{"id":1818495514,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/11020-imaculada-conceicao-da-virgem-santa-maria-alegra-te-maria"},"modified":"2025-11-07T16:33:48","modified_gmt":"2025-11-07T16:33:48","slug":"imaculada-conceicao-da-virgem-santa-maria-alegra-te-maria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imaculada-conceicao-da-virgem-santa-maria-alegra-te-maria\/","title":{"rendered":"Imaculada Concei\u00e7\u00e3o da Virgem Santa Maria: \u00abAlegra-te, Maria!\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031.jpg\" \/><\/p>\n<p><p class=\"has-text-align-justify\">1. \u00abFazendo mem\u00f3ria da Toda Santa, imaculada, sobre bendita, gloriosa Senhora nossa, M\u00e3e de Deus e Sempre Virgem Maria, juntamente com todos os Santos, consagramo-nos n\u00f3s e toda a nossa vida a Cristo Deus\u00bb. Assim se conclui, no rito bizantino, a ora\u00e7\u00e3o que abre a celebra\u00e7\u00e3o deste Dia, \u00e0 qual a assembleia responde: \u00aba Ti, Senhor!\u00bb. \u00c9 o \u00ab<em>fiat<\/em>\u00bb, o \u00abfa\u00e7a-se\u00bb dito por Maria (Lucas 1,38), a Serva do Senhor, a ecoar tamb\u00e9m no nosso cora\u00e7\u00e3o e a brotar dos nossos l\u00e1bios. \u00c9 o eco daquele \u00abfa\u00e7a-se\u00bb de Deus na primeira p\u00e1gina da Escritura Santa a ecoar no cora\u00e7\u00e3o de Maria e no nosso tamb\u00e9m. \u00c9 aquele \u00abSim\u00bb imenso que atravessa as primeiras 452 palavras hebraicas da Escritura Santa (G\u00e9nesis 1,1-2,4a), onde n\u00e3o se l\u00ea um \u00fanico \u00abN\u00e3o\u00bb. \u00abTudo, na verdade, foi feito pelo Verbo\u00bb (Jo\u00e3o 1,3), \u00abn\u2019Ele foram criadas todas as coisas\u00bb (Colossenses 1,16), e o Verbo incarnado, Jesus Cristo, no dizer do Ap\u00f3stolo, \u00abfoi sempre Sim, e nunca n\u00e3o\u00bb (2 Cor\u00edntios 1,19). A\u00ed est\u00e1 a filigrana que faz vibrar a melodia e mostra a verdadeira harmonia da Escritura. Imensa sintonia a ecoar hoje em tantos cora\u00e7\u00f5es! As partituras desta m\u00fasica divina v\u00eam hoje de Lucas 1,26-38, G\u00e9nesis 3,9-15.20, Ef\u00e9sios 1,3-6.11-12 e do Salmo 98.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">2. \u00c9 bom sabermos e sentirmos que as Igrejas do Oriente e do Ocidente, embora divididas entre si, nos dias 8 e 9 de Dezembro (8 no Ocidente e 9 no Oriente), nove meses antes da Festa da sua Natividade (8 de Setembro), juntam as suas vozes em maravilhosa harmonia para celebrar a M\u00e3e de Deus no singular privil\u00e9gio da Concei\u00e7\u00e3o Imaculada da sua humanidade.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">3. Bem sabemos, al\u00e9m disso, que os Coptos dedicam a Maria o inteiro m\u00eas de\u00a0<em>Kiahq<\/em>, que coincide mais ou menos com o nosso m\u00eas de Dezembro, e os Caldeus, os Antioquenos e os Maronitas celebram, tamb\u00e9m nesta altura do ano, e durante pelo menos quatro Domingos, o tempo da chamada\u00a0<em>S\u00fbbbar\u00e2<\/em>\u00a0ou \u00abAnuncia\u00e7\u00e3o\u00bb ou \u00abEvangeliza\u00e7\u00e3o\u00bb, Vinda de Deus ao nosso mundo, not\u00edcia ap\u00f3s not\u00edcia, para abrir as nossas trincheiras e fazer nascer em n\u00f3s um mundo novo, um c\u00e2ntico novo.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">4. \u00abOnde est\u00e1s?\u00bb, pergunta o Deus-Que-Vem por amor ao encontro da sua criatura dileta (G\u00e9nesis 3,9). \u00abTive medo e escondi-me\u00bb, respondemos n\u00f3s, amedrontados (G\u00e9nesis 3,10). A narrativa exemplar de G\u00e9nesis 3, que hoje lemos, desvenda todas as nossas in\u00fateis estrat\u00e9gias de defesa, e faz-nos ver como n\u00f3s nos escondemos de n\u00f3s mesmos e de Deus, e como alijamos facilmente as nossas culpas sobre os outros. Correto, limpo, terap\u00eautico, salvador, era assumirmos e confessarmos humildemente as nossas culpas. Mas n\u00e3o. Fugimos, escondemo-nos de n\u00f3s, e respondemos: \u00abFoi a mulher\u00bb, \u00abfoi aquele\u00bb, \u00abfoi aquela\u00bb, e, em \u00faltima an\u00e1lise, \u00abfoste Tu, foste Tu, Deus\u00bb (G\u00e9nesis 3,12), porque foste Tu que me deste a maravilha de um irm\u00e3o, de uma irm\u00e3, e foi esse irm\u00e3o dado por Ti, essa irm\u00e3 dada por Ti, que me deu a comer aquele fruto, fruto de um furto! \u00c9s Tu, portanto, e em \u00faltima an\u00e1lise, o culpado. A\u00ed estamos n\u00f3s a fugir de n\u00f3s mesmos, e a acusar os outros! E se n\u00e3o assumimos as nossas culpas, como podemos corrigir os nossos erros, e como podemos chegar a descobrir a realidade humana e divina do perd\u00e3o? Sim, porque quando nos escondemos de Deus, estamos tamb\u00e9m a esconder Deus e os seus dons, a Alegria, o Amor, o Perd\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">5. Sim, esta hist\u00f3ria tem a ver connosco. Estando o Rabi Shneur Zalman (1745-1812) preso em S. Petersburgo, entrou na sua cela o comandante da guarda, e p\u00f4s-se a conversar com ele sobre assuntos diversos. No final, perguntou: \u00abComo se deve interpretar que o Deus Omnisciente pergunte a Adam: \u201cOnde est\u00e1s?\u201d\u00bb. \u00abVoc\u00ea acredita\u00bb, respondeu o Rabi, \u00abque a Escritura \u00e9 eterna e que diz respeito a todos os tempos, a todas as gera\u00e7\u00f5es e a todas as pessoas?\u00bb. \u00abSim, acredito\u00bb, disse o comandante da guarda. \u00abEnt\u00e3o\u00bb, respondeu o Rabi, \u00abem cada tempo Deus pergunta a cada homem: \u201cOnde est\u00e1s no teu mundo? Dos dias e dos anos que te foram atribu\u00eddos, j\u00e1 passaram muitos: entretanto, at\u00e9 onde \u00e9 que tu chegaste no teu mundo?\u201d. Deus disse, por exemplo: \u201cV\u00ea, j\u00e1 h\u00e1 46 anos que andas aqui. Onde te encontras?\u201d\u00bb. Ao ouvir o n\u00famero exato dos seus anos, o comandante sentiu dificuldade em controlar-se, p\u00f4s a m\u00e3o no ombro do Rabi, e exclamou: \u00abBravo!\u00bb. Mas o seu cora\u00e7\u00e3o tremia.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">6. \u00c9 usual dizer-se que esta conhecida p\u00e1gina do Livro do G\u00e9nesis narra a entrada do mal no cora\u00e7\u00e3o do homem e no mundo. Mas do que se trata mesmo \u00e9 da import\u00e2ncia da rela\u00e7\u00e3o do homem com Deus, e diz-nos que o mal entra no mundo quando o homem quebra esta rela\u00e7\u00e3o e se desliga de Deus. Por isso tamb\u00e9m, da\u00ed para a frente, a Escritura Santa ocupa-se em mostrar que a resposta a dar ao mal n\u00e3o \u00e9 apenas o bem, mas o santo. Entenda-se: n\u00e3o o homem fechado sobre si, autossuficiente e autorreferencial, mas completamente aberto e voltado para Deus, de quem por amor tudo recebe e se recebe. E completamente voltado para os outros, a quem tudo entrega por amor. Como Maria, a figura deste luminoso Dia.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">7. Em perfeita sintonia, a\u00ed est\u00e1 o Ap\u00f3stolo a dizer o fundamental: \u00abque Deus nos escolheu para sermos santos\u00bb (Ef\u00e9sios 1,4) e para nos dar, atrav\u00e9s de Jesus Cristo, a nossa verdadeira identidade, a filia\u00e7\u00e3o divina (<em>hyiothes\u00eda<\/em>) (Ef\u00e9sios 1,5). Entrando assim, por gra\u00e7a, na casa de Deus (Ef\u00e9sios 4,19), andaremos sempre na sua presen\u00e7a. Ele \u00e9 o Deus Santo que nos santifica. Escutemos tamb\u00e9m a melodia admir\u00e1vel em que o Ap\u00f3stolo nos faz entrar na Carta aos Romanos 15,4-9. Como seria belo um mundo pautado por uma verdadeira fraternidade em que todos viv\u00eassemos sob o impulso e o alento carinhoso e criador de Deus. Na verdade, todos respiramos o mesmo alento, que o texto grego diz com o belo termo composto\u00a0<em>homothymad\u00f3n<\/em>\u00a0(Romanos 15,6), que junta\u00a0<em>hom\u00f3s<\/em>\u00a0[= mesma] e\u00a0<em>thym\u00f3s<\/em>\u00a0[= alma], sendo que\u00a0<em>thym\u00f3s<\/em>\u00a0deriva de\u00a0<em>th\u00fd\u00f4<\/em>\u00a0[= soprar]. E que mundo maravilhoso surgiria, rompendo a crosta do ego\u00edsmo e da dureza de cora\u00e7\u00e3o, se \u00abnos acolh\u00eassemos uns aos outros, como Cristo nos acolheu a n\u00f3s\u00bb (Romanos 15,7). A\u00ed est\u00e1 ent\u00e3o a comunidade humana irmanada e reunida, porque todos recebemos de Deus o mesmo alento, o mesmo sopro criador (G\u00e9nesis 2,7), e com uma s\u00f3 boca (<em>en hen\u00ec st\u00f3mati<\/em>) e a uma s\u00f3 voz cantamos os louvores do nosso Deus (Romanos 15,6), autor de tantas maravilhas (\u00caxodo 15,11)! Esta linguagem e esta harmonia enchem por inteiro a comunidade primitiva (Atos 1,14; 2,46; 5,12).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">8. O \u00edcone desta santidade, neste mundo, \u00e9 Maria, no grande texto da Anuncia\u00e7\u00e3o (Lucas 1,26-38). Vale a pena contempl\u00e1-la demoradamente, como fazem as Igrejas do Oriente e do Ocidente. Ao contr\u00e1rio de n\u00f3s, Maria, visitada por Deus, n\u00e3o foge, n\u00e3o se esconde de si mesma, n\u00e3o se esconde de Deus, n\u00e3o esconde Deus na sua vida. Tinha consagrado a Deus toda a sua vida e a sua virgindade. N\u00e3o sendo usual no mundo judaico do seu tempo, esta maneira de viver em matrim\u00f3nio est\u00e1, por\u00e9m solidamente documentada, e imp\u00f5e-se mesmo que assim a compreendamos no texto da Anuncia\u00e7\u00e3o. Cada vez mais me conven\u00e7o, n\u00e3o querendo, no entanto, convencer ningu\u00e9m, que o matrim\u00f3nio de Maria e de Jos\u00e9, como se pode vislumbrar em contraluz, nos interst\u00edcios dos textos de Mateus 1-2 e Lucas 1-2, n\u00e3o ser\u00e1 tanto o quadro habitual do matrim\u00f3nio, em ordem \u00e0 procria\u00e7\u00e3o, mas ser\u00e1 mais o quadro de um matrim\u00f3nio em ordem \u00e0 prote\u00e7\u00e3o m\u00fatua (civil, religiosa, jur\u00eddica, social, econ\u00f3mica\u2026), e cuja finalidade n\u00e3o \u00e9 a procria\u00e7\u00e3o, mas a dedica\u00e7\u00e3o total de duas pessoas \u00e0s coisas de Deus. Neste quadro religioso, jur\u00eddico, social, n\u00e3o \u00e9 de estranhar que Maria seja apresentada como \u00abvirgem casada\u00bb (<em>parth\u00e9nos emn\u00easteum\u00e9n\u00ea<\/em>) (Lucas 1,27; 2,5) que, perante o an\u00fancio do Anjo Gabriel de que h\u00e1 de conceber e dar \u00e0 luz um filho (Lucas 1,31), avan\u00e7a a obje\u00e7\u00e3o concreta: \u00abComo pode ser isso, pois n\u00e3o conhe\u00e7o homem?\u00bb (Lc 1,34). Eu entendo e entenda quem puder que, no quadro de um matrim\u00f3nio habitual, esta obje\u00e7\u00e3o n\u00e3o faria sentido. Claramente, n\u00e3o estava no pensamento de Maria (e de Jos\u00e9) vir a ter um filho. Fa\u00e7o notar que este estatuto \u00e9 conhecido, no juda\u00edsmo [(tratado\u00a0<em>Niddah<\/em>, da Mishnah judaica, e ver tamb\u00e9m as anota\u00e7\u00f5es precisas de Ireneu de Li\u00e3o (130-202) e de Tertuliano de Cartago (160-220)]. Tudo ao contr\u00e1rio, por exemplo, de Isabel e Zacarias que muito tinham rezado para que Deus lhes desse um filho, e foram atendidos, no dizer de Gabriel (Lucas 1,13).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">9. N\u00e3o sendo usual no mundo judaico do seu tempo, esta maneira de viver o matrim\u00f3nio, al\u00e9m de estar documentada no juda\u00edsmo, \u00e9 a que melhor explica a obje\u00e7\u00e3o de Maria ao anjo (de outro modo, no contexto de um matrim\u00f3nio habitual, mais dia menos dia sempre Maria haveria de ter um filho). Ao contr\u00e1rio do homem do G\u00e9nesis e desta sociedade em que vivemos, Maria n\u00e3o se esconde de Deus nem esconde Deus. Exp\u00f5e-se, na sua verdade e simplicidade, ao imenso clar\u00e3o de Deus. \u00c9 assim que se exp\u00f5e a Deus e que exp\u00f5e Deus, recebendo e aceitando com amor intenso a sua nova Voca\u00e7\u00e3o que lhe vem de Deus. Maria vai ser a M\u00e3e, n\u00e3o de um filho, mas do Filho h\u00e1 muito ansiado, esperado e anunciado nas p\u00e1ginas da Escritura Santa Antiga. \u00c9 o Filho de Deus, totalmente consubstancial a Deus, e \u00e9 o Filho de Maria, totalmente consubstancial \u00e0 sua M\u00e3e. Santa Maria, M\u00e3e de Deus.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">10. Por isso, \u00abAlegra-te, Maria\u00bb [= \u00ab<em>Cha\u00eere Maria<\/em>\u00bb; \u00ab<em>Ave Maria<\/em>\u00bb], \u00abn\u00e3o tenhas medo\u00bb, \u00abo Senhor est\u00e1 contigo\u00bb (Lucas 1, 28 e 30). Alguns anos mais tarde, as mulheres que v\u00e3o ao t\u00famulo de Jesus ouvir\u00e3o tamb\u00e9m a mesma m\u00fasica divina: \u00abAlegrai-vos\u00bb, \u00abn\u00e3o tenhais medo\u00bb (Mateus 28,5 e 9). E n\u00f3s, Assembleia Santa que hoje se re\u00fane para celebrar os mist\u00e9rios do seu Senhor e tamb\u00e9m de Maria, M\u00e3e de Deus e nossa M\u00e3e, estamos tamb\u00e9m permanentemente a ouvir esta divina melodia. Portanto, irm\u00e3os amados em Cristo, Alegrai-vos, n\u00e3o tenhais medo, o Senhor est\u00e1 no meio de n\u00f3s!<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">11. \u00abEis a serva do Senhor; fa\u00e7a-se em mim segundo a tua Palavra\u00bb (Lucas 1,38). Deus chama, mas n\u00e3o imp\u00f5e. A Maria, e a cada um de n\u00f3s. Podemos sempre aceitar Deus ou esconder-nos de Deus. Deixar Deus entrar, ou fechar-lhe a porta. Maria aceitou, e, por isso, todas as gera\u00e7\u00f5es a proclamar\u00e3o Bem-aventurada (Lucas 1,48). \u00c9 o que estamos hoje e aqui a fazer: Feliz \u00e9s tu, Maria, pioneira de um mundo novo, porque acreditaste em tudo quanto te foi dito da parte do Senhor (Lucas 1,45)! Feliz tamb\u00e9m aquele que ouve a Palavra de Deus e a p\u00f5e em pr\u00e1tica (Lucas 11,28)!<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">12. Memorial desta beleza incandescente \u00e9 a Bas\u00edlica da Anuncia\u00e7\u00e3o, em Nazar\u00e9. Esta grandiosa Bas\u00edlica, em tr\u00eas planos, foi inaugurada em 25 de Mar\u00e7o de 1969, e foi visitada, ainda as obras estavam em curso, em 1964, pelo Papa Paulo VI. Escava\u00e7\u00f5es feitas antes desta grandiosa constru\u00e7\u00e3o puseram a descoberto, e podem ver-se ainda hoje, os majestosos pilares de uma Catedral levantada em 1099, pelo pr\u00edncipe cruzado Tancredo, bem como o pavimento em mosaico de uma igreja bizantina, que pode ser datada do ano 450. Mas, descendo mais fundo, at\u00e9 \u00e0s entranhas da atual Bas\u00edlica, acede-se \u00e0 Gruta da Anuncia\u00e7\u00e3o, sob cujo altar se l\u00ea a inscri\u00e7\u00e3o\u00a0<em>Verbum caro hic factum est<\/em>\u00a0[\u00abAqui o Verbo se fez carne\u00bb], e a outros lugares de culto antigos, talvez j\u00e1 do s\u00e9culo II. Numa grafite antiga foi encontrada a grava\u00e7\u00e3o XE MAPIA, abrevia\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>Cha\u00eere Maria<\/em>, a primeira Ave-Maria da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">13. A uns 200 metros para nordeste encontra-se a Igreja da Nutri\u00e7\u00e3o, que guarda a mem\u00f3ria de S. Jos\u00e9 e dos \u00abirm\u00e3os de Jesus\u00bb do ramo de Jos\u00e9, muito zelosos dos seus direitos, tradi\u00e7\u00e3o bem conhecida na Igreja primitiva, a partir do s\u00e9culo II, e fechados aos gentio-crist\u00e3os pelo dogma da\u00a0<em>habdalah<\/em>\u00a0[= separa\u00e7\u00e3o entre os judeo-crist\u00e3os e os crist\u00e3os da Grande Igreja]. Nesse sentido, \u00e9 sabido que em 570 impediram o An\u00f3nimo de Piacenza de visitar a \u00abcasa de Jos\u00e9\u00bb, e, em 614, alistaram-se com os Persas do rei Cosro\u00e9 II, vindo ao de cima o seu zelo destruidor de igrejas \u00abcrist\u00e3s\u00bb. Com a vit\u00f3ria de Her\u00e1clio, estes judeo-crist\u00e3os nazarenos levaram consigo as suas tradi\u00e7\u00f5es sobre Nazar\u00e9 e S. Jos\u00e9, e ter-se-\u00e3o refugiado junto dos coptos eg\u00edpcios. Logo a seguir, em 670, Arculfo j\u00e1 p\u00f4de visitar e descrever a casa de S. Jos\u00e9 em Nazar\u00e9. A descri\u00e7\u00e3o de Arculfo v\u00ea-se confirmada mais tarde, nas escava\u00e7\u00f5es do P. Viaud e de Fr. Benedetto Vlaminck, nos anos de 1890 e 1909-1910, e, mais tarde ainda, em 1970, pelo P. Bagatti.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">14. Foi o Conc\u00edlio de Basileia (1439) que sugeriu a defini\u00e7\u00e3o do dogma da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o, proclamado depois por Pio IX em 08 de Dezembro de 1854, atrav\u00e9s da bula\u00a0<em>Ineffabilis Deus<\/em>. Note-se que o termo \u00abconce\u00e7\u00e3o\u00bb, na linguagem b\u00edblica, indica a totalidade da exist\u00eancia. O velho orante do Salmo 71, olhando retrospetivamente para a sua vida de fidelidade e de amor, exclama extasiado: \u00abSobre ti me apoiei desde o ventre, desde as entranhas de minha m\u00e3e\u00bb (Salmo 71,6). Assim tamb\u00e9m, a exist\u00eancia de Maria est\u00e1, desde o seu in\u00edcio, sob a prote\u00e7\u00e3o de Deus, marcada com o selo de Deus, n\u00e3o estando nunca sob o selo do\u00a0<em>pecado original<\/em>, que mostra a exist\u00eancia humana marcada por um projeto alternativo ao de Deus, em que cada exist\u00eancia humana, eu, o meu pai, os filhos que aparecer\u00e3o sobre a face da terra, queremos ser por nossas pr\u00f3prias for\u00e7as \u00abcomo deus, conhecedores do bem e mal\u00bb (G\u00e9nesis 3,5).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">15. Esta celebra\u00e7\u00e3o da M\u00e3e de Deus e nossa M\u00e3e e Padroeira Principal de Portugal \u00e9 um desafio imenso para o homem \u00abem fuga\u00bb deste tempo, que se esconde de si mesmo, que continua a esconder-se de Deus, e que pretende esconder Deus, retirando-o da via p\u00fablica e da vida p\u00fablica. Atravessamos verdadeiramente a \u00abnoite do mundo\u00bb (<em>Weltnacht<\/em>), diz Martin Heidegger, onde \u00abCada um est\u00e1 sozinho no cora\u00e7\u00e3o da terra\/ atravessado por um raio de sol:\/ e \u00e9 logo noite\u00bb, como bem escreve o escritor italiano Salvatore Quasimodo. Homem deste tempo \u00e0s escuras, engessado, triste, exilado, escondido, anestesiado, volta para a Luz, reentra em tua casa, no teu cora\u00e7\u00e3o despeda\u00e7ado. H\u00e1 de seguramente por l\u00e1 haver ainda, ca\u00edda no fundo da alma, uma l\u00e1grima dorida e uma m\u00e3o de M\u00e3e \u00e0 tua espera!<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Senhora de dezembro,<\/p>\n<p>Maria, minha M\u00e3e,<\/p>\n<p>Passa hoje o dia da tua Imaculada Concei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Senhora de dezembro,<\/p>\n<p>Dos dias frios e fr\u00e1geis,<\/p>\n<p>Dos passos firmes e \u00e1geis,<\/p>\n<p>Do cora\u00e7\u00e3o que velava<\/p>\n<p>\u00c0 espera de quem te amava.<\/p>\n<p>Assim te entregaste a Deus,<\/p>\n<p>De cora\u00e7\u00e3o inteiro,<\/p>\n<p>Como um tinteiro<\/p>\n<p>Todo derramado numa p\u00e1gina.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Tu \u00e9s a mais bela p\u00e1gina de Deus,<\/p>\n<p>A Deus doada, apresentada, dedicada,<\/p>\n<p>M\u00e3e da vida consagrada,<\/p>\n<p>Imaculada,<\/p>\n<p>Ensina-me a tua tabuada,<\/p>\n<p>A tua nova alegria,<\/p>\n<p>A luz do Evangelho que te aquece e alumia.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Eu te sa\u00fado, Maria,<\/p>\n<p>Neste dia da tua Imaculada Concei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ave-Maria.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. \u00abFazendo mem\u00f3ria da Toda Santa, imaculada, sobre bendita, gloriosa Senhora nossa, M\u00e3e de Deus e Sempre Virgem Maria, juntamente 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