{"id":2096374247,"date":"2013-11-14T15:33:43","date_gmt":"2013-11-14T15:33:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/29-destaques\/3718-carta-pastoral-da-conferencia-episcopal-portuguesa"},"modified":"2025-11-03T14:58:12","modified_gmt":"2025-11-03T14:58:12","slug":"carta-pastoral-da-conferencia-episcopal-portuguesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/carta-pastoral-da-conferencia-episcopal-portuguesa\/","title":{"rendered":"Carta Pastoral da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/fatima_2_120515091521.jpg\" \/><\/p>\n<p>Difunde-se cada vez mais a chamada ideologia do g\u00e9nero ou gender. Por\u00e9m, nem todas as pessoas disso se apercebem e muitos desconhecem o seu alcance social e cultural, que j\u00e1 foi qualificado como verdadeira revolu\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica. N\u00e3o se trata apenas de uma simples moda intelectual. Diz respeito antes a um movimento cultural com reflexos na compreens\u00e3o da fam\u00edlia, na esfera pol\u00edtica e legislativa, no ensino, na comunica\u00e7\u00e3o social e na pr\u00f3pria linguagem corrente.<\/p>\n<p>Mas a ideologia do g\u00e9nero contrasta frontalmente com o acervo civilizacional j\u00e1 adquirido. Como tal, op\u00f5e-se radicalmente \u00e0 vis\u00e3o b\u00edblica e crist\u00e3 da pessoa e da sexualidade humanas. Com o intuito de esclarecer as diferen\u00e7as entre estas duas vis\u00f5es surge este documento. Move-nos o desejo de apresentar a vis\u00e3o mais s\u00f3lida e mais fundante da pessoa, milenarmente descoberta, valorizada e seguida, e para a qual o humanismo crist\u00e3o muito contribuiu. Acreditamos que este mesmo humanismo, atualmente, \u00e9 chamado a dar contributo v\u00e1lido na redescoberta da profundidade e beleza de uma sexualidade humana corretamente entendida.<\/p>\n<p>Trata-se da defesa de um modelo de sexualidade e de fam\u00edlia que a sabedoria e a hist\u00f3ria, n\u00e3o obstante as muta\u00e7\u00f5es culturais, nos diferentes contextos sociais e geogr\u00e1ficos, consideram apto para exprimir a natureza humana.<\/p>\n<p>1. A pessoa humana, esp\u00edrito encarnado<\/p>\n<p>Antes de mais, gostar\u00edamos de deixar bem claro que, para o humanismo crist\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 lugar a dualismos: o desprezo do corpo em nome do esp\u00edrito ou vice-versa. O corpo sexuado, como todas as criaturas do nosso Deus, \u00e9 produto bom de um Deus bom e amoroso. Uma segunda verdade a considerar na vis\u00e3o crist\u00e3 da sexualidade \u00e9 a da pessoa humana como esp\u00edrito encarnado e, por isso, sexuado: a diferencia\u00e7\u00e3o sexual correspondente ao des\u00edgnio divino sobre a cria\u00e7\u00e3o, em toda a sua beleza e plenitude: \u00abEle os criou homem e mulher\u00bb (Gn 1,27); \u00abDeus, vendo toda sua obra, considerou-a muito boa\u00bb (Gn 1,31).<\/p>\n<p>A corporalidade \u00e9 uma dimens\u00e3o constitutiva da pessoa, n\u00e3o um seu acess\u00f3rio; a pessoa \u00e9 um corpo, n\u00e3o tem um corpo; a dignidade do corpo humano \u00e9 corol\u00e1rio da dignidade da pessoa humana; a comunh\u00e3o dos corpos deve exprimir a comunh\u00e3o das pessoas.<\/p>\n<p>Porque a pessoa humana \u00e9 a totalidade unificada do corpo e da alma, existe necessariamente, como homem ou mulher. Por conseguinte, a dimens\u00e3o sexuada, a masculinidade ou feminilidade, \u00e9 constitutiva da pessoa, \u00e9 o seu modo de ser, n\u00e3o um simples atributo. \u00c9 a pr\u00f3pria pessoa que se exprime atrav\u00e9s da sexualidade. A pessoa \u00e9, assim, chamada ao amor e \u00e0 comunh\u00e3o como homem ou como mulher. E a diferen\u00e7a sexual tem um significado no plano da cria\u00e7\u00e3o: exprime uma abertura rec\u00edproca \u00e0 alteridade e \u00e0 diferen\u00e7a, as quais, na sua complementaridade, se tornam enriquecedoras e fecundas.<\/p>\n<p>2. Confrontados com uma forte mudan\u00e7a cultural<\/p>\n<p>Reconhecemos, sem d\u00favida, que, no longo caminho do amadurecimento cultural e civilizacional, nem sempre se atribuiu aos dois \u00e2mbitos do humano (o masculino e o feminino) o mesmo valor e semelhante protagonismo social. Especialmente a mulher, n\u00e3o raramente, foi v\u00edtima de forte sujei\u00e7\u00e3o ao homem e sofreu alguma menoriza\u00e7\u00e3o social e cultural. Gra\u00e7as a Deus, tais situa\u00e7\u00f5es est\u00e3o progressivamente a ser ultrapassadas e a condi\u00e7\u00e3o feminina, antigamente conotada com a ideia de opress\u00e3o, hoje est\u00e1 a revelar-se como enorme potencial de humaniza\u00e7\u00e3o e de desenvolvimento harmonioso da sociedade.<\/p>\n<p>No desejo de ultrapassar esta menoridade social da mulher, alguns procederam a uma distin\u00e7\u00e3o radical entre o sexo biol\u00f3gico e os pap\u00e9is que a sociedade, tradicionalmente, lhe outorgou. Afirmam que o ser masculino ou feminino n\u00e3o passa de uma constru\u00e7\u00e3o mental, mais ou menos interessada e artificial, que, agora, importaria desconstruir. Por conseguinte, rejeitam tudo o que tenha a ver com os dados biol\u00f3gicos para se fixarem na dimens\u00e3o cultural, entendida como mentalidade pessoal e social. E, por associa\u00e7\u00e3o de ideias, passou-se a rejeitar a validade de tudo o que tenha a ver com os tradicionais dados normativos da natureza a respeito da sexualidade (heterossexualidade, uni\u00e3o monog\u00e2mica, limite \u00e9tico aos conhecimentos t\u00e9cnicos ligados \u00e0s fontes da vida, respeito pela vida intra-uterina, pudor ou reserva de intimidade, etc.). \u00c9 todo este \u00e2mbito mental que se costuma designar por ideologia do g\u00e9nero ou gender.<\/p>\n<p>A ideologia do g\u00e9nero surge, assim, como uma antropologia alternativa, quer \u00e0 judaico-crist\u00e3, quer \u00e0 das culturas tradicionais n\u00e3o ocidentais. Nega que a diferen\u00e7a sexual inscrita no corpo possa ser identificativa da pessoa; recusa a complementaridade natural entre os sexos; dissocia a sexualidade da procria\u00e7\u00e3o; sobrep\u00f5e a filia\u00e7\u00e3o intencional \u00e0 biol\u00f3gica; pretende desconstruir a matriz heterossexual da sociedade (a fam\u00edlia assente na uni\u00e3o entre um homem e uma mulher deixa de ser o modelo de refer\u00eancia e passa a ser um entre v\u00e1rios).<\/p>\n<p>3. Os pressupostos da ideologia do g\u00e9nero<\/p>\n<p>Esta teoria parte da distin\u00e7\u00e3o entre sexo e g\u00e9nero, for\u00e7ando a oposi\u00e7\u00e3o entre natureza e cultura. O sexo assinala a condi\u00e7\u00e3o natural e biol\u00f3gica da diferen\u00e7a f\u00edsica entre homem e mulher. O g\u00e9nero baliza a constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico-cultural da identidade masculina e feminina. Mas, partindo da c\u00e9lebre frase de Simone de Beauvoir, \u00abuma mulher n\u00e3o nasce mulher, torna-se mulher\u00bb, a ideologia do g\u00e9nero considera que somos homens ou mulheres n\u00e3o na base da dimens\u00e3o biol\u00f3gica em que nascemos, mas nos tornamos tais de acordo com o processo de socializa\u00e7\u00e3o (da interioriza\u00e7\u00e3o dos comportamentos, fun\u00e7\u00f5es e pap\u00e9is que a sociedade e cultura nos distribui). Pap\u00e9is que, para estas teorias, s\u00e3o injustos e artificiais. Por conseguinte, o g\u00e9nero deve sobrepor-se ao sexo e a cultura deve impor-se \u00e0 natureza.<\/p>\n<p>Como, para esta ideologia, o g\u00e9nero \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o social, este pode ser desconstru\u00eddo e reconstru\u00eddo. Se a diferen\u00e7a sexual entre homem e mulher est\u00e1 na base da opress\u00e3o desta, ent\u00e3o qualquer forma de defini\u00e7\u00e3o de uma especificidade feminina \u00e9 opressora para a mulher. Por isso, para os defensores do gender, a maternidade, como especificidade feminina, \u00e9 sempre uma discrimina\u00e7\u00e3o injusta. Para superar essa opress\u00e3o, recusa-se a diferencia\u00e7\u00e3o sexual natural e reconduz-se o g\u00e9nero \u00e0 escolha individual. O g\u00e9nero n\u00e3o tem de corresponder ao sexo, mas pertence a uma escolha subjetiva, ditada por instintos, impulsos, prefer\u00eancias e interesses, o que vai para al\u00e9m dos dados naturais e objetivos.<\/p>\n<p>O gender sustenta a irrelev\u00e2ncia da diferen\u00e7a sexual na constru\u00e7\u00e3o da identidade e, por consequ\u00eancia, tamb\u00e9m a irrelev\u00e2ncia dessa diferen\u00e7a nas rela\u00e7\u00f5es interpessoais, nas uni\u00f5es conjugais e na constitui\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia. Se \u00e9 indiferente a escolha do g\u00e9nero a n\u00edvel individual, podendo escolher-se ser homem ou mulher independentemente dos dados naturais, tamb\u00e9m \u00e9 indiferente a escolha de se ligar a pessoas de outro ou do mesmo sexo. Daqui a equipara\u00e7\u00e3o entre uni\u00f5es heterossexuais e homossexuais. Ao modelo da fam\u00edlia heterossexual sucedem-se v\u00e1rios tipos de fam\u00edlia, tantos quantas as prefer\u00eancias individuais, para al\u00e9m de qualquer modelo de refer\u00eancia. Deixa de se falar em fam\u00edlia e passa a falar-se em fam\u00edlias. Privilegiar a uni\u00e3o heterossexual afigura-se-lhe uma forma de discrimina\u00e7\u00e3o. Igualmente, deixa de se falar em paternidade e maternidade e passa a falar-se, exclusivamente, em parentalidade, criando um conceito abstrato, pois desligado da gera\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica.<\/p>\n<p>4. Reflexos da afirma\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o da ideologia do g\u00e9nero<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A\u00a0afirma\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o da ideologia do g\u00e9nero pode notar-se em v\u00e1rios \u00e2mbitos. Um deles \u00e9 o dos h\u00e1bitos lingu\u00edsticos correntes. Vem-se generalizando, a come\u00e7ar por documentos oficiais e na designa\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, a express\u00e3o g\u00e9nero em substitui\u00e7\u00e3o de sexo (igualdade de g\u00e9nero, em vez de igualdade entre homem e mulher), tal como a express\u00e3o fam\u00edlias em vez de fam\u00edlia, ou parentalidade em vez de paternidade e maternidade. Muitas pessoas passam a adotar estas express\u00f5es por h\u00e1bito ou moda, sem se aperceberem da sua conota\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica. Mas a generaliza\u00e7\u00e3o destas express\u00f5es est\u00e1 longe de ser inocente e sem consequ\u00eancias. Faz parte de uma estrat\u00e9gia de afirma\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, que compromete a inteligibilidade b\u00e1sica de uma pessoa, por vezes, tendo consequ\u00eancias dram\u00e1ticas: incapacidade de algu\u00e9m se situar e definir no que tem de mais elementar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os planos pol\u00edtico e legislativo s\u00e3o outro dos \u00e2mbitos de penetra\u00e7\u00e3o da ideologia do g\u00e9nero, que atinge os centros de poder nacionais e internacionais. Da agenda fazem parte as leis de redefini\u00e7\u00e3o do casamento de modo a nelas incluir uni\u00f5es entre pessoas do mesmo sexo (entre n\u00f3s, a Lei n\u00ba 9\/2010, de 31 de maio), as leis que permitem a ado\u00e7\u00e3o por pares do mesmo sexo (em discuss\u00e3o entre n\u00f3s, na modalidade de co-ado\u00e7\u00e3o), as leis que permitem a mudan\u00e7a do sexo oficialmente reconhecido, independentemente das carater\u00edsticas fisiol\u00f3gicas do requerente (Lei n\u00ba 7\/2011, de 15 de mar\u00e7o), e as leis que permitem o recurso de uni\u00f5es homossexuais e pessoas s\u00f3s \u00e0 procria\u00e7\u00e3o artificial, incluindo a chamada maternidade de substitui\u00e7\u00e3o (a Lei n\u00ba 32\/2006, de 26 de julho, n\u00e3o contempla a possibilidade referida).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Outro \u00e2mbito de difus\u00e3o da ideologia do g\u00e9nero \u00e9 o do ensino. Este \u00e9 encarado como um meio eficaz de doutrina\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o da mentalidade corrente e \u00e9 n\u00edtido o esfor\u00e7o de fazer refletir na orienta\u00e7\u00e3o dos programas escolares, em particular nos de educa\u00e7\u00e3o sexual, as teses dessa ideologia, apresentadas como um dado cient\u00edfico consensual e indiscut\u00edvel. Esta estrat\u00e9gia tem dado origem, em v\u00e1rios pa\u00edses, a movimentos de protesto por parte dos pais, que rejeitam esta forma de doutrina\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, porque contr\u00e1ria aos princ\u00edpios nos quais pretendem educar os seus filhos. Entre n\u00f3s, a Portaria n\u00ba 196-A\/2010, de 9 de abril, que regulamenta a Lei n\u00ba 60\/2009, de 6 de agosto, relativa \u00e0 educa\u00e7\u00e3o sexual em meio escolar, inclui, entre os conte\u00fados a abordar neste \u00e2mbito, sexualidade e g\u00e9nero.<\/p>\n<p>5. O alcance antropol\u00f3gico da ideologia do g\u00e9nero<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Importa aprofundar o alcance da ideologia do g\u00e9nero, pois ela representa uma aut\u00eantica revolu\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica. Reflete um subjetivismo relativista levado ao extremo, negando o significado da realidade objetiva. Nega a verdade como algo que n\u00e3o pode ser constru\u00eddo, mas nos \u00e9 dado e por n\u00f3s descoberto e recebido. Recusa a moral como uma ordem objetiva de que n\u00e3o podemos dispor. Rejeita o significado do corpo: a pessoa n\u00e3o seria uma unidade incind\u00edvel, espiritual e corp\u00f3rea, mas um esp\u00edrito que tem um corpo a ela extr\u00ednseco, dispon\u00edvel e manipul\u00e1vel. Contradiz a natureza como dado a acolher e respeitar. Contraria uma certa forma de ecologia humana, chocante numa \u00e9poca em que tanto se exalta a necessidade de respeito pela harmonia pr\u00e9-estabelecida subjacente ao equil\u00edbrio ecol\u00f3gico ambiental. Dissocia a procria\u00e7\u00e3o da uni\u00e3o entre um homem e uma mulher e, portanto, da relacionalidade pessoal, em que o filho \u00e9 acolhido como um dom, tornando-a objeto de um direito de afirma\u00e7\u00e3o individual: o \u201cdireito\u201d \u00e0 parentalidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No plano estritamente cient\u00edfico, obviamente, \u00e9 ilus\u00f3ria a pretens\u00e3o de prescindir dos dados biol\u00f3gicos na identifica\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as entre homens e mulheres. Estas diferen\u00e7as partem da estrutura gen\u00e9tica das c\u00e9lulas do corpo humano, pelo que nem sequer a interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica nos \u00f3rg\u00e3os sexuais externos permitiria uma verdadeira mudan\u00e7a de sexo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 certo que a pessoa humana n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 natureza, mas \u00e9 tamb\u00e9m cultura. E tamb\u00e9m \u00e9 certo que a lei natural n\u00e3o se confunde com a lei biol\u00f3gica. Mas os dados biol\u00f3gicos objetivos cont\u00eam um sentido e apontam para um des\u00edgnio da cria\u00e7\u00e3o que a intelig\u00eancia pode descobrir como algo que a antecede e se lhe imp\u00f5e e n\u00e3o como algo que se pode manipular arbitrariamente. A pessoa humana \u00e9 um esp\u00edrito encarnado numa unidade bio-psico-social. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 corpo, mas \u00e9 tamb\u00e9m corpo. As dimens\u00f5es corporal e espiritual devem harmonizar-se, sem oposi\u00e7\u00e3o. Do mesmo modo, tamb\u00e9m as dimens\u00f5es natural e cultural. A cultura vai para al\u00e9m da natureza, mas n\u00e3o se lhe deve opor, como se dela tivesse que se libertar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>6. Homem e mulher chamados \u00e0 comunh\u00e3o<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A diferencia\u00e7\u00e3o sexual inscrita no des\u00edgnio da cria\u00e7\u00e3o tem um sentido que a ideologia do g\u00e9nero ignora. Reconhec\u00ea-la e valoriz\u00e1-la \u00e9 assegurar o limite e a insufici\u00eancia de cada um dos sexos, \u00e9 aceitar que cada um deles n\u00e3o exprime o humano em toda a sua riqueza e plenitude. \u00c9 admitir a estrutura relacional da pessoa humana e que s\u00f3 na rela\u00e7\u00e3o e na comunh\u00e3o (no ser para o outro) esta se realiza plenamente.<\/p>\n<p>Essa comunh\u00e3o constr\u00f3i-se a partir da diferen\u00e7a. A mais b\u00e1sica e fundamental, que \u00e9 a de sexos, n\u00e3o \u00e9 um obst\u00e1culo \u00e0 comunh\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 uma fonte de oposi\u00e7\u00e3o e conflito, mas uma ocasi\u00e3o de enriquecimento rec\u00edproco. O homem e a mulher s\u00e3o chamados \u00e0 comunh\u00e3o porque s\u00f3 ela os completa e permite a continua\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie, atrav\u00e9s da gera\u00e7\u00e3o de novas vidas. Faz parte da maravilha do des\u00edgnio da cria\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9, como tal, algo a corrigir ou contrariar.<\/p>\n<p>A sociedade edifica-se a partir desta colabora\u00e7\u00e3o entre as dimens\u00f5es masculina e feminina. Em primeiro lugar, na sua c\u00e9lula b\u00e1sica, a fam\u00edlia. \u00c9 esta quem garante a renova\u00e7\u00e3o da sociedade atrav\u00e9s da gera\u00e7\u00e3o de novas vidas e assegura o equil\u00edbrio harmonioso e complexo da educa\u00e7\u00e3o das novas gera\u00e7\u00f5es. Por isso, nunca um ou mais pais podem substituir uma m\u00e3e, e nunca uma ou mais m\u00e3es podem substituir um pai.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>7. Complementaridade do masculino e do feminino<\/p>\n<p>\u00c9 um facto que algumas vis\u00f5es do masculino e feminino t\u00eam servido, ao longo da hist\u00f3ria, para consolidar divis\u00f5es de tarefas r\u00edgidas e estereotipadas que limitaram a realiza\u00e7\u00e3o da mulher, relegada a um papel dom\u00e9stico e circunscrita na interven\u00e7\u00e3o social, econ\u00f3mica, cultural e pol\u00edtica. Mas, na vis\u00e3o b\u00edblica, o dom\u00ednio do homem sobre a mulher n\u00e3o faz parte do original des\u00edgnio divino: \u00e9 uma consequ\u00eancia do pecado. Esse dom\u00ednio indica perturba\u00e7\u00e3o e perda da estabilidade da igualdade fundamental, entre o homem e a mulher. O que vem em desfavor da mulher, porquanto somente a igualdade, resultante da comum dignidade, pode dar \u00e0s rela\u00e7\u00f5es rec\u00edprocas o car\u00e1cter de uma aut\u00eantica communio personarum (comunh\u00e3o de pessoas).<\/p>\n<p>A ideologia do g\u00e9nero n\u00e3o se limita a denunciar tais injusti\u00e7as, mas pretende elimin\u00e1-las negando a especificidade feminina. Isso empobrece a mulher, que perde a sua identidade, e enfraquece a sociedade, privada dum contributo precioso e insubstitu\u00edvel, como \u00e9 a feminilidade e a maternidade. Ali\u00e1s, a nossa \u00e9poca reconhece \u2013 e bem! \u2013 a import\u00e2ncia da presen\u00e7a equilibrada de homens e mulheres nos v\u00e1rios \u00e2mbitos da vida social, designadamente nos centros de decis\u00e3o econ\u00f3mica e pol\u00edtica. Mesmo que essa presen\u00e7a n\u00e3o tenha de ser rigidamente parit\u00e1ria, a sociedade s\u00f3 tem a ganhar com o contributo complementar das espec\u00edficas sensibilidades masculina e feminina.<\/p>\n<p>8. O &#8220;g\u00e9nio feminino&#8221;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nesta perspetiva, h\u00e1 que p\u00f4r em relevo aquilo que o Papa Jo\u00e3o Paulo II denominou &#8220;g\u00e9nio feminino&#8221;. N\u00e3o se trata de algo que se exprima apenas na rela\u00e7\u00e3o esponsal ou maternal, espec\u00edficas do matrim\u00f3nio, como pretenderia uma certo romantismo. Mas estende-se ao conjunto das rela\u00e7\u00f5es interpessoais e refere-se a todas as mulheres, casadas ou solteiras. Passa pela voca\u00e7\u00e3o \u00e0 maternidade, sem que esta se esgote na biol\u00f3gica. Nesta, entretanto, comprova-se uma especial sensibilidade da mulher \u00e0 vida, patente no seu desvelo na fase de maior vulnerabilidade e na sua capacidade de aten\u00e7\u00e3o e cuidado nas rela\u00e7\u00f5es interpessoais.<\/p>\n<p>A maternidade n\u00e3o \u00e9 um peso de que a mulher necessite de se libertar. O que se exige \u00e9 que toda a organiza\u00e7\u00e3o social apoie e n\u00e3o dificulte a concretiza\u00e7\u00e3o dessa voca\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s da qual a mulher encontra a sua plena realiza\u00e7\u00e3o. \u00c9 de reclamar, em especial, que a inser\u00e7\u00e3o da mulher numa organiza\u00e7\u00e3o laboral, concebida em fun\u00e7\u00e3o dos homens, n\u00e3o se fa\u00e7a \u00e0 custa da concretiza\u00e7\u00e3o dessa voca\u00e7\u00e3o, e se adotem todos os ajustamentos necess\u00e1rios.<\/p>\n<p>9. O papel insubstitu\u00edvel do pai<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o pode, de igual modo, ignorar-se que o homem tem um contributo espec\u00edfico e insubstitu\u00edvel a dar \u00e0 vida familiar e social, cumprindo a sua voca\u00e7\u00e3o \u00e0 paternidade, que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 biol\u00f3gica, assumindo a miss\u00e3o que s\u00f3 o pai pode desempenhar cabalmente. Talvez o \u00e2mbito em que mais se nota a aus\u00eancia desse contributo seja o da educa\u00e7\u00e3o, o que j\u00e1 levou a que se fale do pai como o \u201cgrande ausente\u201d. Isto pode originar s\u00e9rias consequ\u00eancias, tais como desorienta\u00e7\u00e3o existencial dos jovens, toxicodepend\u00eancia ou delinqu\u00eancia juvenil. Se a rela\u00e7\u00e3o com a m\u00e3e \u00e9 essencial nos primeiros anos de vida, \u00e9 tamb\u00e9m essencial a rela\u00e7\u00e3o com o pai, para que a crian\u00e7a e o jovem se diferenciem da m\u00e3e e assim cres\u00e7am como pessoas aut\u00f3nomas. N\u00e3o bastam os afetos para crescer: s\u00e3o necess\u00e1rias regras e autoridade, o que \u00e9 acentuado pelo papel do pai.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Num contexto em que se discute a legaliza\u00e7\u00e3o da ado\u00e7\u00e3o por pares do mesmo sexo, n\u00e3o \u00e9 sup\u00e9rfluo sublinhar a import\u00e2ncia dos pap\u00e9is da m\u00e3e e do pai na educa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as e dos jovens: s\u00e3o pap\u00e9is insubstitu\u00edveis e complementares. Cada uma destas figuras ajuda a crian\u00e7a e o jovem a construir a sua pr\u00f3pria identidade masculina ou feminina. Mas tamb\u00e9m, e porque nem o masculino nem o feminino esgotam toda a riqueza do humano, a presen\u00e7a dessas duas figuras ajudam-nos a descobrir toda essa riqueza, ultrapassando os limites de cada um dos sexos. Uma crian\u00e7a desenvolve?se e prospera na intera\u00e7\u00e3o conjunta da m\u00e3e e do pai, como parece \u00f3bvio e estudos cient\u00edficos comprovam.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>10. A resposta \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o da ideologia do g\u00e9nero<\/p>\n<p>A ideologia do g\u00e9nero n\u00e3o s\u00f3 contrasta com a vis\u00e3o b\u00edblica e crist\u00e3, mas tamb\u00e9m com a verdade da pessoa e da sua voca\u00e7\u00e3o. Prejudica a realiza\u00e7\u00e3o pessoal e, a m\u00e9dio prazo, defrauda a sociedade. N\u00e3o exprime a verdade da pessoa, mas distorce-a ideologicamente.<\/p>\n<p>As altera\u00e7\u00f5es legislativas que refletem a mentalidade da ideologia do g\u00e9nero -concretamente, a lei que, entre n\u00f3s, redefiniu o casamento &#8211; n\u00e3o s\u00e3o irrevers\u00edveis. E os cidad\u00e3os e legisladores que partilhem uma vis\u00e3o mais consent\u00e2nea com o ser e a dignidade da pessoa e da fam\u00edlia s\u00e3o chamados a fazer o que est\u00e1 ao seu alcance para as revogar.<\/p>\n<p>Se viermos a assistir \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o do sistema de ensino para a afirma\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o dessa ideologia, \u00e9 bom ter presente o primado dos direitos dos pais e m\u00e3es quanto \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o dos seus filhos. O artigo 26\u00ba, n\u00ba 3, da Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos estatui que \u00abaos pais pertence a prioridade do direito de escolher o g\u00e9nero de educa\u00e7\u00e3o dos seus filhos\u00bb. E o artigo 43\u00ba, n\u00ba 2, da nossa Constitui\u00e7\u00e3o estabelece que \u00abo Estado n\u00e3o pode atribuir-se o direito de programar a educa\u00e7\u00e3o e a cultura segundo quaisquer diretrizes filos\u00f3ficas, est\u00e9ticas, pol\u00edticas, ideol\u00f3gicas ou religiosas\u00bb.<\/p>\n<p>De qualquer modo, a resposta mais eficaz \u00e0s afirma\u00e7\u00f5es e difus\u00e3o da ideologia do g\u00e9nero h\u00e1 de resultar de uma nova evangeliza\u00e7\u00e3o. Trata-se de anunciar o Evangelho como este \u00e9: boa nova da vida, do amor humano, do matrim\u00f3nio e da fam\u00edlia, o que corresponde \u00e0s exig\u00eancias mais profundas e aut\u00eanticas de toda a pessoa. A esse an\u00fancio s\u00e3o chamadas, em especial, as fam\u00edlias crist\u00e3s, antes de mais, mediante o seu testemunho de vida.<\/p>\n<p>F\u00e1tima, 14 de novembro de 2013<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Difunde-se cada vez mais a chamada ideologia do g\u00e9nero ou gender. 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