ou ao perj\u00fario. \u00c9 necess\u00e1rio encher a vida inteira de amor, de mais amor, s\u00f3 de amor. \u00c9 preciso verificar tudo o que est\u00e1 antes da a\u00e7\u00e3o m\u00e1 que estamos para fazer. \u00c9 f\u00e1cil de ver que n\u00e3o basta, no limite, \u00abcortar a m\u00e3o direita\u00bb ou \u00abarrancar o olho direito\u00bb. J\u00e1 se sabe que estas express\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o para tomar \u00e0 letra. Na verdade, n\u00e3o \u00e9 o olho que peca, mas o homem. E mesmo que se arrancasse o olho, bem sabemos que ainda l\u00e1 ficam a imagina\u00e7\u00e3o, a fantasia e a doentia vontade do homem.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">6. Para todas as situa\u00e7\u00f5es de desentendimento, Jesus prop\u00f5e, n\u00e3o apenas que se impe\u00e7a que se chegue a fazer mal a algu\u00e9m, mas que por todos os meios e modos, primeiro, primeiro, primeiro (<em>pr\u00f4ton<\/em>), se chegue \u00e0 \u00abreconcilia\u00e7\u00e3o\u00bb (<em>diall\u00e1ss\u00f4<\/em>). Jesus v\u00ea aqui um rem\u00e9dio ou um \u00absal\u00bb t\u00e3o importante que, por causa dele, \u00e9 l\u00edcito interromper o pr\u00f3prio culto a Deus (Mateus 5,24). A reconcilia\u00e7\u00e3o aparece como uma condi\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel para se poder prestar culto a Deus. E nem \u00e9 preciso que saibas e sintas que \u00e9s tu que tens alguma coisa contra o teu irm\u00e3o. Basta que te recordes que \u00abo teu irm\u00e3o tem alguma coisa contra ti\u00bb (Mateus 5,23). Mesmo que penses que \u00e9 o teu irm\u00e3o que tem alguma coisa contra ti, n\u00e3o podes pensar que n\u00e3o \u00e9 nada contigo. Tens de te p\u00f4r a caminho para sanar a situa\u00e7\u00e3o. J\u00e1 se sabe que este comportamento passa por cima dos c\u00f3digos de boas maneiras. Mas o Evangelho requer de ti esta atitude, e n\u00e3o te deixa ficar tranquilamente \u00e0 espera. Por aqui se v\u00ea que \u00e9 requerido um paladar apurado e uma sensibilidade afinad\u00edssima nas nossas rela\u00e7\u00f5es fraternas para nos apercebermos quando alguma coisa n\u00e3o est\u00e1 bem. N\u00e3o se fala sequer de haver culpas. O que aparece como decisivo e necess\u00e1rio \u00e9 estarmos em fraternas rela\u00e7\u00f5es com os irm\u00e3os, para nos podermos aproximar de Deus. Compreende-se a prioridade de Jesus neste relacionamento fraterno, pois, se este n\u00e3o estiver assegurado, como \u00e9 que podemos ainda voltar-nos para Deus, Nosso Pai, e rezar em boa consci\u00eancia a ora\u00e7\u00e3o do \u00abPai Nosso\u00bb, que est\u00e1 no centro do Serm\u00e3o da Montanha, isto \u00e9, no cora\u00e7\u00e3o dos ensinamentos de Jesus? Sim, \u00e9 \u00f3bvio que, para rezarmos com verdade a Deus, a quem Jesus nos ensina a chamar, n\u00e3o apenas Pai, mas \u00abPai Nosso\u00bb, precisamos mesmo de estar em fraterna sintonia com todos os nossos irm\u00e3os. Se assim n\u00e3o for, \u00e9 claro que a nossa ora\u00e7\u00e3o \u00e9 mentirosa e o nosso culto vazio. V\u00ea-se que \u00e9 preciso p\u00f4r sal na vida, n\u00e3o deixar que o nosso cora\u00e7\u00e3o se torne pesado e ins\u00edpido, para que possamos permanecer no cimo da Montanha, e nos deixemos deslumbrar, como as multid\u00f5es, com este nov\u00edssimo, em conte\u00fado e m\u00e9todo, ensinamento de Jesus (Mateus 7,28-29).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">7. O belo Livro de Jesus Ben-Sira, de que hoje recebemos a deliciosa li\u00e7\u00e3o de 15,16-21, lembra-nos que os mandamentos de Deus est\u00e3o sempre cheios apenas de bondade. Serve essa fort\u00edssima afirma\u00e7\u00e3o para nos advertir que a nenhum de n\u00f3s foi dada licen\u00e7a para pecar, nem sequer para produzirmos coisas v\u00e3s e ocas, sem ponta de sal ou de sentido. Vale ainda saber que este livro delicioso, de tom edificante, ter\u00e1 sido escrito por Jesus Ben-Sira em hebraico no primeiro quartel do s\u00e9culo II a.C., a\u00ed por volta dos anos 180-175, tendo sido depois lido e muito apreciado por um seu neto, no Egito, parece que no ano 132 a.C. Tanto o neto apreciou o texto do seu av\u00f4, que resolveu traduzi-lo para grego, para possibilitar que muitos outros o pudessem ler tamb\u00e9m com proveito. Bela tamb\u00e9m esta liga\u00e7\u00e3o entre as gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">8. S. Paulo fala-nos na li\u00e7\u00e3o de hoje da Primeira Carta aos Cor\u00edntios (2,6-10) da Sabedoria de Deus. E lembra-nos que a Sabedoria de Deus n\u00e3o est\u00e1 \u00e0 venda em nenhum mercado deste mundo, nem est\u00e1 na posse dos senhores deste mundo. E precisa ainda que a sabedoria dos senhores deste mundo, que \u00e9 sempre a sabedoria orgulhosa e arrogante que nos pode fazer senhores do mundo, mas nos conduz sempre fatalmente para a ru\u00edna. A verdadeira sabedoria, a de Deus, \u00e9 depositada no nosso cora\u00e7\u00e3o pelo Esp\u00edrito de Deus, dando-nos assim acesso, por gra\u00e7a, \u00e0s insond\u00e1veis riquezas divinas que Deus, desde sempre, tem preparadas para n\u00f3s. Em vez da ru\u00edna, fica aberta diante de n\u00f3s uma maneira nova de viver e de morrer. Chama-se santidade, \u00abmedida alta\u00bb da vida crist\u00e3 ordin\u00e1ria.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">9. \u00c0 nossa frente est\u00e3o sempre os caminhos do Senhor, que devemos calcorrear com alegria e felicidade recebida e dada, enquanto cantamos a imensa partitura do Salmo 119, admir\u00e1vel composi\u00e7\u00e3o de 1064 palavras hebraicas reunidas, repartidas, repetidas, entretecidas e entretidas \u00e0 volta da Palavra de Deus que alumia a nossa vida. O grande pensador franc\u00eas Blaise Pascal (1623-1662), de quem o Papa Francisco j\u00e1 anunciou querer abrir o processo de beatifica\u00e7\u00e3o, recitava este Salmo todos os dias.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sir 15,16-21; Sl 119; 1 Cor 2,6-10; Mt 5,17-37 1. 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