{"id":185974939,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/11524-solenidade-nascimento-de-sao-joao-batista"},"modified":"2025-11-07T16:33:51","modified_gmt":"2025-11-07T16:33:51","slug":"solenidade-nascimento-de-sao-joao-batista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/solenidade-nascimento-de-sao-joao-batista\/","title":{"rendered":"Solenidade: Nascimento de S\u00e3o Jo\u00e3o Batista"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031.jpg\" \/><\/p>\n<p><p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">1. Com exce\u00e7\u00e3o (honrosa) da l\u00edngua portuguesa, os nomes dos dias da semana das principais l\u00ednguas vivas europeias est\u00e3o marcados pelos astros: sol, lua, marte, merc\u00fario, J\u00fapiter, v\u00e9nus, saturno. Esta maneira de dizer salienta a nossa depend\u00eancia dos\u00a0<em>astros<\/em>, que o mesmo \u00e9 dizer, das for\u00e7as da\u00a0<em>natureza<\/em>\u00a0que os\u00a0<em>astros<\/em>\u00a0representam. Excetuam-se, nalguns casos, o s\u00e1bado e o domingo, que trazem a marca das tradi\u00e7\u00f5es hebraica e crist\u00e3.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">2. Mas, mesmo no caso portugu\u00eas, \u00e9 f\u00e1cil verificar como o nosso paganismo convive amenamente com o nosso cristianismo. Basta um olhar atento a esta \u00e9poca do ano (solst\u00edcio de ver\u00e3o), e \u00e0s celebra\u00e7\u00f5es que fazemos \u00e0 volta dos santos populares: Santo Ant\u00f3nio, S\u00e3o Jo\u00e3o e S\u00e3o Pedro.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">3. Embora o fen\u00f3meno seja o mesmo, detenho-me particularmente na festa de S. Jo\u00e3o, por ser a mais afeta a esta zona norte do pa\u00eds. A tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica p\u00f5e Jo\u00e3o Batista na linha da Gra\u00e7a [o nome Jo\u00e3o, hebraico\u00a0<em>Y\u00f4hanan<\/em>, nome pleno, teof\u00f3rico, significa \u00abYHWH faz Gra\u00e7a\u00bb] e n\u00e3o da natureza, e faz dele um homem austero, que n\u00e3o beber\u00e1 vinho nem bebida alco\u00f3lica (Lucas 1,15), que anda pelo sil\u00eancio do deserto para melhor escutar e escrutar a Palavra de Deus, e que, a quantos o procuram, prega penit\u00eancia e convers\u00e3o. Mas n\u00f3s festejamo-lo com esfuziante folia, no meio de barulho e muita m\u00fasica, abund\u00e2ncia de vinho e dan\u00e7as\u2026<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">4. Na segunda metade do primeiro s\u00e9culo e in\u00edcios do segundo da nossa era, o cristianismo e o primitivo culto crist\u00e3o floresciam na Palestina, sobretudo ligados a lugares que carregavam as principais mem\u00f3rias crist\u00e3s, como Bel\u00e9m, Jerusal\u00e9m, Nazar\u00e9,\u00a0<em>Ain Karem<\/em>, e outros. Todavia, entre os anos 117 e 135, o imperador romano Adriano, com o intuito de paganizar a Palestina, deitou por terra todos os lugares de culto crist\u00e3o que l\u00e1 havia, entre os quais se contava a \u00abcasa-igreja\u00bb de\u00a0<em>Ain Karem<\/em>\u00a0[= nascente do jardim], lugar do nascimento de Jo\u00e3o Batista, a uns 8 Km a SO de Jerusal\u00e9m, extinguindo assim o nascente culto crist\u00e3o a Jo\u00e3o Batista, e implantando no seu lugar o culto pag\u00e3o de Ad\u00f3nis. O culto de Ad\u00f3nis \u00e9 o culto da natureza. Filho do incesto de Ciniras com Esmirna ou Mirra, a beleza de Ad\u00f3nis seduziu a deusa Afrodite ou V\u00e9nus, deusa do amor, da beleza, da vegeta\u00e7\u00e3o e da fertilidade. Ci\u00fames de outras deusas, entre as quais Pers\u00e9fone ou Proserpina, deusa da morte, fizeram que Ad\u00f3nis fosse morto por um javali, indo assim parar aos bra\u00e7os de Pers\u00e9fone. O facto deu origem a intrigas entre as duas deusas (Afrodite e Pers\u00e9fone), s\u00f3 sanadas pelo decreto de J\u00fapiter, que decidiu que Ad\u00f3nis ficasse com Pers\u00e9fone um ter\u00e7o do ano, com Afrodite outro ter\u00e7o, e que ficasse livre no \u00faltimo ter\u00e7o do ano. Mas Ad\u00f3nis ofereceu este \u00faltimo ter\u00e7o tamb\u00e9m a Afrodite. O tempo que passa com Pers\u00e9fone \u00e9 o inverno, o tempo triste em que a natureza definha e parece que morre. O tempo que passa com Afrodite \u00e9 o tempo da primavera e do ver\u00e3o, o tempo da explos\u00e3o da vida e da alegria. Pers\u00e9fone e Afrodite s\u00e3o natureza, e n\u00e3o s\u00e3o mais do que natureza. As festas em honra de Ad\u00f3nis t\u00eam assim um tempo de choro e de l\u00e1grimas, que equivale \u00e0 morte de Ad\u00f3nis e ao tempo invernal que passa com Pers\u00e9fone, e um tempo mais intenso de folia, que equivale como que \u00e0 \u00abressuscita\u00e7\u00e3o\u00bb de Ad\u00f3nis e ao tempo da primavera [= primeiro ver\u00e3o] e ver\u00e3o que passa com Afrodite. Como se v\u00ea, Ad\u00f3nis tamb\u00e9m \u00e9 natureza, e n\u00e3o \u00e9 mais do que natureza, e aquilo que se festeja nas festas populares no solst\u00edcio de ver\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais do que a exuber\u00e2ncia da natureza.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">5. \u00c9 esta paganiza\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Batista por Ad\u00f3nis que permanece ainda hoje nas nossas festas populares do solst\u00edcio de ver\u00e3o. As festas populares desta \u00e9poca solsticial celebram, portanto, a explos\u00e3o da natureza.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">6. Voltemos aos astros. A l\u00edngua latina fornece-nos duas palavras para dizer \u00abastro\u00bb:\u00a0<em>aster<\/em>, plural\u00a0<em>astra<\/em>, e\u00a0<em>sidus<\/em>, plural\u00a0<em>sidera<\/em>. Na sua brilhante\u00a0<em>L\u2019\u00c9criture du d\u00e9sastre<\/em>\u00a0(Gallimard, 1980), Maurice Blanchot (1907-2003) mostrou magistralmente que se as pessoas vivem ligadas aos\u00a0<em>astros<\/em>\u00a0e se o seu comportamento depende deles sem qualquer possibilidade de liberdade, ent\u00e3o a vida \u00e9 com certeza um \u00ab<em>des-astre<\/em>\u00bb! E \u00e9 esta a compreens\u00e3o que expressamos do \u00abdesastre\u00bb, quando lemos num acontecimento dram\u00e1tico da nossa vida ou da vida dos outros, n\u00e3o o resultado da nossa vontade, mas a influ\u00eancia perniciosa de qualquer astro, o velho destino. Do mesmo modo, dizemos hoje vulgarmente que algu\u00e9m est\u00e1\u00a0<em>siderado<\/em>, quando est\u00e1 de tal modo fascinado por um objeto, por um acontecimento, por uma pessoa ou por uma ideia, que j\u00e1 n\u00e3o consegue dar um passo por conta pr\u00f3pria.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">7. Viver ligado aos astros e ao que eles dizem pode ser, portanto, um\u00a0<em>desastre<\/em>: se n\u00e3o nos conseguimos libertar deles, ficamos como que\u00a0<em>siderados<\/em>, prisioneiros nas m\u00e3os de um destino qualquer. Mas se nos separarmos deles, ent\u00e3o ficamos\u00a0<em>de-siderados<\/em>, do latim\u00a0<em>desiderare<\/em>, que deu o nosso\u00a0<em>desejar<\/em>. Ao sabor do nosso\u00a0<em>desejo<\/em>. \u00c9, portanto, a liberta\u00e7\u00e3o dos astros, a sa\u00edda da\u00a0<em>sidera\u00e7\u00e3o<\/em>, que d\u00e1 acesso ao\u00a0<em>desejo<\/em>, que nasce da separa\u00e7\u00e3o do astral e do regresso \u00e0 vida e ao movimento, \u00e0 liberdade e \u00e0 hist\u00f3ria, a um tempo que seja nosso.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">8. Mas ser\u00e1 ainda necess\u00e1rio quebrar este arco\u00a0<em>desiderativo<\/em>\u00a0a que andamos presos e que apenas molda em n\u00f3s um \u00abeu\u00bb identit\u00e1rio e patronal sempre em expans\u00e3o, \u00e0 procura daquilo que pode satisfazer o nosso desejo, e que, o mais das vezes, resulta em rejeitar ou absorver o outro, num processo cego de autorrealiza\u00e7\u00e3o ou autossatisfa\u00e7\u00e3o. \u00c9 necess\u00e1rio abrir-se ao\u00a0<em>extra<\/em>, ao sentido objetivo, ao\u00a0<em>\u00e9schaton<\/em>, ao dom que vem de fora, e que ningu\u00e9m pode produzir por si mesmo. Temos todos de aprender a receb\u00ea-lo, abrindo as m\u00e3os e o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">9. Mas esta tonalidade j\u00e1 nos faz sair do \u00e2mbito da natureza e entrar no \u00e2mbito da Gra\u00e7a, sair da esfera de Ad\u00f3nis e entrar na esfera de Jo\u00e3o Batista. Na verdade, o nome Jo\u00e3o dado ao filho de Isabel e Zacarias, significa \u00abYHWH faz Gra\u00e7a\u00bb. E porque Jo\u00e3o Batista est\u00e1 no limiar dos dois Testamentos, o seu nome, vindo de Deus e n\u00e3o da sua fam\u00edlia de sangue, resume todo o Antigo Testamento, e serve de sum\u00e1rio a todo o Novo Testamento. O nome Jo\u00e3o exprime ent\u00e3o o conte\u00fado da inteira Escritura dos dois Testamentos, que \u00e9 \u00abDeus faz Gra\u00e7a\u00bb. Jo\u00e3o \u00e9 Gra\u00e7a. N\u00e3o \u00e9 natureza.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. 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