{"id":1594462113,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/12155-domingo-iv-da-pascoa-eu-sou-o-bom-pastor"},"modified":"2025-11-07T16:33:54","modified_gmt":"2025-11-07T16:33:54","slug":"domingo-iv-da-pascoa-eu-sou-o-bom-pastor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/domingo-iv-da-pascoa-eu-sou-o-bom-pastor\/","title":{"rendered":"Domingo IV da P\u00e1scoa: \u00abEu sou o Bom Pastor\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031.jpg\" \/><\/p>\n<p><p>At 2,14a.36-41; Sl 23; 1 Pe 2,20b-25; Jo 10,1-10<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">1. Domingo IV da P\u00e1scoa. Domingo do Bom, Belo, Perfeito e Verdadeiro Pastor. \u00c9 este o significado largo do adjetivo grego\u00a0<em>kal\u00f3s<\/em>\u00a0e do hebraico\u00a0<em>th\u00f4b<\/em>, que qualifica o nome \u00abPastor\u00bb. De notar que o Domingo IV da P\u00e1scoa, Domingo do Bom e Belo Pastor, \u00e9 sempre tamb\u00e9m Dia Mundial de Ora\u00e7\u00e3o pelas Voca\u00e7\u00f5es. E da mesa da Escritura deste Domingo transbordam tonalidades e sabores intensos, harmoniosos e deliciosos. M\u00fasica encantat\u00f3ria. \u00c1gua pura. \u00d3leo perfumado. Verde prado em festa. Proximidade. Ternura. Confian\u00e7a. Beleza em flor e fruto. Vida a transbordar. Tudo da ordem do sublime.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">2. O Evangelho que marca o ritmo deste Dia Grande \u00e9 Jo\u00e3o 10,1-10, que n\u00e3o deve ser visto apenas como um texto isolado, embora tenha sentido em si mesmo, mas sai enriquecido quando inserido no duplo enquadramento que lhe serve de contexto. Por um lado, situa-se no seguimento imediato de Jo\u00e3o 9,1-43, que analis\u00e1mos no Domingo IV da Quaresma, e que trata da cura f\u00edsica e espiritual por Jesus de um cego de nascen\u00e7a. Por outro lado, devemos ter presente que o texto de Jo\u00e3o 10 tem o seu lugar no decurso da Festa judaica anual da Dedica\u00e7\u00e3o do Templo, como resulta da anota\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o 10,22.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">3. Comecemos por olhar para o texto de Jo\u00e3o 10 no seguimento imediato de Jo\u00e3o 9, que trata da cura f\u00edsica e espiritual do cego de nascen\u00e7a. Esta cura, operada em dia de s\u00e1bado, d\u00e1 lugar a um confronto com os fariseus, que tudo fazem para desacreditar Jesus. O resultado \u00e9 que, enquanto o cego v\u00ea cada vez melhor, os fariseus se v\u00e3o tornando cada vez mais cegos. \u00c9 com eles que Jesus fala no final, pondo \u00e0 vista a sua acentuada cegueira (Jo\u00e3o 9,39-41). E \u00e9 com eles que Jesus continua a falar em Jo\u00e3o 10, e \u00e9 para eles que Jesus conta a par\u00e1bola do rebanho e das ovelhas, que traz para a cena a figura do pastor em contraponto com a figura do ladr\u00e3o ou salteador ou mercen\u00e1rio. Neste contexto, diz-lhes Jesus que as ovelhas ouvem e conhecem a voz do pastor, e seguem-no, mas n\u00e3o conhecem a voz do ladr\u00e3o, e fogem dele. Est\u00e1 bom de ver que foi assim que fez o cego de Jo\u00e3o 9, que foi seguindo cada vez mais de perto Jesus, ao mesmo tempo que se foi afastando cada vez mais dos fariseus. A coloca\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o 10, n\u00e3o \u00e0 parte, mas no seguimento imediato de Jo\u00e3o 9 resulta, como se v\u00ea, grandemente esclarecedora, tornando-se mesmo obrigat\u00f3rio fazer esta liga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">4. A figura do Pastor Bom enche muitas das p\u00e1ginas do Antigo Testamento, e traduz habitualmente a atitude cuidadosa e carinhosa de Deus, que \u00e9 o Pastor Bom, para com as suas ovelhas, met\u00e1fora do seu Povo, quase sempre em confronto com os maus pastores, que esbulham e tratam em proveito pr\u00f3prio as ovelhas. Basta ver os textos de Ezequiel 34,1-23; Jeremias 23,1-4; Isa\u00edas 40,11; Salmo 23. Na p\u00e1gina de Jo\u00e3o 10,1-10, ao dizer \u00abEu sou\u00bb, Jesus assume a identidade e a atitude do Pastor Bom, que \u00e9 Deus, e deixa aos fariseus o desempenho do papel de pastores maus. Ao dizer \u00abEu sou\u00bb, Jesus est\u00e1, em simult\u00e2neo, a dizer \u00abv\u00f3s sois\u00bb ou \u00abv\u00f3s n\u00e3o sois\u00bb. Est\u00e1 a dizer \u00abv\u00f3s sois\u00bb para as suas ovelhas: est\u00e1, portanto, a estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o pessoal direta de proximidade, confian\u00e7a e intimidade com as suas ovelhas, rela\u00e7\u00e3o bem expressa, de resto, pelos verbos \u00abchamar pelo nome\u00bb, \u00abconhecer\u00bb, \u00abouvir a voz\u00bb, \u00abconduzir\u00bb, \u00abcaminhar \u00e0 frente de\u00bb, \u00abseguir\u00bb, \u00abdar a vida\u00bb. Mas est\u00e1 tamb\u00e9m a dizer \u00abv\u00f3s n\u00e3o sois\u00bb para os fariseus, colocados a conjugar os verbos \u00abroubar\u00bb, \u00abmatar\u00bb, \u00abdestruir\u00bb. Como esta p\u00e1gina antiga e sempre nova de Jo\u00e3o 10,1-10 l\u00ea e desvenda \u00abaqueles tempos\u00bb e os tempos de hoje!<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">5. Mas o texto grandioso de Jo\u00e3o 10,1-10 passa tamb\u00e9m mensagens intemporais que, em cada tempo e lugar, devem interpelar a comunidade crist\u00e3. Assim, quando Jesus diz: \u00ab<em>Eu sou<\/em>\u00a0a porta\u00bb, n\u00e3o est\u00e1 a usar uma linguagem da ordem da arquitetura e da carpintaria. \u00c9 de uma porta pessoal que se trata. E esta porta pessoal tem um nome e um rosto: Jesus de Nazar\u00e9, Jesus de Deus. E esta porta serve para \u00abentrar e sair\u00bb. \u00abEntrar e sair\u00bb \u00e9 um merisma [= figura liter\u00e1ria que diz o todo acostando duas extremidades] que traduz a nossa vida toda. \u00c9 a nossa vida toda sempre em refer\u00eancia a Jesus Cristo. Entende-se, n\u00e3o com a atual cria\u00e7\u00e3o industrial de gado, em que os animais est\u00e3o quase sempre em clausura e o pasto lhes \u00e9 fornecido em manjedouras apropriadas, visando sempre uma maior produtividade, mas com os \u00abapriscos\u00bb [= mais abrir do que fechar, como indica o \u00e9timo\u00a0<em>aprire<\/em>] antigos, em que os animais se recolhiam apenas para se protegerem do frio da noite e dos assaltos das feras ou dos ladr\u00f5es, e procuravam fora o seu alimento, sempre conduzidos e sob a aten\u00e7\u00e3o vigilante do pastor.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">6. Note-se ainda que os Evangelhos falam sempre de rebanho e de ovelhas, e n\u00e3o de ovelhas separadas. Quando falam de uma ovelha sozinha, \u00e9 para descrever a situa\u00e7\u00e3o negativa de uma ovelha desgarrada ou perdida, que se perdeu do rebanho ou da comunidade, e deixou de seguir o pastor e de ouvir a sua voz. Note-se ainda que as ovelhas \u00abentram pela porta\u00bb, mas n\u00e3o \u00e9 para ficarem descansadas e recolhidas, fechadas sobre si mesmas, hoje dir\u00edamos \u00abconfinadas\u00bb. \u00c9 para sair, pois \u00e9 fora que encontrar\u00e3o pastagem. Li\u00e7\u00e3o para a comunidade dos disc\u00edpulos de Jesus de hoje e de sempre: o trabalho belo que nos alimenta e nos mant\u00e9m saud\u00e1veis espera-nos l\u00e1 fora! Que Deus nos d\u00ea ent\u00e3o sempre um grande apetite! A messe ondulante est\u00e1 \u00e0 espera de ceifeiros que saibam cantar (Salmo 126,5-6), porque tamb\u00e9m sabem que \u00e9 Deus o Senhor da messe.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">7. Situemo-nos agora no \u00e2mbito da festa anual da Dedica\u00e7\u00e3o do Templo (cf. Jo\u00e3o 10,22),\u00a0<em>habitat<\/em>\u00a0da par\u00e1bola do Bom Pastor, apresentada por Jesus aos fariseus. O sel\u00eaucida Ant\u00edoco IV Epif\u00e2nio tinha profanado o Templo de Jerusal\u00e9m, introduzindo l\u00e1 cultos pag\u00e3os. Este acontecimento remonta ao ano 167 a.C. Contra esta heleniza\u00e7\u00e3o e paganiza\u00e7\u00e3o do juda\u00edsmo lutaram os Macabeus, e, no ano 164 a.C., Judas Macabeu afastou os sel\u00eaucidas, e procedeu \u00e0 Purifica\u00e7\u00e3o do Templo e \u00e0 sua Dedica\u00e7\u00e3o ao Deus Vivo. \u00c9 este importante acontecimento que deve ser celebrado todos os anos, durante oito dias, com a Festa da Dedica\u00e7\u00e3o, a partir do dia 25 do m\u00eas de Kisleu, que, no ano civil de 2023, no nosso calend\u00e1rio, ter\u00e1 lugar de 08 a 15 de dezembro.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">8. A Festa da Dedica\u00e7\u00e3o, em hebraico\u00a0<em>han\u00fbkkah<\/em>, celebra-se durante oito dias, e tem como s\u00edmbolo o candelabro de oito bra\u00e7os. Relata o Talmude que, quando os judeus fi\u00e9is entraram no Templo profanado pelos pag\u00e3os helenistas encontraram uma \u00fanica \u00e2mbula de azeite puro (<em>kasher<\/em>) de oliveira para reacender o candelabro de sete bra\u00e7os, em hebraico\u00a0<em>m<sup>e<\/sup>n\u00f4rah<\/em>, que \u00e9 um dos s\u00edmbolos de Israel, e que deve arder diante do Deus Vivo. Todavia, uma \u00e2mbula de azeite duraria apenas um dia, e eram precisos oito dias para preparar novo azeite puro. Pois bem, o azeite daquela \u00fanica \u00e2mbula durou milagrosamente oito dias! Da\u00ed que, na Festa da Dedica\u00e7\u00e3o, se acenda um candelabro de oito bra\u00e7os, chamado\u00a0<em>han\u00fbkkiyyah<\/em>. Mas acende-se apenas uma luz por dia, depois do p\u00f4r-do-sol, aumentando progressivamente at\u00e9 estarem acesas as oito luzes. Al\u00e9m disso, e ao contr\u00e1rio das luzes da\u00a0<em>m<sup>e<\/sup>n\u00f4rah<\/em>\u00a0e do S\u00e1bado, que alumiam o interior do Santu\u00e1rio e da casa de fam\u00edlia respetivamente, as Luzes do candelabro da Dedica\u00e7\u00e3o, refere o ritual, devem ser vistas c\u00e1 fora: devem alumiar o ambiente social, pol\u00edtico, comercial, cultural e todos os ambientes e situa\u00e7\u00f5es. E tamb\u00e9m ao contr\u00e1rio das luzes da\u00a0<em>m<sup>e<\/sup>n\u00f4rah<\/em>\u00a0e do S\u00e1bado, n\u00e3o se acendem todas de uma vez, mas progressivamente uma por dia, porque, quando as condi\u00e7\u00f5es s\u00e3o adversas (paganismo helenista e escuro), n\u00e3o basta acender uma luz e mant\u00ea-la; \u00e9 preciso aumentar constantemente a luz. Mais luz. Mais luz. Mais luz.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">9. Como este simbolismo \u00e9 importante para os dias de hoje! Est\u00e1 escuro c\u00e1 dentro e l\u00e1 fora, o mundo parece desconstruir-se e reduzir-se a fragmentos soltos e \u00e0 deriva, o paganismo \u00e9 galopante! Mais do que nunca, \u00e9 preciso, portanto, n\u00e3o apenas manter a luz, mas aument\u00e1-la progressivamente. E \u00e9 ainda necess\u00e1rio que esta Luz saia para fora: uma \u00abigreja em sa\u00edda\u00bb, como sonha e pede o Papa Francisco! E est\u00e1 em maravilhosa sintonia com a Luz Grande que deve alumiar este Domingo do Bom e Belo Pastor, que \u00e9 Jesus, verdadeira Luz do mundo, Dom do Amor de Deus ao nosso cora\u00e7\u00e3o. Atear esta Luz de Jesus no nosso cora\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m o segredo maior deste 60.\u00ba Dia Mundial de Ora\u00e7\u00e3o pelas Voca\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">10. A cristalina melodia do Salmo 23, que hoje cantamos, entranha-se suavemente em n\u00f3s, fazendo-nos experimentar os mil sabores da paz, do p\u00e3o e da alegria que em cada dia recebemos do Pastor belo e bom que amorosamente nos guia. Ele \u00e9 o companheiro para quem as horas do seu rebanho s\u00e3o tamb\u00e9m as suas, corre os mesmos riscos, experimenta a mesma fome e a mesma sede, o sol que cai sobre o rebanho cai tamb\u00e9m sobre ele. Deixemo-nos, portanto, conduzir pela m\u00e3o carinhosa e pela voz maternal e melodiosa do Bom e Belo Pastor. Sim, Ele recebe bem os seus h\u00f3spedes: faz-nos uma visita guiada pelos seus prados muito verdes, cheios de \u00e1guas muito azuis, unge com \u00f3leo perfumado a nossa cabe\u00e7a, estende no ch\u00e3o do seu c\u00e9u a \u00abpele de vaca\u00bb (<em>shulhan<\/em>), que \u00e9 a sua mesa, serve-nos vinhos generosos\u2026 Como \u00e9 importante recitar e saborear esta alegria pessoal que nos traz o Pastor belo e bom que nos chama e nos inebria. Confessou o fil\u00f3sofo franc\u00eas Henri Bergson: \u00abAs centenas de livros que li nunca me trouxeram tanta luz e conforto como os versos do Salmo 23\u00bb.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">11. E a\u00ed est\u00e1 outra vez Pedro a exortar-nos na manh\u00e3 de Pentecostes: \u00abSalvai-vos desta gera\u00e7\u00e3o perversa\u00bb (Atos 2,40). \u00abV\u00f3s \u00e9reis como ovelhas desgarradas, mas agora regressastes para o pastor e supervisor (<em>ep\u00edskopos<\/em>) das vossas almas\u00bb (1 Pedro 2,25). \u00abSegui, pois, os seus passos\u00bb (1 Pedro 2,21).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">12. Concede-nos, Senhor, Belo e Bom Pastor, que nunca nos tresmalhemos do teu imenso amor, e que saibamos sempre levar o tom e o sabor da tua voz que chama e ama a cada irm\u00e3o perdido em casa ou numa estrada de lama.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>At 2,14a.36-41; Sl 23; 1 Pe 2,20b-25; Jo 10,1-10 1. Domingo IV da P\u00e1scoa. 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