{"id":2311742019,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/327-divulgacao\/7234-colombia-dignidade-da-pessoa-e-direitos-humanos"},"modified":"2025-11-07T16:34:09","modified_gmt":"2025-11-07T16:34:09","slug":"colombia-dignidade-da-pessoa-e-direitos-humanos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/colombia-dignidade-da-pessoa-e-direitos-humanos\/","title":{"rendered":"Col\u00f4mbia: \u00abDignidade da pessoa e direitos humanos\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/papa_francisco_ultima_missa_colombia_170911041225.png\" \/><\/p>\n<p><p><strong>Na \u00faltima eucaristia a que presidiu na Col\u00f4mbia o Papa Francisco reafirmou a necessidade de se respeitar a &#8220;dignidade de toda a pessoa humana&#8221; e convidou os colombianos a &#8220;darem o primeiro passo e irem ao encontro dos irm\u00e3os.<\/strong><\/p>\n<p>Leia, na \u00edntegra, a homilia do Papa Francisco.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Celebro a \u00faltima Eucaristia da viagem\u00a0nesta cidade, que foi chamada \u00aba her\u00f3ica\u00bb pela sua ten\u00e1cia \u2013 h\u00e1 duzentos anos \u2013 na defesa da liberdade obtida. E, desde h\u00e1 trinta e dois anos, Cartagena das \u00cdndias \u00e9 tamb\u00e9m a sede dos Direitos Humanos na Col\u00f4mbia, porque aqui se valoriza o facto de que, \u00abgra\u00e7as ao grupo mission\u00e1rio formado pelos sacerdotes jesu\u00edtas Pedro Claver y Corber\u00f3, Alonso de Sandoval e o irm\u00e3o Nicol\u00e1s Gonz\u00e1lez, acompanhados por muitos filhos da cidade de Cartagena das \u00cdndias, no s\u00e9culo XVII, nasceu a preocupa\u00e7\u00e3o por aliviar a situa\u00e7\u00e3o dos oprimidos de ent\u00e3o, especialmente a dos escravos, para quem reclamaram bom tratamento e a liberdade\u00bb (Congresso da Col\u00f4mbia, 1985, Lei 95-art. 1).<\/p>\n<p>Aqui, no Santu\u00e1rio de S\u00e3o Pedro Claver, onde de forma cont\u00ednua e sistem\u00e1tica se procede \u00e0 verifica\u00e7\u00e3o, aprofundamento e promo\u00e7\u00e3o dos avan\u00e7os na vig\u00eancia dos direitos humanos na Col\u00f4mbia, a Palavra de Deus hoje fala-nos de perd\u00e3o, corre\u00e7\u00e3o, comunidade e ora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No quarto discurso do Evangelho de Mateus, Jesus fala-nos a n\u00f3s que decidimos apostar na comunidade, que valorizamos a vida em comum e sonhamos com um projeto que inclua a todos. O texto anterior \u00e9 o do bom pastor que deixa as noventa e nove ovelhas para ir atr\u00e1s da perdida, e este aroma perfuma todo o discurso que acabamos de ouvir: n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m t\u00e3o perdido que n\u00e3o mere\u00e7a a nossa solicitude, a nossa proximidade e o nosso perd\u00e3o. Ent\u00e3o, a partir desta perspectiva, compreende-se que uma falta, um pecado cometido por algu\u00e9m nos interpele a todos, mas a primeira pessoa envolvida \u00e9 a v\u00edtima do pecado do irm\u00e3o; e ela \u00e9 chamada a tomar a iniciativa para que n\u00e3o se perca quem lhe fez mal. Tomar a iniciativa: quem toma a iniciativa \u00e9 sempre o mais corajoso.<\/p>\n<p>Nestes dias, ouvi muitos testemunhos de pessoas que sa\u00edram ao encontro de quem lhes fizera mal. Feridas terr\u00edveis que pude contemplar nos seus pr\u00f3prios corpos, perdas irrepar\u00e1veis pelas quais se continua a chorar, e contudo aquelas pessoas sa\u00edram, deram o primeiro passo num caminho diferente daqueles j\u00e1 percorridos. Porque, h\u00e1 dec\u00e9nios que a Col\u00f4mbia multiplica as tentativas \u00e0 procura da paz e, como ensina Jesus, n\u00e3o foi suficiente que duas partes se encontrassem e dialogassem; foi necess\u00e1rio incorporar muitos mais atores neste di\u00e1logo reparador dos pecados. \u00abSe [o teu irm\u00e3o] n\u00e3o te der ouvidos, toma contigo mais uma ou duas pessoas\u00bb (<em>Mt<\/em>\u00a018, 16): diz-nos o Senhor no Evangelho.<\/p>\n<p>Aprendemos que estes caminhos de pacifica\u00e7\u00e3o, de primazia da raz\u00e3o sobre a vingan\u00e7a, de delicada harmonia entre a pol\u00edtica e o direito, n\u00e3o podem prescindir das pessoas implicadas nos processos. N\u00e3o basta o desenho de quadros normativos e acordos institucionais entre grupos pol\u00edticos ou econ\u00f3micos de boa vontade. Jesus encontra a solu\u00e7\u00e3o para o dano causado no encontro pessoal entre as partes. Al\u00e9m disso, \u00e9 sempre enriquecedor incorporar nos nossos processos de paz a experi\u00eancia de setores que, em muitas ocasi\u00f5es, foram deixados de lado, para que sejam precisamente as comunidades a revestir os processos de mem\u00f3ria coletiva. \u00abO autor principal, o sujeito hist\u00f3rico deste processo, \u00e9 a gente e a sua cultura, n\u00e3o uma classe, uma frac\u00e7\u00e3o, um grupo, uma elite [mas a gente toda e a sua cultura]. N\u00e3o precisamos de um projecto de poucos para poucos, ou de uma minoria esclarecida ou testemunhal que se aproprie de um sentimento coletivo. Trata-se de um acordo para viver juntos, de um pacto social e cultural\u00bb (cf. Francisco, Exort. ap.\u00a0<a href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_exhortations\/documents\/papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium.html#IV._O_di&amp;\"><em>Evangelii gaudium<\/em>, 239<\/a>).<\/p>\n<p>Podemos dar uma grande contribui\u00e7\u00e3o para este novo passo que quer dar a Col\u00f4mbia. Jesus indica-nos que este caminho de reinser\u00e7\u00e3o na comunidade come\u00e7a por um di\u00e1logo a dois. Nada poder\u00e1 substituir este encontro reparador; nenhum processo coletivo dispensa do desafio de nos encontrarmos, de esclarecer, de perdoar. As feridas profundas da hist\u00f3ria precisam necessariamente de inst\u00e2ncias onde se fa\u00e7a justi\u00e7a, se d\u00ea possibilidade \u00e0s v\u00edtimas de conhecer a verdade, seja devidamente reparado o dano e se atue claramente para evitar que se repitam tais crimes. Mas tudo isto deixa-nos apenas no limiar das exig\u00eancias crist\u00e3s. A n\u00f3s, crist\u00e3os, \u00e9-nos exigido gerar \u00ab<em>a partir de baixo<\/em>\u00bb uma mudan\u00e7a cultural: \u00e0 cultura da morte, da viol\u00eancia, responder com a cultura da vida e do encontro. J\u00e1 no-lo dizia aquele escritor t\u00e3o querido para v\u00f3s e t\u00e3o querido para todos: \u00abEste desastre cultural n\u00e3o se remedeia com chumbo nem com dinheiro, mas com uma educa\u00e7\u00e3o para a paz, constru\u00edda com amor sobre as ru\u00ednas dum pa\u00eds em chamas onde nos levantamos cedo para continuar a matar-nos uns aos outros&#8230; uma revolu\u00e7\u00e3o leg\u00edtima de paz que canalize para a vida a imensa energia criativa que, durante quase dois s\u00e9culos, usamos para nos destruirmos e que reivindique e exalte o predom\u00ednio da imagina\u00e7\u00e3o\u00bb\u00a0(Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez,\u00a0<em>Mensagem sobre a paz<\/em>, 1998).<\/p>\n<p>Quanto atuamos n\u00f3s a favor do encontro, da paz? Quanta omiss\u00e3o houve da nossa parte, permitindo que a barb\u00e1rie se fizesse carne na vida do nosso povo? Jesus manda confrontar-nos com os modelos de comportamento, os estilos de vida que fazem mal ao corpo social, que destroem a comunidade. Quantas vezes se \u00abnormalizam\u00bb \u2013 se vivem como uma coisa normal \u2013 processos de viol\u00eancia, exclus\u00e3o social, sem que a nossa voz se erga nem as nossas m\u00e3os acusem profeticamente! Ao lado de S\u00e3o Pedro Claver, havia milhares de crist\u00e3os, muitos deles consagrados; mas s\u00f3 um punhado iniciou a cultura contracorrente do encontro. S\u00e3o Pedro soube restaurar a dignidade e a esperan\u00e7a de centenas de milhares de negros e escravos que chegavam em condi\u00e7\u00f5es absolutamente desumanas, cheios de pavor, com todas as suas esperan\u00e7as perdidas. N\u00e3o possu\u00eda t\u00edtulos acad\u00e9micos de renome; chegou-se mesmo a afirmar que era \u00abmed\u00edocre\u00bb de intelig\u00eancia, mas teve o \u00abg\u00e9nio\u00bb de viver cabalmente o Evangelho, de ir ao encontro daqueles que os outros consideravam apenas um desperd\u00edcio. S\u00e9culos mais tarde, a senda deste mission\u00e1rio e ap\u00f3stolo da Companhia de Jesus foi seguida por Santa Maria Bernarda B\u00fctler, que dedicou a sua vida ao servi\u00e7o dos pobres e marginalizados nesta mesma cidade de Cartagena.[<a href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/homilies\/2017\/documents\/papa-francesco_20170910_omelia-viaggioapostolico-colombiacartagena.html#1\">1<\/a>]<\/p>\n<p>No encontro entre n\u00f3s, descobrimos novamente os nossos direitos, recriamos a vida para voltar a ser verdadeiramente humana. \u00abA casa comum de todos os homens deve continuar a erguer-se sobre uma reta compreens\u00e3o da fraternidade universal e sobre o respeito pela sacralidade de cada vida humana, de cada homem e de cada mulher; dos pobres, dos idosos, das crian\u00e7as, dos doentes, dos nascituros, dos desempregados, dos abandonados, daqueles que s\u00e3o vistos como descart\u00e1veis porque considerados meramente como n\u00fameros desta ou daquela estat\u00edstica. A casa comum de todos os homens deve edificar-se tamb\u00e9m sobre a compreens\u00e3o de uma certa sacralidade da natureza criada\u00bb\u00a0(Francisco,<a href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/speeches\/2015\/september\/documents\/papa-francesco_20150925_onu-visita.html\">\u00a0<em>Discurso \u00e0s Na\u00e7\u00f5es Unidas<\/em><\/a>, 25\/IX\/2015).<\/p>\n<p>No Evangelho, Jesus prev\u00ea tamb\u00e9m a possibilidade de o outro se fechar, se negar a mudar, persistir no seu mal. N\u00e3o podemos negar que h\u00e1 pessoas que persistem em pecados que ferem a conviv\u00eancia e a comunidade: \u00abPenso no drama dilacerante da droga com a qual se lucra desafiando leis morais e civis\u00bb (Francisco,\u00a0<a href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/messages\/peace\/documents\/papa-francesco_20131208_messaggio-xlvii-giornata-mondiale-pace-2014.html\"><em>Mensagem para o Dia Mundial da Paz<\/em>\u00a0de 2014<\/a>, 8). Este mal amea\u00e7a diretamente a dignidade da pessoa humana e, gradualmente, rompe a imagem que o Criador moldou em n\u00f3s. Condeno firmemente esta praga que apagou tantas vidas e que \u00e9 mantida e sustentada por pessoas sem escr\u00fapulos. N\u00e3o se pode jogar com a vida do nosso irm\u00e3o, nem manipular a sua dignidade. Lan\u00e7o um apelo para que se procurem as formas de p\u00f4r fim ao narcotr\u00e1fico, que para nada mais serve sen\u00e3o para semear morte por todo o lado, destro\u00e7ando tantas esperan\u00e7as e destruindo tantas fam\u00edlias. Penso tamb\u00e9m noutro drama: \u00abna devasta\u00e7\u00e3o dos recursos naturais e na polui\u00e7\u00e3o em curso, na trag\u00e9dia da explora\u00e7\u00e3o do trabalho; penso nos tr\u00e1ficos il\u00edcitos de dinheiro como tamb\u00e9m na especula\u00e7\u00e3o financeira que, muitas vezes, assume carateres predadores e nocivos para inteiros sistemas econ\u00f3micos e sociais, lan\u00e7ando na pobreza milh\u00f5es de homens e mulheres; penso na prostitui\u00e7\u00e3o que diariamente ceifa v\u00edtimas inocentes, sobretudo entre os mais jovens, roubando-lhes o futuro; penso no abom\u00ednio do tr\u00e1fico de seres humanos, nos crimes e abusos contra menores, na escravid\u00e3o que ainda espalha o seu horror em muitas partes do mundo, na trag\u00e9dia frequentemente ignorada dos emigrantes sobre quem se especula indignamente na ilegalidade\u00bb (<em><a href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/messages\/peace\/documents\/papa-francesco_20131208_messaggio-xlvii-giornata-mondiale-pace-2014.html\">Ibidem<\/a><\/em>, 8); e especula-se at\u00e9 com uma \u00abass\u00e9tica legalidade\u00bb pacifista que n\u00e3o tem em conta a carne do irm\u00e3o, que \u00e9 a carne de Cristo. Tamb\u00e9m para isto devemos estar preparados e solidamente fundados em princ\u00edpios de justi\u00e7a que, em nada, diminuem a caridade. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel conviver em paz, sem fazer nada contra aquilo que corrompe a vida e atenta contra ela. A prop\u00f3sito, lembramos todos aqueles que, ousada e incansavelmente, trabalharam e at\u00e9 perderam a vida em defesa e prote\u00e7\u00e3o dos direitos da pessoa humna e da sua dignidade. Como a eles, a hist\u00f3ria pede-nos para assumirmos um compromisso definitivo na defesa dos direitos humanos, aqui em Cartagena das \u00cdndias, lugar que escolhestes como sede nacional da defesa deles.<\/p>\n<p>Por fim, Jesus pede-nos para rezarmos juntos; que a nossa ora\u00e7\u00e3o seja sinf\u00f3nica, com matizes pessoais, acentua\u00e7\u00f5es diferentes, mas que se erga de maneira concorde num \u00fanico grito. Estou certo de que hoje rezamos juntos pelo resgate daqueles que erraram e n\u00e3o pela sua destrui\u00e7\u00e3o, pela justi\u00e7a e n\u00e3o pela vingan\u00e7a, pela repara\u00e7\u00e3o na verdade e n\u00e3o no seu esquecimento. Rezamos para cumprir o lema desta visita: \u00abDemos o primeiro passo\u00bb, e que este primeiro passo seja numa dire\u00e7\u00e3o comum.<\/p>\n<p>\u00abDar o primeiro passo\u00bb \u00e9 sobretudo ir ao encontro dos outros com Cristo, o Senhor. Ele sempre nos pede para darmos um passo decidido e seguro rumo aos irm\u00e3os, renunciando \u00e0 pretens\u00e3o de sermos perdoados sem perdoar, de sermos amados sem amar. Se a Col\u00f4mbia quer uma paz est\u00e1vel e duradoura, deve dar urgentemente um passo nesta dire\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a do bem comum, da equidade, da justi\u00e7a, do respeito pela natureza humana e as suas exig\u00eancias. S\u00f3 se ajudarmos a desatar os n\u00f3s da viol\u00eancia, \u00e9 que desenredaremos a complexa teia dos conflitos: \u00e9-nos pedido para darmos o passo do encontro com os irm\u00e3os, tendo a coragem duma corre\u00e7\u00e3o que n\u00e3o quer expulsar mas integrar; \u00e9-nos pedido para sermos caridosamente firmes naquilo que n\u00e3o \u00e9 negoci\u00e1vel; em suma, a exig\u00eancia \u00e9 construir a paz \u00abfalando, n\u00e3o com a l\u00edngua, mas com as m\u00e3os e as obras\u00bb (S\u00e3o Pedro Claver), e juntos erguermos os olhos ao c\u00e9u: Jesus Cristo \u00e9 capaz de desatar aquilo que nos parecia imposs\u00edvel; Ele prometeu acompanhar-nos at\u00e9 ao fim dos tempos, e n\u00e3o deixar\u00e1 est\u00e9ril um esfor\u00e7o t\u00e3o grande.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong><br \/><\/strong><\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na \u00faltima eucaristia a que presidiu na Col\u00f4mbia o Papa Francisco reafirmou a necessidade de se respeitar a 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