{"id":2271230096,"date":"2024-11-17T00:00:00","date_gmt":"2024-11-17T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/326-vaticano\/13446-homilia-do-papa-no-dia-mundial-dos-pobres"},"modified":"2024-11-17T00:00:00","modified_gmt":"2024-11-17T00:00:00","slug":"homilia-do-papa-no-dia-mundial-dos-pobres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/homilia-do-papa-no-dia-mundial-dos-pobres\/","title":{"rendered":"Homilia do Papa no Dia Mundial dos Pobres"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/papa_sao_pedro_branco_181118071752.jpeg\"\/><\/p>\n<p><p><em>O Papa Francisco celebrou hoje a Eucaristia na Bas\u00edlica de S\u00e3o Pedro, no Vaticano. No VIII Dia Mundial dos Pobres o Papa pediu &#8220;esperan\u00e7a&#8221; no meio da &#8220;ang\u00fastia se o olhar se det\u00e9m nas cr\u00f3nicas dos acontecimentos&#8221; e lembrou que o papel dos crist\u00e3os \u00e9 &#8220;levar a esperan\u00e7a ao Mundo&#8221;<\/em><\/p>\n<p>Leia, na \u00edntegra, a homilia do Santo Padre<\/p>\n<p>As palavras que acab\u00e1mos de escutar poderiam suscitar em n\u00f3s sentimentos de ang\u00fastia. Na realidade, s\u00e3o um grande an\u00fancio de esperan\u00e7a. Concretamente, se por um lado Jesus parece descrever o estado de esp\u00edrito daqueles que viram a destrui\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m e pensam que o fim chegou, anuncia, ao mesmo tempo, algo de extraordin\u00e1rio: \u00e9 na hora da escurid\u00e3o e da desola\u00e7\u00e3o, quando tudo parece desmoronar-se, que Deus vem, que Deus se aproxima, que Deus nos re\u00fane para nos salvar.<\/p>\n<p>Jesus convida-nos a ter um olhar mais agu\u00e7ado, a ter olhos capazes de \u201cler por dentro\u201d os acontecimentos da hist\u00f3ria, para descobrir que, mesmo na ang\u00fastia dos nossos cora\u00e7\u00f5es e do nosso tempo, h\u00e1 uma esperan\u00e7a inabal\u00e1vel que resplandece. Por isso, neste Dia Mundial dos Pobres, detenhamo-nos precisamente sobre estas duas realidades: a ang\u00fastia e a esperan\u00e7a, que sempre duelam entre si na arena do nosso cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Primeiramente,\u00a0<em>a ang\u00fastia.\u00a0<\/em>\u00c9 um sentimento generalizado na nossa \u00e9poca, em que a comunica\u00e7\u00e3o social amplifica os problemas e as feridas, tornando o mundo mais inseguro e o futuro mais incerto. Tamb\u00e9m o Evangelho de hoje inicia com um quadro que projeta no cosmos a tribula\u00e7\u00e3o do povo, e f\u00e1-lo com uma linguagem apocal\u00edptica: \u00abo Sol vai se escurecer, e a Lua n\u00e3o brilhar\u00e1 mais, as estrelas come\u00e7ar\u00e3o a cair\u00bb\u00a0(<em>Mc\u00a0<\/em>13, 24-25), e assim por diante.<\/p>\n<p>Se o nosso olhar se det\u00e9m apenas na cr\u00f3nica dos acontecimentos, dentro de n\u00f3s a ang\u00fastia ganha terreno. Verdadeiramente, tamb\u00e9m hoje vemos o Sol escurecer e a Lua apagar-se, vemos a fome e a carestia que oprimem tantos irm\u00e3os e irm\u00e3s, vemos os horrores da guerra e a morte de inocentes; e, perante este cen\u00e1rio, corremos o risco de afundarmos no des\u00e2nimo e de n\u00e3o nos apercebermos da presen\u00e7a de Deus no drama da hist\u00f3ria. Assim, condenamo-nos \u00e0 impot\u00eancia: vemos crescer \u00e0 nossa volta a injusti\u00e7a que causa a dor dos pobres, mas juntamo-nos \u00e0 corrente resignada daqueles que, por comodismo ou por pregui\u00e7a, pensam que \u201co mundo \u00e9 assim mesmo\u201d e que \u201cn\u00e3o h\u00e1 nada que eu possa fazer\u201d. Desse modo, at\u00e9 a pr\u00f3pria f\u00e9 crist\u00e3 \u00e9 reduzida a uma devo\u00e7\u00e3o in\u00f3cua, que n\u00e3o incomoda os poderes deste mundo e n\u00e3o gera um compromisso concreto de caridade. E enquanto uma parte do mundo \u00e9 condenada a viver \u00e0 margem da hist\u00f3ria, enquanto crescem as desigualdades e a economia penaliza os mais fracos, enquanto a sociedade se consagra \u00e0 idolatria do dinheiro e do consumo, acontece ent\u00e3o que os pobres e os exclu\u00eddos n\u00e3o podem fazer outra coisa sen\u00e3o continuar a esperar (cf. Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica\u00a0<em><a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium.html#N%C3%A3o_a_uma_economia_da_exclus%C3%A3o\">Evangelii gaudium<\/a><\/em>, 54).<\/p>\n<p>Mas eis que Jesus, no meio desse quadro apocal\u00edtico, acende\u00a0<em>a esperan\u00e7a<\/em>. Ele abre o horizonte, alarga o nosso olhar para que aprendamos a perceber, mesmo na precariedade e na dor do mundo, a presen\u00e7a do amor de Deus que se faz pr\u00f3ximo, que n\u00e3o nos abandona, que atua para a nossa salva\u00e7\u00e3o. Com efeito, exatamente quando o Sol escurece, quando a Lua deixa de brilhar e as estrelas caem do c\u00e9u, \u00e9 que o Evangelho nos diz que \u00abvereis\u00a0<em>o Filho do Homem vindo nas nuvens com grande poder e gl\u00f3ria<\/em>\u00bb; e que Ele \u00abreunir\u00e1 os eleitos de Deus, de uma extremidade \u00e0 outra da terra\u00bb (vv. 26-27).<\/p>\n<p>Com estas palavras, Jesus aponta, inicialmente, para a sua morte, que ter\u00e1 lugar pouco depois. No Calv\u00e1rio, realmente, o Sol escurecer\u00e1 e as trevas descer\u00e3o sobre o mundo; mas, nesse preciso momento, o Filho do Homem vir\u00e1 sobre as nuvens, pois o poder da sua ressurrei\u00e7\u00e3o destruir\u00e1 as cadeias da morte, a vida eterna de Deus surgir\u00e1 da escurid\u00e3o e um mundo novo nascer\u00e1 das ru\u00ednas de uma hist\u00f3ria ferida pelo mal.<\/p>\n<p>Irm\u00e3os e irm\u00e3s, esta \u00e9 a esperan\u00e7a que Jesus nos quer transmitir. E f\u00e1-lo tamb\u00e9m atrav\u00e9s de uma bela imagem: olhai para a figueira, diz Ele, porque \u00abquando seus ramos ficam verdes e as folhas come\u00e7am a brotar, sabeis que o ver\u00e3o est\u00e1 perto\u00bb (v. 28). Do mesmo modo, tamb\u00e9m n\u00f3s somos chamados a ler as situa\u00e7\u00f5es da nossa hist\u00f3ria terrena: onde parece haver apenas injusti\u00e7a, dor e pobreza, precisamente naquele momento dram\u00e1tico, o Senhor aproxima-se para nos libertar da escravid\u00e3o e fazer brilhar a vida (cf. v. 29). Aproxima-se com a nossa proximidade crist\u00e3, com a nossa fraternidade crist\u00e3. N\u00e3o se trata somente de jogar uma moeda nas m\u00e3os daquele que passa necessidade. A quem d\u00e1 esmola eu pergunto duas coisas: Tocas as m\u00e3os das pessoas, ou jogas a moeda sem tocar (em quem a recebe)? Olhas nos olhos da pessoa a quem ajudas, ou viras o olhar para outro lado?<\/p>\n<p>E somos n\u00f3s, seus disc\u00edpulos, que gra\u00e7as ao Esp\u00edrito Santo podemos semear esta esperan\u00e7a no mundo. Somos n\u00f3s que podemos e devemos acender luzes de justi\u00e7a e de solidariedade, enquanto se adensam as sombras de um mundo fechado (cf. Carta enc.<em>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/encyclicals\/documents\/papa-francesco_20201003_enciclica-fratelli-tutti.html\">Fratelli tutti<\/a>, 9-55<\/em>). Somos n\u00f3s que a sua Gra\u00e7a faz brilhar, \u00e9 a nossa vida impregnada de compaix\u00e3o e de caridade que se torna sinal da presen\u00e7a do Senhor, sempre pr\u00f3ximo do sofrimento dos pobres, para aliviar as suas feridas e mudar a sua sorte.<\/p>\n<p>Irm\u00e3os e irm\u00e3s, n\u00e3o nos esque\u00e7amos: a esperan\u00e7a crist\u00e3, que se realizou em Jesus e se concretiza no seu Reino, precisa de n\u00f3s e do nosso empenho, de uma f\u00e9 operosa na caridade, de crist\u00e3os que n\u00e3o passam para o outro lado do caminho. Eu observava uma fotografia feita por um fot\u00f3grafo romano: um casal adulto, quase anci\u00e3o, sa\u00eda de um restaurante no inverno; a senhora ia bem coberta com um casaco de pele e o homem tamb\u00e9m ia bem abrigado; na porta estava uma senhora pobre, deitada sobre o pavimento, pedindo esmolas; e o casal olhava para o outro lado. Isto acontece todos os dias. Perguntemo-nos: quando vejo a pobreza, a necessidade dos demais, olho para o outro lado? Um te\u00f3logo do s\u00e9culo XX dizia que a f\u00e9 crist\u00e3 deve gerar em n\u00f3s uma \u201cm\u00edstica de olhos abertos\u201d: n\u00e3o uma espiritualidade que foge do mundo, mas, pelo contr\u00e1rio, uma f\u00e9 que abre os olhos aos sofrimentos do mundo e \u00e0s afli\u00e7\u00f5es dos pobres, para exercer a mesma compaix\u00e3o de Cristo (cf. J. B. Metz,\u00a0<em>M\u00edstica de olhos abertos<\/em>, Paulus 2013). Diante dos pobres, diante daqueles que n\u00e3o tem trabalho, que n\u00e3o tem o que comer, que s\u00e3o marginalizados pela sociedade, tenho a mesma compaix\u00e3o de Cristo?<\/p>\n<p>E n\u00e3o devemos olhar apenas para os grandes problemas da pobreza mundial, mas para o pouco que todos n\u00f3s podemos fazer todos os dias: com o nosso estilo de vida, com o cuidado e a aten\u00e7\u00e3o pelo ambiente em que vivemos, com a busca tenaz da justi\u00e7a, com a partilha dos nossos bens com os mais pobres, com o engajamento social e pol\u00edtico para melhorar a realidade que nos rodeia. Pode parecer-nos pouco, mas o nosso pouco ser\u00e1 como as primeiras folhas que brotam na figueira: o nosso pouco ser\u00e1 uma antecipa\u00e7\u00e3o do ver\u00e3o que est\u00e1 pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Car\u00edssimos, neste Dia Mundial dos Pobres, gostaria de recordar uma advert\u00eancia do Cardeal Martini. Ele dizia que devemos ter cuidado ao pensar que existe primeiro a Igreja, j\u00e1 s\u00f3lida em si mesma, e depois os pobres dos quais escolhemos cuidar. Na realidade, tornamo-nos a Igreja de Jesus na medida em que servimos os pobres, pois somente assim \u00aba Igreja \u201ctorna-se\u201d ela mesma, isto \u00e9, a Igreja torna-se uma casa aberta a todos, um lugar da compaix\u00e3o de Deus pela vida de cada homem\u00bb (C. M. Martini,\u00a0<em>Citt\u00e0 senza mura. Lettere e discorsi alla diocesi 1984<\/em>, Bolonha 1985, 350).<\/p>\n<p>Digo-o \u00e0 Igreja, digo-o aos governos dos Estados e \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es internacionais, digo-o a todos e a cada um: por favor, n\u00e3o nos esque\u00e7amos dos pobres.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o Educris a partir do original em italiano<\/p>\n<p>Imagem: Vatican Media<\/p>\n<p>Educris|17.11.2024<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Papa Francisco celebrou hoje a Eucaristia na Bas\u00edlica de S\u00e3o Pedro, no Vaticano. 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