{"id":201877554,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/11988-domingo-i-da-quaresma-no-deserto-a-ceu-aberto"},"modified":"2025-11-07T16:33:54","modified_gmt":"2025-11-07T16:33:54","slug":"domingo-i-da-quaresma-no-deserto-a-ceu-aberto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/domingo-i-da-quaresma-no-deserto-a-ceu-aberto\/","title":{"rendered":"Domingo I da Quaresma: \u00abNo deserto a c\u00e9u aberto\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031.jpg\" \/><\/p>\n<p><p data-adtags-visited=\"true\">Gn 2,7-9; 3,1-7; Sl 51; Rm 5,12.17-19; Mt 4,1-11<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">1. S\u00f3 secundariamente a Quaresma \u00abprepara\u00bb para a Ressur\u00adrei\u00e7\u00e3o do Senhor. Na verdade, todos os \u00abTempos\u00bb e todos os Domingos do Ano Lit\u00fargico, portanto, tamb\u00e9m a Quaresma e os seus Domingos, est\u00e3o\u00a0<em>depois<\/em>\u00a0da Ressurrei\u00e7\u00e3o e\u00a0<em>por causa<\/em>\u00a0da Ressurrei\u00e7\u00e3o. E \u00e9 s\u00f3 sob a intensa luz do Senhor Ressusci\u00adtado com o Esp\u00edrito Santo (Batismo consumado: Lucas 12,49?50) que a Igreja, e cada um de n\u00f3s, pode celebrar autenti\u00adcamente a sua f\u00e9, proceder \u00e0 correta \u00ableitura\u00bb das Escri\u00adturas e encetar a \u00abcaminhada\u00bb quaresmal. Neste sentido, todos os batizados s\u00e3o chamados a refazer com Cristo bati\u00adzado o seu programa batismal, cujo conte\u00fado e itiner\u00e1rio conhecemos: desde o Batismo no Jord\u00e3o, passando pela Trans\u00adfigura\u00e7\u00e3o no Tabor, at\u00e9 \u00e0 Cruz e\u00e0 Gl\u00f3ria da Ressurrei\u00e7\u00e3o (Batismo consumado!), escutando e anunciando sempre e cada vez mais intensamente o Evangelho do Reino e fazendo sempre e cada vez mais intensamente as \u00abobras\u00bb do Reino (Atos dos Ap\u00f3stolos 10,37-43: texto emblem\u00e1tico). Por sua vez, os catec\u00famenos, acompanhados sempre pela Assembleia dos batizados, \u00abpre\u00adparam?se\u00bb intensamente para a Noite Pascal Batismal, in\u00edcio e meta da vida crist\u00e3. Assim, a Igreja Santa, toda Batizada e Crismada, sabe bem que \u00e9 dali, daquela Cruz Santa e Gloriosa, e da enxurrada de Vida Nova, Ressuscitada, e da d\u00e1diva do Esp\u00edrito que dela jorra, que nos \u00e9 oferecida a \u00abconsuma\u00e7\u00e3o\u00bb (<em>tele\u00ed\u00f4sis<\/em>) (cf. Jo\u00e3o 19,28-30), o cumprimento, a chegada \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o da nossa vida, deste segmento de tempo que, por gra\u00e7a, nos \u00e9 dado viver.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">2. O Evangelho deste Domingo I da Quaresma oferece-nos o epis\u00f3dio das Tenta\u00e7\u00f5es de Jesus, conforme o relato de Mateus 4,1-11. Note-se bem que o epis\u00f3dio imediatamente anterior (Mateus 3,13-17) nos apresenta Jesus que vem da Galileia ao Jord\u00e3o, \u00e0 regi\u00e3o de\u00a0<em>B\u00eathabarah<\/em>, [= Casa da Passagem] (Jo\u00e3o 1,28), um pouco a norte de Jeric\u00f3, para ser batizado por Jo\u00e3o, que a esse ato pretende opor-se, dado que, no seu entender, \u00e9 ele, Jo\u00e3o, que deve ser batizado por Jesus, e n\u00e3o o contr\u00e1rio. Aceita, no entanto, a explica\u00e7\u00e3o dada por Jesus de que assim deve ser para ser cumprida toda a\u00a0<em>justi\u00e7a<\/em>, isto \u00e9, para ser feita ou cumprida a\u00a0<em>vontade de Deus<\/em>. Ao sair da \u00e1gua, Jesus v\u00ea o Esp\u00edrito de Deus descer sobre Ele, e ouve-se uma voz vinda do C\u00e9u, de Deus, do Pai, que faz uma declara\u00e7\u00e3o p\u00fablica: \u00ab<em>Este \u00e9<\/em>\u00a0(<em>hout\u00f3s estin<\/em>) o Filho meu, o Amado, em quem me comprazo\u00bb (Mateus 3,17). \u00c9 importante apercebermo-nos de que, em Mateus, este dizer do Pai se dirige a n\u00f3s, revela\u00e7\u00e3o ou proclama\u00e7\u00e3o a n\u00f3s feita, pois a voz do C\u00e9u faz-se ouvir em 3.\u00aa pessoa: \u00ab<em>Este \u00e9<\/em>\u00a0o Filho meu, o Amado, em quem me comprazo\u00bb. De modo diferente, em Marcos e em Lucas, o dizer do Pai dirige-se a Jesus, pois a voz do C\u00e9u faz-se ouvir em 2.\u00aa pessoa: \u00ab<em>Tu \u00e9s<\/em>\u00a0(<em>s\u00f9 e\u00ee<\/em>) o Filho meu, o Amado, em ti me comprazo\u00bb (Marcos 1,11; Lucas 3,22). Importa, pois, salientar desde j\u00e1 esta vincula\u00e7\u00e3o do Pai e do Filho, bem como a sua proximidade e intimidade. Do Pai, que apresenta o seu Filho e declara o seu amor e comprazimento nele. Do Filho, que n\u00e3o age por conta pr\u00f3pria, mas faz a vontade do Pai.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">3. Bem vistas as coisas, Jesus vem da Galileia ao Jord\u00e3o para ser batizado por Jo\u00e3o (Mateus 3,13-17), e regressa pouco depois \u00e0 Galileia para dar in\u00edcio \u00e0 sua vida p\u00fablica (Mateus 4,12-17). Entre a vinda da Galileia e o regresso \u00e0 Galileia, Mateus introduz o chamado epis\u00f3dio das \u00abtenta\u00e7\u00f5es\u00bb de Jesus (Mateus 4,1-11). O texto come\u00e7a por dizer que Jesus foi conduzido pelo Esp\u00edrito ao\u00a0<em>deserto<\/em>, para\u00a0<em>ser tentado<\/em>\u00a0(<em>peir\u00e1z\u00f4<\/em>) pelo diabo (<em>di\u00e1bolos<\/em>), e acrescenta que Jesus jejuou durante quarenta dias e quarenta noites, e que no fim teve\u00a0<em>fome<\/em>\u00a0(Mateus 4,1-2). Ao contr\u00e1rio do que se possa pensar, este in\u00edcio do texto n\u00e3o tem carga negativa. Basta pensar que Jesus \u00e9 conduzido pelo Esp\u00edrito. Ir para o\u00a0<em>deserto<\/em>,\u00a0<em>ser tentado<\/em>\u00a0e\u00a0<em>ter fome<\/em>\u00a0s\u00e3o modos de dizer que Jesus faz sua a hist\u00f3ria de Israel. No deserto, o povo de Israel sucumbiu \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o e \u00e0 fome. Indo ao deserto, Jesus assume a hist\u00f3ria do seu povo, mas vence onde Israel sucumbiu. E ao mesmo tempo prepara com o jejum a miss\u00e3o que est\u00e1 para iniciar na Galileia. Voltemos ao facto da fome de Jesus, pois \u00e9 neste ponto preciso que se aproxima \u00abo Tentador\u00bb (<em>ho peir\u00e1z\u00f4n<\/em>). Este voc\u00e1bulo s\u00f3 \u00e9 usado aqui e em 1 Tessalonicenses 3,5, e define a fun\u00e7\u00e3o espec\u00edfica do diabo, o seu of\u00edcio ou afazer, que n\u00e3o consiste em p\u00f4r os homens \u00e0 prova, mas em incit\u00e1-los ao pecado, que consiste em retirar a Deus a condu\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o para a atribuir ao diabo. No caso de Jesus, o Filho Amado de Deus, a tenta\u00e7\u00e3o do diabo consiste, portanto, em procurar desfazer o n\u00f3 do Amor m\u00fatuo que une o Pai e o Filho, em desvincular Jesus de fazer a vontade do Pai, de obedecer ao Pai, atitude pr\u00f3pria da sua voca\u00e7\u00e3o de Filho obediente, para usar a sua autoridade de Filho e passar a agir por conta pr\u00f3pria. A tenta\u00e7\u00e3o \u00e9 subtil, e pretende insinuar que Jesus pode prover \u00e0 sua pr\u00f3pria exist\u00eancia, de forma aut\u00f3noma, sem precisar de depender exclusivamente do Pai. Jesus, o Filho de Deus, tem fome. De que est\u00e1s \u00e0 espera, diz o diabo, e sugere: \u00abSe \u00e9s o Filho de Deus, diz que estas pedras se transformem em p\u00e3o\u00bb (Mateus 4,3). V\u00ea-se a subtileza da tenta\u00e7\u00e3o: transformar pedras em p\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma tenta\u00e7\u00e3o para qualquer um; \u00e9 uma tenta\u00e7\u00e3o apenas para algu\u00e9m que pode fazer isso! Jesus recusa a tenta\u00e7\u00e3o diab\u00f3lica. E f\u00e1-lo, n\u00e3o respondendo de forma aut\u00f3noma, mas citando a Palavra antiga de Deus: \u00abNem s\u00f3 de p\u00e3o vive o homem, mas de toda a Palavra que sai da boca de Deus\u00bb (Deuteron\u00f3mio 8,3). Com esta resposta, Jesus mostra-se como Filho de Deus, mas tamb\u00e9m filho da Escritura.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">4. Na segunda vaga da tenta\u00e7\u00e3o, parece que o diabo leva a s\u00e9rio a resposta de Jesus, faz tamb\u00e9m ele uso da Palavra de Deus, e sugere mais ou menos isto: \u00abUma vez que queres viver da Palavra de Deus, e te abandonas na sua provid\u00eancia, ent\u00e3o mostra l\u00e1 que levas a s\u00e9rio a Palavra de Deus que diz que os anjos te seguram nas suas m\u00e3os, e atira-te daqui abaixo\u00bb. O diabo citou o Salmo 91,11-12, mas interpreta erradamente as palavras citadas, como se algu\u00e9m fosse p\u00f4r propositadamente a sua vida em risco, e ao mesmo tempo exigisse a Deus que o salvasse! Pura provoca\u00e7\u00e3o. Por isso, Jesus responde de forma liminar: \u00abN\u00e3o tentar\u00e1s o Senhor, teu Deus\u00bb, citando o Deuteron\u00f3mio 6,16. O diabo faz um uso literalista do Salmo 91. Jesus responde-lhe com um procedimento que podemos chamar exegese teol\u00f3gica: claro que \u00e9 bom confiar em Deus, mas \u00e9 preciso vigiar para que esta confian\u00e7a n\u00e3o seja pervertida pela tenta\u00e7\u00e3o de se poder p\u00f4r o poder de Deus ao servi\u00e7o da ambi\u00e7\u00e3o religiosa do homem.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">5. Na terceira tenta\u00e7\u00e3o, o Tentador renuncia \u00e0 Escritura, deixa de chamar a Jesus \u00abFilho de Deus\u00bb, abandona todos os disfarces, e mostra-se tal como \u00e9: o \u00abpr\u00edncipe deste mundo\u00bb (Jo\u00e3o 12,31; 14,30; 16,11) ou o \u00abdeus deste mundo\u00bb (2 Cor\u00edntios 4,4), e promete \u00abtodos os reinos do mundo e a sua gl\u00f3ria\u00bb (Mateus 4,8). O pre\u00e7o a pagar \u00e9 prostrar-se diante do Tentador e ador\u00e1-lo (Mateus 4,9). Esta terceira tenta\u00e7\u00e3o n\u00e3o prov\u00e9m de nenhuma necessidade fundamental do homem (como a primeira), nem de uma falsa vis\u00e3o de Deus (como a segunda). A tenta\u00e7\u00e3o abdica completamente de Deus, corta radicalmente com Deus, e tem em conta apenas o que este mundo fechado pode oferecer: poder, influ\u00eancia, sucesso, riqueza. Completo fechamento a Deus. A resposta de Jesus \u00e9 taxativa, citando agora Deuteron\u00f3mio 6,13: \u00abAo Senhor, teu Deus, adorar\u00e1s; s\u00f3 a Ele prestar\u00e1s culto\u00bb (Mateus 4,10).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">6. \u00c9 f\u00e1cil agora compreender que todas as tenta\u00e7\u00f5es diab\u00f3licas (as duas primeiras explicitamente) pretendem atingir Jesus na sua condi\u00e7\u00e3o filial batismal de \u00abFilho de Deus\u00bb, tentando separ\u00e1-lo de Deus e dos irm\u00e3os, n\u00e3o fosse o diabo,\u00a0<em>di\u00e1-bolos<\/em>, o m\u00e1ximo \u00abdivisor\u00bb ou \u00abseparador\u00bb comum. \u00c9, portanto, na sua\u00a0<em>condi\u00e7\u00e3o de batizado<\/em>, isto \u00e9, de\u00a0<em>Filho de Deus<\/em>, que Jesus \u00e9 tentado. Na verdade, todas as tenta\u00e7\u00f5es, as de Jesus Cristo como as nossas, come\u00e7am sempre da mesma maneira: \u00abSe \u00e9s o Filho de Deus\u2026\u00bb. Atente-se em como se repete nos mesmos termos sob a Cruz (Mt 27,39-44), tamb\u00e9m por tr\u00eas vezes, em tr\u00eas vagas sucessivas, sendo aqui os tentadores os transeuntes, os chefes dos sacerdotes com os escribas e os anci\u00e3os, e depois os ladr\u00f5es crucificados com Jesus. Portanto, sempre. Do Batismo at\u00e9 \u00e0 Morte, a tenta\u00e7\u00e3o visa afastar-nos de Deus e da sua provid\u00eancia, e p\u00f4r-nos ao servi\u00e7o do \u00abdeus deste mundo\u00bb (2 Cor\u00edntios 4,4; cf. Jo\u00e3o 12,31; 14,30; 16,11). Veja-se a \u00faltima oferta do \u00abTentador\u00bb do Evangelho de hoje: \u00abtodos os reinos deste mundo\u00bb em troca do afastamento de Deus, de um mundo sem Deus (Mateus 4,8-9). E a resposta contundente de Jesus: \u00abVai-te, Satan\u00e1s!\u00bb (Mateus 4,10). Jesus, o Filho de Deus, permanece sempre vinculado ao Pai, nunca deixando de fazer a vontade do Pai. Mesmo quando responde ao \u00abTentador\u00bb, n\u00e3o o faz com palavras pr\u00f3prias, mas unicamente com a Palavra de Deus, que cita sempre a prop\u00f3sito. Filho de Deus e filho da Escritura.\u00a0<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">7. Este epis\u00f3dio come\u00e7a com Jesus a ser conduzido pelo Esp\u00edrito ao deserto para ser tentado. Com esta ida ao deserto, lugar exposto \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o, Jesus reclama como sua a hist\u00f3ria de Israel. Com duas diferen\u00e7as: 1) na hist\u00f3ria de Israel, o Jord\u00e3o vem depois do deserto; na hist\u00f3ria de Jesus, o deserto vem depois do Jord\u00e3o; 2) no deserto, Israel cai em in\u00fameras tenta\u00e7\u00f5es; Jesus, por\u00e9m, vai sair vencedor das tenta\u00e7\u00f5es. O deserto \u00e9 sempre um lugar provis\u00f3rio e preliminar, preambular, longe do que \u00e9 nosso, mas onde se est\u00e1 \u00aba c\u00e9u aberto\u00bb com Deus, e se pode come\u00e7ar a ver surgir a \u00abobra\u00bb nova de Deus (Isa\u00edas 43,19). Lugar ideal, tamb\u00e9m com a nota do jejum, para Jesus preparar a miss\u00e3o que est\u00e1 para iniciar na Galileia. No deserto n\u00e3o h\u00e1 pontos de refer\u00eancia nem marcos de sinaliza\u00e7\u00e3o. S\u00f3 podemos prosseguir, se tivermos um bom guia. E o andamento do texto lembra outra vez Israel, mas tamb\u00e9m Mois\u00e9s e Elias, que experimentaram no deserto a condu\u00e7\u00e3o de Deus. Este deserto \u00e9 ent\u00e3o tamb\u00e9m uma met\u00e1fora da nossa vida como lugar onde estamos sujeitos \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o, mas onde devemos saber escutar a \u00abVoz do fino sil\u00eancio\u00bb de Deus e ler o mapa da sua Palavra. Como Jesus, o Filho de Deus e filho da Escritura.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">8. Leem-se tamb\u00e9m hoje dois bocadinhos do Livro do G\u00e9nesis 2,7-9 e 3,1-7. O homem de todos os tempos e de todos os lugares, n\u00f3s tamb\u00e9m, modelado pelas m\u00e3os puras de Deus e acariciado com um \u00abbeijo de Deus\u00bb \u2013 \u00e9 assim que os rabinos interpretam aquele sopro de Deus no rosto do homem (G\u00e9nesis 2,7) \u2013, cedeu \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o, afastando-se do Bom Deus Criador e aderindo aos \u00abdeuses deste mundo\u00bb, aqui simbolizados na cobra, animal que anda rente \u00e0 terra ou por dentro da terra, a grande deusa-m\u00e3e, comungando da sua vitalidade, e tornando-se, por isso, em s\u00edmbolo do culto da fertilidade, fecundidade e vitalidade em todo o M\u00e9dio Oriente Antigo e ainda hoje no nosso mundo: vejam-se os pain\u00e9is que assinalam as portas das farm\u00e1cias, ostentando uma cobra enrolada numa \u00e1rvore verde! Est\u00e1 diante de n\u00f3s o orgulho do homem de todos os tempos, que n\u00e3o quer ser dependente e contingente, que \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o da criatura boa que se recebe sempre do Deus Criador, mas quer ser aut\u00f3nomo e independente, senhor tir\u00e2nico e prepotente, como os deuses dos mitos mesopot\u00e2micos ou gregos. Admir\u00e1vel contraponto do Evangelho de hoje.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">9. No grande texto da Carta aos Romanos 5,12-19, S. Paulo repete que somos pecadores, pois todos nos podemos rever em Ad\u00e3o como em um espelho.\u00a0<em>Adam<\/em>\u00a0\u00e9 ao mesmo tempo um nome singular e coletivo, que pode ser traduzido por Ad\u00e3o ou por Humanidade. De acordo com a personalidade corporativa que envolve o povo b\u00edblico,\u00a0<em>Adam<\/em>\u00a0\u00e9 um nome singular, ep\u00f3nimo da humanidade, e \u00e9 ao mesmo tempo a Humanidade que se rev\u00ea no seu ep\u00f3nimo. Mas agora, insiste Paulo, \u00e9 tempo de vermos a nossa vida \u00e0 luz de Cristo, com Cristo, em Cristo, para Cristo. Fixamente, para n\u00e3o nos perdermos no caminho filial, fraternal, batismal. Onde abundou o pecado, superabundou a gra\u00e7a. \u00c9 esta a Sabedoria que Paulo nos transmite.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">10. Cantamos hoje o Salmo 51, a s\u00faplica penitencial por excel\u00eancia, que constitui a ossatura espiritual de Agostinho, de Charles de Foucauld, de Joana D\u2019Arc, que inspirou a pena de muit\u00edssimos Padres da Igreja, e ecoa na m\u00fasica de Bach, Lulli, Donizetti, Honegger\u2026 Hoje \u00e9 a nossa vez de nos sentarmos um pouco a trautear esta melodia que nos atravessa e nos p\u00f5e de p\u00e9. Est\u00e1 aqui a letra e a m\u00fasica do homem, de qualquer homem, de qualquer tempo, seja ele quem for, de que ra\u00e7a for, de que religi\u00e3o for. Deixo aqui, a fechar, as palavras alt\u00edssimas da grande m\u00edstica mu\u00e7ulmana do s\u00e9culo VIII, Rabi?a, de seu nome: \u00abUm homem disse a Rabi?a: \u201cCometi muitos pecados e muitas transgress\u00f5es; se me arrepender, Deus perdoar-me-\u00e1?\u201d. Disse Rabi?a: \u201cN\u00e3o. Tu arrepender-te-\u00e1s se Ele te perdoar\u201d\u00bb (<em>I detti di Rabi?a<\/em>, XII, 2).<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u00a0<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gn 2,7-9; 3,1-7; Sl 51; Rm 5,12.17-19; Mt 4,1-11 1. S\u00f3 secundariamente a Quaresma \u00abprepara\u00bb para a Ressur\u00adrei\u00e7\u00e3o do Senhor. 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