{"id":1900056291,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/8772-domingo-xiii-do-tempo-comum-caminho-crucial"},"modified":"2025-11-07T16:33:29","modified_gmt":"2025-11-07T16:33:29","slug":"domingo-xiii-do-tempo-comum-caminho-crucial-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/domingo-xiii-do-tempo-comum-caminho-crucial-2\/","title":{"rendered":"Domingo XIII do Tempo Comum: \u00abCaminho Crucial\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031.jpg\" \/><\/p>\n<p><p>1. Neste Domingo XIII do Tempo Comum temos a gra\u00e7a de ouvir o Evangelho de Lucas 9,51-62, que \u00e9 uma p\u00e1gina sublime e sobrecarregada de cen\u00e1rios de seguimento, sucessivos e desconcertantes, que interpelam todos aqueles, de ontem e de hoje, que s\u00e3o chamados a seguir o caminho de Jesus.<\/p>\n<p>2. O primeiro cen\u00e1rio \u00e9 a anota\u00e7\u00e3o radical de que Jesus \u00abtornou o seu rosto duro como pedra na dire\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m\u00bb (Lucas 9,51). A express\u00e3o \u00abtornar o rosto duro como pedra\u00bb prov\u00e9m do terceiro canto do Servo de YHWH, de Isa\u00edas 50,7, e serve para assinalar uma atitude firme e decidida da qual n\u00e3o se pode voltar atr\u00e1s. Ainda que, no contexto do Evangelho de Lucas, esta anota\u00e7\u00e3o marque a viragem geogr\u00e1fica de Jesus da Galileia para a Judeia e para Jerusal\u00e9m, a anota\u00e7\u00e3o \u00e9 sobretudo de ordem teol\u00f3gica, salientando a total confian\u00e7a de Jesus no Pai e a total orienta\u00e7\u00e3o da sua vida para o Pai, tal como o Servo confia plenamente no seu Senhor e para Ele orienta toda a sua vida. Mas o facto de Jesus \u00abtornar o seu rosto duro como pedra na dire\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m\u00bb deve ensinar-nos a ver que Jesus caminha sem hesita\u00e7\u00e3o para a Cruz, o que faz do seu caminho e do nosso caminho um caminho Crucial.<\/p>\n<p>3. O segundo cen\u00e1rio \u00e9 o envio (<em>apost\u00e9ll\u00f4<\/em>) por parte de Jesus de mensageiros (<em>\u00e1ngelloi<\/em>) \u00e0 sua frente com a miss\u00e3o de preparar (<em>etoim\u00e1z\u00f4<\/em>) a vinda do pr\u00f3prio Jesus (Lucas 9,52). Extraordin\u00e1ria e preciosa indica\u00e7\u00e3o. A miss\u00e3o excede o mensageiro, que \u00e9 sempre e s\u00f3 um preparador de caminhos para a vinda daquele que h\u00e1 de vir, Jesus Cristo, que \u00e9 assim o \u00fanico imprescind\u00edvel! Fica claro desde cedo, desde j\u00e1, que a nossa miss\u00e3o tem a dimens\u00e3o do precursor humilde, pobre e manso, que apenas abre portas e cora\u00e7\u00f5es (Malaquias 3,24), e p\u00f5e a mesa, para que possa entrar o Rei da Gl\u00f3ria (Salmo 24,7 e 9). Portanto, a postura do mensageiro ou mission\u00e1rio \u00e9 a de um pedinte que vai \u00e0 frente e bate \u00e0 porta, \u00e0s portas (tamb\u00e9m Lucas 10,1). Sim, \u00e9 um pedinte, \u00absem bolsa, nem alforge, nem sand\u00e1lias\u00bb (Lucas 10,4), que \u00abcome e bebe do que lhe servirem\u00bb (Lucas 10,7). Tem de aprender a pedir e a receber; n\u00e3o a insultar, a suspeitar, a amea\u00e7ar e a possuir.<\/p>\n<p>4. A\u00ed est\u00e1, portanto, pedagogicamente em contraponto, o terceiro cen\u00e1rio. Trata-se da ilus\u00e3o de poder de Tiago e Jo\u00e3o, os filhos de Zebedeu, que prop\u00f5em a Jesus dizimar uma povoa\u00e7\u00e3o samaritana s\u00f3 porque esta recusa acolher Jesus. V\u00ea-se que ainda n\u00e3o aprenderam a pedir e a receber, mas sabem tudo sobre a suspeita, a amea\u00e7a e o poder. Os dois irm\u00e3os disc\u00edpulos, que n\u00e3o entenderam ainda o caminho manso e humilde de Jesus, que tem os mesmos tons do Servo de YHWH, s\u00e3o duramente repreendidos (Lucas 9,55) com o mesmo verbo (<em>epitim\u00e1\u00f4<\/em>) com que Jesus estigmatiza os esp\u00edritos impuros (cf. Lucas 4,35).<\/p>\n<p>5. Mas um quarto cen\u00e1rio salta \u00e0 vista de quem segue atentamente a p\u00e1gina evang\u00e9lica. O in\u00edcio desta viagem de Jesus para a Judeia e Jerusal\u00e9m fica marcado pelo seu n\u00e3o acolhimento e rejei\u00e7\u00e3o numa aldeia da Samaria (Lucas 9,52). Mas a mesma rejei\u00e7\u00e3o tinha acontecido no in\u00edcio da sua miss\u00e3o em Nazar\u00e9 (Lucas 4,29), e aponta j\u00e1 para a sua rejei\u00e7\u00e3o em Jerusal\u00e9m e para a futura rejei\u00e7\u00e3o dos anunciadores do Evangelho. Portanto, e sem medos e sem equ\u00edvocos, a rejei\u00e7\u00e3o acompanha o Evangelho em pessoa, que \u00e9 Jesus Cristo. Os seus disc\u00edpulos de ontem e de hoje devem saber estas coisas, para n\u00e3o procurarem facilidades no seguimento fiel do caminho de Jesus. A\u00ed est\u00e1 sempre a balizar o caminho a palavra de Jesus: \u00abSe me perseguiram a mim, perseguir-vos-\u00e3o tamb\u00e9m a v\u00f3s\u00bb (Jo\u00e3o 15,20).<\/p>\n<p>6. O quinto cen\u00e1rio fixa a nossa aten\u00e7\u00e3o em algu\u00e9m que se prop\u00f5e seguir Jesus, com estas palavras: \u00abSeguir-Te-ei para onde quer que v\u00e1s!\u00bb (Lucas 9,57), logo seguidas da declara\u00e7\u00e3o de Jesus: \u00abAs raposas t\u00eam as suas tocas e as aves do c\u00e9u os seus ninhos, mas o Filho do Homem n\u00e3o tem onde\u00a0<em>reclinar a cabe\u00e7a<\/em>!\u00bb (Lucas 9,58). Note-se bem que o texto diz o essencial e omite o circunstancial, deixando-nos sem saber quem era o homem, de onde veio, o que \u00e9 que o levou a propor-se seguir Jesus, e como ter\u00e1 reagido \u00e0 declara\u00e7\u00e3o de Jesus acerca da sua pobreza radical, que deveria adotar tamb\u00e9m quem o quisesse seguir. T\u00ea-lo-\u00e1 seguido no caminho? Foi-se outra vez embora? Com este procedimento escorreito, a inten\u00e7\u00e3o do narrador \u00e9 certamente apresentar a for\u00e7a do seguimento de Jesus enquanto tal, n\u00e3o o fazendo depender desta ou daquela circunst\u00e2ncia, e fazendo dele um seguimento incondicional. Seguir Jesus \u00e9 um absoluto, sem condi\u00e7\u00f5es, atitude posta em destaque pelo facto de Jesus n\u00e3o ter eira nem beira, \u00abn\u00e3o tem onde\u00a0<em>reclinar a cabe\u00e7a<\/em>\u00bb, o que torna incontorn\u00e1vel a transpar\u00eancia da sua confian\u00e7a no Pai. Sua e daqueles que o queiram seguir no caminho.<\/p>\n<p>7. Permiti que abra aqui um sexto cen\u00e1rio, retomando o dito de Jesus: as raposas t\u00eam as suas tocas, as aves do c\u00e9u os seus ninhos; em contraponto, Jesus, o Filho do Homem, n\u00e3o tem onde\u00a0<em>reclinar a cabe\u00e7a<\/em>(Lucas 9,58). Aqui est\u00e1 a especificidade do homem em rela\u00e7\u00e3o ao animal. A liberdade do animal \u00e9 uma liberdade sem responsabilidade, uma liberdade solit\u00e1ria. N\u00e3o \u00e9 assim com o homem: \u00abN\u00e3o \u00e9 bom que o homem esteja s\u00f3\u00bb, \u00e9 uma das primeiras li\u00e7\u00f5es do Livro do G\u00e9nesis (G\u00e9nesis 2,18). A liberdade do homem \u00e9 uma responsabilidade que se assume face \u00e0 Cria\u00e7\u00e3o, constr\u00f3i-se sempre com algu\u00e9m, sempre diante de algu\u00e9m. Ao homem compete assumir atitudes respons\u00e1veis, o que o impede de encontrar t\u00e3o cedo um lugar onde\u00a0<em>reclinar a cabe\u00e7a<\/em>. Fixemos outra vez e sempre os nossos olhos em Jesus, e compreendamos que apenas a morte interrompe este caminho de crucial responsabilidade. Atente-se que \u00e9 apenas sobre a Cruz que Jesus\u00a0<em>reclinar\u00e1 a cabe\u00e7a<\/em>\u00a0(Jo\u00e3o 19,30).<\/p>\n<p>8. O s\u00e9timo cen\u00e1rio \u00e9 o apelo limpo, igualmente despido de acess\u00f3rios, que Jesus faz a algu\u00e9m: \u00abSegue-me!\u00bb, a que o visado responde imediatamente: \u00abPermite-me ir primeiro sepultar o meu pai!\u00bb (Lucas 9,59). E a resposta, quase escandalosa de Jesus: \u00abDeixa que os mortos sepultem os seus mortos. Tu, vai anunciar o Reino de Deus!\u00bb (Lucas 9,60). Estas imensas palavras de Jesus ganham ainda maior acutil\u00e2ncia se soubermos que a mentalidade e a sabedoria judaicas davam enorme import\u00e2ncia ao dar sepultura a um familiar. Era uma a\u00e7\u00e3o de tal monta e de tal conta que dispensava da ora\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>Sh<sup>e<\/sup>ma?<\/em>, da ora\u00e7\u00e3o das dezoito b\u00ean\u00e7\u00e3os e de todos os preceitos da Lei (<em>Mishnah Berakhot<\/em>\u00a03,1a). Mas o caminho novo de Jesus inverte o normal caminhar da experi\u00eancia humana da vida para a morte. O caminho de Jesus, e segundo Jesus, \u00e9 da morte para a vida: \u00abn\u00f3s sabemos que passamos da morte para a vida porque amamos os irm\u00e3os; quem n\u00e3o ama, permanece na morte\u00bb (1 Jo\u00e3o 3,14). Quem quiser seguir Jesus tem, portanto, de apostar tudo no novo sentido que Jesus imprime \u00e0 exist\u00eancia: partir da morte para a vida, com a \u00fanica chave poss\u00edvel que abre este caminho Crucial: o amor, o amor, o amor! Mais amor, mais amor, mais amor!<\/p>\n<p>9. O oitavo e \u00faltimo cen\u00e1rio \u00e9 igualmente forte, igualmente desconcertante. P\u00f5e diante de n\u00f3s algu\u00e9m, tamb\u00e9m sem qualquer registo de circunst\u00e2ncias, que est\u00e1 disposto a seguir Jesus, desde que Jesus lhe fa\u00e7a uma pequena concess\u00e3o: permitir que se despe\u00e7a dos seus familiares. Digamos que pede apenas para dar um pequeno passo atr\u00e1s, e logo dar\u00e1 dois em frente. J\u00e1 sabemos que Elias fez esta concess\u00e3o a Eliseu (1 Reis 19,20), como nos \u00e9 dado ler na li\u00e7\u00e3o do Antigo Testamento de hoje. Mas Jesus \u00e9 mais do que Elias, e n\u00e3o faz qualquer concess\u00e3o: \u00abAquele que deita as m\u00e3os ao arado, e olha para tr\u00e1s, n\u00e3o serve para o Reino de Deus!\u00bb (Lucas 9,62). O poeta ingl\u00eas Thomas S. Eliot (1888-1965), fala, neste contexto, de \u00abuma insuport\u00e1vel camisa de fogo que Deus teceu com as suas pr\u00f3prias m\u00e3os\u00bb, para depois nos envolver nela, como se fosse o manto de Elias. \u00abAs for\u00e7as humanas, continua o poeta, n\u00e3o a podem levar; cedo nos apercebemos que apenas podemos viver e respirar se nos deixarmos queimar, queimar de amor\u00bb. Ainda e sempre e s\u00f3 o amor!<\/p>\n<p>10. J\u00e1 se v\u00ea que \u00e9 a cena de Elias e de Eliseu, narrada em 1 Reis 19,19-21, que faz de fundo ao Evangelho de hoje. Simbolicamente, Elias atira o seu manto sobre Eliseu, fazendo-o assim seu seguidor. Eliseu andava a lavrar um grande campo, agarrado ao arado, puxado por doze juntas de bois. Sentindo o chamamento de Elias, Eliseu apenas pede o tempo necess\u00e1rio para ir abra\u00e7ar o seu pai e a sua m\u00e3e. Elias concede. Eliseu despede-se de forma radical, sagrada e festiva. Matou uma junta de bois, e assou a sua carne sobre a madeira do arado. Queimando o arado, \u00e9 todo um mundo que deixa para tr\u00e1s, sem retorno. Enceta depois um caminho novo atr\u00e1s de Elias.<\/p>\n<p>11. Na li\u00e7\u00e3o de hoje da Carta aos G\u00e1latas (5,1.13-18), S\u00e3o Paulo lembra aos G\u00e1latas e a n\u00f3s que a nossa liberdade (<em>eleuther\u00eda<\/em>) n\u00e3o foi nem \u00e9 obra nossa. Devemo-la a Cristo (v. 1). E o Ap\u00f3stolo adverte-nos ainda de que esta liberdade dada e recebida n\u00e3o pode ser agora pretexto para voltar \u00e0 escravid\u00e3o. Bem ao contr\u00e1rio, deve ser pretexto para a caridade e o servi\u00e7o humilde aos outros (v. 13). Vale a pena dizer aqui, a prop\u00f3sito, que este \u00e9 um dos dois lugares em que Paulo cita o segundo mandamento, o do amor ao pr\u00f3ximo como a n\u00f3s mesmos (v. 14; o outro \u00e9 Romanos 13,9), e que Paulo nunca cita o primeiro mandamento, o do amor a Deus \u00abcom todo o cora\u00e7\u00e3o, com toda a alma e com todas as for\u00e7as\u00bb (Deuteron\u00f3mio 6,4-5). Tal maneira de proceder n\u00e3o \u00e9 para estranhar. Na verdade, quer a B\u00edblia Hebraica quer o cora\u00e7\u00e3o dos Evangelhos falam menos do nosso amor para com Deus (ou Cristo), e mais, muito mais, do nosso amor para com o pr\u00f3ximo e para com o estrangeiro e o inimigo! E n\u00e3o se trata de um amor que satisfaz o nosso desejo, mas da imita\u00e7\u00e3o do amor de Deus (amar como Ele ama) e de obedecer a um mandamento (amar como Ele manda amar). Ent\u00e3o, a nossa resposta ao amor de Deus (ou de Cristo) n\u00e3o consiste na\u00a0<em>redamatio<\/em>ou retribui\u00e7\u00e3o a Deus (ou a Cristo) do amor com que Ele nos ama, mas volta-se para a frente e traduz-se no amor ao outro, pr\u00f3ximo, estrangeiro ou inimigo! Quer na Revela\u00e7\u00e3o patente no AT quer em Jesus, o amor ao pr\u00f3ximo aparece como o lugar, o \u00fanico lugar, da epifania do nosso amor a Deus (ou a Cristo). Ent\u00e3o, amar a Deus e ao pr\u00f3ximo como manda Jesus, \u00e9 amar como Deus ama, como Deus nos ama.<\/p>\n<p>12. As pedras e as coisas, as casas e as terras, nunca devem ocupar, muito menos encher, o nosso cora\u00e7\u00e3o. Os sacerdotes, descendentes de Aar\u00e3o n\u00e3o tinham terra distribu\u00edda em Israel. A sua heran\u00e7a era o Senhor (cf. N\u00fameros 18,20). Cantamos no refr\u00e3o do Salmo de hoje, o Salmo 16, \u00abSenhor, Tu \u00e9s a minha heran\u00e7a\u00bb (v. 5). No seu Serm\u00e3o 344, Santo Agostinho comenta assim: \u00abO salmista n\u00e3o diz: \u201c\u00d3 Deus, d\u00e1-me uma heran\u00e7a\u201d. Diz antes: \u201cTudo o que me podes dar fora de Ti, \u00e9 vil. S\u00ea Tu a minha heran\u00e7a. \u00c9 a Ti que eu amo\u2026 Esperar Deus de Deus, estar cheio de Deus. Basta-te Ele; fora dele, nada te pode bastar\u00bb. Esta melodia deve encher o nosso cora\u00e7\u00e3o e este Dia de Domingo, Dia do Senhor, de doa\u00e7\u00e3o radical, total, ao Senhor. Entenda-se: \u00e9 um caminho novo que se abre \u00e0 nossa frente. Sem retrocessos, sem desvios, sem distra\u00e7\u00f5es, sem nostalgias, sem sa\u00eddas de emerg\u00eancia ou de seguran\u00e7a!<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Couto<\/p>\n<div class=\"wpcnt\">\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. 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