{"id":1123124035,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/12444-domingo-xxiv-do-tempo-comum-o-perdao-e-sem-medida-"},"modified":"2025-11-07T16:33:57","modified_gmt":"2025-11-07T16:33:57","slug":"domingo-xxiv-do-tempo-comum-o-perdao-e-sem-medida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/domingo-xxiv-do-tempo-comum-o-perdao-e-sem-medida\/","title":{"rendered":"Domingo XXIV do Tempo Comum: \u00abO Perd\u00e3o e sem medida\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031.jpg\" \/><\/p>\n<p><p data-adtags-visited=\"true\">Sir 27,33-28,9; Sl 103; Rm 14,7-8; Mt 18,21-35<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">1. Neste Domingo XXIV do Tempo Comum, continuamos a bra\u00e7os com o Discurso Eclesial de Jesus, iniciado no passado Domingo com oportunas e incisivas instru\u00e7\u00f5es sobre a corre\u00e7\u00e3o fraterna (Mateus 18,15-20). O resto do Discurso \u00e9 servido hoje a Pedro e a todos n\u00f3s (Mateus 18,21-35). Prevenimos o leitor ou o ouvinte que o Discurso \u00e9 suficientemente demolidor, capaz de, se atentamente o recebermos, provocar em n\u00f3s o maior terramoto da hist\u00f3ria, deixando \u00e0s claras a radical insufici\u00eancia da nossa programa\u00e7\u00e3o para enfrentar t\u00e3o gigantesca onda de perd\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">2. Est\u00e3o-nos no sangue as letras da vingan\u00e7a. Aprendemos bastante bem e depressa com Lamec o chamado \u00abC\u00e2ntico da Espada\u00bb: \u00abCaim ser\u00e1 vingado sete vezes, mas Lamec setenta vezes sete!\u00bb (G\u00e9nesis 4,24), feitas as contas, 490 vezes, maneira idiom\u00e1tica de expressar uma enormidade. Face a esta barbaridade desmedida, a chamada \u00abLei de Tali\u00e3o\u00bb, do latim\u00a0<em>talio<\/em>,\u00a0<em>talis<\/em>\u00a0[= tal, igual] ou\u00a0<em>ius talionis<\/em>\u00a0[= lei do corte ou contus\u00e3o], aparece assim formulada no Livro do \u00caxodo: \u00abvida por vida, olho por olho, dente por dente, m\u00e3o por m\u00e3o, p\u00e9 por p\u00e9, queimadura por queimadura, ferida por ferida, contus\u00e3o por contus\u00e3o\u00bb (\u00caxodo 21,24-25). Formula\u00e7\u00e3o semelhante desta Lei j\u00e1 se encontra, de resto, nos par\u00e1grafos 196 e 197 do famoso c\u00f3digo de Hammurabi, que remonta mais ou menos a 1700 anos antes de Cristo. E, ao contr\u00e1rio do que se diz habitualmente, a \u00abLei de Tali\u00e3o\u00bb n\u00e3o representa a barbaridade, mas um enorme progresso civilizacional, pois assenta, n\u00e3o na multiplica\u00e7\u00e3o desenfreada da vingan\u00e7a e da viol\u00eancia, mas na sua conten\u00e7\u00e3o, pois condena o agressor a receber apenas san\u00e7\u00e3o igual \u00e0quela que ele provocou \u00e0 v\u00edtima. Mas Jesus derruba uma e outra mesa, nem a vingan\u00e7a desenfreada nem a pura igualdade de tratamento, para nos brindar com a desmesura do Perd\u00e3o, sempre gratuito, excessivo, extravagante, e sempre sem motiva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">3. \u00abSenhor, at\u00e9 quantas vezes devo perdoar ao meu irm\u00e3o? At\u00e9 sete?\u00bb, pergunta Pedro a Jesus (Mateus 18,21), com certeza com uma ponta de vaidade, dado que, as conven\u00e7\u00f5es da altura propunham tr\u00eas vezes como limite do razo\u00e1vel para o exerc\u00edcio do perd\u00e3o. \u00abN\u00e3o te digo at\u00e9 sete, mas at\u00e9 setenta vezes sete!\u00bb, respondeu Jesus (Mateus 18,22). Nota-se, sem dificuldade, que Jesus retoma, mas reverte, da vingan\u00e7a para o perd\u00e3o, a estrat\u00e9gia de Lamec (cf. G\u00e9nesis 4,24), e provoca um desarranjo completo na cabe\u00e7a de Pedro, e na nossa. O Perd\u00e3o, segundo Jesus, n\u00e3o se faz a contar pelos dedos, nem sequer pela m\u00e1quina de calcular. Se algu\u00e9m se prop\u00f5e perdoar, e se p\u00f5e a fazer contas, ainda que \u201cgenerosamente\u201d, estar\u00e1 certamente a fazer qualquer coisa, mas n\u00e3o est\u00e1 a perdoar! \u00c9 que, segundo ensina Jesus, o Perd\u00e3o faz-se sempre e sem condi\u00e7\u00e3o. A ora\u00e7\u00e3o do \u00abPai Nosso\u00bb, tal como a encontramos formulada no Evangelho de Mateus, comp\u00f5e-se de uma s\u00e9rie de sete pedidos, todos dirigidos a Deus. Este procedimento s\u00f3 por uma vez \u00e9 interrompido, para se p\u00f4r em realce o nosso comportamento: \u00abComo tamb\u00e9m n\u00f3s\u00a0<em>j\u00e1 perdo\u00e1mos<\/em>\u00a0(<em>aph\u00eakamen<\/em>: aor. de\u00a0<em>aph\u00ed\u00eami<\/em>) aos nossos devedores\u00bb (Mateus 6,12). Note-se bem que o verbo que designa o perd\u00e3o por n\u00f3s efetuado se encontra, n\u00e3o no presente ou no futuro, mas no passado! Reparemos, portanto, que, no pedido feito a Deus em ordem ao perd\u00e3o das nossas culpas, devemos inserir esta condi\u00e7\u00e3o: que Deus nos perdoe na medida em que n\u00f3s\u00a0<em>j\u00e1 perdo\u00e1mos<\/em>\u00a0aos nossos devedores. O nosso dever de perdoar \u00e9 aqui t\u00e3o salientado, que \u00e9 como se Jesus nos ensinasse a rezar assim: \u00abN\u00e3o nos perdoes, se n\u00f3s ainda n\u00e3o fizemos a nossa parte!\u00bb.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">4. No texto que hoje rompe os nossos ouvidos embotados, Jesus, bom pedagogo, desce ao n\u00edvel de Pedro, e ao nosso. Conta uma hist\u00f3ria absolutamente inveros\u00edmil, para nos prender a aten\u00e7\u00e3o e o cora\u00e7\u00e3o, e suspender a respira\u00e7\u00e3o. \u00c9 mais uma par\u00e1bola do Reino dos C\u00e9us (Mateus 18,23-35). A cena \u00e9 preenchida por um Rei \u2013 v\u00ea-se que \u00e9 Deus \u2013 e pelos seus servos, dado que o Rei [Deus] entende chamar a contas os seus servos. Entenda-se aqui que estes servos n\u00e3o s\u00e3o escravos, mas altos oficiais ao servi\u00e7o do Rei. Estreita-se a cena, e v\u00ea-se agora apenas o Rei e um dos seus servos. Este servo tinha uma d\u00edvida enorme, para com o seu Rei [Deus], contabilizada na soma astron\u00f3mica de 10.000 talentos (Mateus 18,24). Entreveja-se tamb\u00e9m neste extraordin\u00e1rio dizer de Jesus a forma subtil como Ele sabe trazer Deus para uma quest\u00e3o do quotidiano.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">5. O montante \u00e9 colossal. T\u00e3o colossal, que \u00e9 dif\u00edcil de quantificar com exatid\u00e3o. Lembro, para come\u00e7ar, que os estudiosos calculam em cerca de 900 talentos o valor dos impostos anuais que entravam nos cofres de Herodes o Grande (37-4 a.C.). E, ap\u00f3s a sua morte, quando o reino de Herodes foi dividido em quatro em tetrarquias, os impostos anuais da Galileia e da Pereia contavam-se em 200 talentos, sendo de 600 talentos os impostos pagos pela Judeia, Samaria e Idumeia. Ou seja, a d\u00edvida do servo da nossa hist\u00f3ria \u00e9 muito superior ao dinheiro que ent\u00e3o circulava no pa\u00eds inteiro! Mais coisa menos coisa, diz a B\u00edblia de Jerusal\u00e9m de forma equilibrada, os 10.000 talentos equivaleriam a 174 toneladas de ouro! Os estudiosos n\u00e3o est\u00e3o todos de acordo no que se refere ao montante em causa, mas, em geral, at\u00e9 sobem a fasquia. Por exemplo, Richard France, no seu belo e imenso Coment\u00e1rio ao Evangelho de Mateus, sobe o montante para 300 toneladas! Entrando por outro tipo de contabilidade, lembro agora que um talento equivalia a cerca de 6.000 den\u00e1rios, sendo um den\u00e1rio o correspondente a um sal\u00e1rio di\u00e1rio. Avaliados por este crit\u00e9rio, os 10.000 talentos equivaleriam a um montante entre 60 e 100 milh\u00f5es de den\u00e1rios (Vittorio Fusco, Rudolf Schnackenburg, Craig S. Keener, TOB), que o mesmo \u00e9 dizer entre 60 e 100 milh\u00f5es de sal\u00e1rios di\u00e1rios! Ou ainda o correspondente ao sal\u00e1rio de um trabalhador durante um per\u00edodo que oscila entre 200 e 250 mil anos (Craig S. Keener, John Nolland). Esta linguagem hiperb\u00f3lica serve para nos fazer ver a desmedida import\u00e2ncia do Perd\u00e3o, e a riqueza que desbaratamos, sempre que que deixamos de praticar um simples ato de perd\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">6. V\u00ea-se bem que este servo n\u00e3o pode pagar aquela d\u00edvida imensa, a perder de vista. O Rei [Deus] manda que seja vendido ele, a mulher, os filhos e tudo quanto possui, em ordem ao pagamento da d\u00edvida. Aqui o servo pediu ao Rei [Deus] que lhe desse um prazo, e que pagaria tudo. Auge da cena. Ser\u00e1 que o Rei [Deus] d\u00e1 o prazo, ou mostrar-se-\u00e1 impiedoso? Adianto eu: se der o prazo, \u00e9 demasiado l\u00f3gico e sim\u00e9trico, e esta n\u00e3o \u00e9 a medida do Evangelho, que rebenta sempre os nossos mais pensados calculismos. Se n\u00e3o der o prazo, pior ainda, passa por ser um Deus insens\u00edvel e impiedoso, que n\u00e3o sabe nem quer compadecer-se. Eis, ent\u00e3o, a incr\u00edvel e desconcertante resposta de Deus: \u00abVai-te embora; est\u00e1s perdoado!\u00bb (Mateus 18,27).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">7. Entenda-se ent\u00e3o agora o essencial, que est\u00e1 bem patente diante dos nossos olhos: o nosso bom Deus tem diante de si, \u00e0 escolha, duas realidades: 10.000 talentos ou um ato de Perd\u00e3o. S\u00e3o duas realidades, e Deus tem de escolher uma e de renunciar \u00e0 outra. At\u00e9 causa calafrios, e constitui para n\u00f3s uma tremenda provoca\u00e7\u00e3o que Deus abdique daquela montanha de dinheiro e escolha realizar UM ATO DE PERD\u00c3O! A escolha \u00e9, em si, espantosa, mas \u00e9 preciso dar ainda um passo em frente na ordem da compreens\u00e3o. A escolha feita significa que, para Deus e para o Evangelho, um simples ato de Perd\u00e3o vale mais do que 10.000 talentos! F\u00e1cil de entender: se Deus considerasse que 10.000 talentos valiam mais do que um simples ato de Perd\u00e3o, n\u00e3o teria feito aquela troca! E veja-se, no seguimento da hist\u00f3ria, a rapidez com que perdemos a mem\u00f3ria, e como, sem d\u00f3 nem piedade, condenamos um \u00abum servo como n\u00f3s\u00bb ao pagamento, aqui e agora, j\u00e1 e \u00e0 for\u00e7a, de uma bagatela de 100 den\u00e1rios (Mateus 18,28)!<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">8. O Livro de Ben Sira (27,33-28,9) l\u00e1 est\u00e1 hoje tamb\u00e9m a gritar-te ao cora\u00e7\u00e3o: perd\u00e3o, perd\u00e3o, perd\u00e3o! N\u00e3o te deixes encharcar por \u00f3dios, iras e rancores! S\u00e3o v\u00edcios que operam divis\u00f5es no teu cora\u00e7\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o nos teus irm\u00e3os. Estes v\u00edcios destroem e corroem, e levam-te a destruir a vida dos outros e a sentires mesmo prazer nisso. Limpa o matagal e a tra\u00e7a que h\u00e1 em ti. Cultiva o amor e o perd\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">9. E S. Paulo lembra-nos hoje, em duas linhas claras da Carta aos Romanos (14,7-8), que a nossa vida \u00e9 pura gra\u00e7a; que \u00e9, portanto, do Senhor e para o Senhor, como conv\u00e9m a quem pertence ao Senhor. D\u00e1-se muitas vezes o caso que damos por n\u00f3s a pensar s\u00f3 em n\u00f3s, debru\u00e7ados sobre n\u00f3s (o chamado\u00a0<em>amor sui<\/em>), e at\u00e9 utilizando os outros e o mundo, pura\u00a0<em>res extensa<\/em>, sem Sentido preliminar e sem Deus, em nosso \u00fanico proveito, para os fins que temos em vista, pois, assim se pensa, n\u00e3o h\u00e1 nenhum Sentido objetivo e nenhum Senhor no mundo.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">10. O Salmo 103 \u00e9 uma das joias do Antigo Testamento e constitui um grande canto ao amor de Deus, uma esp\u00e9cie de prel\u00fadio ao \u00abDeus \u00e9 amor\u00bb (1 Jo\u00e3o 4,8). Desenrola-se em dois movimentos. O primeiro (v. 1-9) trata o amor e o perd\u00e3o de Deus com sucessivos partic\u00edpios h\u00ednicos, que mostram um Deus que perdoa, cura, redime, coroa de amor e miseric\u00f3rdia, sacia de bem, e uma s\u00e9rie de nomes (justi\u00e7a, d\u00e1 a conhecer, obras, misericordioso, gracioso). O segundo movimento (v. 10-18) p\u00f5e lado a lado o amor permanente de Deus e a nossa humana fraqueza. A linha vertical (c\u00e9u-terra) serve para mostrar a imensid\u00e3o do amor de Deus (v. 11), escrevendo-se na linha horizontal (oriente-ocidente) a grandeza sem medida do seu perd\u00e3o (v. 12). O bel\u00edssimo v. 13 passa a imagem inultrapass\u00e1vel de Deus como um pai com ventre maternal (<em>rehem<\/em>). A fragilidade humana aparece traduzida nas imagens do p\u00f3 (v. 14) e da erva (v. 15-16), em contraponto com a estabilidade do amor de Deus (v. 17). Sem este amor, sem esta m\u00fasica, ser\u00edamos talvez levados melancolicamente a pensar que \u00e9 o mesmo o destino das folhas outonais e dos homens! Deixemos ecoar em n\u00f3s as belas notas deste grande Salmo 103, que alguns autores j\u00e1 chamaram o\u00a0<em>Te Deum<\/em>\u00a0do Antigo Testamento.\u00a0<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">11. Irm\u00e3o, deixa-te tomar pela m\u00fasica nova e excessiva do Perd\u00e3o. Que essa, sim, te encharque at\u00e9 aos ossos, at\u00e9 ao cora\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u00a0<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sir 27,33-28,9; Sl 103; Rm 14,7-8; Mt 18,21-35 1. 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