{"id":1959798986,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/11828-domingo-iv-do-advento-missao-esponsal-e-paternal-de-jose"},"modified":"2025-11-07T16:33:53","modified_gmt":"2025-11-07T16:33:53","slug":"domingo-iv-do-advento-missao-esponsal-e-paternal-de-jose","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/domingo-iv-do-advento-missao-esponsal-e-paternal-de-jose\/","title":{"rendered":"Domingo IV do Advento: \u00abMiss\u00e3o Esponsal e Paternal de Jos\u00e9\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031.jpg\" \/><\/p>\n<p><p data-adtags-visited=\"true\">Is 7,10-14; Sl 24; Rm 1,1-7; Mt 1,18-24<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">1. Sempre me encantou esta human\u00edssima e sensibil\u00edssima figura de Jos\u00e9, que o Evangelho de Mateus qualifica como \u00abjusto\u00bb (Mateus, 1,19). O termo \u00abjusti\u00e7a\u00bb enche este Evangelho, fazendo-se nele ouvir por sete vezes (3,15; 5,6.10.20; 6,1.33; 21,32), e traduz o plano divino de salva\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a divina surpresa, e a adequa\u00e7\u00e3o da nossa vontade a esse plano, melhor dito, a essa surpresa. Neste Evangelho, os disc\u00edpulos de Jesus nunca s\u00e3o ditos \u00abjustos\u00bb, mas s\u00e3o chamados \u00e0 \u00abjusti\u00e7a\u00bb, isto \u00e9, a andar no \u00abcaminho da justi\u00e7a\u00bb, auto destituindo-se, isto \u00e9, libertando-se dos seus projetos autorreferenciais, e sabendo dizer sempre SIM a Deus de forma concreta. O termo \u00abjustos\u00bb, no plural, ouve-se v\u00e1rias vezes, sobretudo em textos de colorido parab\u00f3lico, para qualificar os fazedores do bem (Mateus 13,43.49; 25,37.46), sempre em contraponto com os fazedores da iniquidade. \u00abJusto\u00bb, no singular, neste Evangelho de Mateus, s\u00f3 se aplica a Jos\u00e9 (Mateus 1,19) e a Jesus (Mateus 27,19, na boca da mulher de Pilatos: \u00abn\u00e3o te metas com esse justo\u00bb), o que n\u00e3o deixa de ser uma nota significativa.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">2. Fica ent\u00e3o diante de n\u00f3s o sensibil\u00edssimo \u00abjusto\u00bb Jos\u00e9 sintonizado em alta fidelidade, em\u00a0<em>Hi-Fi<\/em>, com Deus (Mateus 1,18-24). A cena abre com a not\u00edcia acerca da\u00a0<em>origem<\/em>\u00a0(<em>g\u00e9nesis<\/em>) de Jesus Cristo (Mateus 1,18). Origem, e n\u00e3o nascimento. Se fosse\u00a0<em>nascimento<\/em>, o texto grego assinal\u00e1-lo-ia com\u00a0<em>g\u00e9nn\u00easis<\/em>. A cena remete essa\u00a0<em>origem<\/em>\u00a0para Deus, acrescentando logo que a gravidez de Maria n\u00e3o provinha de Jos\u00e9 nem de uma poss\u00edvel infidelidade de Maria, mas do Esp\u00edrito Santo (<em>ek pne\u00famatos hag\u00edou<\/em>) (Mateus 1,19b). \u00c9 assim que, vendo de forma imprevista a sua esposa gr\u00e1vida durante o noivado, a que os hebreus chamam\u00a0<em>?ar\u00fbs\u00een<\/em>, antes da fase propriamente conjugal ou de coabita\u00e7\u00e3o, a que os hebreus chamam\u00a0<em>n\u00eess\u00fb?\u00een<\/em>, e n\u00e3o sabendo disso a raz\u00e3o, mas desconfiando, dado que o seu casamento com Maria era seguramente, n\u00e3o em ordem \u00e0 procria\u00e7\u00e3o, mas de prote\u00e7\u00e3o m\u00fatua e de total dedica\u00e7\u00e3o a Deus, o \u00abjusto\u00bb Jos\u00e9, lendo os acontecimentos, sempre em bicos de p\u00e9s e no limiar do sil\u00eancio, passa discretamente da poss\u00edvel ideia de expor Maria \u00e0 difama\u00e7\u00e3o p\u00fablica (<em>deigmat\u00edz\u00f4<\/em>) para a ideia de ele pr\u00f3prio sair de cena em\u00a0<em>segredo<\/em>\u00a0(<em>l\u00e1thra<\/em>) (Mateus 1,19), entregando assim a cena toda a Deus, imitando desse modo a leitura do seu hom\u00f3nimo Jos\u00e9 (do Egito)! Fant\u00e1stico. At\u00e9 Deus entende e respeita este sil\u00eancio, este\u00a0<em>segredo<\/em>\u00a0de Jos\u00e9, e \u00e9 de mansinho, em\u00a0<em>um sonho<\/em>\u00a0(Mateus 1,20), que p\u00f5e Jos\u00e9 a par dos seus planos, entenda-se, surpresas, que passam pela maternidade divina de Maria e pela miss\u00e3o esponsal e paternal de Jos\u00e9. \u00c9 o que podemos chamar, neste Evangelho de Mateus 1,18-24, de \u00abAnuncia\u00e7\u00e3o do Anjo a Jos\u00e9\u00bb, como se pode ver comparando o relato do encontro de Gabriel com Maria (Lucas 1,26-38) e o relato deste encontro de um anjo com Jos\u00e9 (Mateus 1,18-24).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">3. Este homem manso, sossegado e silencioso (quando surge em cena, somando todos os textos em que aparece, n\u00e3o se lhe ouve uma \u00fanica palavra!) lembra tamb\u00e9m aqui o outro Jos\u00e9, o homem dos sonhos (G\u00e9nesis 37,19), que surge no Livro do G\u00e9nesis, e que com sonhos e serena sabedoria se ocupa (G\u00e9nesis 37; 40; 41). Tamb\u00e9m este Jos\u00e9 sabe ler a sua hist\u00f3ria em dois teclados, distinguindo bem as coisas humanas das divinas (ou entran\u00e7ando bem as coisas humanas e as divinas). Veja-se a forma sublime como se apresenta, desvendando-se, aos seus irm\u00e3os mais do que at\u00f3nitos: \u00abEu sou Jos\u00e9, vosso irm\u00e3o, que v\u00f3s vendestes para o Egito. Mas agora n\u00e3o vos entriste\u00e7ais nem vos aflijais por me terdes vendido para c\u00e1, porque foi para salvar as vossas vidas que Deus me enviou adiante de v\u00f3s. Deus enviou-me adiante de v\u00f3s para assegurar a perman\u00eancia da vossa ra\u00e7a na terra e salvar as vossas vidas para uma grande liberta\u00e7\u00e3o. Assim, n\u00e3o fostes v\u00f3s que me enviastes para c\u00e1, mas Deus\u00bb (G\u00e9nesis 45,4-8). Leitura sublime.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">4. A miss\u00e3o esponsal de Jos\u00e9, declarado \u00abjusto\u00bb (Mateus 1,19), fica logo clarificada pelo anjo que o incumbe de receber Maria como sua esposa (Mateus 1,20). Mas Jos\u00e9, tamb\u00e9m pelo anjo chamado \u00abfilho de David\u00bb (Mateus 1,20), express\u00e3o fora deste passo s\u00f3 usada acerca de Jesus, mostra bem a import\u00e2ncia de Jos\u00e9 para incorporar Jesus na linhagem dav\u00eddica, e explica a raz\u00e3o pela qual Jos\u00e9 \u00e9 incumbido pelo anjo da sua particular miss\u00e3o paternal em rela\u00e7\u00e3o ao filho que a sua esposa Maria vai dar \u00e0 luz. \u00c9 preciso ter em conta que Mateus toma todos os cuidados, j\u00e1 no v. 16, para precisar que Jesus \u00e9 filho de Maria, esposa de Jos\u00e9, mas que n\u00e3o \u00e9 filho de Jos\u00e9, afirmando depois, nos v. 18 e 20, que a conce\u00e7\u00e3o de Maria \u00e9 obra do Esp\u00edrito Santo. Esta afirma\u00e7\u00e3o, retirando Jos\u00e9 da conce\u00e7\u00e3o de Jesus, tornaria in\u00fatil a inteira linha geneal\u00f3gica cuidadosamente tra\u00e7ada por Mateus em 1,1-16 com o intuito de integrar Jesus na descend\u00eancia de David. Em termos da linha do sangue resulta de facto imposs\u00edvel, dado que Jesus \u00e9 filho de Maria, mas n\u00e3o de Jos\u00e9. Ent\u00e3o, o que \u00e9 imposs\u00edvel pela via do sangue, vai tornar-se poss\u00edvel pela via da ado\u00e7\u00e3o. O primeiro ato da miss\u00e3o paternal de Jos\u00e9, a quem o anjo se dirige chamando-o propositadamente \u00abfilho de David\u00bb (v. 20), consistir\u00e1 ent\u00e3o, tamb\u00e9m por indica\u00e7\u00e3o do anjo, na ado\u00e7\u00e3o formal do filho que vai nascer de Maria, dando-lhe o nome de Jesus (v. 21). Modo de fazer tamb\u00e9m de Deus, que diz de Israel: \u00abChamei-te pelo teu nome; tu \u00e9s meu\u00bb (Isa\u00edas 43,1). Ao dar-lhe o nome de Jesus, indicado pelo anjo (v. 21 e 24), Jos\u00e9 assume o estatuto de pai legal de Jesus, que assim se torna seu filho e herdeiro e fica inserido na linha din\u00e1stica de David. O nome \u00abJesus\u00bb surge logo explicado \u00abporque salvar\u00e1 o seu povo dos seus pecados\u00bb (v. 21). E aqui se come\u00e7a a abrir uma grande avenida que atravessa o inteiro Evangelho de Mateus: a avenida do PERD\u00c3O. Esta nota soa vezes sem conta, como obra bela de Deus que n\u00f3s, seus filhos, devemos imitar, perdoando tamb\u00e9m. S\u00e3o tantas as vezes que seria fastidioso cit\u00e1-las todas aqui. Deixo s\u00f3 a p\u00e9rola do dito de Jesus sobre o c\u00e1lice na ceia pascal: \u00abIsto \u00e9 o meu sangue da alian\u00e7a, pelos muitos derramado, para perd\u00e3o dos pecados\u00bb (26,28). O inciso \u00abpara perd\u00e3o dos pecados\u00bb \u00e9 um exclusivo de Mateus!\u00a0<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">5. E \u00e9 assim, descendo ao nosso n\u00edvel e assumindo ou abra\u00e7ando tudo o que \u00e9 nosso, sem deixar nada nem ningu\u00e9m esquecido ou de lado, que Jesus \u00e9 Emanuel, \u00abDeus connosco\u00bb (Mateus 1,23), e \u00abconnosco fica todos os dias at\u00e9 ao fim do mundo\u00bb (Mateus 28,20). Princ\u00edpio e fim do Evangelho de Mateus. Inclus\u00e3o liter\u00e1ria. Emanuel, Deus connosco. Mateus faz aqui uma cita\u00e7\u00e3o de Isa\u00edas 7,14, que, por gra\u00e7a, tamb\u00e9m hoje \u00e9 objeto de leitura para n\u00f3s. Mas Mateus faz uma altera\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e teol\u00f3gica fundamental. Isa\u00edas dizia: \u00abE\u00a0<em>ela<\/em>\u00a0(a jovem m\u00e3e)\u00a0<em>chamar\u00e1<\/em>\u00a0o nome dele Emanuel\u00bb. Mateus altera o sujeito e o verbo e escreve assim: \u00abE\u00a0<em>eles<\/em>\u00a0<em>chamar\u00e3o<\/em>\u00a0o nome dele Emanuel\u00bb (Mateus 1,23). Com esta mudan\u00e7a de sujeito e verbo do singular para o plural, Mateus faz de Jesus, n\u00e3o apenas o sinal de salva\u00e7\u00e3o dado a um povo, mas sinal de salva\u00e7\u00e3o para todos os povos! E a d\u00e1diva do nome por todos, por n\u00f3s tamb\u00e9m, implica-nos a todos com este Jesus, Emanuel, Deus connosco. Sempre.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">6. J\u00e1 se ouve a m\u00fasica de Isa\u00edas 7,10-14; 8,10. O cen\u00e1rio \u00e9 a guerra siro-efraimita, que s\u00e3o dois ex\u00e9rcitos, da S\u00edria e de Israel, que p\u00f5em cerco a Jerusal\u00e9m, capital do Reino de Jud\u00e1, no ano 734 a.C., com o intuito de depor Acaz, rei de Jud\u00e1. J\u00e1 se v\u00ea um Isa\u00edas firme e confiante que, enviado por Deus (Isa\u00edas 7,3), atravessa sem medo o cen\u00e1rio da guerra siro-efraimita, para levar ao amedrontado e tr\u00e9mulo rei Acaz (Isa\u00edas 7,2), que se encontra junto da nascente de\u00a0<em>Gih\u00f4n<\/em>, a inspecionar as \u00e1guas, uma palavra de conforto e de esperan\u00e7a. Para significar melhor tudo isto, Isa\u00edas leva pela m\u00e3o o seu filho, que ostenta um nome de esperan\u00e7a\u00a0<em>Sh<sup>e<\/sup>\u2019ar yash\u00fbb<\/em>\u00a0[= \u00abum resto voltar\u00e1\u00bb] (Isa\u00edas 7,3). Um pai, que ousa atravessar um cen\u00e1rio de guerra levando um filho pela m\u00e3o, \u00e9, na verdade, testemunha de outra seguran\u00e7a! A mensagem que Isa\u00edas comunica a Acaz consta de quatro pontos: a) tem calma; b) n\u00e3o tenhas medo; c) segura-te em Deus; d) pede um sinal (Isa\u00edas 7,11). J\u00e1 se sabe que o descrente Acaz n\u00e3o pedir\u00e1 o sinal, diz ele, para n\u00e3o tentar a Deus (Isa\u00edas 7,12), isto \u00e9, hipocritamente alega uma raz\u00e3o aparentemente religiosa como para-vento para esconder a sua incredulidade. Ora, pedir um \u00absinal\u00bb, nestas circunst\u00e2ncias, era sinal de f\u00e9 e de humildade de quem reconhece a sua pobreza, como se depreende do comportamento de Abra\u00e3o (G\u00e9nesis 15,8), de Gede\u00e3o (Ju\u00edzes 6,36-40) e de Ezequias (2 Reis 20,8-11). Marcada pela incredulidade era antes a recusa de pedir esse \u00absinal\u00bb, como sucede com Acaz, que julga Deus incapaz de se interessar pelos nossos problemas.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">7. Pouco importa. Eis que Deus d\u00e1, de igual maneira, o seu sinal: \u00abA jovem\u00bb (<em>\u2018almah<\/em>\u00a0TM;\u00a0<em>parth\u00e9nos<\/em>\u00a0LXX) concebeu e dar\u00e1 \u00e0 luz um filho a quem por\u00e1 o nome de\u00a0<em>\u2018imman\u00fb \u2019el<\/em>\u00a0[= \u00abConnosco Deus\u00bb]\u00bb (Isa\u00edas 7,14). A jovem, aqui mencionada, \u00e9, em primeira leitura, certamente Abia, filha de Zacarias, esposa de Acaz, m\u00e3e de Ezequias (2 Cr\u00f3nicas 29,1). O filho, cujo nascimento \u00e9 anunciado \u00e9 certamente, em primeira leitura, Ezequias, filho de Acaz e de Abia, que ainda n\u00e3o tinha dado a Acaz um herdeiro. O nascimento de Ezequias parece ter ocorrido em 733, depois da guerra siro-efraimita. Todavia, como ele n\u00e3o \u00e9 nomeado, a promessa n\u00e3o se esgota na pessoa de Ezequias. Abre-se ao herdeiro din\u00e1stico de qualquer tempo, portador das promessas de Deus para o seu povo. Este \u00abfilho\u00bb dado fica assim no campo dos \u00absinais\u00bb, de resto como Isa\u00edas e os seus filhos (Isa\u00edas 8,18), e Mateus procede de forma correta ao ver a promessa realizar-se em Jesus, como, por gra\u00e7a, nos \u00e9 dado ouvir no Evangelho de hoje (Mateus 1,18-24). Em primeira leitura, o \u00absinal\u00bb dado a Acaz \u00e9 que a dinastia dav\u00eddica, que corria perigo em 734, se salvar\u00e1. Vir\u00e1 mesmo um tempo de prosperidade e de paz que marcar\u00e1 a inf\u00e2ncia daquele menino, que se alimentar\u00e1 de leite coalhado e mel (Isa\u00edas 7,15), alimentos que simbolizam abund\u00e2ncia porque s\u00e3o dom de Deus (Deuteron\u00f3mio 6,3; 11,9; 32,13-14; \u00caxodo 3,8 e 17).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">8. Por outro lado, antes que o menino atinja a idade da raz\u00e3o, portanto, dentro em breve, os reinos de Israel e da S\u00edria, agora agressores, ser\u00e3o reduzidos a escombros (Isa\u00edas 7,16; cf. 8,3-4). O que acontece, de facto, sendo a S\u00edria anexada pela Ass\u00edria ainda em 734, o mesmo acontecendo a grande parte do territ\u00f3rio de Israel, em 733. A paz e a felicidade dos dias de David e Salom\u00e3o, ou mesmo do tempo dos Ju\u00edzes, ser\u00e3o recordadas e vividas em Jud\u00e1. \u00c9 o que pretende dizer o or\u00e1culo: \u00abO Senhor far\u00e1 vir sobre ti [\u2026] dias tais como n\u00e3o existiram desde o dia em que Efraim se separou de Jud\u00e1\u00bb (Isa\u00edas 7,17), ou seja, desde 926, data da morte de Salom\u00e3o e da separa\u00e7\u00e3o do Reino de Israel (Norte) da Corte de Jerusal\u00e9m.\u00a0<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">9. Logo a seguir, Isa\u00edas introduz um or\u00e1culo de desgra\u00e7a sobre Jud\u00e1: as \u00e1guas impetuosas da Ass\u00edria vir\u00e3o sobre Jud\u00e1 e submergi-lo-\u00e3o (Isa\u00edas 8,6-8). Mas \u00e9 neste novo contexto que o profeta deixa sair, por duas vezes, o desabafo: \u00ab<em>\u2018imman\u00fb \u2019el<\/em>\u00bb! (8,8 e 10). Acostagem extraordin\u00e1ria da salva\u00e7\u00e3o \u00e0 desgra\u00e7a! Com este suspiro, num novo contexto, a profecia do Emanuel tornou-se tradi\u00e7\u00e3o j\u00e1 para o pr\u00f3prio Isa\u00edas. Esta tradi\u00e7\u00e3o tem a sua hist\u00f3ria. J\u00e1 n\u00e3o temos apenas um sentido hist\u00f3rico \u00fanico e determinado, mas come\u00e7a a hist\u00f3ria da tradi\u00e7\u00e3o do or\u00e1culo do Emanuel que, passando por Is 9,5 e 11,1-9, chegar\u00e1 ao Novo Testamento (Mateus 1,23). Deus connosco sempre.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">10. Temos tamb\u00e9m hoje a gra\u00e7a de receber o in\u00edcio da Carta de S. Paulo aos Romanos (1,1-7), em que podemos identificar a apresenta\u00e7\u00e3o ou\u00a0<em>titulatio<\/em>\u00a0[\u00abPaulo, servo de Cristo Jesus, chamado ap\u00f3stolo, separado para o Evangelho de Deus\u00bb] (v.1), seguida de um longo par\u00eantesis cristol\u00f3gico (v. 2-6), o endere\u00e7o ou\u00a0<em>adscriptio<\/em>\u00a0[\u00aba todos os que est\u00e3o em Roma, amados de Deus, aos chamados santos\u00bb] (v. 7a), e a sauda\u00e7\u00e3o ou\u00a0<em>salutatio<\/em>\u00a0[\u00abGra\u00e7a a v\u00f3s e Paz da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo\u00bb] (v. 7b). Notemos que a locu\u00e7\u00e3o \u00abGra\u00e7a e Paz\u00bb abre todas as Cartas de S. Paulo, e \u00abA Gra\u00e7a\u00bb est\u00e1 em todas as sauda\u00e7\u00f5es finais, fechando todas as Cartas. Mas \u00e9 ainda grandemente sintom\u00e1tico que, depois deste in\u00edcio, a Carta aos Romanos prossiga assim: \u00abPrimeiro, dou Gra\u00e7as ao meu Deus, por interm\u00e9dio de Jesus Cristo, por todos v\u00f3s\u2026\u00bb (Romanos 1,8). Aqui est\u00e1 o mesmo olhar de bondade e de beleza, \u00edcone de Paulo em ora\u00e7\u00e3o sem fim. Na verdade, depois daquele \u00abprimeiro\u00bb, ficamos \u00e0 espera de encontrar um \u00absegundo\u00bb ou um \u00abdepois\u00bb, que, todavia, nunca mais aparecer\u00e1. A Gra\u00e7a e a A\u00e7\u00e3o da Gra\u00e7a est\u00e3o antes de tudo e preenchem tudo. Nesse sentido, \u00e9 bom e justo que tomemos consci\u00eancia de que n\u00e3o \u00e9 mais suficiente um cristianismo convencional, marcado pela a\u00e7\u00e3o social. \u00c9 hoje igualmente insuficiente a espiritualidade da milit\u00e2ncia, que persegue a causa nobre de uma Igreja viva e participada e da constru\u00e7\u00e3o de um mundo melhor. Um servi\u00e7o pastoral que se reduza a \u00abcoisas que fazer\u00bb est\u00e1 gasto. Passou o tempo dos crist\u00e3os meramente \u00abpraticantes\u00bb. Hoje s\u00e3o necess\u00e1rios crist\u00e3os enamorados, \u00e0 maneira de Paulo.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">11. Vem, Senhor Jesus. S\u00f3 um amor como o teu transformar\u00e1 este mundo e salvar\u00e1 o nosso engessado cora\u00e7\u00e3o! O \u00abjusto\u00bb Jos\u00e9 pode ensinar-nos como te ensinou a andar, menino, a dar os primeiros passos, e tamb\u00e9m como tu, menino, lhe ensinaste a ele a andar no \u00abcaminho da justi\u00e7a\u00bb.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">12. Por isso, cantemos e aclamemos, com o Salmo 24, o Senhor do Universo e nosso Salvador que vem na nossa fr\u00e1gil humanidade, que Ele glorifica. No primeiro andamento deste Salmo (v. 1-6), justamente a parte Hoje cantada, somos convidados a acolher este Senhor com as m\u00e3os limpas e o cora\u00e7\u00e3o purificado. Gerhard Ebeling (1912-2001) comenta assim este Salmo arcaico: \u00abS\u00e3o tr\u00eas os pressupostos fundamentais do texto. O primeiro \u00e9 que Deus criou o mundo, e \u00e9 o seu Senhor. O segundo \u00e9 que devemos comparecer junto de Deus e ser interrogados sobre o que fizemos. O terceiro \u00e9 que Deus vem para o que \u00e9 seu, e deseja ter livre acesso. Estas s\u00e3o tr\u00eas formas elementares da experi\u00eancia de Deus e da rela\u00e7\u00e3o com Deus: n\u00f3s vivemos por obra de Deus, diante de Deus, e podemos viver com Deus\u00bb. E o poeta franc\u00eas Paul Claudel (1868-1955), recolhendo o \u00faltimo tema, o da vida com Deus, exclamava: \u00abAqui, Deus! Aqui, o nosso Deus, o Senhor dos Ex\u00e9rcitos, que est\u00e1 empenhado, atrav\u00e9s dos s\u00e9culos, em transferir-nos para a sua eternidade\u00bb.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u2026..<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Se o Senhor n\u00e3o construir a casa,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Em v\u00e3o trabalham os que a constroem.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Se o Senhor n\u00e3o guardar a cidade,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Em v\u00e3o vigiam as sentinelas.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u2026..<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">N\u00e3o se pode esconder uma cidade situada no cimo de um monte,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Ou sobre a linha do horizonte,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Porque alumia, alumia, alumia,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Irradia, irradia, irradia,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">De noite e de dia.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Cidade de alto-a-baixo erguida,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Como um manto de orvalho ca\u00edda,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Como uma ermida,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Uma jazida de luz<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">E de Jesus.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u2026..<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Tudo ao contr\u00e1rio do que vem nos manuais ou nos jornais,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Lan\u00e7ai os fundamentos no c\u00e9u,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Constru\u00ed desde o cume,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Sobre o gume da Palavra<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Que de Deus vem<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Nascer em Bel\u00e9m<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">E aqui tamb\u00e9m.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u2026..<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Vem, Senhor Jesus!<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Vem, vem, que Te esperamos!<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u2026..<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Is 7,10-14; Sl 24; Rm 1,1-7; Mt 1,18-24 1. 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