{"id":1582500344,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/7053-solenidade-da-santissima-trindade"},"modified":"2025-11-07T16:33:03","modified_gmt":"2025-11-07T16:33:03","slug":"solenidade-da-santissima-trindade-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/solenidade-da-santissima-trindade-3\/","title":{"rendered":"Solenidade da Sant\u00edssima Trindade"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031_160503044443.jpg\" \/><\/p>\n<p><p>1. Deus faz-se ver nos interst\u00edcios do nosso humilde ch\u00e3o quotidiano. Foi quanto Nicodemos p\u00f4de depreender ao ver os sinais (<em>s\u00eame\u00eea<\/em>) que Jesus fazia (cf. Jo\u00e3o 3,2b-3). Todavia, daqui para a frente, n\u00e3o h\u00e1 passo racional, nosso, que possamos dar. N\u00e3o resta a Nicodemos outra via (n\u00e3o Tomista) que n\u00e3o seja ir ao encontro de Jesus (cf. Jo\u00e3o 3,2a), n\u00e3o na sua condi\u00e7\u00e3o de \u00abo mestre de Israel (<em>ho did\u00e1scalos to\u00fb Isra\u00eal<\/em>)\u00bb (Jo\u00e3o 3,10), mas do disc\u00edpulo que sabe depor as suas armas de Mestre aos p\u00e9s de Jesus, \u00abo Mestre que veio de Deus\u00bb (<em>ap\u00f2 theo\u00fb el\u00ealythas did\u00e1skalos<\/em>) (Jo\u00e3o 3,2b). As pequenas m\u00e3os de Nicodemos, e as nossas tamb\u00e9m, n\u00e3o disp\u00f5em de nenhum argumento ou instrumento de acesso que nos permita ir al\u00e9m da g\u00e9lida impassibilidade das leis da natureza. Ora, naquele Jesus que Nicodemos via, havia claros sinais de que \u00abDeus estava com Ele\u00bb (<em>ho the\u00f2s met\u2019 auto\u00fb<\/em>) (Jo\u00e3o 3,2b). Em Jesus, era ent\u00e3o vis\u00edvel um acesso \u00e0 vida divina. E foi isso que Levou Nicodemos a sair tremulamente do seu quotidiano, de \u00abo mestre de Israel\u00bb, para ir ao encontro de Jesus, o Mestre que veio de Deus.<\/p>\n<p>2. Saiu dali e foi. E dali para a frente \u00e9 todo o dizer do Evangelho deste dia. \u00c9 Jesus que se diz a Nicodemos. N\u00e3o \u00e9 a hist\u00f3ria ou a narrativa de um dizer an\u00f3dino. \u00c9 o Mestre que vem de Deus, para dizer Deus a Nicodemos, a mim e a ti. Jesus n\u00e3o diz coisas; diz Deus. N\u00e3o ensina conte\u00fados para aprender; d\u00e1-nos Deus que nos ama, e que, por amor, nos entrega o seu Filho, Jesus. Portanto, Nicodemos fica sem jeito: n\u00e3o lhe compete apenas aprender o que Jesus lhe pode ensinar; compete-lhe receber Jesus que Deus lhe entrega por amor. E compete-lhe ainda saber que esta enchente de amor, que vem de Deus, \u00e9 para todos, e n\u00e3o apenas para ele, pelo que, responder a esta enxurrada de amor, passar\u00e1 sempre por amar tamb\u00e9m, no quotidiano, os seus irm\u00e3os.<\/p>\n<p>3. Sim, \u00e9 tal a grandeza do amor de Deus por n\u00f3s, que, por amor de n\u00f3s, entrega at\u00e9 o seu Filho, para assumir e absorver os nossos erros, saldar as nossas d\u00edvidas, suportar os nossos maus tratos e a nossa viol\u00eancia, poder ter mesmo que entregar a sua vida nas nossas m\u00e3os assassinas, sem deixar de nos amar, para nos salvar.<\/p>\n<p>4. A afirma\u00e7\u00e3o de Jesus \u00e9 absolutamente assombrosa, impens\u00e1vel, desarmante: \u00abDeus amou de tal modo o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unig\u00e9nito\u00bb (Jo\u00e3o 3,16), o Filho do seu amor. Para que n\u00e3o nos passe ao lado a for\u00e7a do que acab\u00e1mos de ouvir, talvez possamos perguntar: Quem \u00e9 o pai ou a m\u00e3e aqui presente que est\u00e1 disposto a entregar o seu filho ou filha a um grupo de malvados para, com esse gesto de extrema ousadia, tentar retirar do mal aqueles malvados? Penso que n\u00e3o haver\u00e1 aqui ningu\u00e9m que se atreva a fazer uma coisa destas. O que n\u00f3s n\u00e3o somos capazes de fazer, f\u00ea-lo Deus por n\u00f3s, n\u00e3o somos grande coisa! Entregou-nos o seu Filho querido, e n\u00f3s crav\u00e1mo-lo naquela Cruz!<\/p>\n<p>5. O texto do Antigo Testamento que faz equil\u00edbrio com o Evangelho de hoje \u00e9 a chamada\u00a0<em>magna charta<\/em>\u00a0do amor de Deus, que hoje podemos ler no Livro do \u00caxodo 34,4-9. A primeira frase [\u00abE passou (<em>?abar<\/em>) o Senhor diante dele (Mois\u00e9s), e proclamou\/invocou (<em>qara?<\/em>): \u201cSenhor, Senhor\u201d\u00bb], \u00e9 de liga\u00e7\u00e3o, mas reveste-se de grande import\u00e2ncia. A a\u00e7\u00e3o de \u00abpassar\u00bb, por parte de Deus, significa, por um lado, a sua presen\u00e7a livre, boa e bela, e, por outro lado, que n\u00f3s n\u00e3o podemos p\u00f4r sobre Ele a nossa m\u00e3o, control\u00e1-lo, nossa permanente tenta\u00e7\u00e3o. \u00abE passou o Senhor\u00bb (\u00caxodo 34,6) cumpre a promessa boa de Deus a Mois\u00e9s, feita em \u00caxodo 33,19, de fazer passar diante de Mois\u00e9s toda a sua bondade e beleza (<em>kol-th\u00fbb\u00ee<\/em>). E que esta \u00abpassagem\u00bb \u00e9 boa e bela v\u00ea-se em contraponto com as vis\u00f5es do Livro de Am\u00f3s, em que Deus declara: \u00abVeio o fim (<em>qets<\/em>) para o meu povo, Israel; n\u00e3o continuarei a\u00a0<em>passar<\/em>\u00a0para ele (<em>lo<\/em><em>?<\/em>\u2026\u00a0<em>?abar l\u00f4<\/em>)\u00bb (Am\u00f3s 8,2; cf. 7,8). E o facto de o Senhor aparecer a proclamar\/invocar (<em>qara<\/em><em>?<\/em>) o seu pr\u00f3prio Nome \u00e9 coisa \u00fanica, \u00fanica vez em toda a Escritura em que o Senhor \u00e9 sujeito do verbo\u00a0<em>qara<\/em><em>?<\/em>, na express\u00e3o\u00a0<em>qara<\/em><em>?<\/em><em>\u00a0b<sup>e<\/sup>shem<\/em>, invocar o Nome. Por norma, a locu\u00e7\u00e3o\u00a0<em>qara<\/em><em>?<\/em><em>\u00a0b<sup>e<\/sup>shem YHWH<\/em>\u00a0encontra-se nos l\u00e1bios dos adoradores e suplicantes, e significa a\u00ed \u00abinvocar o Nome de YHWH\u00bb. Posta na boca do pr\u00f3prio Deus, a locu\u00e7\u00e3o h\u00e1 de significar, em primeiro lugar, proclamar, mas sem anular a beleza e a surpresa de o pr\u00f3prio Deus invocar tamb\u00e9m o seu Nome, a sua plenitude de Amor, de que todos recebemos gra\u00e7a sobre gra\u00e7a (cf. Jo\u00e3o 1,16). A exegese costuma, neste lugar, acentuar o \u00abproclamar\u00bb, deixando de lado o \u00abinvocar\u00bb, querendo quase explicar que Deus n\u00e3o pode invocar o seu pr\u00f3prio nome, isto \u00e9, rezar. Mas s\u00f3 este duplo dizer de Deus, revelat\u00f3rio e orante, constitui a verdadeira revela\u00e7\u00e3o de Deus, e assenta as bases para que o crente possa invocar proclamando, ou proclamar invocando, anunciando, rezando, com do\u00e7ura e estremecimento, este Nome, esta Presen\u00e7a Amante e Fiel. T\u00e3o extraordin\u00e1ria maneira de dizer deixa-nos, pois, n\u00e3o no dom\u00ednio da metaf\u00edsica, mas da revela\u00e7\u00e3o, da anuncia\u00e7\u00e3o, da ora\u00e7\u00e3o, da adora\u00e7\u00e3o, ato fundador e modelar da nossa ora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>6. N\u00e3o ser\u00e1, neste contexto, de estranhar que, nesta exposi\u00e7\u00e3o de Deus, Deus exposto diante de Mois\u00e9s com toda a sua bondade e beleza, como acontece em \u00caxodo 34,6-7, e que n\u00e3o pode deixar de lembrar Jesus Cristo exposto (<em>pro\u00e9theto<\/em>) na Cruz (Romanos 3,25), \u00abexposto por escrito (<em>proegr\u00e1ph\u00ea<\/em>) diante dos nossos olhos\u00bb (G\u00e1latas 3,1), Mois\u00e9s se tenha \u00abapressado a responder ajoelhando-se (<em>qadad<\/em>) no ch\u00e3o e prostrando-se em adora\u00e7\u00e3o (<em>hishtah<sup>a<\/sup>wah<\/em>, forma hitpael de\u00a0<em>shahah<\/em>), e dizendo: \u201cPor favor, se encontrei gra\u00e7a aos teus olhos (<em>?im-na? matsa?t\u00ee hen b<sup>e<\/sup>?\u00ean\u00eaka<\/em>), Senhor, vem, por favor, Senhor, para o meio de n\u00f3s, que somos um povo de dura cerviz, e perdoa (<em>salah<\/em>) a nossa culpa e o nosso pecado\u201d\u00bb (\u00caxodo 34,8-9).<\/p>\n<p>7. Entre esta necess\u00e1ria aproxima\u00e7\u00e3o teof\u00e2nica centrada no essencial, e o essencial \u00e9 sempre pessoal, que \u00e9 a passagem boa e bela de Deus (\u00caxodo 34,6a), exposi\u00e7\u00e3o de Deus, e a ora\u00e7\u00e3o e adora\u00e7\u00e3o humana por ela provocada (\u00caxodo 34,8-9), sem os fen\u00f3menos exteriores habituais, como rel\u00e2mpagos, trov\u00f5es, tremores de terra, fogo devorador (cf. \u00caxodo 19,16 e 18), a\u00ed est\u00e1, dentro do caixilho, o quadro central, que abre com a repeti\u00e7\u00e3o do Nome \u00abSenhor, Senhor\u00bb, \u00fanica em toda a Escritura, duplica\u00e7\u00e3o certamente com valor enf\u00e1tico, mas tamb\u00e9m lit\u00fargico, orante, adorante. Deus diz-se a Si mesmo como nos diz a n\u00f3s: \u00abMois\u00e9s, Mois\u00e9s\u00bb (\u00caxodo 3,4), com Amor imenso e intenso, orante, comovido, exposto! Convenhamos que, neste tremendo dizer, n\u00e3o conta apenas o facto de Deus se dizer a Si mesmo. Conta tamb\u00e9m, e talvez sobretudo, o modo como Deus se diz a Si mesmo.<\/p>\n<p>8. O Ap\u00f3stolo traz-nos hoje, no final da sua correspond\u00eancia com a comunidade de Corinto (2 Cor\u00edntios 13,11-13), a f\u00f3rmula com que abrimos a nossa Eucaristia: \u00abA gra\u00e7a do Senhor Jesus Cristo e o amor do Pai e a comunh\u00e3o do Esp\u00edrito Santo estejam com todos v\u00f3s\u00bb. \u00c8, de facto, em clave trinit\u00e1ria que vivemos e rezamos.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014-<\/p>\n<p>1. Nesta \u00abera do vazio\u00bb que nos atravessa, a Trindade pode parecer insignificante, e ficar remetida apenas para velhos comp\u00eandios de uma esp\u00e9cie de geometria religiosa. Imp\u00f5e-se, portanto, uma reflex\u00e3o forte e renovada, em que a Trindade surja como fonte de vivifica\u00e7\u00e3o para a nossa experi\u00eancia crist\u00e3 quotidiana.<\/p>\n<p>2. Na Triadologia do Novo Testamento, preparada pelo Antigo Testamento, Deus, enquanto d\u00e1diva suprema fundante, \u00e9 o Pai. Mas a d\u00e1diva suprema do Pai, infinita riqueza, constitui o Filho, infinita pobreza, que tudo recebe. Mas, ao receber tudo, infinita rece\u00e7\u00e3o, o Filho volta a dar tudo numa infinita doa\u00e7\u00e3o sem defesa e sem limites. E esta comunh\u00e3o-comunica\u00e7\u00e3o-vida-amor de si-a-si, circular, vertiginosa, tranquila e imperec\u00edvel, constitui o Esp\u00edrito Santo, a Pessoa-Dom incriado (segundo a bela express\u00e3o de S. Jo\u00e3o Paulo II), o Dom que vem de si mesmo a si mesmo, Dom de si a si, o Dom absolutamente um com ele mesmo, o Dom id\u00eantico ao Ser.<\/p>\n<p>3. Esta feliz defini\u00e7\u00e3o, se bem compreendida e explorada, pode trazer importantes consequ\u00eancias pr\u00e1ticas. A nossa experi\u00eancia ensina-nos como n\u00f3s somos sens\u00edveis ao Dom, como o nosso cora\u00e7\u00e3o se abre diante do Dom. O Dom tem uma for\u00e7a pr\u00f3pria. N\u00e3o \u00e9 uma for\u00e7a exterior que se imponha desde fora. \u00c9 uma for\u00e7a interior, persuasiva, suave e calorosa, que move o cora\u00e7\u00e3o desde dentro, quebrando toda a dureza e resist\u00eancia. O Dom \u00e9 uma terceira realidade entre mim e o meu amigo. O meu amigo quer dar-se a mim por amor. Mas n\u00e3o pode deixar de ser ele, para passar a ser eu. Eu quero dar-me ao meu amigo por amor, mas n\u00e3o posso deixar de ser eu, para passar a ser ele. Ali\u00e1s, se esta fus\u00e3o pudesse acontecer, punha termo ao amor existente entre mim e o meu amigo. O Dom prov\u00e9m da alteridade e garante a alteridade. Prov\u00e9m da intencionalidade da uni\u00e3o entre mim e o meu amigo, mas garante tamb\u00e9m a nossa alteridade. O Dom \u00e9 o meu amigo dando-se a si mesmo a mim por amor e sou eu recebendo o meu amigo por amor, princ\u00edpio e termo da doa\u00e7\u00e3o. Em Deus, o Pai d\u00e1-se ao Filho por amor \u2013 princ\u00edpio da doa\u00e7\u00e3o \u2013, mas n\u00e3o perde a sua dimens\u00e3o paternal, tornando-se Filho; do mesmo modo que o Filho, acolhendo o dom da paternidade por amor \u2013 termo da doa\u00e7\u00e3o \u2013, n\u00e3o anula a sua determina\u00e7\u00e3o filial, tornando-se Pai. Uma a\u00e7\u00e3o requer sempre a outra para se completar, estando as duas pessoas reciprocamente implicadas. Entre mim e o meu amigo, o Dom \u00e9 um objeto, mas quanto mais intensamente \u00e9 Dom, isto \u00e9, quanto mais significa a nossa doa\u00e7\u00e3o \u00edntima e pessoal, menos \u00e9 um objeto materialmente determinado. Por isso eu gasto tanto tempo at\u00e9 encontrar o Presente que quero oferecer ao meu amigo, um objeto que signifique a nossa intimidade. Em Deus, entre o Pai e o Filho, o Dom \u00e9 o Esp\u00edrito, Pessoa divina subsistente, distinto do Pai e do Filho, dos quais procede, mas distinto tamb\u00e9m do ato da doa\u00e7\u00e3o, de que \u00e9 o efeito e a significa\u00e7\u00e3o. Se ele fosse o ato da doa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o constituiria uma pessoa subsistente, pois n\u00e3o existiria como tal; seria a soma de duas pessoas, n\u00e3o uma terceira.<\/p>\n<p>4. O Esp\u00edrito, Pessoa-Dom incriado, \u00e9 o protagonista da miss\u00e3o e de toda a vida eclesial. \u00c9, por\u00e9m, um protagonista silencioso como o Dom \u00e9 silencioso. Silencioso, mas eficaz. A sua a\u00e7\u00e3o calorosa processa-se, n\u00e3o com palavras sens\u00edveis que afetam os \u00f3rg\u00e3os da audi\u00e7\u00e3o (cf. Romanos 8,26), mas na interioridade da intelig\u00eancia da f\u00e9 num \u00abgemido sem palavras\u00bb (<em>stenagm\u00f2s al\u00e1l\u00eatos<\/em>) (Romanos 8,26), que acende no nosso cora\u00e7\u00e3o o vivo\u00a0<em>desejo<\/em>\u00a0de comunicar com Deus. A a\u00e7\u00e3o calorosa do Esp\u00edrito-Dom n\u00e3o se limita a certos pa\u00edses, l\u00ednguas, povos, etnias, religi\u00f5es, e nem sequer tem um alcance limitado como \u00e9 limitado o alcance daquele que usa as cordas vocais (ou mesmo os meios de comunica\u00e7\u00e3o social) para se fazer ouvir. Ele est\u00e1 para al\u00e9m de todas essas barreiras, pois atua diretamente na intelig\u00eancia e no cora\u00e7\u00e3o de cada homem. E em termos de intelig\u00eancia e de cora\u00e7\u00e3o, em termos de humanidade e intimidade, s\u00e3o iguais o chin\u00eas, o portugu\u00eas e o ingl\u00eas, o cat\u00f3lico, o hindu\u00edsta e o mu\u00e7ulmano\u2026<\/p>\n<p>5. A grande teologia b\u00edblica est\u00e1 atravessada por este Mist\u00e9rio (<em>myst\u00earion<\/em>) do Amor de Deus \u2013 que \u00e9 Deus vindo ao mesmo tempo de si mesmo e a si mesmo \u2013, Mist\u00e9rio escondido eternamente em Deus (Romanos 16,25; Ef\u00e9sios 3,9; Colossenses 1,26), mas j\u00e1 presente e atuante na hist\u00f3ria dos homens desde a Cria\u00e7\u00e3o (Jo\u00e3o 1,3; Colossenses 1,16) e agora dado a conhecer (<em>gn\u00f4r\u00edz\u00f4<\/em>) em Cristo (Romanos 16,25-26; Ef\u00e9sios 1,9; 3,3.10; Colossenses 1,27), tornando-se, portanto, Mist\u00e9rio conhecido (!), Revela\u00e7\u00e3o divina gratuita \u2013 doa\u00e7\u00e3o do Dom e dic\u00e7\u00e3o do Dito \u2013, totalmente entregue aos homens, para a viverem totalmente. Este \u00abpara n\u00f3s\u00bb do Mist\u00e9rio do Amor de Deus \u00e9 o Prop\u00f3sito (<em>pr\u00f3thesis<\/em>) eterno divino (Romanos 8,28; Ef\u00e9sios 1,11), a Vontade (<em>th\u00e9l\u00eama<\/em>) eterna divina (G\u00e1latas 1,4; Ef\u00e9sios 1,5.9.11) \u2013 em Deus, pensamento, express\u00e3o, comunica\u00e7\u00e3o, efeito, Alfa e Omega, s\u00e3o simult\u00e2neos e coeternos \u2013 de elevar a nossa humanidade a viver por gra\u00e7a ao n\u00edvel da sua divindade (2 Pedro 1,4; 1 Jo\u00e3o 3,2). Se, na grande teologia b\u00edblica, o homem confessa que Deus se revela, confessa ent\u00e3o que Deus \u00e9 o ato de se revelar. E, ent\u00e3o, o Mist\u00e9rio de Deus \u00e9 a sua revela\u00e7\u00e3o, e a sua revela\u00e7\u00e3o \u00e9 o seu Mist\u00e9rio. Nesse sentido, Deus vem a si mesmo como vem ao mundo. E quando Deus se comunica e se manifesta ao mundo, trata-se verdadeiramente de uma comunica\u00e7\u00e3o de si-a-si e de uma manifesta\u00e7\u00e3o de si-a-si. Donde: comunica\u00e7\u00e3o-manifesta\u00e7\u00e3o de Deus ao mundo = comunica\u00e7\u00e3o-manifesta\u00e7\u00e3o de Deus a si mesmo.<\/p>\n<p>6. No centro deste Mist\u00e9rio do Amor de Deus em a\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria dos homens est\u00e1 a Miss\u00e3o do Filho de Deus com o Esp\u00edrito Santo, que \u00e9 o Mist\u00e9rio de Cristo (Ef\u00e9sios 3,4), que \u00e9 Cristo em n\u00f3s (Colossenses 1,27) e n\u00f3s em Cristo (Romanos 8,28-30). Assumindo a nossa condi\u00e7\u00e3o humana por puro Dom de Amor total, concebido e nascido na sua \/ nossa humanidade por Amor, com o nome \u00abJesus\u00bb, n\u00e3o da carne e do sangue, mas do Esp\u00edrito Santo (Mateus 1,18; Lucas 1,34-35; cf. Jo\u00e3o 3,6), tendo recebido na sua \/ nossa humanidade a plenitude do Esp\u00edrito Santo no Batismo do Jord\u00e3o (Lucas 4,1; cf. Jo\u00e3o 1,32-33), e tendo-o recebido de novo, na sua \/ nossa humanidade Crucificada, Ressuscitada e Glorificada (Atos 2,32-33; 1 Cor\u00edntios 15,45.49) na Morte \/ Ressurrei\u00e7\u00e3o que \u00e9 o Batismo consumado (Lucas 12,49-50), Ele pode agora, enquanto Homem verdadeiro divinizado, tornado na sua \/ nossa Humanidade \u00abEsp\u00edrito vivificante\u00bb (<em>pne\u00fbma z\u00f4opoio\u00fbn<\/em>) (1 Cor\u00edntios 15,45), dar o Esp\u00edrito Santo aos outros homens seus irm\u00e3os, vivos e mortos (Jo\u00e3o 19,30 e 34; 20,22; Atos 2,32-33; 1 Cor\u00edntios 15,49).<\/p>\n<p>7. No decurso da sua vida terrena ainda n\u00e3o podia dar o Esp\u00edrito, embora o possu\u00edsse em plenitude. Anota cuidadosamente o Evangelista que \u00abn\u00e3o havia ainda Esp\u00edrito, porque Jesus ainda n\u00e3o fora glorificado\u00bb (Jo\u00e3o 7,39). Na verdade, na Economia divina, \u00abEconomia da carne\u00bb, como dizem os Padres, porque a carne decaiu, a carne devia levantar-se, e onde a carne tinha sido vencida, a carne devia vencer (S.to Ireneu). Foi por isso necess\u00e1rio que o Verbo Deus\u00a0assumisse a condi\u00e7\u00e3o do Ad\u00e3o antigo \u00abnuma carne semelhante \u00e0 do pecado\u00bb (Romanos 8,3), \u00abfeito pecado por causa de n\u00f3s\u00bb (2 Cor\u00edntios 5,21), \u00abtornado maldi\u00e7\u00e3o por causa de n\u00f3s\u00bb (G\u00e1latas 3,13), sujeito, enfim, \u00e0 morte. Sem esta, n\u00e3o se verificava a assun\u00e7\u00e3o completa da nossa condi\u00e7\u00e3o (Hebreus 2,9.14a.17). Assumiu, portanto, as consequ\u00eancias do nosso pecado, sem se tornar, no entanto, c\u00famplice do pecado (Hebreus 4,15; 1 Pedro 2,22). Impunha-se que fosse sem pecado, para poder enfrentar a morte, n\u00e3o como quem lhe \u00e9 naturalmente devedor, mas num ato de pura generosidade. N\u00e3o bastava ser sem pecado. Ao ser sem pecado era necess\u00e1rio juntar uma atitude de puro amor subversivo (Hebreus 2,10.14b.18). No decurso da sua vida terrena, nem a sua uni\u00e3o com Deus, nem a sua uni\u00e3o com os homens, tinham atingido a sua perfei\u00e7\u00e3o: enquanto homem terreno, Jesus n\u00e3o estava perfeitamente unido a Deus na gl\u00f3ria: era necess\u00e1ria uma transforma\u00e7\u00e3o radical da sua humanidade; mas t\u00e3o-pouco a sua solidariedade com os homens estava completa. \u00c9 s\u00f3 ap\u00f3s ter efetuado esta assimila\u00e7\u00e3o total, que a \u00abcarne do Verbo Deus\u00bb opera agora aquela que \u00e9 a m\u00e1xima opera\u00e7\u00e3o divina: dar o Esp\u00edrito Santo, vivificar-nos com o contacto do seu corpo pneumat\u00f3foro. De facto, \u00e9 s\u00f3 no fim da sua vida terrena, no extremo da sua incarna\u00e7\u00e3o levada at\u00e9 ao extremo \u2013 que comporta a sua morte e a sua ressurrei\u00e7\u00e3o, a glorifica\u00e7\u00e3o da sua humanidade \u2013, que podemos proclamar a identidade (de\u00a0<em>ide\u00een<\/em>) de Jesus como Filho Deus, obra do Esp\u00edrito em n\u00f3s. Por isso, s\u00f3 quando Jesus desaparecer na Gl\u00f3ria, o Esp\u00edrito pode vir para n\u00f3s. Todas as palavras relativas ao Par\u00e1clito, o atestam \u00e0 sua maneira. Todas falam do envio do Esp\u00edrito Santo Par\u00e1clito no futuro (Jo\u00e3o 14,16; 14,26; 15,26; 16,7; 16,13-15). O contexto da quarta refer\u00eancia \u00e9 particularmente elucidativo: \u00ab\u00e9 do vosso interesse que eu v\u00e1, porque, se eu n\u00e3o for, o Par\u00e1clito n\u00e3o vir\u00e1 para v\u00f3s; mas se eu for, eu envi\u00e1-lo-ei para v\u00f3s\u00bb (Jo\u00e3o 16,7). A raz\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 em que Jesus, que est\u00e1 corporalmente presente, deva desaparecer para que a sua \u00abespiritualidade\u00bb possa ser tornada presente, mas em que uma exegese do Verbo feito carne, na sua totalidade, \u00abna verdade toda\u00bb (<em>en t\u00ea al\u00eathe\u00eda p\u00e1s\u00ea<\/em>) (Jo 16,13), n\u00e3o pode realizar-se sen\u00e3o a partir do momento em que Ele \u00e9 proferido at\u00e9 ao fim, o que comporta a sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>8. O Esp\u00edrito Santo \u00e9 assim a D\u00e1diva de Deus (<em>h\u00ea d\u00f4re\u00e0 to\u00fb theo\u00fb<\/em>) (Actos 2,38; 8,20; 10,45; 11,17; Hebreus 6,4; cf. Lucas 11,9.13) que vem a n\u00f3s sempre da \u00fanica Fonte inexaur\u00edvel que \u00e9 a Humanidade Crucificada, Ressuscitada e Glorificada do Senhor. \u00c9 s\u00f3 a\u00ed e da\u00ed, mediante ades\u00e3o sacramental ao seu Corpo pneumat\u00f3foro \u2013 \u00abquem adere (<em>koll\u00e1\u00f4<\/em>) ao Senhor torna-se com Ele \u00fanico Esp\u00edrito\u00bb (1 Cor\u00edntios 6,17) \u2013, que recebemos a nossa verdadeira identidade, a filia\u00e7\u00e3o divina (<em>hyiothes\u00eda<\/em>) (Romanos 8,15-16; G\u00e1latas 4,5; Ef\u00e9sios 1,5), e ousamos rezar \u00abAbba, Pai!\u00bb (G\u00e1latas 4,4-6; Romanos 8,15.26-27) e proclamar \u00abSenhor \u00e9 Jesus!\u00bb (1 Cor\u00edntios 12,3; Filipenses 2,11). \u00c9 verdade que \u00abo Esp\u00edrito sopra onde quer\u00bb (Jo\u00e3o 3,8), em qualquer povo, debaixo de qualquer c\u00e9u, avivando as brasas do\u00a0<em>desejo<\/em>\u00a0inscrito na nossa carne humana, mas vem a n\u00f3s somente atrav\u00e9s da Humanidade Crucificada, Ressuscitada e Glorificada do Senhor Jesus, e \u00e9 para l\u00e1 que remete e reconduz sempre, desvendando e saciando o nosso\u00a0<em>desejo<\/em>\u00a0do Filho. O Esp\u00edrito Santo n\u00e3o Se revela \u2013 \u00abn\u00e3o falar\u00e1 de si mesmo\u00bb (Jo\u00e3o 16,13) \u2013, mas revela sempre na Humanidade Crucificada, Ressuscitada e Glorificada do Senhor Jesus, o Filho de Deus. E s\u00f3 o Filho de Deus, concebido e nascido na sua \/ nossa Humanidade \u2013 Jesus \u2013, Crucificado, Ressuscitado e Glorificado na sua \/ nossa Humanidade, dador do Esp\u00edrito Santo e por Ele revelado, pode revelar o Pai. Tudo vem do Pai, mediante o Filho, no Esp\u00edrito; tudo volta ao Pai, mediante o Filho, no Esp\u00edrito.<\/p>\n<p>9. O Esp\u00edrito Santo Deus, D\u00e1diva total do Pai e do Filho, Divina Comunh\u00e3o (2 Cor\u00edntios 13,13; Filipenses 2,1), e que brota para n\u00f3s da \u00fanica Fonte sacramental da Humanidade Crucificada, Ressuscitada e Glorificada do Senhor, est\u00e1 operante na nossa humanidade e na nossa hist\u00f3ria. Vindo (Jo\u00e3o 15,26; 16,7.8.13), Ensinando (Jo\u00e3o 14,26; 1 Jo\u00e3o 2,20.27) e Recordando (Jo\u00e3o 14,26), Conduzindo (Jo\u00e3o 16,13), Recebendo (Jo\u00e3o 16,14.15) e Anunciando (Jo\u00e3o 16,13.14.15), Testemunhando (Jo\u00e3o 15,26), Dando (1 Cor\u00edntios 12,7 e 8) e Edificando (1 Cor\u00edntios 14,3.4.5.12.26), Vivificando (Jo\u00e3o 6,63; Romanos 8,10; 2 Cor\u00edntios 3,6), Ele (<em>eke\u00eenos<\/em>) \u00e9 o verdadeiro protagonista da mesma Miss\u00e3o Filial Batismal do Senhor que a Igreja Fiel Batizada e Confirmada deve prosseguir, para dela viver e para dela fazer viver, como ficou documentado de forma paradigm\u00e1tica na vida das comunidades crist\u00e3s nascentes, tal como atestam as Cartas de S. Paulo e o inteiro Livro dos Atos dos Ap\u00f3stolos.<\/p>\n<p>10. Vindo, Recebendo, Ensinando, Recordando, Conduzindo, Testemunhando, Dando, Edificando. O Esp\u00edrito Par\u00e1clito recebe (<em>lamb\u00e1n\u00f4<\/em>) do que \u00e9 de Jesus (Jo\u00e3o 16,14 e 15), do mesmo modo que Jesus recebeu do Pai (Jo\u00e3o 10,18; Apocalipse 2,28), que lhe deu tudo o que tem e \u00e9. Do mesmo modo, o ensinamento (<em>didach\u00ea<\/em>) do Esp\u00edrito Par\u00e1clito \u00e9 o mesmo que Jesus fez e que recebeu do Pai, mas vem depois do de Jesus (Jo\u00e3o 14,26), e processa-se, ao contr\u00e1rio do de Jesus, n\u00e3o com palavras sens\u00edveis que tocam os \u00f3rg\u00e3os da audi\u00e7\u00e3o de um p\u00fablico determinado, mas na interioridade da intelig\u00eancia da f\u00e9, avivando as brasas do\u00a0<em>desejo<\/em>\u00a0da Palavra primeira e criadora no cora\u00e7\u00e3o de cada homem, debaixo de qualquer c\u00e9u. Este ensinamento interior do Esp\u00edrito \u00e9 comparado \u00e0 un\u00e7\u00e3o de \u00f3leo (<em>chr\u00edsma<\/em>) que penetra lentamente, como diz o Ap\u00f3stolo: \u00abV\u00f3s recebestes a un\u00e7\u00e3o (<em>chr\u00edsma<\/em>) que vem do Santo e todos sabeis (<em>o\u00eddate<\/em>)\u00bb (1 Jo\u00e3o 2,20); ou ent\u00e3o: \u00aba un\u00e7\u00e3o (<em>chr\u00edsma<\/em>) dele vos que vos ensina (<em>did\u00e1skei<\/em>) acerca de todas as coisas\u00bb (1 Jo\u00e3o 2,27). Cumpre-se assim a profecia de Jeremias 31,31-34 (38,31-34 LXX) que refere que \u00abtodos me conhecer\u00e3o (<em>eid\u00easousin<\/em>)\u00bb com uma ci\u00eancia que n\u00e3o resulta da instru\u00e7\u00e3o, mas que \u00e9 incutida por Deus no cora\u00e7\u00e3o. Do mesmo modo, a a\u00e7\u00e3o de recordar (<em>hypomimn\u00eask\u00f4<\/em>) (Jo\u00e3o 14,26) n\u00e3o tem nada de comum com a mem\u00f3ria banal de um acontecimento ordin\u00e1rio, mas implica uma compreens\u00e3o nova dos factos e palavras de Jesus e de todo o Antigo Testamento. Jesus tinha dito que reconstruiria o Templo? Na verdade, ele falava do seu pr\u00f3prio corpo (Jo\u00e3o 2,22). Jesus tinha entrado em Jerusal\u00e9m montado num jumento? Na verdade, realizava a profecia de Zacarias 9,9 (Jo\u00e3o 12,16). Nos dois casos, \u00e9 dito que os disc\u00edpulos \u00abse recordaram\u00bb (<em>mimn\u00easkomai<\/em>). O Esp\u00edrito d\u00e1-lhes a intelig\u00eancia da vida e da paix\u00e3o de Jesus e de todo o Antigo Testamento. Nesta a\u00e7\u00e3o de recordar, o passado \u00e9 reclamado, n\u00e3o para suscitar em n\u00f3s o orgulho pela obra feita, mas para salientar o excesso do dom, deixando-nos em estado de recita\u00e7\u00e3o que provoca em n\u00f3s a decis\u00e3o de nos empenharmos no presente para respondermos agora ao dom que sempre nos precede. \u00c9 assim que o Esp\u00edrito atua na mem\u00f3ria viva da Igreja: provocando a recita\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o e avivando o\u00a0<em>desejo<\/em>\u00a0da filia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>11. \u00ab\u00d3 abismo de riqueza e sabedoria e conhecimento de Deus! Como s\u00e3o insond\u00e1veis os seus ju\u00edzos e impenetr\u00e1veis os seus caminhos! [\u2026] Porque d\u2019Ele, por Ele e para Ele s\u00e3o todas as coisas. A Ele a gl\u00f3ria pelos s\u00e9culos, \u00e1men!\u00bb (Romanos 11,33 e 36).<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. 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