{"id":1437855731,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/7199-xxi-domingo-do-tempo-comum-dizer-jesus"},"modified":"2025-11-07T16:33:05","modified_gmt":"2025-11-07T16:33:05","slug":"xxi-domingo-do-tempo-comum-dizer-jesus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/xxi-domingo-do-tempo-comum-dizer-jesus\/","title":{"rendered":"XXI Domingo do Tempo Comum: \u00abDizer Jesus\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031_160503044443.jpg\" \/><\/p>\n<p><p>1. Cesareia de Filipe, atual\u00a0<em>Banyas<\/em>, na tetrarquia de Filipe, um dos filhos de Herodes o Grande, \u00e9 o lugar certo para se p\u00f4r a quest\u00e3o da identidade de JESUS, que atravessa o Evangelho (Mateus 16,13-20) deste Domingo XXI do Tempo Comum. Cesareia de Filipe, onde se encontra uma das nascentes do rio Jord\u00e3o, respirava o paganismo do deus P\u00e3 e tamb\u00e9m o culto do Imperador. Ali construiu Herodes um templo dedicado ao Imperador C\u00e9sar Augusto, e o tetrarca Filipe, filho de Herodes, deu \u00e0 cidade, antes conhecida por P\u00e2nias, em honra do deus P\u00e3, o nome de Cesareia, tamb\u00e9m em honra de C\u00e9sar Augusto. Dela resta hoje a gruta do deus P\u00e3, lugar que os peregrinos da Terra Santa costumam visitar.<\/p>\n<p>2. \u00c9 a\u00ed, em Cesareia de Filipe, cidade marcada pelo paganismo e pelo culto do Imperador, que Jesus p\u00f5e a quest\u00e3o da sua identidade. Soberanamente Jesus pergunta: \u00abQuem dizem as pessoas que \u00e9 o Filho do Homem?\u00bb (Mateus 16,13). Dizem-lhe que o povo pensa que Jesus \u00e9 um profeta. Um entre muitos: antes dele apareceram muitos; depois dele, outros poder\u00e3o aparecer. De qualquer modo, d\u00e1-se a entender que o povo n\u00e3o v\u00ea em Jesus uma pessoa singular e \u00fanica. Ouvida esta resposta, Jesus avan\u00e7a, logo de seguida, de forma directa e enf\u00e1tica, uma nova pergunta: \u00abE v\u00f3s, quem\u00a0<em>dizeis<\/em>\u00a0que Eu sou?\u00bb (Mateus 16,15). A esta nova pergunta, posta por Jesus aos seus disc\u00edpulos que de h\u00e1 muito o seguiam, Sim\u00e3o Pedro foi r\u00e1pido a responder: \u00abTu \u00e9s o Cristo, o Filho do Deus vivo!\u00bb (Mateus 16,16). Jesus declara \u00abFeliz\u00bb (<em>mak\u00e1rios<\/em>) Sim\u00e3o, filho de Jonas, n\u00e3o por achar que ele reunia compet\u00eancia humana para expressar aquele\u00a0<em>dizer<\/em>, mas por saber que o tinha recebido do Pai (Mateus 16,17). Chamado por Jesus (Mateus 4,18-19). Predestinado pelo Pai (Romanos 8,29-30).<\/p>\n<p>3. De forma diferente do povo, Sim\u00e3o Pedro atinge a singularidade de Jesus. Enquanto Cristo ou Messias, Jesus n\u00e3o \u00e9 um entre muitos. \u00c9 \u00fanico, primeiro e \u00faltimo, definitivo, enviado por Deus para dar \u00e0 humanidade a plenitude da vida. Sim, enquanto Filho do Deus vivo, Jesus est\u00e1 com o Pai numa rela\u00e7\u00e3o singular de conhecimento, igualdade, vida. Tal como o Pai, o Filho \u00e9 a vida em si mesmo. \u00c9 sobre este\u00a0<em>dizer<\/em>\u00a0de Sim\u00e3o Pedro e sobre o Sim\u00e3o Pedro deste\u00a0<em>dizer<\/em>,\u00a0<em>dizer<\/em>, n\u00e3o seu, mas recebido do Pai, que Jesus declara que construir\u00e1 a sua Igreja (Mateus 16,18). Note-se a asson\u00e2ncia \u00ab<em>P\u00e9tros<\/em>\u00bb \u2013 \u00ab<em>p\u00e9tra<\/em>\u00bb. Mas note-se tamb\u00e9m que quem constr\u00f3i a Igreja \u00e9 Jesus, e n\u00e3o Pedro, e a Igreja a construir tamb\u00e9m \u00e9 de Jesus, e n\u00e3o de Pedro: \u00absobre esta pedra (<em>p\u00e9tra<\/em>) construirei a\u00a0<em>minha<\/em>\u00a0Igreja\u00bb, diz Jesus. Em todo o Novo Testamento, s\u00f3 Jesus e Pedro recebem o apelativo de \u00abpedra\u00bb. \u00abRocha\u00bb, \u00abrochedo\u00bb, \u00abpedra firme\u00bb diz-se, em hebraico,\u00a0<em>ts\u00fbr<\/em>ou\u00a0<em>sela\u2018<\/em>, terminologia usada no Antigo Testamento por 33 vezes para dizer Deus e a solidez do seu amor fiel. Veja-se, por exemplo, na boca e no cora\u00e7\u00e3o do Salmista: \u00abO Senhor \u00e9 a minha Rocha (<em>sela\u2018<\/em>) e a minha fortaleza (\u2026), nele me abrigo, meu Rochedo (<em>ts\u00fbr<\/em>), meu escudo e meu baluarte, minha torre forte e meu ref\u00fagio\u00bb (Salmo 18,3).<\/p>\n<p>4. Mas a forma origin\u00e1ria para designar a rocha \u00e9\u00a0<em>keph<\/em>, aramaico\u00a0<em>k\u00eapha\u2019<\/em>, que mostra a rocha, n\u00e3o tanto na sua solidez, mas a rocha escavada, oca, esp\u00e9cie de gruta que serve de lugar de ref\u00fagio e acolhimento, onde os p\u00e1ssaros fazem os seus ninhos, os animais guardam as suas crias e os homens se refugiam em caso de guerra: n\u00e3o \u00e9 s\u00f3lido, mas d\u00e1 solidez e protec\u00e7\u00e3o a uma vida nova. Este segundo veio de termos, que traduzem a ideia de guardar, proteger, abra\u00e7ar, envolver, alarga-se num vasto campo onomatopaico:\u00a0<em>kaph<\/em>, palma da m\u00e3o;\u00a0<em>keph<\/em>, rochedo esburacado (grutas);\u00a0<em>k\u00eapha\u2019<\/em>\u00a0(aramaico), rochedo esburacado;\u00a0<em>k\u00eaph\u00e3s<\/em>\u00a0(grego), rochedo esburacado e acolhedor, nome dado por Jesus a Pedro em Jo\u00e3o 1,42, \u00fanica vez nos Evangelhos, mas v\u00e1rias vezes em Paulo (1 Cor\u00edntios 1,12; 3,22; 9,5; 15,5; G\u00e1latas 1,18; 2,9.11.14);\u00a0<em>kipah<\/em>, folha de palmeira, que serve para proteger do sol, e cobertura que os judeus ortodoxos usam na cabe\u00e7a para indicar a protec\u00e7\u00e3o de Deus;\u00a0<em>kaphar<\/em>, cobrir, perdoar;\u00a0<em>kaporet<\/em>, cobertura, perd\u00e3o. Sendo de teor onomatopaico, este som existe na composi\u00e7\u00e3o de voc\u00e1bulos em todas as l\u00ednguas. Esta terminologia abre para um Sim\u00e3o Pedro novo, casa aberta e acolhedora, atento, pr\u00f3ximo, cuidadoso e carinhoso, fr\u00e1gil, com a miss\u00e3o pastoral de alimentar e cuidar de todos os filhos de Deus. Mas, entenda-se sempre bem, a casa \u00e9 Deus, e s\u00e3o de Deus os filhos que nela s\u00e3o gerados, acolhidos e alimentados.<\/p>\n<p>5. Note-se bem a precis\u00e3o da pergunta de Jesus. De facto, Jesus n\u00e3o pede aos seus disc\u00edpulos que se pronunciem ou deem a sua opini\u00e3o acerca do Serm\u00e3o da Montanha ou sobre outro assunto qualquer, por importante que possa ser ou parecer. A pergunta de Jesus \u00e9 acerca de Si mesmo, da sua pr\u00f3pria identidade, e do grau de implica\u00e7\u00e3o dos disc\u00edpulos com Ele. Da\u00ed que Jesus pergunte sobre o\u00a0<em>dizer<\/em>. Pedro\u00a0<em>diz<\/em>. E face ao\u00a0<em>dizer<\/em>de Pedro, Jesus declara de seguida: \u00abDar-te-ei as chaves do Reino dos C\u00e9us\u00bb (Mateus 16,19). As chaves representam um saber e um poder. Falamos de chaves de uma casa, de uma cidade, de um tesouro, da leitura de um texto. Quem as possui, possui um poder em sede administrativa, jur\u00eddica ou cient\u00edfica. \u00c9 assim que o texto de Isa\u00edas 22,19-23 fala hoje do \u00abrito das chaves\u00bb e do poder retirado a\u00a0<em>Shebna<\/em>\u00a0e conferido a\u00a0<em>Eliaq\u00eem<\/em>.<\/p>\n<p>6. As chaves do Reino dos C\u00e9us s\u00e3o as chaves do amor e do perd\u00e3o, traves mestras de uma comunidade unida e confiante, com os p\u00e9s na terra e o olhar fixo em Deus. Diz, na verdade, a Constitui\u00e7\u00e3o Dogm\u00e1tica\u00a0<em>Lumen Gentium<\/em>: \u00abAprouve a Deus salvar e santificar os homens, n\u00e3o individualmente, exclu\u00edda qualquer liga\u00e7\u00e3o entre eles, mas constituindo-os em povo\u00bb (n.\u00ba 9).<\/p>\n<p>7. \u00c9 importante, porque esclarecedora e mobilizadora, esta nota do Conc\u00edlio Vaticano II. De facto, Pedro \u00e9 a Pedra e tem as Chaves do Reino dos C\u00e9us, e \u00e9-lhe ainda dada a autoridade de ligar-desligar, isto \u00e9, de perdoar: \u00abTudo o que ligares (<em>d\u00eas\u00eas<\/em>: conj. aor. de\u00a0<em>d\u00e9\u00f4<\/em>) sobre a terra, ficar\u00e1 para sempre ligado (<em>dedem\u00e9non<\/em>: part. perf. pass. de\u00a0<em>d\u00e9\u00f4<\/em>) nos C\u00e9us, e tudo o que desligares (<em>l\u00fds\u00eas<\/em>: conj. aor. de\u00a0<em>l\u00fd\u00f4<\/em>) sobre a terra, ficar\u00e1 para sempre desligado (<em>lelym\u00e9non<\/em>: part. perf. pass. de\u00a0<em>l\u00fd\u00f4<\/em>) nos C\u00e9us\u00bb (Mateus 16,19). Todavia, esta autoridade de ligar-desligar, isto \u00e9, de perdoar, \u00e9 tamb\u00e9m confiada \u00e0 inteira comunidade, exactamente nos mesmos termos em que \u00e9 confiada a Pedro: \u00abEm verdade vos digo: tudo o que ligardes (<em>d\u00eas\u00eate<\/em>: conj. aor. de\u00a0<em>d\u00e9\u00f4<\/em>) sobre a terra, ficar\u00e1 para sempre ligado (<em>dedem\u00e9na<\/em>: part. perf. pass. de\u00a0<em>d\u00e9\u00f4<\/em>) no c\u00e9u, e tudo o que desligardes (<em>l\u00fds\u00eate<\/em>: conj. aor. de\u00a0<em>l\u00fd\u00f4<\/em>) na terra, ficar\u00e1 para sempre desligado (<em>lelym\u00e9na<\/em>: part. perf. pass. de\u00a0<em>l\u00fd\u00f4<\/em>) no c\u00e9u\u00bb (Mateus 18,18). A inteira comunidade assente na Pedra, que \u00e9 Pedro, como Pedro, n\u00e3o alijando responsabilidades, mas operante na pr\u00e1tica quotidiana do Perd\u00e3o!<\/p>\n<p>8. O texto do Evangelho de hoje termina registando a ordem taxativa de Jesus aos seus disc\u00edpulos para\u00a0<em>n\u00e3o dizerem<\/em>\u00a0a ningu\u00e9m que Ele \u00e9 o Cristo (Mateus 16,20). O texto inteiro deste Evangelho (Mateus 16,13-20) \u00e9, ent\u00e3o, percorrido por um\u00a0<em>dizer<\/em>, e fecha com um\u00a0<em>n\u00e3o-dizer<\/em>. Trata-se de um\u00a0<em>dizer<\/em>\u00a0novo, n\u00e3o meramente convencional ou tradicional. N\u00e3o basta\u00a0<em>dizer<\/em>\u00a0um conjunto de palavras que v\u00eam na torrente da tradi\u00e7\u00e3o, que se recolhem, e se voltam a\u00a0<em>dizer<\/em>. \u00c9 assim que Pedro respondeu bem [\u00abTu \u00e9s o Cristo\u00bb], e \u00e9 louvado por isso. N\u00e3o obstante, Jesus n\u00e3o quer que os disc\u00edpulos passem esse\u00a0<em>dizer<\/em>\u00a0a ningu\u00e9m (Mateus 16,20). Por que ser\u00e1?<\/p>\n<p>9. Para sabermos a raz\u00e3o, temos de esperar pelo pr\u00f3ximo Domingo (XXII), pois \u00e9 a\u00ed que escutaremos Mateus 16,21-28, o seguimento imediato do texto deste Domingo XXI (Mateus 16,13-20). Na verdade, o texto integral de Mateus 16,13-28, dividido por estes dois Domingos, forma uma unidade incind\u00edvel.<\/p>\n<p>10. Entretanto, que o nosso cora\u00e7\u00e3o esteja cheio do amor primeiro de Deus, e que o louvor que lhe \u00e9 devido encha os dias da nossa vida. \u00c9 a bela ora\u00e7\u00e3o de Paulo na Carta aos Romanos 11,33-36.<\/p>\n<p>11. \u00c0 bela ora\u00e7\u00e3o de Paulo junta-se hoje a voz do orante do Salmo 138 com a sua bela A\u00e7\u00e3o de Gra\u00e7as, que \u00e9 \u00abo canto do chamamento universal\u00bb, como o define S.to Atan\u00e1sio (s\u00e9c. IV). O orante, voltado para o Templo (v. 2), como era usual fazer-se no juda\u00edsmo tardio (o islamismo f\u00e1-lo-\u00e1 mais tarde em rela\u00e7\u00e3o a Meca), sente e sabe que a sua ora\u00e7\u00e3o n\u00e3o esbarra contra um c\u00e9u cerrado, surdo e mudo, mas \u00e9 registada e repercute-se no cora\u00e7\u00e3o de Deus, que em caso algum abandona a obra das suas m\u00e3os (v. 8). Grande A\u00e7\u00e3o de Gra\u00e7as deste orante (v. 1) e dos reis de toda a terra (v. 4). Nossa tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. 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