{"id":1415946138,"date":"2024-01-13T00:00:00","date_gmt":"2024-01-13T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/12724-domingo-ii-do-tempo-comum-vinde-e-vede"},"modified":"2024-01-13T00:00:00","modified_gmt":"2024-01-13T00:00:00","slug":"domingo-ii-do-tempo-comum-vinde-e-vede","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/domingo-ii-do-tempo-comum-vinde-e-vede\/","title":{"rendered":"Domingo II do Tempo Comum: \u00abVinde e Vede\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031_160503044443.jpg\"\/><\/p>\n<p><p data-adtags-visited=\"true\">1 Sm 3,3b-10.19; Sl 40; 1 Cor 6,13c-15a.17-20; Jo 1,35-42<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">1. O Evangelho deste Domingo II do Tempo Comum (Jo\u00e3o 1,35-42) faz-nos ver no primeiro plano Jo\u00e3o e Jesus. Neste Evangelho, ainda que seja dito que Jo\u00e3o tamb\u00e9m batize, n\u00e3o aparece com o seu nome habitual de Jo\u00e3o Batista (<em>I\u00f4\u00e1n\u00eas ho Baptist\u00eas<\/em>), como se l\u00ea nos Evangelhos sin\u00f3ticos. No IV Evangelho, o seu papel fundamental \u00e9 o de \u00abtestemunha\u00bb. Ent\u00e3o, Jo\u00e3o permanece l\u00e1 \u00abestacado\u00bb (<em>eist\u00eakei<\/em>), em\u00a0<em>Bethabara<\/em>\u00a0[= \u00abCasa de passagem\u00bb], onde se encontra desde Jo\u00e3o 1,28, im\u00f3vel e sereno e atento. O lugar em que permanece parado, define-o e define-nos: \u00e9 um umbral ou limiar. Todo o umbral ou limiar \u00e9 um lugar de passagem. Estamos de passagem. Jo\u00e3o ocupa, portanto, o seu lugar estreito e aberto entre o des-lugar e a casa, o deserto e a Terra Prometida, entre o Antigo e o Novo Testamento. Jo\u00e3o coloca-se estrategicamente do outro lado do Jord\u00e3o, onde um dia o povo do \u00caxodo parou tamb\u00e9m, para preparar a entrada na Terra Prometida, atravessando o Jord\u00e3o (Josu\u00e9 3). \u00c9 desse lugar de passagem, mas em que est\u00e1 parado como um guarda ou sentinela vigilante, que Jo\u00e3o v\u00ea bem (<em>embl\u00e9p\u00f4<\/em>) Jesus a passar (<em>peripato\u00fbnti<\/em>). Perfil exato: Jesus a passar: Ele \u00e9 o caminho (Jo\u00e3o 14,6); Jo\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o caminho: est\u00e1 parado. E logo Jo\u00e3o aponta Jesus como o Cordeiro de Deus. Aponta-o e apresenta-o aos seus disc\u00edpulos e a n\u00f3s, e p\u00f5e-nos em movimento atr\u00e1s d\u2019Ele. Riqu\u00edssima apresenta\u00e7\u00e3o de Jesus. Na verdade, Cordeiro diz-se na l\u00edngua aramaica, l\u00edngua comum ent\u00e3o falada,\u00a0<em>talya\u2019<\/em>. Mas\u00a0<em>talya\u2019<\/em>\u00a0significa, n\u00e3o s\u00f3 \u00abcordeiro\u00bb, mas tamb\u00e9m \u00abservo\u00bb, \u00abfilho\u00bb e \u00abp\u00e3o\u00bb. A\u00ed est\u00e1 tra\u00e7ada, com uma pincelada de mestre, a identidade de Jesus: Cordeiro, Servo, Filho e P\u00e3o de Deus.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">2. Seja qual for o perfil adotado, deparamo-nos sempre com a verdadeira identidade de Jesus, na sua verdade e simplicidade. O \u00abCordeiro\u00bb \u00e9 manso e d\u00f3cil, e Jesus n\u00e3o vem ter connosco com um fulgor que cega ou um poder que esmaga. Vem como quem ama e serve com radical humildade e mansid\u00e3o. Entenda-se bem ainda que este Cordeiro \u00e9 de Deus, pertence a Deus, \u00e9 Deus o seu pastor (cf. Salmo 22).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">3. E a\u00ed vamos n\u00f3s a segui-l\u2019O, agora, no Caminho. Ele \u00e9 o caminho. Sem caminho, temos de ficar parados. Jesus pergunta: \u00abO que procurais?\u00bb (Jo\u00e3o 1,38). Jesus n\u00e3o faz uma afirma\u00e7\u00e3o, mas uma pergunta. N\u00e3o come\u00e7a uma aula, mas um col\u00f3quio vital. Reconhece neles e em n\u00f3s homens \u00e0 procura, que ainda n\u00e3o sabem dizer o que procuram, mas desejam saborear o p\u00e3o que s\u00f3 Jesus pode dar na sua Casa. \u00abOnde moras?\u00bb, \u00e9, portanto, a quest\u00e3o que os move e nos move (Jo\u00e3o 1,38). E a resposta-convite de Jesus: \u00abVinde e vede\u00bb (Jo\u00e3o 1,39) aviva e sacia a nossa sede. Uma vez mais, Jesus n\u00e3o nos entrega um livro ou um gui\u00e3o com doutrinas e preceitos para n\u00f3s estudarmos e sabermos, mas chama-nos a viver uma rela\u00e7\u00e3o pessoal de comunh\u00e3o com Ele. Assim, tamb\u00e9m eles, e n\u00f3s com eles, n\u00e3o podemos manter-nos a uma dist\u00e2ncia de seguran\u00e7a, n\u00e3o comprometidos, como meros turistas ou simples espectadores. A indica\u00e7\u00e3o da hora [quatro horas da tarde] pelo narrador pode querer dizer-nos que, para aqueles dois que o seguiram, e para n\u00f3s tamb\u00e9m, aquela hora foi e ser\u00e1 sempre uma hora decisiva, de tal modo que nos ficou para sempre gravada na mem\u00f3ria. Fomos e vimos\u00a0<em>quem era<\/em>\u00a0(<em>ide\u00een<\/em>), e mor\u00e1mos com Ele um dia (Jo\u00e3o 1,39), simbolismo para indicar de agora em diante, sempre. Percebemos logo que era aquela a nossa Casa. Por isso, Andr\u00e9, um de n\u00f3s, o\u00a0<em>Pr\u00f4t\u00f3kl\u00eatos Andr\u00e9as<\/em>, o \u00abprimeiro chamado\u00bb, como o qualifica ainda hoje a Tradi\u00e7\u00e3o Oriental, foi logo procurar, encontrar (o uso do verbo grego\u00a0<em>eur\u00edsk\u00f4<\/em>\u00a0sup\u00f5e um encontro depois de uma busca; n\u00e3o um encontro por acaso) e chamar, \u00abprimeiro chamante\u00bb, o seu irm\u00e3o Sim\u00e3o, e trouxe-o de casa para a Casa, para Jesus (Jo\u00e3o 1,40-42). O resto \u00e9 com Jesus. \u00abOlhando-o por dentro (<em>embl\u00e9p\u00f4 aut\u00f4<\/em>), Jesus disse: \u201cTu \u00e9s Sim\u00e3o, o filho de Jo\u00e3o; ser\u00e1s chamado\u00a0<em>K\u00eaph\u00e2s<\/em>, que se traduz Pedro\u201d\u00bb (Jo\u00e3o 1,42). Depois \u00e9 Filipe que \u00e9 chamado por Jesus, sem introdu\u00e7\u00e3o ou explica\u00e7\u00e3o (Jo\u00e3o 1,43). E Filipe conduz a Jesus Natanael, tamb\u00e9m sem qualquer explica\u00e7\u00e3o ou demonstra\u00e7\u00e3o convincente. O importante n\u00e3o s\u00e3o as explica\u00e7\u00f5es que possamos dar, as d\u00favidas que possamos tirar. Jesus n\u00e3o nos deu apontamentos nem sum\u00e1rios nem resumos. Importante mesmo \u00e9 o encontro com Jesus.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">4. \u00c9 importante precisar que a explica\u00e7\u00e3o e a demonstra\u00e7\u00e3o s\u00e3o fr\u00e1geis face \u00e0 experi\u00eancia que implica a vida. Na verdade, a efic\u00e1cia do testemunho acontece, n\u00e3o quando a testemunha incita o destinat\u00e1rio a inclinar-se ou a render-se perante as provas, mas quando o incita a fazer, por sua vez, a experi\u00eancia, levando-o a implicar a pr\u00f3pria vida. A experi\u00eancia da testemunha \u00e9 sempre mais forte e mais radical do que as provas que eventualmente queira dar. \u00c9 por isso que Filipe fala de Jesus a Natanael, mas face \u00e0s obje\u00e7\u00f5es deste, n\u00e3o lhe dissipa as d\u00favidas (Jo\u00e3o 1,45-46), mas diz-lhe simplesmente: \u00abVem e v\u00ea!\u00bb (Jo\u00e3o 1,46).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">5. Mas voltemos ao chamamento decisivo, aquele que muda o nome, isto \u00e9, segundo a mentalidade b\u00edblica, muda ou transforma a pessoa e a sua vida. Diz Jesus: \u00abTu \u00e9s Sim\u00e3o, o filho de Jo\u00e3o; ser\u00e1s chamado\u00a0<em>K\u00eaph\u00e2s<\/em>, que se traduz Pedro\u00bb (Jo\u00e3o 1,42). O termo hebraico normal para dizer \u00abrocha\u00bb, \u00abrochedo\u00bb, \u00abpedra firme\u00bb \u00e9\u00a0<em>ts\u00fbr<\/em>\u00a0ou\u00a0<em>sela\u2018<\/em>, que designa mesmo Deus no AT por 33 vezes. Mas o hebraico tamb\u00e9m conhece o termo\u00a0<em>keph<\/em>, aramaico\u00a0<em>k\u00eapha\u2019<\/em>, que designa a rocha, n\u00e3o tanto na sua solidez, mas a rocha escavada, oca, esp\u00e9cie de gruta que serve de lugar de ref\u00fagio e acolhimento, onde os p\u00e1ssaros fazem os seus ninhos, os animais guardam as suas crias e os homens se refugiam em caso de guerra: n\u00e3o \u00e9 s\u00f3lido, mas d\u00e1 solidez e prote\u00e7\u00e3o a uma vida nova. Este segundo veio de termos, que traduzem a ideia de guardar, proteger, abra\u00e7ar, envolver, alarga-se num vasto campo onomatopaico:\u00a0<em>kaph<\/em>, palma da m\u00e3o;\u00a0<em>keph<\/em>, rochedo esburacado (grutas);\u00a0<em>k\u00eapha\u2019<\/em>\u00a0(aramaico), rochedo esburacado;\u00a0<em>k\u00eaph\u00e3s<\/em>\u00a0(grego), rochedo esburacado e acolhedor, nome dado por Jesus a Pedro em Jo\u00e3o 1,42, \u00fanica vez nos Evangelhos;\u00a0<em>kipah<\/em>, folha de palmeira, que serve para proteger do sol, que diz tamb\u00e9m a cobertura que os judeus ortodoxos usam na cabe\u00e7a, para indicar a prote\u00e7\u00e3o de Deus;\u00a0<em>kaphar<\/em>, cobrir, perdoar;\u00a0<em>kapporet<\/em>, cobertura, perd\u00e3o, que traduz o Propiciat\u00f3rio colocado sobre a Arca da Alian\u00e7a, verdadeiro trono de Deus, de onde Deus, como o termo sugere, nos \u00e9 prop\u00edcio, benfazejo, favor\u00e1vel. Sendo de teor onomatopaico, este som existe na composi\u00e7\u00e3o de voc\u00e1bulos em todas as l\u00ednguas.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">6. Nasce aqui, portanto, um Sim\u00e3o Pedro novo, casa aberta e acolhedora, atento, pr\u00f3ximo, cuidadoso e carinhoso, fr\u00e1gil, com a miss\u00e3o pastoral de alimentar e cuidar de todos os filhos de Deus. Mas, entenda-se sempre bem, a casa \u00e9 Deus, e s\u00e3o de Deus os filhos que nela s\u00e3o gerados, acolhidos, alimentados.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">7. O contraponto musical vem hoje do Primeiro Livro de Samuel 3,3-19, com Deus a chamar uma e outra vez o jovem Samuel, que \u00abainda n\u00e3o conhecia o Senhor\u00bb (1 Samuel 3,7), e Eli, sacerdote do santu\u00e1rio de Silo, a fazer bem o papel de Guia Espiritual. Depois de discernir a Voz de Deus que chamava Samuel, \u00e9 para Deus que Eli remete Samuel, com a indica\u00e7\u00e3o precisa: \u00abFala, Senhor, que o teu servo escuta\u00bb (1 Samuel 3,9). E o texto termina com o belo resumo do narrador: \u00abE Samuel crescia, o Senhor estava com ele, e nenhuma das suas palavras deixou cair por terra\u00bb (1 Samuel 3,19). Extraordin\u00e1rio programa de vida para a Igreja inteira e cada crist\u00e3o em particular.\u00a0<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">8. E S\u00e3o Paulo, na Primeira Carta aos Cor\u00edntios 6,13-20, tra\u00e7a em contraluz a radiografia da grande cidade de Corinto, capital da prov\u00edncia romana da Acaia, com muitas divis\u00f5es, distra\u00e7\u00f5es, idolatrias e imoralidades, coisas em tudo semelhantes ao que se v\u00ea hoje nas grandes metr\u00f3poles modernas. E aponta aos crist\u00e3os de Corinto e de hoje o caminho do Evangelho, dizendo que \u00abo corpo\u00bb (<em>t\u00f2 s\u00f4ma<\/em>) n\u00e3o \u00e9 lixo para dedicar a todo o tipo de imoralidades, como era usual em Corinto. Na verdade, o pensamento grego via o homem em duas partes bem distintas: uma espiritual, a alma (<em>h\u00ea psych\u00ea<\/em>), imortal por natureza e por direito, e outra material, o corpo (<em>t\u00f2 s\u00f4ma<\/em>), mortal por natureza e sede de toda a mis\u00e9ria humana. \u00a0Ao contr\u00e1rio, o pensamento b\u00edblico n\u00e3o v\u00ea o homem como um composto de duas partes, uma m\u00e1, \u00abo corpo\u00bb, e outra boa, \u00aba alma\u00bb. O mundo b\u00edblico v\u00ea o homem como um ser unit\u00e1rio e, no seu todo, bom, como resulta da obra criadora de Deus (G\u00e9nesis 1). E, neste sentido, quando fala de \u00abcorpo\u00bb, n\u00e3o \u00e9 para dizer uma parte do homem, mas o homem todo. E o mesmo sucede quando emprega o termo \u00abalma\u00bb. Os dois termos dizem, na B\u00edblia, a mesma realidade humana no seu todo, e s\u00e3o intercambi\u00e1veis. Por isso, S. Paulo pode dizer ao mundo de Corinto que \u00abo nosso corpo \u00e9 Templo do Esp\u00edrito Santo\u00bb (1 Cor\u00edntios 6,19), e que \u00abo corpo \u00e9 para o Senhor, e o Senhor \u00e9 para o corpo\u00bb (1 Cor\u00edntios 6,13). Estes dizeres, de colorido b\u00edblico, s\u00e3o incompreens\u00edveis e considerados como loucura para o pensamento grego.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">9. A toada musical que hoje embala a nossa vida est\u00e1 em conson\u00e2ncia com a docilidade e o rumo novo, para o Senhor, que devemos empreender. Na verdade, canta assim o Salmo Responsorial de hoje: \u00abSacrif\u00edcio e obla\u00e7\u00e3o n\u00e3o Te agradaram, mas escavaste-me os ouvidos\u00bb (Salmo 40,7), express\u00e3o forte que a Carta aos Hebreus cita atualizando assim: \u00abSacrif\u00edcio e obla\u00e7\u00e3o Tu n\u00e3o quiseste, mas formaste-me um corpo\u00bb (Hebreus 10,5). Sim, d\u00e1 para entender, que o corpo \u00e9 para oferecer ao bom Deus, num culto novo de todos os dias (cf. Romanos 12,1). Mas, para que a melodia chegue ao cora\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m \u00e9 verdade, como diz o Salmo e nos lembra poeticamente Nelly Sachs, talvez seja necess\u00e1rio\u00a0<em>escavar<\/em>\u00a0bem os ouvidos. Nelly Sachs (1891-1970), de origem judaica, nascida em Berlim, refugiada em Estocolmo a partir de 1940, recebeu o pr\u00e9mio Nobel de literatura em 1966.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Ant\u00f3nio Couto<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Educris|13.01.2024<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1 Sm 3,3b-10.19; Sl 40; 1 Cor 6,13c-15a.17-20; Jo 1,35-42 1. 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