{"id":1631284142,"date":"2022-05-15T00:00:00","date_gmt":"2022-05-15T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/326-vaticano\/11448-homilia-do-papa-na-canonizacao-de-10-novos-santos-para-a-igreja"},"modified":"2022-05-15T00:00:00","modified_gmt":"2022-05-15T00:00:00","slug":"homilia-do-papa-na-canonizacao-de-10-novos-santos-para-a-igreja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/homilia-do-papa-na-canonizacao-de-10-novos-santos-para-a-igreja\/","title":{"rendered":"Homilia do Papa na canoniza\u00e7\u00e3o de 10 novos Santos para a Igreja"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/tony_papa_canonicacoes_2022_220524094840.jpg\"\/><\/p>\n<p><p><em>Francisco presidiu hoje \u00e0 canoniza\u00e7\u00e3o de 10 novos santos para a Igreja. Na sua homilia o papa lembrou a import\u00e2ncia de reconhecer que &#8220;Deus ama-nos&#8221; mesmo &#8220;nas trevas e tempestades da vida&#8221;<\/em><\/p>\n<p>Leia, na \u00edntegra, a homilia do Santo Padre<\/p>\n<p>Acabamos de ouvir algumas das palavras que Jesus confia aos seus disc\u00edpulos, antes de passar deste mundo para o Pai, manifestando nelas o que significa ser crist\u00e3o: \u00abAssim como Eu vos amei, amai-vos tamb\u00e9m v\u00f3s uns aos outros\u00bb (<em>Jo<\/em>\u00a013, 34). Este \u00e9 o testamento que Cristo nos deixou, o crit\u00e9rio fundamental para discernir se somos verdadeiramente seus disc\u00edpulos ou n\u00e3o: o mandamento do amor. Detenhamo-nos sobre os dois elementos essenciais deste mandamento: o amor de Jesus por n\u00f3s \u2013\u00a0<em>assim como Eu vos amei<\/em>\u00a0\u2013 e o amor que Ele nos pede para vivermos \u2013\u00a0<em>amai-vos tamb\u00e9m v\u00f3s uns aos outros<\/em>.<\/p>\n<p>O primeiro ponto:\u00a0<em>assim como Eu vos amei<\/em>. E como nos amou Jesus? At\u00e9 ao fim, at\u00e9 ao dom total de Si mesmo. Causa impress\u00e3o v\u00ea-Lo pronunciar estas palavras numa noite tenebrosa, enquanto se respira no Cen\u00e1culo um ambiente denso de como\u00e7\u00e3o e turbamento: como\u00e7\u00e3o, porque o Mestre est\u00e1 prestes a despedir-Se dos seus disc\u00edpulos; turbamento, porque anuncia que ser\u00e1 precisamente um deles a tra\u00ed-Lo. Podemos imaginar a tristeza que havia no \u00edntimo de Jesus, a escurid\u00e3o que se adensava no cora\u00e7\u00e3o dos ap\u00f3stolos, a amargura vivida ao ver que Judas, depois de receber o bocado de p\u00e3o ensopado para ele pelo Mestre, sa\u00eda da sala para adentrar-se na noite da trai\u00e7\u00e3o. E \u00e9 precisamente na hora da trai\u00e7\u00e3o que Jesus confirma o amor pelos seus. Com efeito, nas trevas e tempestades da vida, o essencial \u00e9 isto: Deus ama-nos.<\/p>\n<p>Irm\u00e3os e irm\u00e3s, oxal\u00e1 seja sempre central, na profiss\u00e3o da nossa f\u00e9 e nas suas express\u00f5es, este an\u00fancio: \u00abN\u00e3o fomos n\u00f3s que amamos a Deus, mas foi Ele mesmo que nos amou\u00bb (<em>1 Jo<\/em>\u00a04, 10). Nunca nos esque\u00e7amos disto! No centro, n\u00e3o est\u00e1 a nossa capacidade, os nossos m\u00e9ritos, mas o amor incondicional e gratuito de Deus, que n\u00e3o merecemos. No in\u00edcio do nosso ser crist\u00e3o, n\u00e3o est\u00e3o as doutrinas e as obras, mas a maravilha de descobrir que se \u00e9 amado, antes de qualquer resposta nossa. Enquanto o mundo quer muitas vezes convencer-nos de que s\u00f3 temos valor se produzirmos resultados, o Evangelho lembra-nos a verdade da vida:\u00a0<em>somos amados<\/em>. E est\u00e1 nisto o nosso valor:\u00a0<em>somos amados<\/em>. Assim escreveu um mestre espiritual do nosso tempo: \u00abAinda antes que nos visse qualquer ser humano, fomos vistos pelos olhos amorosos de Deus. Ainda antes que algu\u00e9m nos ouvisse chorar ou rir, fomos escutados pelo nosso Deus que \u00e9 todo ouvidos para n\u00f3s. Ainda antes que algu\u00e9m neste mundo nos falasse, j\u00e1 nos falava a voz do amor eterno\u00bb (H. Nouwen,\u00a0<em>Sentir-se amado<\/em>, Brescia 1997, 50). Ele amou-nos primeiro, esteve \u00e0 nossa espera. Ama-nos e continua a amar-nos. E esta \u00e9 a nossa identidade: amados por Deus. Esta \u00e9 a nossa for\u00e7a: amados por Deus.<\/p>\n<p>Esta verdade pede-nos uma convers\u00e3o da ideia de santidade que frequentemente possu\u00edmos. \u00c0s vezes, insistindo muito sobre o nosso esfor\u00e7o para praticar boas obras, criamos um ideal de santidade demasiado fundado em n\u00f3s mesmos, no hero\u00edsmo pessoal, na capacidade de ren\u00fancia, nos sacrif\u00edcios feitos para se conquistar um pr\u00e9mio. \u00c0s vezes temos uma vis\u00e3o demasiado pelagiana da vida, da santidade. Deste modo fizemos da santidade uma meta inacess\u00edvel, separamo-la da vida de todos os dias, em vez de a procurar e abra\u00e7ar na exist\u00eancia quotidiana, no p\u00f3 da estrada, nas afli\u00e7\u00f5es da vida concreta e \u2013 como dizia Teresa de \u00c1vila \u00e0s suas irm\u00e3s \u2013 \u00abentre as panelas da cozinha\u00bb. Ser disc\u00edpulo de Jesus e caminhar pela via da santidade \u00e9, antes de mais nada, deixar-se transfigurar pela for\u00e7a do amor de Deus. N\u00e3o esque\u00e7amos o primado de Deus sobre o pr\u00f3prio eu, do Esp\u00edrito sobre a carne, da gra\u00e7a sobre as obras. \u00c0s vezes damos mais peso, mais import\u00e2ncia ao pr\u00f3prio eu, \u00e0 carne e \u00e0s obras. N\u00e3o est\u00e1 certo, mas h\u00e1 de ser a primazia de Deus sobre o eu, a primazia do Esp\u00edrito sobre a carne, a primazia da gra\u00e7a sobre as obras.<\/p>\n<p>O amor que recebemos do Senhor \u00e9 a for\u00e7a que transforma a nossa vida: dilata-nos o cora\u00e7\u00e3o e predisp\u00f5e-nos a amar. Por isso \u2013 e passamos ao segundo ponto \u2013 Jesus diz \u00abassim como Eu vos amei,<em>\u00a0amai-vos tamb\u00e9m v\u00f3s uns aos outros<\/em>. Este\u00a0<em>assim como<\/em>\u00a0n\u00e3o \u00e9 apenas um convite a imitar o amor de Jesus; mas significa que s\u00f3 podemos amar porque Ele nos amou, porque d\u00e1 aos nossos cora\u00e7\u00f5es o seu pr\u00f3prio Esp\u00edrito, o Esp\u00edrito de santidade, amor que nos cura e transforma. Por isso podemos decidir-nos a praticar gestos de amor em toda a situa\u00e7\u00e3o e com cada irm\u00e3o e irm\u00e3 que encontramos, porque somos amados e temos a for\u00e7a de amar. Assim como sou amado eu, posso amar. Sempre, o amor que partilho est\u00e1 unido ao de Jesus por mim: \u00abassim como\u00bb. Assim como Ele me amou, assim tamb\u00e9m eu posso amar. A vida crist\u00e3 \u00e9 assim simples, t\u00e3o simples! N\u00f3s tornamo-la mais complicada, com tantas coisas, mas \u00e9 simples assim.<\/p>\n<p>E que significa, concretamente, viver este amor? Antes de nos deixar este mandamento, Jesus lavou os p\u00e9s aos disc\u00edpulos; depois de o ter pronunciado, entregou-Se no madeiro da cruz. Amar significa isto:\u00a0<em>servir<\/em>\u00a0e\u00a0<em>dar a vida<\/em>.\u00a0<em>Servir<\/em>, isto \u00e9, n\u00e3o colocar os pr\u00f3prios interesses em primeiro lugar; desintoxicar-se dos venenos da gan\u00e2ncia e da preemin\u00eancia; combater o c\u00e2ncer da indiferen\u00e7a e o caruncho da autorreferencialidade, partilhar os carismas e os dons que Deus nos concedeu. Perguntando-nos o que fazemos em concreto pelos outros. Isto \u00e9 amar: viver as tarefas de cada dia em esp\u00edrito de servi\u00e7o, com amor e sem alarde, sem nada reivindicar.<\/p>\n<p>Primeiro servir, depois\u00a0<em>dar a vida<\/em>. Aqui n\u00e3o se trata s\u00f3 de oferecer aos outros qualquer coisa, alguns bens pr\u00f3prios, mas dar-se a si mesmo. Gosto de perguntar \u00e0s pessoas que me pedem conselho: \u00abDiz-me uma coisa: tu d\u00e1s esmola?\u00bb &#8211; \u00abSim, padre, eu dou esmola aos pobres\u00bb &#8211; \u00abE quando d\u00e1s esmola, tocas a m\u00e3o da pessoa, ou deitas a esmola e fazes assim [<em>esfrego as m\u00e3os uma na outra<\/em>] para te limpares?\u00bb. E elas coram: \u00abN\u00e3o, eu n\u00e3o toco\u00bb. \u00abQuando d\u00e1s a esmola, fixas nos olhos a pessoa que ajudas, ou olhas para o outro lado?\u00bb &#8211; \u00abEu n\u00e3o olho\u00bb. Tocar e olhar, tocar e olhar a carne de Cristo que sofre nos nossos irm\u00e3os e irm\u00e3s. Isto \u00e9 muito importante.\u00a0<em>Dar a vida<\/em>\u00a0\u00e9 isto. A santidade n\u00e3o se faz de alguns gestos heroicos, mas de muito amor di\u00e1rio. \u00ab\u00c9s uma consagrada ou um consagrado [hoje aqui h\u00e1 muitos]? S\u00ea santo, vivendo com alegria a tua doa\u00e7\u00e3o. Est\u00e1s casado [ou casada]? S\u00ea santo [e santa], amando e cuidando do teu marido ou da tua esposa, como Cristo fez com a Igreja. \u00c9s um trabalhador[, uma mulher trabalhadora]? S\u00ea santo, cumprindo com honestidade e compet\u00eancia o teu trabalho ao servi\u00e7o dos irm\u00e3os [e lutando pela justi\u00e7a a favor dos teus companheiros, para que n\u00e3o fiquem sem trabalho, para que tenham sempre o sal\u00e1rio justo]. \u00c9s progenitor, av\u00f3 ou av\u00f4? S\u00ea santo, ensinando com paci\u00eancia as crian\u00e7as a seguirem Jesus. [Diz-me:] est\u00e1s investido em autoridade? [Aqui temos muitas pessoas que t\u00eam autoridade \u2013 pergunto-vos: est\u00e1s investido em autoridade?] S\u00ea santo, lutando pelo bem comum e renunciando aos teus interesses pessoais\u00bb (cf. Francisco, Exort. ap.\u00a0<em><a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20180319_gaudete-et-exsultate.html#A_ti_tamb%C3%A9m\">Gaudete et exsultate<\/a><\/em>, 14). Esta \u00e9 a estrada da santidade: ver sempre Jesus nos outros.<\/p>\n<p>Servir o Evangelho e os irm\u00e3os, oferecer a pr\u00f3pria vida sem retribui\u00e7\u00e3o \u2013 faz\u00ea-lo em segredo: oferecer sem esperar retribui\u00e7\u00e3o \u2013, sem buscar qualquer gl\u00f3ria mundana, mas escondido humildemente como Jesus: a isto somos chamados tamb\u00e9m n\u00f3s. Os nossos companheiros de viagem, hoje canonizados, viveram assim a santidade: abra\u00e7ando com entusiasmo a sua voca\u00e7\u00e3o \u2013 uns de sacerdote, outras de consagrada, e outros ainda de leigo \u2013, gastaram-se pelo Evangelho, descobriram uma alegria sem par e tornaram-se reflexos luminosos do Senhor na hist\u00f3ria. Um santo ou uma santa \u00e9 isto: um reflexo luminoso do Senhor na hist\u00f3ria. Tentemos faz\u00ea-lo tamb\u00e9m n\u00f3s: n\u00e3o est\u00e1 fechado o caminho da santidade, \u00e9 universal, \u00e9 uma chamada para todos n\u00f3s, come\u00e7a com o Batismo, n\u00e3o est\u00e1 fechado o caminho. Tentemos tamb\u00e9m n\u00f3s, porque cada um de n\u00f3s \u00e9 chamado \u00e0 santidade, a uma santidade \u00fanica e irrepet\u00edvel. A santidade \u00e9 sempre original, como dizia o Beato Carlos Acutis: n\u00e3o h\u00e1 santidade de fotoc\u00f3pia, a santidade \u00e9 original, \u00e9 a minha, a tua, a de cada um de n\u00f3s. \u00c9 \u00fanica e irrepet\u00edvel. Sim, o Senhor tem um plano de amor para cada um, tem um sonho para a tua vida, para a minha vida, para a vida de cada um de n\u00f3s. E que posso dizer-vos eu? Levai-o para diante com alegria. Obrigado.<\/p>\n<p>Imagem: Tony Neves Cssp<\/p>\n<p>Educris|15.05.2022<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Francisco presidiu hoje \u00e0 canoniza\u00e7\u00e3o de 10 novos santos para a Igreja. 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