{"id":1302009109,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/12620-solenidade-de-cristo-rei-o-unico-rei-que-nao-reina-desde-fora"},"modified":"2025-11-07T16:33:58","modified_gmt":"2025-11-07T16:33:58","slug":"solenidade-de-cristo-rei-o-unico-rei-que-nao-reina-desde-fora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/solenidade-de-cristo-rei-o-unico-rei-que-nao-reina-desde-fora\/","title":{"rendered":"Solenidade de Cristo Rei: \u00abO \u00fanico rei que n\u00e3o reina desde fora\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031.jpg\" \/><\/p>\n<p><p data-adtags-visited=\"true\">Ez 34,11-12.15-17; Sl 23; 1 Cor 15,20-26.28; Mt 25,31-46<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">1. A \u00abFesta de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei\u00bb foi institu\u00edda pelo Papa Pio XI, em 11 de Dezembro de 1925, com a Carta Enc\u00edclica\u00a0<em>Quas Primas<\/em>. Os tempos apresentavam-se sombrios e turvos e os c\u00e9us nublados como os de hoje, e Pio XI, homem de a\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 tinha fundado a A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica em 1922, instituiu ent\u00e3o esta Festa com o intuito de promover a milit\u00e2ncia cat\u00f3lica e ajudar a sociedade a revestir-se de valores crist\u00e3os. A Festa de Cristo Rei era ent\u00e3o celebrada no \u00faltimo Domingo de Outubro. A reorganiza\u00e7\u00e3o da Liturgia no p\u00f3s Conc\u00edlio passou esta Festa para o \u00faltimo Domingo do Ano Lit\u00fargico, com o t\u00edtulo de \u00abSolenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo\u00bb. \u00c9 esta Solenidade que hoje celebramos.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">2. \u00abO Senhor Reina\u00bb. \u00c9 assim que, no Antigo Testamento, o Deus b\u00edblico se apresenta em a\u00e7\u00e3o reinando, isto \u00e9, salvando, justificando, perdoando, criando. Na verdade, biblicamente falando, Reinar \u00e9 Salvar, isto \u00e9, trazer o bem-estar, a alegria e a prosperidade ao seu Povo. \u00c9 esta a miss\u00e3o do Rei. Salvar \u00e9 Justificar, o que implica a extraordin\u00e1ria a\u00e7\u00e3o de transformar um pecador em justo. Justificar \u00e9, portanto, Perdoar. Neste profundo sentido b\u00edblico, Justificar e Perdoar s\u00e3o a\u00e7\u00f5es que s\u00f3 Deus pode fazer, dado que transformar um pecador em justo \u00e9 igual a Criar ou Recriar um homem novo. E da a\u00e7\u00e3o de Criar tamb\u00e9m s\u00f3 Deus \u00e9 sujeito em toda a Escritura. J\u00e1 se sabe que o Novo Testamento transforma o ativo \u00abDeus Reina\u00bb no mais abstrato \u00abReino de Deus\u00bb, express\u00e3o que ressoa no Novo Testamento por mais de 160 vezes.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">3. Tanta e quase indescrit\u00edvel riqueza a de um Deus, sentado no seu trono de Luz, mas que Vem, como um Filho do Homem, com o dom\u00ednio novo, fr\u00e1gil e forte, do Amor: \u00abAquele que nos ama\u00bb (Apocalipse 1,5). Da li\u00e7\u00e3o do Livro de Daniel 7,13-14 e respetivo contexto, v\u00ea-se bem que todos os nossos imp\u00e9rios prepotentes e ferozes, por mais fortes que pare\u00e7am, caem face \u00e0 do\u00e7ura da Palavra e da Atitude do Filho do Homem, que dissolve no Amor as nossas raivas e viol\u00eancias, manifesta\u00e7\u00f5es das bestas bravas que nos habitam. O Filho do Homem vence, sem combater, este combate. \u00c9 assim que caem as quatro bestas ferozes que sobem do mar (Daniel 7), s\u00edmbolo da confus\u00e3o e do mal, e que deixar\u00e1 naturalmente de existir (Apocalipse 21,1).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">4. O dom\u00ednio do Filho do Homem que nos ama, o dom\u00ednio do Amor, \u00e9 Primeiro e \u00daltimo (Apocalipse 1,8). Entre o Primeiro e o \u00daltimo instala-se o pen\u00faltimo, que \u00e9 o dom\u00ednio velho e podre da viol\u00eancia das bestas ferozes que nos habitam. O Bem \u00e9 de sempre e \u00e9 para sempre. Por isso, \u00e9 Primeiro e \u00e9 \u00daltimo. O Bem n\u00e3o come\u00e7ou, portanto. O que come\u00e7ou foi o mal que se foi insinuando nas pregas do nosso cora\u00e7\u00e3o empedernido. Mas o que come\u00e7a, tamb\u00e9m acaba. Os imp\u00e9rios da nossa viol\u00eancia, malvadez e estupidez caem, imagine-se, vencidos por um Amor que \u00e9 desde sempre e para sempre, e que vence, sem combater, a nossa tirania e prepot\u00eancia!<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">5. Entenda-se bem que tem de ser sem combater. Porque, se combatesse, usaria os nossos m\u00e9todos violentos, o que s\u00f3 aumentaria a viol\u00eancia. \u00c9 assim que Jesus atravessa as p\u00e1ginas dos Evangelhos e da nossa hist\u00f3ria e da nossa vida, entregando-se por Amor \u00e0 nossa viol\u00eancia, abra\u00e7ando-a e, portanto, absorvendo-a, absolvendo-a e dissolvendo-a. \u00c9 assim que o Amor Reina, nos Salva, Justifica, Perdoa e Recria. Os Chefes dos Judeus, os Soldados e Pilatos representam os imp\u00e9rios envelhecidos, podres e caducos da nossa viol\u00eancia e estupidez. O Reino do Filho do Homem n\u00e3o pode, na verdade, ser daqui (cf. Jo\u00e3o 18,33-37). Se fosse daqui, apenas aumentaria a espiral da mentira, da gan\u00e2ncia e da viol\u00eancia. \u00c9 de Amor novo e subversivo, transformante, que se trata.<\/p>\n<p class=\"inline-ad-slot\" data-adtags-visited=\"true\" data-adtags-width=\"450\" id=\"inline-ad-0\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">6. A\u00ed est\u00e1 ent\u00e3o a p\u00e1gina divina do Evangelho deste \u00daltimo Domingo do Ano Lit\u00fargico, Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo: Mateus 25,31-46. Texto espantoso. Surge em cena o Filho do Homem, o Pastor, o Rei, mas v\u00ea-se bem que \u00e9 Jesus, o Senhor. Re\u00fane e cria, separando (Mateus 25,31-33), como sucede no texto da cria\u00e7\u00e3o de G\u00e9nesis 1,1-2,4a. A mansid\u00e3o \u00e9 a nota maior deste Rei, Pastor, Filho do Homem, Jesus e Senhor, que domina os animais, separando os mansos (ovelhas) dos violentos e orgulhosos (cabras). Mas esta a\u00e7\u00e3o de separa\u00e7\u00e3o acontece apenas no entardecer da vida e da hist\u00f3ria, tal como sucede, para muito espanto nosso, ao trigo e \u00e0 ciz\u00e2nia da par\u00e1bola de Mateus 13,30-31 e 36-43. Para muito espanto tamb\u00e9m de Jo\u00e3o Batista que tinha anunciado um Messias que vinha a\u00ed, j\u00e1 e em for\u00e7a, com o machado e a p\u00e1 de joeirar (cf. Mateus 3,10 e 12) para proceder aos devidos ajustes de contas com aquela gera\u00e7\u00e3o m\u00e1 e perversa.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">7. A par\u00e1bola de hoje, que difere para o final do Evangelho e da hist\u00f3ria a separa\u00e7\u00e3o \u00abj\u00e1 e em for\u00e7a\u00bb proclamada por Jo\u00e3o Batista e por n\u00f3s tanto apetecida, mostra em Jesus um Messias, Rei e Senhor, que n\u00e3o comunga da nossa atra\u00e7\u00e3o s\u00e1dica pelo espet\u00e1culo \u00e1vido de sangue, mas vem revestido da mansid\u00e3o do Servo do Senhor, de Isa\u00edas 42,1-4, que \u00e9, por sinal e de forma significativa, a mais longa cita\u00e7\u00e3o do Antigo Testamento que o Evangelho de Mateus faz em 12,18-21, retratando com ela Jesus, o Rei manso e novo que desconcerta Jo\u00e3o Batista e a n\u00f3s tamb\u00e9m. O referido texto de Isa\u00edas 42,2 diz do Servo do Senhor que \u00abn\u00e3o far\u00e1 ouvir desde fora a sua voz\u00bb. Fica ent\u00e3o claro que, se n\u00e3o faz ouvir a sua voz desde fora, s\u00f3 a pode fazer ouvir desde dentro. O grande pensador do s\u00e9culo XX, de origem hebraica, Emmanuel Levinas, glosava, nas suas li\u00e7\u00f5es talm\u00fadicas, este texto em sentido messi\u00e2nico, escrevendo que \u00abo Messias \u00e9 o \u00fanico Rei que n\u00e3o reina desde fora\u00bb. Se n\u00e3o reina desde fora, ent\u00e3o n\u00e3o reina com poder, dinheiro, armas ou decretos. Se n\u00e3o reina desde fora, ent\u00e3o s\u00f3 pode reinar desde dentro, aproximando-se das pessoas, descendo ao n\u00edvel das pessoas, amando as pessoas, salvando as pessoas. Jesus, Rei manso e novo, vai assumir por inteiro a identidade deste Servo e vai cumprir a sua miss\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">8. Em ordem a uma melhor compreens\u00e3o do andamento do imenso texto de Mateus 25,31-46, importa notar que come\u00e7a com um cen\u00e1rio descritivo introdut\u00f3rio (v. 31-33) (A<sup>1<\/sup>) e termina com um cen\u00e1rio descritivo conclusivo (v. 46) (A<sup>2<\/sup>). Entre os dois cen\u00e1rios descritivos que abrem e fecham o movimento do texto (A<sup>1<\/sup>-A<sup>2<\/sup>), bem no centro da estrutura, surge a a\u00e7\u00e3o da Palavra, o dizer (v. 34-45), que podemos distribuir em duas vagas: um dizer positivo, dizer SIM (v. 34-40) (B<sup>1<\/sup>), e um dizer negativo, dizer N\u00c3O (v. 41-45) (B<sup>2<\/sup>), como se pode ver na configura\u00e7\u00e3o do texto, que hoje aqui deixamos exposto:<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">\u00ab<strong>25<\/strong>,<sup>31<\/sup>Quando vier o\u00a0<strong>FILHO DO HOMEM<\/strong>\u00a0na sua gl\u00f3ria e todos os anjos com Ele, ent\u00e3o sentar-se-\u00e1 sobre o trono da sua gl\u00f3ria,\u00a0<sup>32<\/sup>e ser\u00e3o REUNIDAS diante d\u2019ELE todas as na\u00e7\u00f5es, e SEPAR\u00c1-LOS-\u00c1 uns dos outros, como o\u00a0<strong>PASTOR<\/strong>\u00a0SEPARA as ovelhas das cabras,\u00a0<sup>33<\/sup>e por\u00e1 as ovelhas \u00e0 sua direita e as cabras \u00e0 esquerda. (A<sup>1<\/sup>)<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\"><sup>34<\/sup>Ent\u00e3o\u00a0<em>DIR\u00c1<\/em>\u00a0o\u00a0<strong>REI<\/strong>\u00a0aos que (est\u00e3o) \u00e0 sua direita: \u201cVinde, benditos de meu PAI, recebei em heran\u00e7a o REINO preparado para v\u00f3s desde a funda\u00e7\u00e3o do mundo,\u00a0<sup>35<\/sup>pois tive fome e destes-ME de comer, tive sede e destes-ME de beber, era estrangeiro e recolheste-ME,\u00a0<sup>36<\/sup>nu e vestites-ME, estive doente e visitastes-ME, estava na pris\u00e3o e viestes ter COMIGO\u201d.<\/p>\n<p class=\"inline-ad-slot\" data-adtags-visited=\"true\" data-adtags-width=\"450\" id=\"inline-ad-1\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\"><sup>37<\/sup>Ent\u00e3o os justos responder-lhe-\u00e3o,\u00a0<em>DIZENDO<\/em>: \u201c<strong>SENHOR<\/strong>, quando foi que TE vimos com fome e TE demos de comer, ou com sede e TE demos de beber?\u00a0<sup>38<\/sup>Ou quando TE vimos estrangeiro e TE recolhemos, ou nu e TE vestimos?\u00a0<sup>39<\/sup>Ou quando TE vimos doente ou na pris\u00e3o e viemos ter CONTIGO?<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\"><sup>40<\/sup>E, respondendo, o\u00a0<strong>REI<\/strong>\u00a0<em>DIR-LHES-\u00c1<\/em>: \u201cEm verdade vos digo: cada vez que o\u00a0<em>fizestes<\/em>\u00a0a UM destes\u00a0<em>meus irm\u00e3os<\/em>, os mais pequenos, a MIM o\u00a0<em>fizestes<\/em>\u201d. (B<sup>1<\/sup>)<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\"><sup>41<\/sup>Ent\u00e3o\u00a0<em>DIR\u00c1<\/em>\u00a0tamb\u00e9m aos da esquerda: \u201cAfastai-vos de MIM, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e para os seus anjos,\u00a0<sup>42<\/sup>pois tive fome e N\u00c3O ME destes de comer, tive sede e N\u00c3O ME destes de beber,\u00a0<sup>43<\/sup>era estrangeiro e N\u00c3O ME recolhestes, nu e N\u00c3O ME vestistes, estive doente e na pris\u00e3o e N\u00c3O ME visitastes\u201d.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\"><sup>44<\/sup>Ent\u00e3o tamb\u00e9m eles responder\u00e3o,\u00a0<em>DIZENDO<\/em>: \u201c<strong>SENHOR<\/strong>, quando foi que TE vimos com fome ou com sede ou estrangeiro ou nu ou doente ou na pris\u00e3o e N\u00c3O cuid\u00e1mos de TI?\u201d<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\"><sup>45<\/sup>Ent\u00e3o responder-lhes-\u00e1,\u00a0<em>DIZENDO<\/em>: \u201cEm verdade vos digo: cada vez que N\u00c3O o\u00a0<em>fizestes<\/em>\u00a0a UM destes, os mais pequenos, tamb\u00e9m a MIM o N\u00c3O\u00a0<em>fizestes<\/em>\u201d. (B<sup>2<\/sup>)<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\"><sup>46<\/sup>E ir\u00e3o estes para o castigo eterno, e os justos para a vida eterna\u00bb (Mt 25,31-46). (A<sup>2<\/sup>)<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">9. Lendo este imenso texto e captando o seu movimento, n\u00e3o passar\u00e1 despercebido a ningu\u00e9m que o seu centro reside nas duas vagas que mostram a a\u00e7\u00e3o de dizer SIM (v. 34-40) (B<sup>1<\/sup>) ou de dizer N\u00c3O (v. 41-45) (B<sup>2<\/sup>), uma e outra em conson\u00e2ncia com a a\u00e7\u00e3o de FAZER (v. 40) ou de N\u00c3O FAZER (v. 45). Na verdade, aquela declara\u00e7\u00e3o afirmativa de Jesus: \u00abTive fome e destes-ME de comer (1), tive sede e destes-ME de beber (2), era estrangeiro e recolhestes-ME (3), nu e vestites-ME (4), estive doente e visitastes-ME (5), estava na pris\u00e3o e viestes ter COMIGO (6)\u00bb (v. 35-36), tem um alcance quase incontorn\u00e1vel e insuper\u00e1vel, que n\u00e3o se confina neste pequeno imenso texto de Mateus, mas se insinua nas pregas e interst\u00edcios da B\u00edblia inteira, linhas e entrelinhas.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">10. Diz-nos S\u00e3o Jo\u00e3o, no pr\u00f3logo do seu Evangelho, que \u00abfoi pelo Verbo que tudo foi feito\u00bb (Jo\u00e3o 1,3), e S\u00e3o Paulo escreve, na Carta aos Colossenses, que \u00abn\u2019Ele foram criadas todas as coisas\u00bb (Colossenses 1,16), para acentuar depois, na sua Segunda Carta aos Cor\u00edntios, que o \u00abFilho de Deus, Jesus Cristo [\u2026], n\u00e3o foi \u201csim e n\u00e3o\u201d, mas unicamente \u201csim\u201d\u00bb (2 Cor\u00edntios 1,19). Acentua\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas ricas e densas, que ganham ainda uma maior intensidade, se verificarmos que a narrativa de G\u00e9nesis 1,1-2,4a, a grande narrativa da Cria\u00e7\u00e3o, se comp\u00f5e de 452 palavras hebraicas, n\u00e3o registando, todavia, o que \u00e9 absolutamente espantoso, um \u00fanico \u00abn\u00e3o\u00bb! Espl\u00eandida e contagiante harmonia das Escrituras. O denso texto de G\u00e9nesis 1,1-2,4a, como o nosso texto de Mateus 25,35-36, que fornece a base das nossas \u00abobras de miseric\u00f3rdia\u00bb, n\u00e3o cont\u00eam nenhuma nega\u00e7\u00e3o! Antes, s\u00e3o uma extraordin\u00e1ria afirma\u00e7\u00e3o que se insinua em todas as linhas e entrelinhas da Escritura Santa, e que mant\u00e9m o ser humano em permanente tens\u00e3o e aten\u00e7\u00e3o, para mais quando Jesus nos revela que os pobres e necessitados a quem prest\u00e1mos assist\u00eancia s\u00e3o, na verdade, seus irm\u00e3os (v. 40). E mais ainda: todo o bem que fizemos a UM desses pequeninos, foi, na verdade, feito ao pr\u00f3prio Jesus (v. 40). V\u00ea-se bem que Jesus, o Senhor do SIM, por quem tudo foi feito, em quem tudo foi criado, anda muito metido nos nossos caminhos lamacentos ou empedrados, mas sempre tortuosos, e pede a nossa esmola em cada esquina, e quer que o nosso \u00abfazer\u00bb seja criador, sempre marcado pelo SIM, como o d\u2019Ele.<\/p>\n<p class=\"inline-ad-slot\" data-adtags-visited=\"true\" data-adtags-width=\"450\" id=\"inline-ad-2\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">11. Toda a aten\u00e7\u00e3o, portanto, uma vez que o pr\u00f3prio Jesus se cruza connosco, todos os dias, nos nossos caminhos tortuosos e lamacentos. Mas aten\u00e7\u00e3o sobretudo, porque \u00abnegar\u00bb \u00e9 \u00abn\u00e3o-dizer-sim\u00bb (<em>ne-aiere<\/em>) ao rosto nu e interpelante do outro, e \u00abn\u00e3o-dizer-sim\u00bb ao rosto nu e interpelante do outro \u00e9 n\u00e3o responder ao apelo-mandamento do seu rosto nu e interpelante, e n\u00e3o responder ao rosto nu e interpelante do outro define-se como \u00abindiferen\u00e7a\u00bb, pelo que, nos interst\u00edcios de\u00a0<em>negare<\/em>\u00a0[<em>neg<\/em>, forma refor\u00e7ada de\u00a0<em>ne<\/em>], j\u00e1 se entrev\u00ea\u00a0<em>necare<\/em>\u00a0[= matar]. Veja-se ent\u00e3o, em contraluz, o peso insuport\u00e1vel daquela declara\u00e7\u00e3o negativa de Jesus: \u00abTive fome e N\u00c3O ME destes de comer (-1), tive sede e N\u00c3O ME destes de beber (-2), era estrangeiro e N\u00c3O ME recolhestes (-3), nu e N\u00c3O ME vestistes (-4), estive doente e na pris\u00e3o e N\u00c3O ME visitastes (-5 e -6) (v. 42-43)\u00bb, situa\u00e7\u00e3o bem retratada na confiss\u00e3o de Caim, o assassino do seu irm\u00e3o: \u00abA minha culpa \u00e9 demasiado pesada para a suportar\u00bb (G\u00e9nesis 4,13). Mas tamb\u00e9m o orante que reza nos Salmos confessa: \u00abAs minhas culpas est\u00e3o em acima da minha cabe\u00e7a; como um fardo pesado, s\u00e3o demasiado pesadas para mim\u00bb (Salmo 38,5).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">12. A selar a declara\u00e7\u00e3o afirmativa de Jesus, encontramos uma dupla afirma\u00e7\u00e3o sobre o \u00abfazer\u00bb: \u00abEm verdade vos digo: cada vez que o\u00a0<em>fizestes<\/em>\u00a0a UM destes\u00a0<em>meus irm\u00e3os<\/em>, os mais pequenos, a MIM o\u00a0<em>fizestes<\/em>\u00bb (v. 40). O mesmo acontecendo no final da declara\u00e7\u00e3o negativa de Jesus, com uma dupla afirma\u00e7\u00e3o sobre o \u00abn\u00e3o-fazer\u00bb: \u00abEm verdade vos digo: cada vez que N\u00c3O o\u00a0<em>fizestes<\/em>\u00a0a UM destes, os mais pequenos, tamb\u00e9m a MIM o N\u00c3O\u00a0<em>fizestes<\/em>\u00bb (v. 45). O narrador informa-nos, no v. 46, que estes v\u00e3o para o \u00abcastigo eterno\u00bb, a que Jesus j\u00e1 tinha chamado \u00abfogo eterno\u00bb (v. 41), e os justos para a \u00abvida eterna\u00bb, a que Jesus j\u00e1 tinha chamado \u00abReino para v\u00f3s preparado\u00bb (v. 34), em linha com a formula\u00e7\u00e3o das Bem-Aventuran\u00e7as 1.\u00aa e 8.\u00aa (Mateus 5,3 e 10). A condena\u00e7\u00e3o aqui mostrada, sem que outros crit\u00e9rios tenham sido considerados no \u00e2mbito da f\u00e9 ou da moral, assenta na ina\u00e7\u00e3o. Tal como nas duas par\u00e1bolas que precedem imediatamente o nosso texto de Mateus 25,31-46, a par\u00e1bola das dez virgens (Mateus 25,1-13) e a par\u00e1bola dos talentos (Mateus 25,14-30), sucede \u00e0s virgens insensatas, que n\u00e3o se prepararam, e ao servo que ficou paralisado pelo medo, e enterrou o seu talento. As virgens insensatas e o servo que nada fez n\u00e3o se aperceberam da aten\u00e7\u00e3o vigilante, da prontid\u00e3o e da urg\u00eancia que o Reino dos C\u00e9us requer de n\u00f3s.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">13. Ou\u00e7amos hoje com qualificada aten\u00e7\u00e3o Ezequiel 34,11-12.15-17. O cen\u00e1rio apresentado mostra-nos Deus como Pastor amoroso, companheiro de viagem dos seus filhos. Deus surge retratado com os verbos \u00abprocurar\u00bb, \u00abcurar\u00bb, \u00abreunir\u00bb, \u00abconduzir\u00bb, \u00abfazer repousar\u00bb, \u00abapascentar\u00bb. Mas tamb\u00e9m \u00e9 dito que Deus far\u00e1 justi\u00e7a entre ovelhas e ovelhas, carneiros e cabritos, preparando assim a cena grandiosa de Mateus 25,31-46. Assim tamb\u00e9m Jesus, Pastor e Rei, passou pelo meio de n\u00f3s, tratando as nossas feridas e lavando-nos os p\u00e9s e a alma, e o seu Reino novo n\u00e3o \u00e9 inaugurado com uma solene parada militar, mas com a sua pris\u00e3o e entroniza\u00e7\u00e3o no trono da Cruz!<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">14. Neste imenso e denso contexto, recebemos hoje tamb\u00e9m a li\u00e7\u00e3o magistral que S\u00e3o Paulo oferece aos Cor\u00edntios e a n\u00f3s (1 Cor\u00edntios 15,20-28). \u00abCristo foi ressuscitado dos mortos,\u00a0<em>prim\u00edcias<\/em>\u00a0dos que adormeceram\u00bb (1 Cor\u00edntios 15,20). Ele \u00e9, portanto, o\u00a0<em>primeiro<\/em>\u00a0Homem a ser ressuscitado. E se \u00e9 o primeiro e prim\u00edcias, ent\u00e3o representa-nos a todos e constitui promessa e certeza para todos. Nele a morte foi vencida para todos. A esperan\u00e7a fundamenta-se na certeza deste Acontecimento principal da Vida do Senhor, que d\u00e1 significado a todos os outros acontecimentos da sua Vida, ao inteiro Antigo Testamento, \u00e0 Igreja e \u00e0 vida de todos os homens.<\/p>\n<p class=\"inline-ad-slot\" data-adtags-visited=\"true\" data-adtags-width=\"450\" id=\"inline-ad-3\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">15. Recebendo este mundo novo, que a n\u00f3s chega como vida nova dada aos filhos, e por eles recebida, deixemos ent\u00e3o ressoar em n\u00f3s a m\u00fasica sublime do Salmo 23, e deixemo-nos conduzir pela m\u00e3o carinhosa e pela voz maternal e melodiosa do Bom Pastor. Sim, Ele recebe bem os seus h\u00f3spedes: faz-nos uma visita guiada pelos seus prados muito verdes, cheios de \u00e1guas muito azuis, unge com \u00f3leo perfumado a nossa cabe\u00e7a, estende no ch\u00e3o do seu c\u00e9u a \u00abpele de vaca\u00bb (<em>shulhan<\/em>), que \u00e9 a sua mesa, serve-nos vinhos generosos\u2026 Confessou o fil\u00f3sofo franc\u00eas Henri Bergson: \u00abAs centenas de livros que li nunca me trouxeram tanta luz e conforto como os versos do Salmo 23\u00bb.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u00a0<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ez 34,11-12.15-17; Sl 23; 1 Cor 15,20-26.28; Mt 25,31-46 1. 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