{"id":1619112223,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/9756-domingo-xxii-do-tempo-comum-vai-para-tras-de-mim"},"modified":"2025-11-07T16:33:40","modified_gmt":"2025-11-07T16:33:40","slug":"domingo-xxii-do-tempo-comum-vai-para-tras-de-mim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/domingo-xxii-do-tempo-comum-vai-para-tras-de-mim\/","title":{"rendered":"Domingo XXII do Tempo Comum: \u00abVai para tr\u00e1s de Mim!\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031.jpg\" \/><\/p>\n<p><p data-adtags-visited=\"true\">1. O Evangelho deste Domingo XXII do Tempo Comum (Mateus 16,21-27) forma uma unidade de alto-a-baixo com o Evangelho do Domingo passado (XXI), em que escut\u00e1mos a passagem imediatamente anterior (Mateus 16,13-20), que terminava com Jesus a ordenar aos seus disc\u00edpulos que n\u00e3o dissessem a ningu\u00e9m que Ele era o Cristo (Mateus 16,20). No Domingo passado n\u00e3o o pod\u00edamos saber. Mas hoje, que ficamos a ter acesso ao texto inteiro, j\u00e1 n\u00e3o precisamos de ficar parados no meio da ponte ou em Cesareia de Filipe, sem nunca chegarmos a Jerusal\u00e9m. Na verdade, depois de ter dado aos seus disc\u00edpulos aquela ordem taxativa de\u00a0<em>n\u00e3o dizerem<\/em>\u00a0a ningu\u00e9m que Ele era o Cristo (Mateus 16,20), Jesus abre uma p\u00e1gina nova logo no vers\u00edculo seguinte, falando pela primeira vez, de forma expl\u00edcita, da sua Paix\u00e3o e Ressurrei\u00e7\u00e3o: \u00abcome\u00e7ou a mostrar aos seus disc\u00edpulos que\u00a0<em>\u00e9 necess\u00e1rio<\/em>\u00a0(<em>de\u00ee<\/em>) \u2013 este\u00a0<em>de\u00ee<\/em>\u00a0implica necessidade divina ou teol\u00f3gica \u2013 que Ele v\u00e1 para Jerusal\u00e9m, sofra muito da parte dos anci\u00e3os e dos sumo-sacerdotes e dos escribas, seja morto, e ressuscite ao terceiro dia\u00bb (Mateus 16,21).<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">2. Ouvindo estes dizeres incr\u00edveis de Jesus, Pedro tomou-o consigo \u00e0 parte e come\u00e7ou a recrimin\u00e1-lo, dizendo: \u00abIsso n\u00e3o te h\u00e1 de acontecer\u00bb (Mateus 16,22). A\u00ed est\u00e1 como Pedro n\u00e3o viu as palavras que disse: \u00abTu \u00e9s o Cristo, o Filho do Deus vivo!\u00bb (Mateus 16,16), como vindas do Pai, por gra\u00e7a, mas como sua produ\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, dentro da sua cultura e religiosidade, colhidas na torrente da tradi\u00e7\u00e3o religiosa judaica. Para Pedro, tudo normal. Mas aten\u00e7\u00e3o que, o que aconteceu com Pedro, acontece connosco muitas vezes, tantas s\u00e3o as ocasi\u00f5es em que n\u00e3o chegamos a compreender que anda por ali a gra\u00e7a de Deus.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">3. E \u00e9 aqui que Jesus diz a Pedro estas palavras dur\u00edssimas e corretivas: \u00abVai para tr\u00e1s de mim (<em>h\u00fdpage op\u00eds\u00f4 mou<\/em>), satan\u00e1s! Pedra de trope\u00e7o (<em>sk\u00e1ndalon<\/em>) \u00e9s para mim, porque n\u00e3o pensas as coisas de Deus, mas as coisas dos homens\u00bb (Mateus 16,23). Note-se que \u00abatr\u00e1s de mim\u00bb \u00e9 o lugar do disc\u00edpulo, exatamente o lugar que Pedro deve ocupar e para o qual foi chamado. \u00abVinde atr\u00e1s de mim\u00bb (<em>de\u00fbte op\u00eds\u00f4 mou<\/em>), s\u00e3o estas as palavras que Jesus dirige a Pedro e a Andr\u00e9, aquando do seu chamamento (Mateus 4,19). Portanto, Pedro deve seguir atentamente atr\u00e1s de Jesus, e n\u00e3o postar-se \u00e0 sua frente para lhe barrar o caminho, e tentar que Jesus siga as ideias que Pedro colheu acerca do Cristo na torrente da tradi\u00e7\u00e3o cultural e religiosa judaica. O apelativo de \u00absatan\u00e1s\u00bb tem aqui o vulgar significado hebraico de \u00abseparador\u00bb e \u00abadvers\u00e1rio\u00bb. Em nome dos nossos princ\u00edpios c\u00f3modos adquiridos, ignoramos ou n\u00e3o queremos saber da gra\u00e7a de Deus que agora nos indica outros caminhos. E o texto prossegue no mesmo tom determinado, com Jesus a\u00a0<em>dizer<\/em>\u00a0aos seus disc\u00edpulos que, para o seguirem, \u00e9 preciso dizer n\u00e3o a si mesmos (<em>aparn\u00e9omai<\/em>), e carregar a cruz todos os dias, perder a vida para a ganhar. Dizer n\u00e3o a si mesmos e seguir Jesus (Mateus 16,24) implica p\u00f4r em Jesus a sua confian\u00e7a, e n\u00e3o nos bens, que nos gritam todos os dias: \u00abconfia em n\u00f3s!\u00bb (ap\u00f3logo judaico de 1700). \u00abPerder a vida por causa de mim\u00bb (Mateus 16,25), diz Jesus. Entenda-se: perder a vida desta maneira \u00e9 perder-se nos caminhos de Jesus, \u00abimitando-o verdadeiramente, e n\u00e3o segui-lo s\u00f3 com os p\u00e9s\u00bb, para o dizer com as palavras de Erasmo de Roterd\u00e3o (1469-1536).<\/p>\n<p class=\"inline-ad-slot\" data-adtags-visited=\"true\" data-adtags-width=\"450\" id=\"inline-ad-0\">\u00a0<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">4. Por aqui se v\u00ea por que raz\u00e3o Jesus ordenou aos seus disc\u00edpulos que\u00a0<em>n\u00e3o dissessem<\/em>\u00a0a ningu\u00e9m que Ele era o Cristo. Pedro tinha dito: \u00abTu \u00e9s o Cristo!\u00bb. Mas, como acab\u00e1mos de ver, fosse qual fosse a ideia que Pedro tivesse de \u00abCristo\u00bb, nela n\u00e3o cabia ainda o sofrimento, a rejei\u00e7\u00e3o, a morte, a ressurrei\u00e7\u00e3o, e muito menos a ades\u00e3o pessoal de Pedro a este \u00abCristo\u00bb, a um \u00abCristo\u00bb assim (Mateus 16,21-22). O que Pedro sabia era o que vinha na torrente do juda\u00edsmo desde h\u00e1 muito tempo: que o Cristo vinha para triunfar, para ter sucesso, para estabelecer um mundo de excel\u00eancia para os judeus, libertando-os dos seus advers\u00e1rios. Viria, enfim, p\u00f4r fim a todas as necessidades, disc\u00f3rdias e disputas, \u00e0 guerra, \u00e0 doen\u00e7a e \u00e0 velhice, a tudo aquilo que perturba e diminui os n\u00edveis da nossa vida. Ele viria trazer a plenitude da vida. \u00c9 por isto que Pedro e aqueles disc\u00edpulos seguem Jesus, e n\u00e3o porque andem \u00e0 procura de novas ideias religiosas, ou queiram aprender alguma ora\u00e7\u00e3o nova. Portanto, se os disc\u00edpulos de Jesus fossem\u00a0<em>dizer<\/em>\u00a0que Ele era o Cristo, era isto que iam\u00a0<em>dizer<\/em>, e era isto que a sua audi\u00eancia judaica ia perceber. Gerar-se-ia uma onda de entusiasmo popular, que soaria a falso, como quando n\u00f3s falamos de messianismo.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">5. O que \u00e9 que n\u00f3s\u00a0<em>dizemos<\/em>\u00a0quando\u00a0<em>dizemos<\/em>\u00a0Cristo? E a nossa maneira de viver \u00e9 verdadeiramente a de quem segue Cristo? N\u00e3o o Cristo da tradi\u00e7\u00e3o e do sucesso, mas o Cristo de Deus?<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">6. O caminho de Jesus \u00e9 paradoxal e provocat\u00f3rio. Assim o considerou Pedro, mal ouviu a vers\u00e3o nova de Jesus acerca do seu messianismo. Demorou tempo, equivocou-se v\u00e1rias vezes, ficou parado no caminho, aqueceu-se a outro lume, mas quando foi atingido em cheio pela gra\u00e7a, seguiu Jesus apaixonadamente at\u00e9 ao sangue, n\u00e3o apenas com os p\u00e9s, portanto. \u00c9 neste caminho ardente que se pode inserir mais uma passagem das chamadas \u00abconfiss\u00f5es\u00bb de Jeremias, hoje Jeremias 20,7-9. Olhando para o rastro da sua vida, Jeremias confessa que foi irresistivelmente seduzido pelo seu Deus, para logo o acusar, no limite da blasf\u00e9mia, de velhacaria e engano, pois o abandonou \u00e0 sua sorte, colocando-lhe na boca palavras violentas e deixando-o \u00e0 merc\u00ea dos seus opressores, que zombam dele e o torturam sem descanso. Neste contexto, Jeremias confessa-se desanimado e tentado a abandonar a sua miss\u00e3o de profeta. Mas a Palavra de Deus volta a assalt\u00e1-lo como um fogo, uma lava ardente de que n\u00e3o se pode fugir, pois arde dentro de n\u00f3s (Jeremias 20,9).<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">7. As \u00abconfiss\u00f5es\u00bb de Jeremias encontram-se em Jeremias 11,18-12,6; 15,10-21; 17,12-18; 18,18-23; 20,7-18, e s\u00e3o uma esp\u00e9cie de di\u00e1rio interior, autobiogr\u00e1fico, em que o profeta de Anat\u00f4t, uma aldeiazinha situada a meia-d\u00fazia de km a nordeste de Jerusal\u00e9m, grita a Deus as dores e os amores da sua vida. Jeremias atravessou o per\u00edodo mais dram\u00e1tico da hist\u00f3ria do seu pa\u00eds, vendo primeiro, em 609, morrer tragicamente o justo rei Josias e subir ao trono o tirano rei Joaquim (609-597), assiste \u00e0s duas entradas do babil\u00f3nio Nabucodonosor em Jerusal\u00e9m, em 597 e 587, sendo a segunda para arrasar Jerusal\u00e9m e o Templo, deportar o rei Sedecias e p\u00f4r fim \u00e0 na\u00e7\u00e3o de Jud\u00e1.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">8. N\u00e3o coisas exteriores a n\u00f3s, mas n\u00f3s mesmos em oferta a Deus, eis o culto l\u00f3gico (<em>latre\u00eda logik\u00ea<\/em>), isto \u00e9, racional, integral, pessoal, que Paulo nos exorta a prestar a Deus, conforme a li\u00e7\u00e3o de hoje (Romanos 12,1-2), um texto curto, mas imenso. Claro, tudo sempre envolvido na gra\u00e7a preveniente, concomitante e consequente que nos vem de Deus e nos enche de bondade e de beleza, e que faz da nossa vida sacrif\u00edcio agrad\u00e1vel a Deus.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">9. De toda esta intensidade faz eco o Salmo 63, conhecido como \u00abo canto do amor m\u00edstico\u00bb, em que o orante descreve a sua sede psicobiol\u00f3gica de Deus. Sem Deus, estiola e morre. Santa Teresa de \u00c1vila, de quem, em 2015, celebr\u00e1mos o V Centen\u00e1rio do seu nascimento, descreveu assim esta sede, no seu\u00a0<em>Caminho de perfei\u00e7\u00e3o<\/em>: \u00abA sede exprime o desejo de uma coisa, mas um desejo de tal modo intenso, que morremos se n\u00e3o o saciarmos\u00bb.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. 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