{"id":225338571,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/8146-domingo-xxv-do-tempo-comum-descer-de-nos-abaixo"},"modified":"2025-11-07T16:33:19","modified_gmt":"2025-11-07T16:33:19","slug":"domingo-xxv-do-tempo-comum-descer-de-nos-abaixo-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/domingo-xxv-do-tempo-comum-descer-de-nos-abaixo-2\/","title":{"rendered":"Domingo XXV do Tempo Comum: \u00abDescer de n\u00f3s abaixo\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031.jpg\" \/><\/p>\n<p><p>1. No Evangelho deste Domingo XXV do Tempo Comum, continuamos a ler a chamada \u00absec\u00e7\u00e3o do caminho\u00bb do Evangelho de Marcos (Ver Domingo XXIV), hoje a passagem de Marcos 9,30-37. Este texto intenso e sublime cai sobre n\u00f3s como uma faca de dois gumes e envolve-nos em duas vagas avassaladoras: Marcos 9,30-32 e 9,33-37.<\/p>\n<p>2. A primeira acontece no caminho que desce de Cesareia de Filipe para Cafarnaum, um dia de caminho e de ensinamento de Jesus aos seus disc\u00edpulos. Concentra\u00e7\u00e3o m\u00e1xima: Jesus a s\u00f3s com os seus disc\u00edpulos (ningu\u00e9m de fora os acompanha) e um \u00fanico dizer na sua boca do Mestre que repetidamente ensinava: \u00abO Filho do Homem vai ser entregue (<em>parad\u00eddotai<\/em>: pass. teol\u00f3gico ou divino) por Deus nas m\u00e3os dos homens, que o matar\u00e3o, mas tr\u00eas dias depois de morto ressuscitar\u00e1\u00bb (Marcos 9,31). Note-se, em todo o caso, que Jesus passar\u00e1 das nossas m\u00e3os violentas e assassinas, para as m\u00e3os paternais do Pai. Jesus ensina, portanto, a sua paix\u00e3o, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o. Ficam aqui bem a descoberto as nossas m\u00e3os violentas e assassinas. Mas \u00e9 estranho o comportamento dos disc\u00edpulos de Jesus, que nos \u00e9 dado a conhecer pelo narrador. Na verdade, aqueles disc\u00edpulos de Jesus (e n\u00f3s com eles) n\u00e3o queriam compreender aquelas palavras e at\u00e9 tinham medo de as vir a compreender. \u00c9 esta a mais correta tradu\u00e7\u00e3o daquele verbo\u00a0<em>agno\u00e9\u00f4<\/em>, que n\u00e3o significa apenas \u00abignorar\u00bb, \u00abdesconhecer\u00bb, \u00abn\u00e3o compreender\u00bb, mas, mais do que isso, \u00abn\u00e3o querer compreender\u00bb. E era o medo de, porventura, virem a compreender que os impedia de fazer qualquer pergunta a Jesus (Marcos 9,32).<\/p>\n<p>3. Leva tempo \u00e0queles disc\u00edpulos de Jesus, e a mim, e a n\u00f3s, compreender que, se a maneira de ser de Deus \u00e9 o amor, s\u00f3 o amor, ent\u00e3o Ele tem de descer ao nosso n\u00edvel, sujando-se na mentira do nosso cora\u00e7\u00e3o e na viol\u00eancia das nossas m\u00e3os, n\u00e3o nos opondo qualquer resist\u00eancia, que \u00e9 o nosso modo habitual de fazer e que faz aumentar a viol\u00eancia, mas amando tamb\u00e9m a nossa viol\u00eancia at\u00e9 ao fim e ao fundo. Aqueles disc\u00edpulos de Jesus (e n\u00f3s com eles) n\u00e3o querem nem sequer pensar nesta maneira de viver e de morrer. Por isso, n\u00e3o querem compreender o verdadeiro caminho do amor que Jesus ensina, e, porque n\u00e3o querem correr quaisquer riscos, n\u00e3o ousam sequer fazer perguntas.<\/p>\n<p>4. \u00c9 aqui que somos atingidos em cheio pela segunda vaga do texto de hoje. Chegados a Cafarnaum, e tendo entrado na casa (seguramente a casa de Pedro), somos confrontados com uma pergunta certeira de Jesus acerca do assunto que v\u00ednhamos a debater (<em>dialog\u00edzomai<\/em>) no caminho (Marcos 9,33). Mas se j\u00e1 antes n\u00e3o arrisc\u00e1mos perguntar nada a Jesus, agora tamb\u00e9m n\u00e3o nos atrevemos a responder. O narrador passa-nos duas informa\u00e7\u00f5es: que \u00abeles (como n\u00f3s) se calavam\u00bb (<em>esi\u00f4p\u00f4n<\/em>: imperf. de\u00a0<em>si\u00f4p\u00e1\u00f4<\/em>), implicando este imperfeito um sil\u00eancio continuado (1), e que tinham disputado (<em>dial\u00e9gomai<\/em>) no caminho uns com os outros sobre quem fosse o maior (2) (Marcos 9,34). Note-se que a pergunta de Jesus sup\u00f5e um debate de ideias (verbo\u00a0<em>dialog\u00edzomai<\/em>), mas a anota\u00e7\u00e3o do narrador deixa supor uma luta de interesses (verbo\u00a0<em>dial\u00e9gomai<\/em>). Note-se ainda o contraponto: enquanto Jesus ensina o caminho do amor humilde e oblativo, at\u00e9 ao fim, os seus disc\u00edpulos ocupam-se de grandezas.<\/p>\n<p>5. Neste momento, Jesus senta-se (modo enf\u00e1tico) e chama para si (modo enf\u00e1tico) os Doze, e diz-lhes (<em>l\u00e9gei<\/em>: pres. do verbo\u00a0<em>l\u00e9g\u00f4<\/em>), a eles e a n\u00f3s, num presente que ainda hoje ecoa no meio de n\u00f3s: \u00abSe algu\u00e9m quer ser o primeiro, ser\u00e1 o \u00faltimo de todos e o servo de todos\u00bb (Marcos 9,35). Entenda-se bem aquele \u00abde todos\u00bb, duas vezes dito, para evitar equ\u00edvocos. Anote-se tamb\u00e9m que, no Evangelho de Marcos, Jesus s\u00f3 se senta tr\u00eas vezes (4,1; 9,35; 13,3).<\/p>\n<p>6. E a ilustra\u00e7\u00e3o do Mestre, que continua sentado a ensinar, agora com gestos e palavras: recebeu um crian\u00e7a pequena (<em>paid\u00edon<\/em>), colocou-a no meio deles e de n\u00f3s, e disse: \u00abQuem receber uma destas crian\u00e7as pequeninas, no meu nome, recebe-me a Mim\u2026\u00bb (Marcos 9,36-37). Note-se aquele: \u00abNo meio\u00bb, que \u00e9 o lugar mais importante. Note-se tamb\u00e9m o \u00abNo meu nome\u00bb, que significa ao jeito de Jesus. Note-se ainda que Jesus n\u00e3o usa jogos de estat\u00edstica. Fala de\u00a0<em>uma<\/em>\u00a0crian\u00e7a apenas. E tamb\u00e9m deixa claro que, para se receber\u00a0<em>uma<\/em>\u00a0crian\u00e7a pequenina, s\u00e3o precisas m\u00e3os maternais, que acariciam e d\u00e3o vida, ao contr\u00e1rio das m\u00e3os dos homens que agarram e matam, j\u00e1 atr\u00e1s retratadas em Marcos 9,31. De resto, v\u00ea-se bem, em filigrana, que uma crian\u00e7a pequenina traduz todos os nossos irm\u00e3os dependentes, cuja vida depende de n\u00f3s, n\u00e3o nos sendo permitido, portanto, abandon\u00e1-los e voltar-lhes as costas.<\/p>\n<p>7. Tanto se pode aprender com Jesus \u00abna casa\u00bb e \u00abno caminho\u00bb. Aprendemos a descer de n\u00f3s abaixo, a abrir as nossas m\u00e3os fechadas e armadas, e a revestir-nos de gestos de amor novos, servi\u00e7ais, maternais.<\/p>\n<p>8. O justo Jesus caminha por entre o sofrimento, o desprezo e a zombaria. E assim tamb\u00e9m os seus disc\u00edpulos. O fim, por\u00e9m, \u00e9 a gl\u00f3ria da Ressurrei\u00e7\u00e3o. Um breve extrato do Livro da Sabedoria (2,12.17-20) faz-nos ver os \u00edmpios a conspirar de mil maneiras contra o justo, que os importuna com o seu comportamento, e a maquinar a sua morte, para se verem livres dele. N\u00e3o faltam os motivos de zombaria, afirmando que querem verificar se \u00e9 verdade o que justo diz, pois afirma que \u00e9 filho de Deus, e que Deus o assistir\u00e1 e libertar\u00e1 das m\u00e3os dos \u00edmpios (Sabedoria 2,18). Tudo semelhante \u00e0 ironia sarc\u00e1stica dos zombadores que passam junto da Cruz do Senhor (Marcos 15,29-32). Mas tamb\u00e9m \u00e9 oportuno ver Sabedoria 5,1-15, o quadro que forma um d\u00edptico com Sabedoria 2,1-20. Em 5,1-15, os \u00edmpios provocadores e zombadores reencontram-se, no dia do julgamento, lado a lado com o justo que maltrataram. Ao ver o justo de p\u00e9, apavorados e at\u00f3nitos, dir\u00e3o entre solu\u00e7os de ang\u00fastia: \u00abEste \u00e9 aquele de quem outrora nos r\u00edamos, de quem fizemos alvo de chacota, n\u00f3s, insensatos! Consider\u00e1vamos a sua vida uma loucura, e o seu fim infame. Como \u00e9 que agora \u00e9 contado entre os filhos de Deus, e partilha a sorte dos santos?\u00bb (Sabedoria 5,4-5). E confessam: \u00abSim, extravi\u00e1mo-nos do caminho da verdade, a luz da justi\u00e7a n\u00e3o brilhou para n\u00f3s, para n\u00f3s n\u00e3o nasceu o sol. Cans\u00e1mo-nos nas veredas da iniquidade e da perdi\u00e7\u00e3o\u2026\u00bb (Sabedoria 5,6-7).<\/p>\n<p>9. S\u00e3o Tiago 3,16-4,3 serve-nos tamb\u00e9m hoje um texto incisivo, que nos ajuda a ler o nosso mundo e o nosso cora\u00e7\u00e3o. Inveja e disc\u00f3rdia produzem desordem e a\u00e7\u00f5es perversas (3,16). Ao contr\u00e1rio, a Sabedoria do alto (<em>\u00e1n\u00f4then<\/em>) \u00e9 pura (<em>h\u00e1gn\u00ea<\/em>), pac\u00edfica, af\u00e1vel, conciliadora, misericordiosa, cheia de frutos bons, sem duplicidade nem hipocrisia (3,17). E depois, de forma penetrante e pedag\u00f3gica, pergunta S\u00e3o Tiago: \u00abDe onde v\u00eam as guerras e os conflitos entre v\u00f3s? N\u00e3o \u00e9 das vossas paix\u00f5es que lutam nos vossos membros? Cobi\u00e7ais, e nada tendes; ent\u00e3o, assassinais. Sois ciumentos, e nada conseguis; ent\u00e3o, entrais em conflitos e guerras\u00bb (4,1-2a). E desvenda este n\u00e3o ter: \u00abN\u00e3o tendes, porque n\u00e3o pedis\u00bb (4,2b). E ainda: \u00abPedis, e n\u00e3o recebeis, porque pedis mal\u00bb (4,3). As li\u00e7\u00f5es s\u00e3o muitas e importantes, e t\u00eam de ser objeto de profunda reflex\u00e3o.<\/p>\n<p>10. O Salmo 54 representa a t\u00edpica s\u00faplica b\u00edblica, em que se contam tr\u00eas atores: o \u00abeu\u00bb orante, \u00abeles\u00bb (os inimigos), e Deus. Tr\u00eas s\u00e3o tamb\u00e9m os tempos em que se desenrola a ora\u00e7\u00e3o: o passado feliz, o presente amargo, um futuro melhor, objeto de esperan\u00e7a. Entretanto, fica claro que Deus est\u00e1 sempre do lado do orante, e, por isso, o tempo est\u00e1 carregado de esperan\u00e7a. Os inimigos s\u00e3o descritos como estrangeiros, estranhos (<em>zar\u00eem<\/em>). Entenda-se: gente fora da comunidade e longe de Deus, que n\u00e3o respeita Deus nem a maneira de viver dos justos. Tamb\u00e9m este Salmo ajuda a reler, por um lado, toda a agressividade e zombaria que atravessa os textos de hoje, que a figura do \u00edmpio estulto incarna. Por outro lado, mostra tamb\u00e9m a seguran\u00e7a do justo.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. 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