{"id":2318437138,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/326-vaticano\/9824-mensagem-do-papa-francisco-a-75-assembleia-geral-da-onu-texto-integral"},"modified":"2025-11-07T16:34:37","modified_gmt":"2025-11-07T16:34:37","slug":"mensagem-do-papa-francisco-a-75a-assembleia-geral-da-onu-texto-integral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/mensagem-do-papa-francisco-a-75a-assembleia-geral-da-onu-texto-integral\/","title":{"rendered":"Mensagem do Papa Francisco \u00e0 75\u00aa Assembleia geral da ONU (texto integral)"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/papa_assembleia_200926095635-1.jpg\" \/><\/p>\n<p><p><em>Videomensagem do Papa Francisco por ocasi\u00e3o da 75\u00aa Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas<\/em><\/p>\n<p>Senhor Presidente:<\/p>\n<p>Que a paz esteja convosco!<\/p>\n<p>Sa\u00fado-o cordialmente, Senhor Presidente, e a todas as delega\u00e7\u00f5es que participam nesta significativa 75\u00aa Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas. Em particular, dirijo as minhas sauda\u00e7\u00f5es ao Secret\u00e1rio-Geral, senhor Ant\u00f3nio Guterres, aos Chefes de Estado e de Governo participantes, e a todos os que acompanham a Assembleia Geral.<\/p>\n<p>O septuag\u00e9simo quinto anivers\u00e1rio da ONU \u00e9 uma oportunidade para reiterar o desejo da Santa S\u00e9 de que esta Organiza\u00e7\u00e3o seja um verdadeiro sinal e instrumento de unidade entre os Estados e de servi\u00e7o a toda a fam\u00edlia humana [1].<\/p>\n<p>Atualmente o nosso mundo v\u00ea-se afetado pela pandemia COVID-19, que causou a perda de muitas vidas. Esta crise est\u00e1 a mudar o nosso modo de vida, questionando os nossos sistemas econ\u00f3micos, de sa\u00fade e sociais, e expondo a nossa fragilidade como criaturas.<\/p>\n<p>Com efeito a pandemia convoca-nos \u00aba tomar este tempo de prova como um momento de elei\u00e7\u00e3o [&#8230;]: o tempo de escolher entre o que realmente conta e o que \u00e9 passageiro, para separar o que \u00e9 necess\u00e1rio do que n\u00e3o \u00e9\u00bb. [2]. Pode representar uma oportunidade real de convers\u00e3o, transforma\u00e7\u00e3o, de repensar o nosso modo de vida e os nossos sistemas econ\u00f3micos e sociais, que est\u00e3o a aumentar o fosso entre ricos e pobres, devido a uma distribui\u00e7\u00e3o injusta dos recursos. Mas tamb\u00e9m pode ser uma possibilidade para uma &#8220;retirada defensiva\u201d com caracter\u00edsticas individualistas e elitistas.<\/p>\n<p>Estamos diante, portanto, da escolha entre um de dois caminhos poss\u00edveis: um leva ao fortalecimento do multilateralismo, express\u00e3o de uma corresponsabilidade global renovada, uma solidariedade baseada na justi\u00e7a e no cumprimento da paz e da unidade da fam\u00edlia humana, projeto de Deus para o mundo; a outra d\u00e1 prefer\u00eancia a atitudes de autossufici\u00eancia, nacionalismo, protecionismo, individualismo e isolamento, deixando de fora os mais pobres, os mais vulner\u00e1veis, os habitantes das periferias existenciais. E ser\u00e1 certamente prejudicial para toda a comunidade, causando automutila\u00e7\u00e3o a todos. E isto n\u00e3o deve prevalecer.<\/p>\n<p>A pandemia destacou a necessidade urgente de promover a sa\u00fade p\u00fablica e de realizar o direito de todos aos cuidados m\u00e9dicos b\u00e1sicos [3]. Portanto, renovo o meu apelo aos respons\u00e1veis pol\u00edticos e ao setor privado para que tomem as medidas apropriadas para garantir o acesso \u00e0s vacinas COVID-19 e \u00e0s tecnologias essenciais necess\u00e1rias para cuidar dos doentes. E se se tem de privilegiar algu\u00e9m, que esse seja o mais pobre, o mais vulner\u00e1vel, aquele que normalmente \u00e9 discriminado por n\u00e3o ter poder nem recursos econ\u00f3micos.<\/p>\n<p>A crise atual mostrou-nos tamb\u00e9m que a solidariedade n\u00e3o pode ser uma palavra ou promessa vazia. Antes do mais, mostra-nos a import\u00e2ncia de evitar a tenta\u00e7\u00e3o de ultrapassar os nossos limites naturais. \u00abA liberdade humana \u00e9 capaz de limitar a t\u00e9cnica, orientando-a e colocando-a ao servi\u00e7o de outro tipo de progresso mais saud\u00e1vel, mais humano, mais social e mais abrangente\u00bb [4]. Dever\u00edamos tamb\u00e9m ter todos estes aspetos em considera\u00e7\u00e3o nas discuss\u00f5es sobre o complexo assunto da intelig\u00eancia artificial (IA).<\/p>\n<p>Pensando nisto, penso tamb\u00e9m nos efeitos sobre o trabalho, setor desestabilizado por um mercado de trabalho cada vez mais movido pela incerteza e pela \u201crobotiza\u00e7\u00e3o\u201d generalizada. \u00c9 particularmente necess\u00e1rio encontrar novas formas de trabalho que sejam verdadeiramente capazes de realizar as potencialidades humanas e que, ao mesmo tempo, afirmem a nossa dignidade. Para garantir o trabalho decente, \u00e9 preciso mudar o paradigma econ\u00f3mico dominante, que visa apenas aumentar os lucros das empresas. Oferecer empregos a mais pessoas deve ser um dos principais objetivos de cada empregador, um dos crit\u00e9rios para o sucesso da atividade produtiva. O progresso tecnol\u00f3gico \u00e9 \u00fatil e necess\u00e1rio desde que sirva para tornar o trabalho das pessoas mais digno, seguro, menos pesado e penoso.<\/p>\n<p>E tudo isto exige uma mudan\u00e7a de rumo, e para isso j\u00e1 temos os recursos e temos os meios culturais e tecnol\u00f3gicos e temos uma consci\u00eancia social. No entanto, essa mudan\u00e7a exige um arcabou\u00e7o \u00e9tico mais forte, capaz de superar a \u00abt\u00e3o difundida e inconscientemente consolidada &#8216;cultura do descarte&#8217;\u00bb [5].<\/p>\n<p>Na origem desta cultura de descarte est\u00e1 um grande desrespeito pela dignidade humana, uma promo\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica com vis\u00f5es reducionistas da pessoa, uma nega\u00e7\u00e3o da universalidade dos seus direitos fundamentais e um desejo de poder e controlo absolutos que domina a sociedade moderna, hoje. Chamemo-lo pelo nome: isto tamb\u00e9m \u00e9 um atentado contra a humanidade.<\/p>\n<p>Na verdade, \u00e9 doloroso ver quantos direitos fundamentais continuam a ser violados impunemente. A lista destas viola\u00e7\u00f5es \u00e9 muito longa e traz-nos a terr\u00edvel imagem de uma humanidade violada, ferida, privada de dignidade, liberdade e possibilidade de desenvolvimento. Nesta imagem, tamb\u00e9m os crentes religiosos continuam a sofrer todos os tipos de persegui\u00e7\u00e3o, incluindo genoc\u00eddio por causa das suas cren\u00e7as. Al\u00e9m disso, entre os religiosos, n\u00f3s, crist\u00e3os, somos v\u00edtimas: quantos sofrem no mundo, \u00e0s vezes obrigados a fugir das suas terras ancestrais, isolados da sua rica hist\u00f3ria e cultura.<\/p>\n<p>Devemos tamb\u00e9m admitir que as crises humanit\u00e1rias se tornaram o <em>status quo<\/em>, onde os direitos \u00e0 vida, \u00e0 liberdade e \u00e0 seguran\u00e7a pessoal n\u00e3o s\u00e3o garantidos. De facto, conflitos em todo o mundo mostram que o uso de armas explosivas, especialmente em \u00e1reas povoadas, tem um impacto humanit\u00e1rio dram\u00e1tico a longo prazo. Neste sentido, as armas convencionais est\u00e3o a tornar-se cada vez menos \u201cconvencionais\u201d e cada vez mais \u201carmas de destrui\u00e7\u00e3o em massa\u201d, arruinando cidades, escolas, hospitais, locais religiosos, infraestruturas e servi\u00e7os b\u00e1sicos para a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, muitos s\u00e3o for\u00e7ados a deixar as suas casas. Refugiados, migrantes e deslocados internos nos pa\u00edses de origem, em tr\u00e2nsito e sem destino, muitas vezes sofrem o abandono, sem oportunidade de melhorar a sua situa\u00e7\u00e3o de vida ou da sua fam\u00edlia. Pior ainda, milhares s\u00e3o intercetados no mar e devolvidos \u00e0 for\u00e7a aos campos de deten\u00e7\u00e3o, onde enfrentam tortura e abusos. Muitos s\u00e3o v\u00edtimas de tr\u00e1fico, escravid\u00e3o sexual ou trabalho for\u00e7ado, explorados em trabalhos degradantes, sem um sal\u00e1rio justo. O que \u00e9 intoler\u00e1vel, por\u00e9m, \u00e9 hoje uma realidade que muitos ignoram intencionalmente!<\/p>\n<p>Os muitos esfor\u00e7os internacionais importantes para responder a estas crises come\u00e7am com uma grande promessa, incluindo os dois Pactos Globais sobre Refugiados e para a Migra\u00e7\u00e3o, mas muitos carecem do apoio pol\u00edtico necess\u00e1rio para ter sucesso. Outros falham porque os estados, individualmente, fogem das suas responsabilidades e compromissos. Por\u00e9m, a crise atual \u00e9 uma oportunidade: \u00e9 uma oportunidade para a ONU, \u00e9 uma oportunidade para gerar uma sociedade mais fraterna e solid\u00e1ria.<\/p>\n<p>Isto inclui reconsiderar o papel das institui\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas e financeiras, como as de Bretton-Woods, que devem responder \u00e0 crescente desigualdade entre os super-ricos e os permanentemente pobres. Um modelo econ\u00f3mico que promove a subsidiariedade, apoia o desenvolvimento econ\u00f3mico ao n\u00edvel local e investe em educa\u00e7\u00e3o e infraestruturas que beneficiem as comunidades locais, proporcionar\u00e1 a base para o mesmo sucesso econ\u00f3mico e, ao mesmo tempo, para a renova\u00e7\u00e3o da comunidade e da na\u00e7\u00e3o em geral. E aqui renovo o meu apelo para que \u00abconsiderando as circunst\u00e2ncias [&#8230;] sejam enfrentadas as grandes necessidades do momento &#8211; por todos os pa\u00edses, reduzindo, ou mesmo perdoando, a d\u00edvida que pesa nos or\u00e7amentos dos mais pobres\u00bb [6 ]<\/p>\n<p>A comunidade internacional tem de esfor\u00e7ar-se para acabar com as injusti\u00e7as econ\u00f3micas. \u00abQuando as organiza\u00e7\u00f5es multilaterais de cr\u00e9dito assessoram diferentes na\u00e7\u00f5es, \u00e9 importante levar em considera\u00e7\u00e3o os elevados conceitos de justi\u00e7a tribut\u00e1ria, or\u00e7amentos p\u00fablicos respons\u00e1veis ??pelo seu endividamento e, sobretudo, a promo\u00e7\u00e3o efetiva e promotora dos mais pobres da rede social\u00bb [7]. Temos a responsabilidade de fornecer assist\u00eancia ao desenvolvimento das na\u00e7\u00f5es empobrecidas e al\u00edvio da d\u00edvida para as na\u00e7\u00f5es altamente endividadas [8].<\/p>\n<p>\u00abUma nova \u00e9tica significa estar consciente da necessidade de todos se comprometerem a trabalhar juntos para fechar esconderijos fiscais, evitar a sonega\u00e7\u00e3o fiscal e a lavagem de dinheiro que \u00e9 roubado \u00e0 sociedade, como tamb\u00e9m para dizer \u00e0s na\u00e7\u00f5es da import\u00e2ncia de defender a justi\u00e7a e o bem comum perante os interesses das mais poderosas empresas e multinacionais\u00bb [9]. Este \u00e9 o momento certo para renovar a arquitetura financeira internacional [10].<\/p>\n<p>Senhor Presidente:<\/p>\n<p>Lembro-me da ocasi\u00e3o que tive h\u00e1 cinco anos para falar na Assembleia Geral no seu 70\u00ba anivers\u00e1rio. A minha visita ocorreu num per\u00edodo de multilateralismo verdadeiramente din\u00e2mico, um momento de grande promessa e de grande esperan\u00e7a, imediatamente anterior \u00e0 ado\u00e7\u00e3o da Agenda 2030. Poucos meses depois, o Acordo de Paris sobre Mudan\u00e7a do Clima tamb\u00e9m foi adotado.<\/p>\n<p>No entanto, devemos admitir honestamente que embora algum progresso tenha sido feito, a capacidade limitada da comunidade internacional de cumprir as suas promessas de h\u00e1 cinco me leva a reiterar que \u00abdevemos evitar qualquer tenta\u00e7\u00e3o de cair num nominalismo declaracionista com efeito tranquilizador nas consci\u00eancias. Devemos zelar para que as nossas institui\u00e7\u00f5es sejam realmente eficazes no combate a todos esses flagelos\u00bb [11].<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m penso na situa\u00e7\u00e3o perigosa da Amaz\u00f3nia e das suas popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas. Isto lembra-nos que a crise ambiental est\u00e1 intimamente ligada a uma crise social e que cuidar do meio ambiente exige uma abordagem abrangente para combater a pobreza e a exclus\u00e3o [12].<\/p>\n<p>\u00c9, certamente, um passo positivo que a sensibilidade ecol\u00f3gica abrangente e o desejo de a\u00e7\u00e3o tenham crescido. \u00abN\u00e3o devemos sobrecarregar as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es com os problemas causados ??pelas anteriores. [\u2026] Devemos perguntar-nos seriamente se existe &#8211; entre n\u00f3s &#8211; vontade pol\u00edtica [\u2026] para mitigar os efeitos negativos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, bem como para ajudar as popula\u00e7\u00f5es mais pobres e vulner\u00e1veis ??que s\u00e3o as mais afetadas\u00bb [13].<\/p>\n<p>A Santa S\u00e9 continuar\u00e1 a cumprir o seu papel. Como um sinal concreto de cuidar da nossa casa comum, ratifiquei recentemente a Emenda de Kigali ao Protocolo de Montreal [14].<\/p>\n<p>Senhor Presidente:<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos deixar de notar as consequ\u00eancias devastadoras da crise Covid-19 sobre as crian\u00e7as, incluindo os migrantes desacompanhados e menores refugiados. A viol\u00eancia contra as crian\u00e7as, incluindo o terr\u00edvel flagelo do abuso infantil e da pornografia, tamb\u00e9m aumentou dramaticamente.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, milh\u00f5es de crian\u00e7as n\u00e3o podem voltar \u00e0 escola. Em muitas partes do mundo, esta situa\u00e7\u00e3o amea\u00e7a um aumento do trabalho infantil, explora\u00e7\u00e3o, abuso e desnutri\u00e7\u00e3o. Infelizmente, pa\u00edses e institui\u00e7\u00f5es internacionais tamb\u00e9m est\u00e3o a promover o aborto como um dos chamados \u201cservi\u00e7os essenciais\u201d na resposta humanit\u00e1ria. \u00c9 triste ver como se tornou simples e conveniente, para alguns, negar a exist\u00eancia da vida como solu\u00e7\u00e3o para problemas que podem e devem ser resolvidos tanto para a m\u00e3e quanto para o nascituro.<\/p>\n<p>Por isso, imploro \u00e0s autoridades civis que prestem especial aten\u00e7\u00e3o \u00e0s crian\u00e7as a quem s\u00e3o negados os seus direitos e dignidade fundamentais, em particular o seu direito \u00e0 vida e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o posso deixar de lembrar o apelo da corajosa jovem Malala Yousafzai, que h\u00e1 cinco anos, na Assembleia Geral, nos lembrou que \u201cuma crian\u00e7a, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo\u201d.<\/p>\n<p>Os primeiros educadores da crian\u00e7a s\u00e3o a m\u00e3e e o pai, a fam\u00edlia que a Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos do Homem descreve como \u00abo elemento natural e fundamental da sociedade\u00bb [15]. Muitas vezes, a fam\u00edlia \u00e9 v\u00edtima do colonialismo ideol\u00f3gico que a torna vulner\u00e1vel e acaba por provocar, em muitos de seus membros, principalmente nos mais indefesos &#8211; crian\u00e7as e idosos &#8211; um sentimento de desenraizamento e orfandade. A desintegra\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia ecoa na fragmenta\u00e7\u00e3o social que impede o compromisso de enfrentar inimigos comuns. \u00c9 hora de reavaliar e comprometer-se novamente com os nossos objetivos.<\/p>\n<p>E um destes objetivos \u00e9 a promo\u00e7\u00e3o das mulheres. Este ano marca o 25\u00ba anivers\u00e1rio da Confer\u00eancia de Pequim sobre as Mulheres. Em todos os n\u00edveis da sociedade as mulheres desempenham um papel importante, com a sua contribui\u00e7\u00e3o \u00edmpar, assumindo com grande coragem as r\u00e9deas ao servi\u00e7o do bem comum. No entanto, muitas mulheres s\u00e3o deixadas para tr\u00e1s: v\u00edtimas de escravid\u00e3o, tr\u00e1fico, viol\u00eancia, explora\u00e7\u00e3o e tratamento degradante. A elas e a quantos vivem separados das suas fam\u00edlias, expresso a minha proximidade fraterna reiterando uma maior decis\u00e3o e empenho na luta contra estas pr\u00e1ticas perversas que denigrem n\u00e3o s\u00f3 as mulheres, mas toda a humanidade que, com o seu sil\u00eancio e n\u00e3o com uma a\u00e7\u00e3o efetiva, delas se torna c\u00famplice.<\/p>\n<p>Senhor Presidente:<\/p>\n<p>Devemos perguntar-nos se as principais amea\u00e7as \u00e0 paz e \u00e0 seguran\u00e7a, como a pobreza, as epidemias e o terrorismo, entre outras, podem ser efetivamente enfrentadas quando a corrida armamentista, incluindo \u00e0s armas nucleares, continuar a desperdi\u00e7ar recursos preciosos que seriam mais bem aproveitados em beneficio do desenvolvimento integral das cidades e da prote\u00e7\u00e3o do ambiente natural.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso quebrar o clima de desconfian\u00e7a existente. Estamos a testemunhar uma eros\u00e3o do multilateralismo que \u00e9 ainda mais grave \u00e0 luz das novas formas de tecnologia militar, [16] como os sistemas de armas aut\u00f3nomas letais (LAWS), que est\u00e3o a alterar irreversivelmente a natureza da guerra, separando-a ainda mais da a\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>H\u00e1 que desmantelar as logicas perversas que atribuem \u00e0 posse de armas a seguran\u00e7a pessoal e social. Tal l\u00f3gica serve apenas para aumentar os lucros da ind\u00fastria b\u00e9lica, alimentando um clima de desconfian\u00e7a e medo entre os povos.<\/p>\n<p>E, em particular, a \u201cdissuas\u00e3o nuclear\u201d fomenta um esp\u00edrito de medo baseado na amea\u00e7a da aniquila\u00e7\u00e3o m\u00fatua, que acaba por envenenar as rela\u00e7\u00f5es entre os povos e obstrui o di\u00e1logo [17]. Por isso \u00e9 t\u00e3o importante apoiar os principais instrumentos jur\u00eddicos internacionais de desarmamento, n\u00e3o prolifera\u00e7\u00e3o e proibi\u00e7\u00e3o nuclear. A Santa S\u00e9 espera que a pr\u00f3xima Confer\u00eancia de Revis\u00e3o do Tratado de N\u00e3o Prolifera\u00e7\u00e3o de Armas Nucleares (TNP) resulte em a\u00e7\u00f5es concretas de acordo com a nossa inten\u00e7\u00e3o conjunta de \u00abconseguir o mais rapidamente poss\u00edvel a cessa\u00e7\u00e3o da corrida armamentista nuclear e a tomada de medidas e esfor\u00e7os voltados para o desarmamento nuclear\u00bb. [18].<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o nosso mundo em conflito precisa que a ONU se transforme numa oficina cada vez mais eficaz para a paz, o que exige que os membros do Conselho de Seguran\u00e7a, especialmente os Permanentes, atuem com maior unidade e determina\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, a recente ado\u00e7\u00e3o do cessar-fogo global durante a crise atual \u00e9 uma medida muito nobre, que requer a boa vontade de todos para a sua continuidade e implementa\u00e7\u00e3o. E tamb\u00e9m reitero a import\u00e2ncia de reduzir as san\u00e7\u00f5es internacionais que dificultam aos Estados o apoio adequado \u00e0s suas popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Senhor Presidente:<\/p>\n<p>De uma crise n\u00e3o sai igual: ou sa\u00edmos melhor ou sa\u00edmos pior. Portanto, neste momento cr\u00edtico, o nosso dever \u00e9 repensar o futuro da nossa casa comum e projeto comum. \u00c9 uma tarefa complexa, que exige honestidade e coer\u00eancia no di\u00e1logo, a fim de melhorar o multilateralismo e a coopera\u00e7\u00e3o entre os Estados. Esta crise sublinha ainda mais os limites da nossa autossufici\u00eancia e fragilidade comum e pede-nos que deixemos claro como queremos sair: melhores ou piores. Porque repito, de uma crise n\u00e3o se sai igual: ou sa\u00edmos melhor ou sa\u00edmos pior.<\/p>\n<p>A pandemia mostrou-nos que n\u00e3o podemos viver sem o outro, ou pior, uns contra os outros. A Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas foi criada para unir as na\u00e7\u00f5es, para as aproximar, como ponte entre os povos, vamos us\u00e1-la para transformar o desafio que enfrentamos numa oportunidade de construirmos juntos, mais uma vez, o futuro que queremos.<\/p>\n<p>E que Deus aben\u00e7oe a todos n\u00f3s!<\/p>\n<p>Obrigado Senhor Presidente.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o Educris a partir do <a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/es\/messages\/pont-messages\/2020\/documents\/papa-francesco_20200925_videomessaggio-onu.html\">original em espanhol<\/a><\/p>\n<p>25.09.2020<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Videomensagem do Papa Francisco por ocasi\u00e3o da 75\u00aa Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas Senhor Presidente: Que a paz esteja convosco! 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