{"id":1836736077,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/10638-domingo-xiv-do-tempo-comum-rejeicao-de-jesus"},"modified":"2025-11-07T16:33:47","modified_gmt":"2025-11-07T16:33:47","slug":"domingo-xiv-do-tempo-comum-rejeicao-de-jesus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/domingo-xiv-do-tempo-comum-rejeicao-de-jesus\/","title":{"rendered":"Domingo XIV do Tempo Comum: \u00abRejei\u00e7\u00e3o de Jesus\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031.jpg\" \/><\/p>\n<p><p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">1. O Evangelho deste Domingo XIV do Tempo Comum (Marcos 6,1-6) enla\u00e7a no do Domingo passado (XIII), pondo Jesus a sair de l\u00e1 (<em>eke\u00eethen<\/em>) (Marcos 6,1), isto \u00e9, de Cafarnaum, da casa de Jairo (Marcos 5,35-43), e a dirigir-se para a sua p\u00e1tria (<em>p\u00e1tris<\/em>) (Marcos 6,1), ao encontro dos seus familiares e conterr\u00e2neos, sendo o s\u00e1bado e a sinagoga (Marcos 6,2) o natural lugar desse encontro. Esta primeira ida de Jesus \u00e0 sua p\u00e1tria fica a marcar tamb\u00e9m, no Evangelho de Marcos, a \u00faltima vez que Jesus ensina numa sinagoga (Marcos 1,21.23.29.30; 3,1; 6,2), e tamb\u00e9m o s\u00e1bado ser\u00e1 mencionado apenas mais uma vez, precisamente na manh\u00e3 de P\u00e1scoa, escrevendo o narrador: \u00abpassado o s\u00e1bado\u00bb (Marcos 16,1).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">2. E, portanto, tudo neste texto, neste encontro, assume um car\u00e1cter decisivo. Desde logo a escolha do termo \u00abp\u00e1tria\u00bb, que carrega consigo um significado mais intenso e mais amplo do que o mais habitual de \u00abpovoa\u00e7\u00e3o\u00bb. Com esta forma de dizer, este decisivo encontro com Jesus n\u00e3o fica apenas circunscrito a uma pequena regi\u00e3o da Galileia, mas prefigura j\u00e1 o encontro de Jesus com o inteiro Israel, e a mesma rejei\u00e7\u00e3o que lhe ser\u00e1 movida por este. S\u00e3o mesmo j\u00e1 vis\u00edveis desde aqui as resist\u00eancias ao Evangelho radicadas no nosso cora\u00e7\u00e3o, e que o Quarto Evangelho por\u00e1 a claro: \u00abVeio para o que era seu, e os seus n\u00e3o o receberam\u00bb (Jo\u00e3o 1,11). Mas tamb\u00e9m esta \u00faltima vez a ensinar na sinagoga, e este s\u00e1bado que aponta para aquele \u00faltimo \u00abpassado o s\u00e1bado\u00bb (Marcos 16,1), devem gravar em n\u00f3s evoca\u00e7\u00f5es e apelos decisivos. Tudo o que tem sabor a \u00faltimo carrega um particular peso espec\u00edfico.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">3. Aventurando-nos um pouco mais dentro do texto, n\u00e3o ficaremos certamente admirados por vermos que estes conterr\u00e2neos de Jesus estejam a par das suas humildes e bem conhecidas ra\u00edzes geogr\u00e1ficas e familiares que, na mentalidade antiga, determinam a identidade e a capacidade da pessoa. Notaremos ainda, sem grande espanto, que os conterr\u00e2neos de Jesus sabem, em termos anagr\u00e1ficos, muito mais do que o leitor, sobre Jesus: dele sabem indicar a fam\u00edlia, a profiss\u00e3o, a resid\u00eancia. O que nos deve espantar, isso sim, \u00e9 que aqueles conterr\u00e2neos de Jesus n\u00e3o saibam dizer \u00abDE ONDE\u00bb (<em>p\u00f3then<\/em>) lhe vem aquela sabedoria \u00fanica e aqueles divinos prod\u00edgios que realiza.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">4. \u00c0s vezes, por termos os olhos t\u00e3o embrenhados na terra, nas coisas da terra, n\u00e3o conseguimos ver o c\u00e9u! Veja-se a iluminante cena da cura do cego de nascen\u00e7a (Jo\u00e3o 9). Em di\u00e1logo com o cego curado, os fariseus acabam por afirmar acerca de Jesus: \u00abEsse n\u00e3o sabemos DE ONDE (<em>p\u00f3then<\/em>) \u00e9\u00bb (Jo\u00e3o 9,29), ao que o cego curado responde, apontando, com evidente ironia, a cegueira deles: \u00abIsso \u00e9 \u201cespantoso\u201d (<em>t\u00f2 thaumast\u00f3n<\/em>): v\u00f3s n\u00e3o sabeis DE ONDE (<em>p\u00f3then<\/em>) Ele \u00e9; e, no entanto, Ele abriu-me os olhos!\u00bb (Jo\u00e3o 9,30). Que \u00e9 como quem diz: s\u00f3 n\u00e3o v\u00ea quem n\u00e3o quer! Tal como o cego, e fazendo uso da mesma linguagem, tamb\u00e9m Jesus \u201cestava espantado\u201d (<em>etha\u00famazen<\/em>) com a falta de f\u00e9 dos seus conterr\u00e2neos (Marcos 6,6). Note-se bem que a falta de f\u00e9 aqui assinalada n\u00e3o \u00e9 apenas a nega\u00e7\u00e3o de Deus. \u00c9 a rejei\u00e7\u00e3o de Jesus em nome de uma errada conce\u00e7\u00e3o de Deus. Podemos dizer mesmo: para salvar a honra de Deus! Veja-se bem at\u00e9 onde pode chegar a nossa cegueira! Sim, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, pensam os compatriotas de Jesus, que um carpinteiro, filho de Maria e membro daquela fam\u00edlia, que todos conhecem, diga o que diz e fa\u00e7a o que faz! De facto, \u00e0s vezes, para salvar a honra de Deus, rejeitamos tanta gente humilde!\u00a0<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">5. Numa altura em que se continua a falar da \u00abrece\u00e7\u00e3o\u00bb do Conc\u00edlio II do Vaticano, dado que ainda estamos na esteira da celebra\u00e7\u00e3o dos 50 anos da sua realiza\u00e7\u00e3o (1962-1965), podemos falar tamb\u00e9m, com as devidas dist\u00e2ncias, da \u00abrece\u00e7\u00e3o\u00bb de Jesus e do seu Evangelho. O texto diz-nos que os seus conterr\u00e2neos n\u00e3o o receberam, n\u00e3o se deixaram atravessar por Ele, pelo C\u00e9u que Ele indicava e trazia consigo. Ponte para o pr\u00f3ximo Domingo (XV), em que ouviremos o epis\u00f3dio que se segue imediatamente ao de hoje (Marcos 6,7-13). A\u00ed, Jesus enviar\u00e1 os seus Doze Ap\u00f3stolos, dois a dois, despojados de meios ou de equipamento, para ressaltar bem a import\u00e2ncia do An\u00fancio do Evangelho. Mas a ponte entre os dois textos e respetivos Domingos est\u00e1 em que ouviremos Jesus dizer aos seus Ap\u00f3stolos: \u00abQualquer lugar (<em>t\u00f3pos<\/em>) que n\u00e3o vos \u201creceba\u201d (<em>d\u00e9xetai<\/em>)\u2026\u00bb. Os livros dizem que, em Marcos, o verbo \u00abreceber\u00bb (<em>d\u00e9chomai<\/em>) est\u00e1 sempre referido a Jesus. Trata-se de \u00abreceber\u00bb, de \u00abacolher\u00bb Jesus. \u00c9 ent\u00e3o tamb\u00e9m f\u00e1cil ver qual \u00e9 o \u00ablugar\u00bb que n\u00e3o \u00abrecebeu\u00bb Jesus. Mas o problema \u00e9 sempre este: e n\u00f3s?<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">6. A figura de Ezequiel, profeta fr\u00e1gil, mas que aponta para um \u00abDeus que d\u00e1 for\u00e7a\u00bb (etimologia do seu nome), por 93 vezes interpelado por Deus com a locu\u00e7\u00e3o \u00abFilho do Homem\u00bb, \u00e9 por Deus incumbido da miss\u00e3o dif\u00edcil de ser sentinela (<em>tsopeh<\/em>) (Ezequiel 3,17; 33,7) da casa rebelde de Israel, junto do rio Cobar, em\u00a0<em>Tel \u2019Ab\u00eeb<\/em>\u00a0(Ezequiel 1,1-3; 3,15), na Babil\u00f3nia, uma esp\u00e9cie de \u00abp\u00e1roco dos exilados\u00bb.\u00a0<em>Tel \u2019Ab\u00eeb<\/em>\u00a0significa \u00abcolina da primavera\u00bb ou das \u00abespigas\u00bb. \u00c9 um lugar duro de ex\u00edlio, mas, porque lembra a primavera, \u00e9 tamb\u00e9m um nome carregado de esperan\u00e7a. Os judeus deram este nome significativo a uma das primeiras col\u00f3nias que fundaram na Palestina, junto da costa Mediterr\u00e2nica, em finais do s\u00e9culo XIX, onde se situa hoje a capital pol\u00edtica de Israel. O rio Cobar \u00e9 um canal de irriga\u00e7\u00e3o, hoje chamado\u00a0<em>Shatt Ennil<\/em>, que parte do Eufrates para irrigar a cidade de Nippur, onde os Babil\u00f3nios instalaram deportados oriundos de diferentes proveni\u00eancias, entre os quais se contam os deportados de Jud\u00e1. Na sua fragilidade e na rejei\u00e7\u00e3o que experimenta, o profeta Ezequiel ajuda a perceber e a \u00abreceber\u00bb melhor a figura de Jesus, o Deus feito homem, que a si mesmo se diz nos Evangelhos, por 82 vezes, \u00abFilho do Homem\u00bb.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">7. E S\u00e3o Paulo d\u00e1 testemunho, na Segunda Carta aos Cor\u00edntios (12,7-10) da for\u00e7a nova de Cristo, que o habita: \u00abBasta-te a minha gra\u00e7a, pois \u00e9 na fraqueza que se manifesta a minha for\u00e7a\u00bb (2 Cor\u00edntios 12,9). E ainda: \u00abQuando sou fraco, ent\u00e3o \u00e9 que sou forte\u00bb (2 Cor\u00edntios 12,10).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">8. O Salmo 123 mostra-nos a for\u00e7a do olhar atrav\u00e9s de uma s\u00e9rie de olhares que se entrecruzam: os meus olhos, os olhos dos servos, os olhos da escrava, os nossos olhos. Os meus olhos e os nossos olhos est\u00e3o postos em Deus; os dos servos nas m\u00e3os dos seus patr\u00f5es; os da escrava nas m\u00e3os da sua patroa. H\u00e1, todavia, uma diferen\u00e7a entre as m\u00e3os de Deus e as dos patr\u00f5es. As m\u00e3os dos patr\u00f5es d\u00e3o ordens. As m\u00e3os de Deus aben\u00e7oam, d\u00e3o, salvam, embalam com ternura, fazem gra\u00e7a. Portanto, o homem que reza neste Salmo n\u00e3o junta as m\u00e3os, mas abre-as para as de Deus, formando uma esp\u00e9cie de\u00a0<em>puzzle<\/em>, para receber os dons de Deus; tamb\u00e9m n\u00e3o fecha os olhos, mas escancara-os para o c\u00e9u; e t\u00e3o-pouco se fecha no seu mundo interior, mas abre-se completamente para fora. O orante deste Salmo reza com as m\u00e3os e os olhos abertos, com a alma aberta.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">Ant\u00f3nio Couto\u00a0<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. 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