{"id":1120204989,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/7613-iii-domingo-do-tempo-comum-quando-deus-vem-ve-e-chama"},"modified":"2025-11-07T16:33:11","modified_gmt":"2025-11-07T16:33:11","slug":"iii-domingo-do-tempo-comum-quando-deus-vem-ve-e-chama","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/iii-domingo-do-tempo-comum-quando-deus-vem-ve-e-chama\/","title":{"rendered":"III Domingo do Tempo Comum: \u00abQuando Deus vem, v\u00ea, e chama&#8230;\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031_160503044443.jpg\" \/><\/p>\n<p><p>1. Neste Domingo III do Tempo Comum \u00e9-nos dada a gra\u00e7a de escutar o Evangelho de Marcos 1,14-20. N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que Jesus surge em cena. J\u00e1 o t\u00ednhamos contemplado a dirigir-se da Galileia para o Rio Jord\u00e3o, para ser batizado por Jo\u00e3o Batista (Marcos 1,9). Mas ainda n\u00e3o t\u00ednhamos ouvido a sua voz. Ouvimo-la agora pela primeira vez. Ser\u00e3o, portanto, dizeres importantes e program\u00e1ticos.<\/p>\n<p>2. Mas antes de ouvirmos, pela primeira vez, a voz de Jesus, anotemos desde j\u00e1 dois not\u00e1veis dizeres do narrador, que atravessam em filigrana o inteiro Evangelho de Marcos, unindo os caminhos e os destinos de Jo\u00e3o Batista, de Jesus e dos seus disc\u00edpulos. O primeiro \u00e9 este: \u00abDepois de Jo\u00e3o\u00a0<em>ter sido entregue<\/em>\u00a0(<em>paradoth\u00eanai<\/em>: inf. aor. pass. de\u00a0<em>parad\u00edd\u00f4mi<\/em>)\u00bb (Marcos 1,14). Trata-se de uma prolepse, que serve para ver j\u00e1 o que ir\u00e1 suceder a Jesus, acerca de quem o verbo ser\u00e1 usado 13 vezes (Marcos 3,19; 9,31; 10,33; 14,10.11.18.21.41.42.44; 15,1.10.15), e aos seus disc\u00edpulos (Marcos 13,9.11.12). O segundo \u00e9 o uso do verbo\u00a0<em>anunciar<\/em>(<em>k\u00ear\u00fdss\u00f4<\/em>) para traduzir o afazer primeiro de Jesus (Marcos 1,14). E, mais uma vez, este verbo \u00e9 um fio condutor que une Jesus (Marcos 1,14.38.39), Jo\u00e3o Batista (Marcos 1,4.7), os Doze (Marcos 3,14; 6,12), algumas pessoas curadas por Jesus (Marcos 1,45; 5,20; 7,36) e a Igreja de Jesus (Marcos 13,10; 14,9). Mas o verbo grego k\u00ear\u00fdss\u00f4 (anunciar), antes de nos fazer dizer ou escutar mensagens, implica radical fidelidade do anunciador ou mensageiro em rela\u00e7\u00e3o a quem lhe confia a mensagem e o envia a anunci\u00e1-la. Fica, portanto, claro que, antes de pregar, ensinar e curar, Jesus, os seus disc\u00edpulos, a sua Igreja, s\u00e3o mensageiros fi\u00e9is, sempre vinculados a Deus, e a sua primeira miss\u00e3o \u00e9 testemunhar esta proximidade e compromisso. E percebe-se agora bem o conte\u00fado da mensagem: \u00abO Evangelho de Deus\u00bb (Marcos 1,14). Sem equ\u00edvocos ent\u00e3o: a primeira coisa que fica expressa com esta linguagem, \u00e9 que Jesus, o seu precursor (Jo\u00e3o Batista) e seguidores (disc\u00edpulos), se apresentam completamente vinculados a Deus e ao seu Evangelho [= \u00abNot\u00edcia Feliz\u00bb], vivem de Deus e da Sua Not\u00edcia Boa, n\u00e3o agem por conta pr\u00f3pria, n\u00e3o s\u00e3o emissores da sua pr\u00f3pria sabedoria ou opini\u00e3o.<\/p>\n<p>3. E a\u00ed est\u00e1 ent\u00e3o o primeiro dizer de Jesus, articulado em duas declara\u00e7\u00f5es insepar\u00e1veis: \u00abFoi cumprido (<em>pepl\u00earotai<\/em>: perf. pass. de\u00a0<em>pl\u00ear\u00f3\u00f4<\/em>) o tempo (<em>ho kair\u00f3s<\/em>),\/ e fez-se pr\u00f3ximo (<em>\u00eaggiken<\/em>: perf. de\u00a0<em>egg\u00edz\u00f4<\/em>) o Reino de Deus (<em>he basile\u00eda to\u00fb theo\u00fb<\/em>)\u00bb (Marcos 1,15). O acento cai sobre os dois perfeitos que abrem enfaticamente as declara\u00e7\u00f5es, e revelam que o Evangelho \u00e9 em primeiro lugar o an\u00fancio da inciativa divina, Deus em a\u00e7\u00e3o, que abre ao homem novas e belas perspectivas. O perfeito passivo (<em>pepl\u00earotai<\/em>), que qualifica o\u00a0<em>kair\u00f3s<\/em>, indica bem que Jesus n\u00e3o se refere a qualquer segmento de tempo cronol\u00f3gico, mas \u00e0quele espec\u00edfico do cumprimento, posto expressamente sob a interven\u00e7\u00e3o definitiva de Deus. S\u00f3 Deus pode agir sobre o tempo cronol\u00f3gico, tornando-o\u00a0<em>kair\u00f3s<\/em>, tempo gr\u00e1vido de alegria e de esperan\u00e7a. Uma vez mais, o an\u00fancio precede a ordem: Jesus n\u00e3o come\u00e7a com normas e exig\u00eancias, mas assinala quanto Deus j\u00e1 fez e est\u00e1 a fazer, por sua gratuita iniciativa, em nosso favor. S\u00f3 depois, e como normal consequ\u00eancia, surgem na boca de Jesus dois imperativos: \u00abConvertei-vos\u00bb (<em>matanoe\u00eete<\/em>) e acreditai (<em>piste\u00faete<\/em>) no Evangelho\u00bb (Marcos 1,15), que traduzem o que compete aos homens fazer. Jesus n\u00e3o \u00e9 um moralista, mas um Evangelizador.<\/p>\n<p>4. Vem logo, para n\u00e3o se afastar da fonte, o tempo de chamar, de romper amarras, de \u00abir atr\u00e1s de\u00bb (Marcos 1,16-20). Mas tudo come\u00e7a ainda com o\u00a0<em>ver<\/em>\u00a0e o\u00a0<em>fazer<\/em>\u00a0primeiros e criadores de Jesus. Jesus\u00a0<em>viu<\/em>\u00a0Sim\u00e3o e Andr\u00e9, Tiago e Jo\u00e3o, e chamou-os: \u00abVinde atr\u00e1s de mim, e\u00a0<em>farei<\/em>\u00a0de v\u00f3s\u2026\u00bb. \u00c9 o ver e o fazer do Criador (G\u00e9nesis 1). Est\u00e1 em cena um verdadeiro chamamento de Jesus. \u00c9 dele toda a iniciativa. N\u00e3o s\u00e3o os disc\u00edpulos que se apresentam a Jesus, pedindo trabalho. E n\u00e3o \u00e9 como colaboradores, com remunera\u00e7\u00e3o e f\u00e9rias asseguradas, que Jesus os assume. Jesus apenas v\u00ea e chama. Espanta aquele \u00abimediatamente\u00bb deixaram\u2026 e foram \u00abatr\u00e1s de\u00bb Jesus. Sem retic\u00eancias nem calculismos. E nem sequer sabem onde os conduzir\u00e1 o caminho em que agora entram. Confian\u00e7a total em Jesus.<\/p>\n<p>5. Perante o que nos \u00e9 dado ver, uma primeira pergunta nos assalta, irrompendo sobre n\u00f3s como uma onda s\u00fabita: Quem pode dar uma ordem assim? Mas, ainda antes de esbo\u00e7armos a resposta, j\u00e1 uma segunda vaga, que tempera a primeira, cai sobre n\u00f3s: Quem merece uma tal confian\u00e7a?<\/p>\n<p>6. Temos hoje a gra\u00e7a de ouvir um bocadinho da profecia de Jonas e dos trejeitos que o chamamento de Deus desencadeia na sua vida (3,1-5.10). \u00abJonas, o hebreu\u00bb (Jonas 1,9), bem ouve o chamamento e a ordem de Deus para ir pregar contra N\u00ednive, a cidade inimiga (Jonas 1,1-2). \u00c0 primeira vista, devia Jonas levar por diante a sua miss\u00e3o com prazer, pois tratava-se de ir dizer \u00e0 cidade inimiga que Deus tinha decretado o seu fim. Mas Jonas n\u00e3o quer ir, e n\u00e3o \u00e9 por sentir piedade de N\u00ednive. Bem pelo contr\u00e1rio. Jonas sabe que Deus \u00e9 um Deus gracioso e misericordioso (<em>hann\u00fbn w<sup>e<\/sup>rah\u00fbm<\/em>), que se arrepende do mal (Jonas 4,2). E Jonas sabe tamb\u00e9m que, indo dizer a N\u00ednive: \u00abAinda quarenta dias e N\u00ednive ser\u00e1 destru\u00edda\u00bb (Jonas 3,4), os habitantes de N\u00ednive mudar\u00e3o a sua vida, o que levar\u00e1 Deus a mudar tamb\u00e9m o seu plano e a n\u00e3o destruir a cidade. \u00c9 porque sabe tudo isto e quer mesmo que N\u00ednive seja castigada, que Jonas n\u00e3o quer ir l\u00e1 pregar. Na verdade, apanha, no porto de Jafa, um navio que vai para T\u00e1rsis, para ocidente e n\u00e3o para oriente, para fugir de Deus e da miss\u00e3o que Deus lhe confiou (Jonas 1,3). Mas Deus \u00e9 mais forte, e Jonas acaba, por vias travessas, por ir parar a N\u00ednive. \u00c9 a contragosto que prega. E quando verifica que os ninivitas se converteram, o que ele j\u00e1 sabia que iria acontecer, e que Deus tamb\u00e9m amava N\u00ednive, Jonas foi tomado por grande desgosto (Jonas 4,1), e pede mesmo a Deus que lhe d\u00ea a morte (Jonas 4,3), pois a vida assim deixou de ter sentido.<\/p>\n<p>7. Vendo melhor as coisas, \u00abJonas, o hebreu\u00bb, est\u00e1 com certeza na viragem do s\u00e9culo V para o s\u00e9culo IV, \u00e9poca de Esdras, que manda dissolver os matrim\u00f3nios mistos contra\u00eddos pelos exilados durante o Ex\u00edlio ou ap\u00f3s o regresso a Si\u00e3o (Esdras 10; cf. Deuteron\u00f3mio 7,3). Com esta medida, que deve ter tido um enorme impacto na consci\u00eancia judaica, os conservadores como que cancelavam da sua hist\u00f3ria o catastr\u00f3fico epis\u00f3dio do Ex\u00edlio, lan\u00e7ando uma ponte que ligava a nova \u00e9poca judaica directamente ao antes do Ex\u00edlio. A personagem Jonas incarna bem este Israel particularista e m\u00edope, ao contr\u00e1rio do autor do Livro, que testemunha admiravelmente um universalismo salv\u00edfico pr\u00f3ximo j\u00e1 do esp\u00edrito do NT. Jonas representa o juda\u00edsmo fechado, que pensa que se salvar\u00e1, fechando-se sobre si mesmo. Esta tenta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m afeta a Igreja, e tamb\u00e9m a n\u00f3s, de tempos a tempos. \u00c0s vezes s\u00f3 vemos inimigos ao redor, e amuralhamo-nos. Vistas as coisas do lado de um Deus que ama a todos, s\u00f3 nos \u00e9 permitido abrir todas as portas e a todos escancarar o cora\u00e7\u00e3o. Um cora\u00e7\u00e3o inquinado asfixia e morre.<\/p>\n<p>8. A li\u00e7\u00e3o do Ap\u00f3stolo \u00e9 hoje breve e intensa (1 Cor\u00edntios 7,29-31). S\u00e3o Paulo come\u00e7a por dizer, em tradu\u00e7\u00e3o literal: \u00abO tempo (<em>ho kair\u00f3s<\/em>) j\u00e1 est\u00e1 a enrolar as velas (<em>synestalm\u00e9nos<\/em>: perf. pass. de\u00a0<em>sy(v)-st\u00e9ll\u00f4<\/em>)\u00bb (1 Cor\u00edntios 7,29). Entenda-se: o tempo da oportunidade dada, da enchente da Palavra de Deus por n\u00f3s j\u00e1 respondida ou ainda n\u00e3o, est\u00e1 a chegar ao fim; j\u00e1 est\u00e1 a enrolar as velas, como fazem os marinheiros quando a embarca\u00e7\u00e3o se aproxima da terra. E termina, afirmando: \u00abPassa, na verdade, o esquema (<em>t\u00f2 sch\u00eama<\/em>) deste mundo\u00bb (1 Cor\u00edntios 7,31). Bem entendido: \u00abO (filme) que passa na tela \u00e9 este mundo!\u00bb. Se assim \u00e9, devemos aprender a saber relativizar a maneira como habitualmente nos agarramos \u00e0s nossas ideias feitas e \u00e0s coisas deste mundo, desde o casamento, aos bens possu\u00eddos, aos neg\u00f3cios, aos curr\u00edculos, aos primeiros lugares. Grande li\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo em 1 Cor\u00edntios 7,29-31. A nossa voca\u00e7\u00e3o traduz-se na ades\u00e3o ao \u00daltimo, que reclama o desprendimento do pen\u00faltimo e um amor desmedido.<\/p>\n<p>9. O Salmo 25, que hoje fica a ecoar no nosso pobre cora\u00e7\u00e3o, mostra-nos um fino e delicado jogo de olhares entre o orante fiel e um Deus sensibil\u00edssimo, que olha para n\u00f3s sempre com ternura paternal, ref\u00fagio permanente para os pobres e pecadores. Deixo aqui a ressoar as palavras da grande m\u00edstica mu\u00e7ulmana do s\u00e9culo VIII, Rabi?a, que viveu em Bassor\u00e1, no Iraque, e que, para responder \u00e0 pergunta: \u00abComo chegaste a um grau t\u00e3o elevado na vida espiritual?\u00bb, respondeu: \u00abRepetindo ininterruptamente: \u201cMeu Deus, refugio-me em ti para me defender de tudo o que me distrai de ti, e de todo o obst\u00e1culo que se interp\u00f5e entre mim e ti\u201d\u00bb (<em>I detti di Rabi?a<\/em>, IV).<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Jesus \u00e9 Deus que desce ao nosso mundo,<\/p>\n<p>Caminha pelas nossas estradas,<\/p>\n<p>Percorre as nossas praias,<\/p>\n<p>Visita as nossas casas,<\/p>\n<p>Vem ter connosco aos nossos lugares de trabalho.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Jesus \u00e9 Deus que passa, ama e chama.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o nos chama a responder a um inqu\u00e9rito,<\/p>\n<p>A preencher uma ficha,<\/p>\n<p>Responder a uma entrevista,<\/p>\n<p>Fazer uma inscri\u00e7\u00e3o,<\/p>\n<p>Pagar a matr\u00edcula,<\/p>\n<p>Aprender uma doutrina.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 como os escribas que Jesus ensina ou examina.<\/p>\n<p>Nem sequer nos entrega um projeto de vida,<\/p>\n<p>Uns apontamentos, um gui\u00e3o, caneta, tinta, mata-borr\u00e3o.<\/p>\n<p>Chama-nos apenas a segui-lo no caminho:<\/p>\n<p>\u00abVinde atr\u00e1s de Mim!\u00bb,<\/p>\n<p>E partilha logo connosco a sua vida toda,<\/p>\n<p>Como uma boda.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>N\u00e3o nos p\u00f5e primeiro a fazer um teste,<\/p>\n<p>N\u00e3o nos ama nem chama \u00e0 condi\u00e7\u00e3o,<\/p>\n<p>N\u00e3o tem lista de espera,<\/p>\n<p>N\u00e3o nos p\u00f5e num est\u00e1gio,<\/p>\n<p>Num estado,<\/p>\n<p>Num estrado,<\/p>\n<p>Numa estante,<\/p>\n<p>Mas num caminho!<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>E um dia mais tarde,<\/p>\n<p>Ouvi-lo-emos dizer ainda: \u00abIde!\u00bb.<\/p>\n<p>\u00c9 sempre no caminho que nos deixa.<\/p>\n<p>Nunca se desleixa,<\/p>\n<p>N\u00e3o apresenta queixa,<\/p>\n<p>N\u00e3o paga ao fim do m\u00eas,<\/p>\n<p>Pede e d\u00e1 tudo de uma vez.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Vem, Senhor Jesus!<\/p>\n<p>Vem e ama!<\/p>\n<p>Vem e chama por mim outra vez!<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. 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