{"id":1521743516,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/8883-domingo-xxv-do-tempo-comum-tao-pobre-que-so-tinha-dinheiro"},"modified":"2025-11-07T16:33:33","modified_gmt":"2025-11-07T16:33:33","slug":"domingo-xxv-do-tempo-comum-tao-pobre-que-so-tinha-dinheiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/domingo-xxv-do-tempo-comum-tao-pobre-que-so-tinha-dinheiro\/","title":{"rendered":"Domingo XXV do Tempo Comum: \u00abT\u00e3o pobre que s\u00f3 tinha dinheiro\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031.jpg\" \/><\/p>\n<p><p>1. O uso crist\u00e3o da riqueza preenche quase por completo o Cap\u00edtulo 16 do Evangelho de Lucas. Digo \u00abquase\u00bb, porque temos de excluir apenas uma breve palavra sobre a lei (Lucas 16,16-17) e outra, brev\u00edssima, sobre o div\u00f3rcio (Lucas 16,18). Dividindo o Cap\u00edtulo em duas grandes partes, ficamos ent\u00e3o com duas belas par\u00e1bolas de Jesus: a primeira (Lucas 16,1-13), conhecida como \u00abO administrador desonesto\u00bb, ser\u00e1 proclamada neste Domingo XXV do Tempo Comum, e a segunda (Lucas 16,19-31), conhecida como par\u00e1bola do \u00abRico avarento e do pobre L\u00e1zaro\u00bb, ser\u00e1 proclamada no Domingo seguinte, XXVI do Tempo Comum.<\/p>\n<p>2. A par\u00e1bola do Administrador desonesto, que escutaremos neste Domingo XXV, tem sempre desorientado quer os leitores e ouvintes que a leem ou ouvem com simplicidade e bom senso, quer os exegetas que pretendem captar os seus segredos e penetrar nos seus veios mais profundos. E o problema reside nisto: \u00e9 poss\u00edvel que o Evangelho proponha como modelo a imitar um homem desonesto?<\/p>\n<p>3. Os exegetas enveredam habitualmente, para atenuar o mal-estar sentido, pelos costumes em uso na Palestina, em que as terras eram muitas vezes propriedade de grandes senhores, em muitos casos estrangeiros, que deixavam no terreno administradores locais, a quem davam grande margem de manobra, desde que, no final do ano, entregassem ao senhor o que tinham acordado. Neste sentido, \u00e9 facilmente compreens\u00edvel que o administrador ou feitor, de acordo com os neg\u00f3cios feitos, podia tamb\u00e9m obter licitamente os seus lucros, e que tenha sido com a sua parte dos lucros que o administrador, em nada prejudicando o seu senhor, tenha levado a efeito aqueles descontos que vemos nesta par\u00e1bola.<\/p>\n<p>4. Explica\u00e7\u00e3o aparentemente f\u00e1cil e sensata, mas que n\u00e3o pode ser levada em conta. \u00c9 demasiado equil\u00edbrio para t\u00e3o pouca explica\u00e7\u00e3o! Em boa verdade, a par\u00e1bola n\u00e3o chama a aten\u00e7\u00e3o para a desonestidade do administrador, nem para os meios a que recorreu para fazer amigos. Claramente, a sua desonestidade n\u00e3o interessa a Jesus: n\u00e3o a condena, e t\u00e3o pouco recomenda que a imitemos. Em vez disso, Jesus chama a nossa aten\u00e7\u00e3o para a prontid\u00e3o e intelig\u00eancia com que o administrador procede, sem permitir que o assalte, nem por um momento, a hesita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>5. \u00c9 verdade que o administrador da par\u00e1bola e o disc\u00edpulo de Jesus que a escuta pertencem a duas maneiras diferentes de estar na vida e de proceder: o primeiro obedece \u00e0 l\u00f3gica do mundo; o segundo \u00e0 do Reino. Trata-se evidentemente de duas maneiras diferentes de encarar a vida. N\u00e3o obstante, o disc\u00edpulo de Jesus, de acordo com o andamento da par\u00e1bola, deve aprender do administrador, n\u00e3o a ser desonesto, mas a capacidade de decidir com prontid\u00e3o, intelig\u00eancia e largueza. \u00c9 isto que est\u00e1 em causa. \u00c9 que, face ao Reino de Deus, o disc\u00edpulo de Jesus deve ser igualmente r\u00e1pido, h\u00e1bil e perspicaz a tomar decis\u00f5es. N\u00e3o h\u00e1, de facto, urg\u00eancia maior. \u00c9 quanto resulta do ensino de Jesus no caminho.<\/p>\n<p>6. Mas a grande quest\u00e3o que salta da par\u00e1bola \u00e9 ainda esta: e Jesus n\u00e3o esbanja tamb\u00e9m os bens do Pai, o amor, o perd\u00e3o, a miseric\u00f3rdia? Surge, portanto, uma segunda e inevit\u00e1vel quest\u00e3o: e n\u00f3s, disc\u00edpulos de Jesus, que vimos e ouvimos estas coisas no caminho, guardamos ciosamente estas riquezas divinas s\u00f3 para n\u00f3s, ou esbanjamo-las com largueza e alegria como Jesus?<\/p>\n<p>7. A par\u00e1bola contada por Jesus permite ainda uma correta compreens\u00e3o sobre a fun\u00e7\u00e3o do dinheiro. O dinheiro \u00e9 para servir o homem, mas torna-se muitas vezes o seu dono, diante do qual n\u00f3s nos prostramos, seguran\u00e7a enganadora, falso suced\u00e2neo de Deus, \u00eddolo, a que o Evangelho chama MAMONA (<em>mam\u00f4n\u00e3<\/em>) (Lucas 16,13; cf. Mateus 6,24). De notar que o termo grego\u00a0<em>mam\u00f4n\u00e3s<\/em>\u00a0[= dinheiro, riqueza] deriva, atrav\u00e9s do aramaico\u00a0<em>mam\u00f4n<\/em>, da raiz hebraica\u00a0<em>\u2019mn<\/em>, que serve tamb\u00e9m para dizer a f\u00e9 e a confian\u00e7a em Deus. \u00c9 como quem diz que podemos equivocar-nos radicalmente, deixando de p\u00f4r a nossa f\u00e9 e confian\u00e7a no Deus vivo, para nos agarrarmos aos \u00eddolos mortos e vazios, uma esp\u00e9cie de \u00abespantalhos num campo de pepinos!\u00bb (Jeremias 10,5). No nosso caso e nesta sociedade moderna, pode tratar-se de belos edif\u00edcios plantados no meio das cidades. \u00c9 a\u00ed que est\u00e3o os bancos! O historiador das religi\u00f5es, David Fl\u00fcsser, atravessava um dia a cidade de Atenas enquanto reflectia sobre a f\u00e9, grego\u00a0<em>p\u00edstis<\/em>, no Novo Testamento. E quando levantou os olhos, deparou-se com grandes letras no frontal de um edif\u00edcio. Leu:\u00a0<em>tr\u00e1peza t\u00eas p\u00edste\u00f4s<\/em>, \u00e0 letra,\u00a0<em>banco de f\u00e9<\/em>, em termos modernos,\u00a0<em>banco de cr\u00e9dito<\/em>! Veja-se, hoje, com olhar l\u00facido, o logro ou o loda\u00e7al das nossas arquitetadas seguran\u00e7as!<\/p>\n<p>8. Da\u00ed a muito b\u00edblica e oriental advert\u00eancia de Jesus: \u00abNingu\u00e9m pode servir a dois senhores\u00bb, donde: \u00abN\u00e3o podeis servir a Deus e ao dinheiro\u00bb (Lucas 16,13). De notar que o Livro de Ben-Sir\u00e1 j\u00e1 advertia com sabedoria: \u00abMuitos pecam por amor ao dinheiro. Aquele que procura enriquecer faz todas as falcatruas\u00bb. E ainda: \u00abComo se introduz um pau entre as junturas das pedras, assim se intromete o pecado entre a venda e a compra\u00bb (Ben-Sir\u00e1 27,1-3).<\/p>\n<p>9. O livro de Am\u00f3s, de que hoje ouvimos tamb\u00e9m uma pequena per\u00edcope (8,4-7), caustica severamente a explora\u00e7\u00e3o dos pobres, a corrup\u00e7\u00e3o e o lucro f\u00e1cil. O mundo de Am\u00f3s \u00e9 de oito s\u00e9culos antes de Cristo. Mas o seu Livro parece ter sido escrito hoje, dada a sua tremenda atualidade. A li\u00e7\u00e3o de hoje abre com a chamada \u00abf\u00f3rmula de aten\u00e7\u00e3o\u00bb (Ouvi), que introduz habitualmente or\u00e1culos de desgra\u00e7a, e dirige-se aos ricos e latifundi\u00e1rios, que vendem o trigo aos necessitados, enganando-os e roubando-os sorrateiramente, usando balan\u00e7as, medidas e pesos falseados, comprando o trabalho dos pobres por um par de sand\u00e1lias! Como se v\u00ea, sendo embora o texto do s\u00e9c. VIII a.C., parece que estamos a ler um comp\u00eandio moderno de economia e com\u00e9rcio, que tem em vista apenas o lucro f\u00e1cil a custo seja do que for. O or\u00e1culo termina referindo que para um tal comportamento de roubo, para c\u00famulo disfar\u00e7ado de seriedade, n\u00e3o h\u00e1 amnistia: \u00abnunca o esquecerei\u00bb, diz Deus (v. 7). O\u00a0<em>ef\u00e1<\/em>, de que se fala no texto (v. 5), usado para medir cereais, equivalia a 45 litros. O\u00a0<em>sheqel<\/em>\u00a0ou siclo, de que tamb\u00e9m se fala no v. 5, pesava 11,4 gramas. A moeda propriamente dita aparece no s\u00e9c. VIII na Anat\u00f3lia, e pouco depois na Gr\u00e9cia. O\u00a0<em>sheqel<\/em>\u00a0\u00e9 o nome atualmente usado para designar a moeda israelita.<\/p>\n<p>10. Chega-nos hoje mais uma extraordin\u00e1ria li\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo na sua 1 Carta a Tim\u00f3teo 2,1-8. Primeiro que tudo (<em>pr\u00f4ton p\u00e1nt\u00f4n<\/em>), rezar por todos os homens, usando todas as modalidades da ora\u00e7\u00e3o: s\u00faplicas (<em>de\u00easeis<\/em>), ora\u00e7\u00f5es intensas (<em>proseucha\u00ed<\/em>), pedidos (<em>ente\u00faxeis<\/em>), a\u00e7\u00f5es de gra\u00e7as (<em>eucharist\u00edai<\/em>) (v. 1). Depois, a afirma\u00e7\u00e3o da vontade salvadora universal de Deus, nosso Salvador, que quer que todos os homens sejam salvos, e ao conhecimento da verdade venham (v. 4). Dois movimentos: um da parte de Deus, nunca anul\u00e1vel; outro da nossa parte, que nos devemos p\u00f4r em movimento em ordem ao conhecimento profundo, pessoal, \u00edntimo, experimental (<em>ep\u00edgn\u00f4sis<\/em>) da verdade, que \u00e9 o amor fiel e fi\u00e1vel de Deus por n\u00f3s. Em continuidade, o \u00fanico mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo, que se entregou a si mesmo por n\u00f3s (vv. 5-6). A seguir, a raz\u00e3o de ser do pr\u00f3prio Paulo e da sua miss\u00e3o de anunciador (<em>k\u00earyx<\/em>) e ap\u00f3stolo (<em>ap\u00f3stolos<\/em>) (v.7). Por \u00faltimo, como ao princ\u00edpio, a vontade de Paulo de que todos rezem em toda a parte (v. 8).<\/p>\n<p>11. E ficamos com a m\u00fasica inebriante do Salmo 113, o Salmo que abre o fasc\u00edculo dos Salmos 113-118, catalogados como o \u00abpequeno Hallel da P\u00e1scoa\u00bb ou \u00abHallel eg\u00edpcio\u00bb, cantados no decurso da Ceia da P\u00e1scoa hebraica, de que o Talmude registra uma imagem sugestiva, deixando supor que, no decurso da Ceia da P\u00e1scoa, se levantava das casas dos hebreus um suspiro de louvor que perfurava os tetos e chegava ao c\u00e9u: \u00abA P\u00e1scoa \u00e9 saborosa como a azeitona, e o Hallel deve atravessar os tetos das casas para chegar ao trono de Deus\u00bb. O Salmo 113, sessenta palavras hebraicas, apresenta tr\u00eas belos andamentos: o primeiro, vv. 1-3, convida os orantes a encher de louvor o espa\u00e7o todo visto na sua linha horizontal (do nascer ao p\u00f4r do sol: oriente-ocidente) e o tempo todo (agora e sempre). Este louvor intenso dirige-se \u00e0 pessoa do Senhor, expressa pelo Nome do Senhor (tr\u00eas vezes). O segundo andamento, vv. 4-6, desenha uma linha vertical no sentido descendente (c\u00e9u-terra), e mostra a transcend\u00eancia, a gl\u00f3ria e a incomparabilidade de Deus, sentado no alto, nos c\u00e9us, mas amorosamente debru\u00e7ado sobre a terra. Portanto, o nosso Deus n\u00e3o \u00e9 um Deus impass\u00edvel e abstrato, fechado nas paredes douradas da sua eternidade, mas \u00e9 um Deus que se interessa por n\u00f3s. O terceiro andamento, vv. 7-9, desenha agora uma linha vertical no sentido ascendente (terra-c\u00e9u), e mostra Deus em a\u00e7\u00e3o no nosso mundo, levantando do p\u00f3 e do esterco os indigentes, e fazendo da est\u00e9ril, por todos desprezada, m\u00e3e honrada e feliz, habitante digna na casa do Senhor. Grande Hino de Louvor, que faz comunh\u00e3o na vertical e na horizontal, e que nos junta a todos na b\u00ean\u00e7\u00e3o (. 2), hebraico\u00a0<em>b<sup>e<\/sup>rakah<\/em>, grego\u00a0<em>eulog\u00eda<\/em>, que desenha um mundo de bondade e de bem, de pensar bem, dizer bem, querer bem, fazer bem. Bendizer ou dizer bem une, como sabemos. Une-nos uns com os outros e todos com Deus. \u00c9 a Eucaristia. Ao contr\u00e1rio, maldizer ou dizer mal separa, como tamb\u00e9m sabemos.<\/p>\n<p>12. Mas nunca nos esque\u00e7amos que n\u00e3o pode ser o dinheiro a comandar a nossa vida. Nunca nos devemos esquecer da hist\u00f3ria daquele fulano que era t\u00e3o pobre, t\u00e3o pobre, t\u00e3o pobre\u2026, que s\u00f3 tinha dinheiro!<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. O uso crist\u00e3o da riqueza preenche quase por completo o Cap\u00edtulo 16 do Evangelho de Lucas. 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