{"id":1830725028,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/326-vaticano\/8859-homilia-do-papa-francisco-em-madagascar"},"modified":"2025-11-07T16:34:34","modified_gmt":"2025-11-07T16:34:34","slug":"homilia-do-papa-francisco-em-madagascar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/homilia-do-papa-francisco-em-madagascar\/","title":{"rendered":"Homilia do Papa Francisco em Madag\u00e1scar"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/visita_madagascar_190909090131.jpeg\" \/><\/p>\n<p><p>Disse-nos o Evangelho que \u00abseguiam com [Jesus] grandes multid\u00f5es\u00bb (<em>Lc<\/em>\u00a014, 25). \u00c0 semelhan\u00e7a daquelas multid\u00f5es que se aglomeravam no percurso de Jesus, tamb\u00e9m v\u00f3s viestes em grande n\u00famero para acolher a sua mensagem e segui-Lo. Mas, como bem sabeis, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil seguir os passos de Jesus. Voc\u00eas n\u00e3o repousaram e tantos de v\u00f3s, passaram aqui a noite. Realmente o evangelho de Lucas lembra-nos, hoje, as exig\u00eancias deste compromisso.<\/p>\n<p>\u00c9 importante notar que estas indica\u00e7\u00f5es s\u00e3o dadas no quadro da subida de Jesus para Jerusal\u00e9m, entre a par\u00e1bola do banquete \u2013 onde o convite \u00e9 aberto a todos, especialmente \u00e0s pessoas rejeitadas que vivem nas ruas e nas pra\u00e7as, nas encruzilhadas \u2013 e as tr\u00eas par\u00e1bolas ditas da miseric\u00f3rdia, onde se organiza a festa quando a pessoa perdida \u00e9 reencontrada, quando aquele que parecia morto \u00e9 recebido, festejado e devolvido \u00e0 vida pela possibilidade dum novo recome\u00e7o. Qualquer ren\u00fancia crist\u00e3 s\u00f3 tem sentido \u00e0 luz da alegria e da festa do encontro com Jesus Cristo.<\/p>\n<p>A primeira exig\u00eancia convida-nos a verificar as nossas rela\u00e7\u00f5es familiares. A vida nova que o Senhor nos prop\u00f5e parece inc\u00f3moda e transforma-se numa injusti\u00e7a escandalosa para quantos creem que \u00e9 poss\u00edvel limitar ou reduzir o acesso ao Reino dos C\u00e9us apenas aos la\u00e7os de sangue, \u00e0 perten\u00e7a a um grupo determinado, a um cl\u00e3 ou a uma cultura particular. Quando o \u00abparentesco\u00bb se torna a chave decisiva e determinante de tudo o que \u00e9 justo e bom, acaba-se por justificar e at\u00e9 mesmo \u00abconsagrar\u00bb alguns comportamentos que levam \u00e0 cultura dos privil\u00e9gios e da exclus\u00e3o: favoritismos, clientelismos e, consequentemente, corrup\u00e7\u00e3o. A exig\u00eancia do Mestre faz-nos elevar o olhar, dizendo: quem n\u00e3o for capaz de ver o outro como um irm\u00e3o, deixar-se comover pela sua vida e situa\u00e7\u00e3o, independentemente da sua origem familiar, cultural e social, \u00abn\u00e3o pode ser meu disc\u00edpulo\u00bb (<em>Lc<\/em>\u00a014, 26). O seu amor e dedica\u00e7\u00e3o s\u00e3o um dom gratuito, invocado por todos e para todos.<\/p>\n<p>A segunda exig\u00eancia mostra-nos a dificuldade de seguir o Senhor, quando se pretende identificar o Reino dos C\u00e9us com os pr\u00f3prios interesses pessoais ou com o fasc\u00ednio duma ideologia qualquer que acaba por instrumentalizar o nome de Deus ou a religi\u00e3o para justificar atos de viol\u00eancia, a segrega\u00e7\u00e3o e at\u00e9 o homic\u00eddio, o ex\u00edlio, o terrorismo e a marginaliza\u00e7\u00e3o. A exig\u00eancia do Mestre encoraja-nos a n\u00e3o manipular o Evangelho com tristes reducionismos, mas construir a hist\u00f3ria na fraternidade e solidariedade, no respeito gratuito da terra e dos seus dons contra todas as formas de explora\u00e7\u00e3o, encorajando-nos a viver o \u00abdi\u00e1logo como um caminho, a colabora\u00e7\u00e3o comum como conduta, o conhecimento m\u00fatuo como m\u00e9todo e crit\u00e9rio\u00bb (<em><a href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20180319_gaudete-et-exsultate.html\">Documento sobre a fraternidade humana<\/a><\/em>, Abu Dabhi, 4 de fevereiro de 2019); n\u00e3o cedendo \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de certas doutrinas incapazes de ver o bom gr\u00e3o e o joio crescerem juntos enquanto se espera o Senhor da messe (cf.\u00a0<em>Mt<\/em>\u00a013, 24-30).<\/p>\n<p>E, quanto \u00e0 \u00faltima exig\u00eancia, como pode ser dif\u00edcil partilhar a vida nova que o Senhor nos oferece, quando nos sentimos continuamente impelidos a buscar a justifica\u00e7\u00e3o em n\u00f3s mesmos, crendo que tudo provenha exclusivamente das nossas for\u00e7as e daquilo que possu\u00edmos! Quando a corrida para acumular riqueza se torna molesta e oprimente \u2013 como ouvimos na primeira Leitura \u2013, exacerbando o ego\u00edsmo e o uso de meios imorais. A exig\u00eancia do Mestre \u00e9 um convite a recuperar a mem\u00f3ria agradecida e tomar consci\u00eancia de que a nossa vida e as nossas capacidades, mais do que conquista pessoal, s\u00e3o fruto de um dom (cf. Francisco, Exort. ap.\u00a0<em><a href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20180319_gaudete-et-exsultate.html\">Gaudete e exsultate<\/a><\/em>, 55) tecido por Deus e pelas m\u00e3os silenciosas de muitas pessoas, cujos nomes s\u00f3 conheceremos na manifesta\u00e7\u00e3o do Reino dos C\u00e9us.<\/p>\n<p>Com estas exig\u00eancias, o Senhor quer preparar os seus disc\u00edpulos para a festa da irrup\u00e7\u00e3o do Reino de Deus, libertando-os deste obst\u00e1culo perigoso que \u00e9, em \u00faltima inst\u00e2ncia, uma das piores escravid\u00f5es: viver para si mesmo. \u00c9 a tenta\u00e7\u00e3o de se fechar no seu pequeno mundo, que acaba por deixar pouco espa\u00e7o aos outros: os pobres j\u00e1 n\u00e3o entram, deixa-se de ouvir a voz de Deus, n\u00e3o mais se rejubila com doce alegria do seu amor, perde-se o entusiasmo de fazer o bem. Quando se fecham, muitas pessoas podem aparentemente sentir-se em seguran\u00e7a, mas acabam por se transformar em pessoas ressentidas, lamurientas, sem vida. Esta n\u00e3o \u00e9 a op\u00e7\u00e3o duma vida digna e plena, n\u00e3o corresponde ao des\u00edgnio de Deus a nosso respeito, n\u00e3o \u00e9 a vida no Esp\u00edrito que jorra do cora\u00e7\u00e3o do Cristo ressuscitado (cf.\u00a0Francisco, Exort. ap.\u00a0<em><a href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium.html\">Evangelii gaudium<\/a><\/em>, 2).<\/p>\n<p>No caminho para Jerusal\u00e9m o Senhor, com estas exig\u00eancias, convida-nos a elevar o olhar, ajustar as prioridades e sobretudo criar espa\u00e7os para que Deus seja o centro e o fulcro da nossa vida.<\/p>\n<p>Se olharmos ao nosso redor, quantos homens e mulheres, jovens, crian\u00e7as sofrem e est\u00e3o literalmente privados de tudo! Isto n\u00e3o faz parte do plano de Deus. Como \u00e9 urgente este convite de Jesus a morrer para os nossos confinamentos, os nossos orgulhosos individualismos, a fim de deixar triunfar o esp\u00edrito de fraternidade \u2013 este dimana do lado aberto de Jesus Cristo, donde nascemos como fam\u00edlia de Deus \u2013 e cada qual possa sentir-se amado, porque compreendido, aceite e valorizado na sua dignidade. \u00abPerante a dignidade humana espezinhada, muitas vezes fica-se de bra\u00e7os cruzados ou ent\u00e3o abanam-se os bra\u00e7os, impotentes diante da for\u00e7a obscura do mal. Mas o crist\u00e3o n\u00e3o pode ficar de bra\u00e7os cruzados, indiferente, nem de bra\u00e7os a abanar, fatalista! N\u00e3o&#8230; O crente estende a m\u00e3o, como Jesus faz com ele\u00bb (Francisco,\u00a0<em><a href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/homilies\/2018\/documents\/papa-francesco_20181118_omelia-gionatamondiale-poveri.html\">Homilia por ocasi\u00e3o do Dia Mundial dos Pobres<\/a><\/em>, 18 de novembro de 2018).<\/p>\n<p>A Palavra de Deus, que ouvimos, convida-nos a retomar o caminho, ousando dar este salto qualitativo e adotar esta sabedoria do desapego pessoal como base para a justi\u00e7a e a vida de cada um de n\u00f3s; pois, juntos, podemos lutar contra todas estas idolatrias que nos levam a focalizar a nossa aten\u00e7\u00e3o nas seguran\u00e7as ilus\u00f3rias do poder, da carreira e do dinheiro e na busca de gl\u00f3rias humanas.<\/p>\n<p>As exig\u00eancias que Jesus indica deixam de ser gravosas quando come\u00e7amos a saborear a alegria da vida nova que Ele mesmo nos prop\u00f5e: a alegria que brota de saber que Ele \u00e9 o primeiro a sair \u00e0 nossa procura pelas encruzilhadas dos caminhos, quando estamos perdidos como aquela ovelha ou aquele filho pr\u00f3digo. Possa este humilde realismo \u2013 \u00e9 um realismo, realismo crist\u00e3o \u2013 \u00a0incitar-nos a assumir os grandes desafios, e vos conceda o desejo de tornar o vosso lindo pa\u00eds num lugar onde o Evangelho se faz vida, e vida para a maior gl\u00f3ria de Deus.<\/p>\n<p>Comprometamo-nos e fa\u00e7amos nossos os planos do Senhor.<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Disse-nos o Evangelho que \u00abseguiam com [Jesus] grandes multid\u00f5es\u00bb (Lc\u00a014, 25). \u00c0 semelhan\u00e7a daquelas multid\u00f5es que se aglomeravam no percurso 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