{"id":2374762862,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/13234-domingo-xxiii-do-tempo-comum-bem-todas-as-coisas-fez"},"modified":"2025-11-07T16:34:02","modified_gmt":"2025-11-07T16:34:02","slug":"domingo-xxiii-do-tempo-comum-bem-todas-as-coisas-fez","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/domingo-xxiii-do-tempo-comum-bem-todas-as-coisas-fez\/","title":{"rendered":"Domingo XXIII do Tempo Comum: \u00abBem todas as coisas fez!\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031_160503044443.jpg\" \/><\/p>\n<p><p data-adtags-visited=\"true\">Is 35,4-7a; Sl 146; Tg 2,1-5; Mc 7,31-37<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">1. Em termos de caixilho geogr\u00e1fico, a cura de um surdo-mudo narrada no Evangelho deste Domingo XXIII (Marcos 7,31-37) decorre fora das fronteiras de Israel, a oriente do mar da Galileia, na Dec\u00e1pole. Al\u00e9m do epis\u00f3dio de hoje, o Evangelho de Marcos regista apenas mais tr\u00eas epis\u00f3dios fora das fronteiras de Israel: tamb\u00e9m na Dec\u00e1pole (Gerasa), a cura de um endemoninhado (Marcos 5,1-20) e a segunda \u00abmultiplica\u00e7\u00e3o\u00bb dos p\u00e3es (Marcos 8,1-9), e a noroeste, na regi\u00e3o de Tiro, o epis\u00f3dio da mulher sirofen\u00edcia (Marcos 7,24-30), que antecede o epis\u00f3dio de hoje. Estas \u00absa\u00eddas\u00bb do Evangelho em pessoa, que \u00e9 Jesus, para terra pag\u00e3 baralham os nossos esquemas de \u00abantes\u00bb e \u00abdepois\u00bb [primeiro os judeus, depois os gregos], pr\u00f3prios da nossa mentalidade fechada, baralham tamb\u00e9m os nossos mapas geogr\u00e1ficos \u2013 a viagem de Tiro para S\u00eddon (mais a Norte), e de l\u00e1 para a Galileia e a Dec\u00e1pole (a Sul de S\u00eddon e de Tiro) \u2013, mas n\u00e3o baralham os planos de Deus, e enquadram-se perfeitamente nos caixilhos do seu amor. Al\u00e9m disso, podem ser vistos ainda como uma prolepse da futura prega\u00e7\u00e3o do Evangelho entre os pag\u00e3os.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">2. Sendo um entre muitos relatos de cura por parte de Jesus, este epis\u00f3dio da cura de um surdo-mudo apresenta uma fisionomia pr\u00f3pria assente em tra\u00e7os singulares. As pessoas trazem o pobre homem, surdo (<em>k\u00f4ph\u00f3s<\/em>), totalmente incapaz de ouvir, e que \u00abfala com dificuldade\u00bb (<em>mogil\u00e1los<\/em>). \u00abFalar com dificuldade\u00bb \u00e9 o significado que a etimologia sugere para o termo grego\u00a0<em>mogil\u00e1los<\/em>, mas o mesmo termo aparece com o significado de \u00abmudo\u00bb na \u00fanica vez que \u00e9 utilizado pela vers\u00e3o grega dos LXX (Isa\u00edas 35,6). Talvez a li\u00e7\u00e3o mais \u00f3bvia acabe por ser \u00abque falava com dificuldade\u00bb, uma vez que, quando \u00e9 curado por Jesus, o narrador dir\u00e1 que \u00abfalava corretamente\u00bb (<em>el\u00e1lei orth\u00f4s<\/em>) (Marcos 7,35). Pelos dois motivos, por n\u00e3o ouvir e por falar com dificuldade ou mesmo n\u00e3o falar, por estes defeitos f\u00edsicos que o afetavam, este pobre homem estava impedido de entrar na assembleia de Deus (os deficientes f\u00edsicos e com outras defici\u00eancias n\u00e3o tinham acesso ao Templo). Dados os seus defeitos not\u00f3rios, as pessoas (sujeito indeterminado) aproveitam a presen\u00e7a de Jesus para lhe pedir que imponha as m\u00e3os \u00e0quele homem deficiente (Marcos 7,32). O texto n\u00e3o o diz, mas quem faz o pedido tem em vista certamente a cura. Em vez de lhe impor as m\u00e3os, como lhe foi pedido, Jesus faz uma s\u00e9rie de a\u00e7\u00f5es mais personalizadas, sinal da sua afei\u00e7\u00e3o pelos pobres e exclu\u00eddos: 1) toma o homem \u00e0 parte, para longe da multid\u00e3o (Marcos 7,33a); 2) toca com as suas m\u00e3os os ouvidos daquele homem, e com saliva toca-lhe a l\u00edngua (Marcos 7,33b); 3) ergue os olhos para o c\u00e9u (Marcos 7,34a); 4) suspira (Marcos 7,34b); 5) diz para o surdo-mudo: \u00ab<em>Effatha<\/em>, abre-te!\u00bb (Marcos 7,34c).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">3. Jesus atende sempre a nossa s\u00faplica. Mas n\u00e3o sempre como n\u00f3s lhe pedimos. Assim: n\u00e3o imp\u00f4s as m\u00e3os \u00e0quele homem, de acordo com o pedido, mas tocou com as suas m\u00e3os os seus ouvidos, e com saliva tocou-lhe a l\u00edngua. Entenda-se j\u00e1 este gesto e mais do que este gesto: \u00e9 tocando com as suas m\u00e3os tudo o que est\u00e1 doente, que Jesus o assume e o cura. \u00c9 assumindo a nossa carne toda de debilidade, pecado, recusa e viol\u00eancia, que Jesus cura a nossa humanidade ferida e pecadora. Ergue os olhos para o c\u00e9u: gesto sacerdotal da ora\u00e7\u00e3o sacerdotal de Jesus (Jo\u00e3o 17,1). Suspirou: suspirar (<em>sten\u00e1z\u00f4<\/em>) \u00e9 rezar com emo\u00e7\u00e3o interior e interceder por n\u00f3s \u00e0 maneira do Esp\u00edrito, que Paulo diz que intercede por n\u00f3s com \u00absuspiros inef\u00e1veis, isto \u00e9, sem palavras\u00bb (<em>stenagm\u00f2s al\u00e1l\u00eatos<\/em>) (Romanos 8,26). O gesto de erguer os olhos para o c\u00e9u, gesto de ora\u00e7\u00e3o, logo traduzido no suspiro mostra que Jesus age em especial\u00edssima rela\u00e7\u00e3o com o Pai. De resto, no contexto de uma cura, s\u00f3 aqui Jesus ergue os olhos para o c\u00e9u; do mesmo modo, s\u00f3 Marcos recorda o suspiro de Jesus (7,34; 8,12). Riqu\u00edssima simbologia. Tamb\u00e9m s\u00f3 aqui (<em>Effatha<\/em>) e em Marcos 5,41 (<em>Thalitha k\u00fbm<\/em>), a ordem de Jesus aparece pronunciada em aramaico, e depois traduzida para grego.\u00a0<em>Effatha<\/em>\u00a0[=\u00a0<em>etftah<\/em>, de\u00a0<em>ptah<\/em>, \u00ababrir\u00bb].\u00a0<em>Effatha<\/em>, \u00ababre-te\u00bb.\u00a0<em>Thalitha k\u00fbm<\/em>, \u00abfilha, levanta-te\u00bb.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">4. Depois desta sequ\u00eancia de gestos de Jesus, que culmina com aquela ordem (<em>Effatha<\/em>, abre-te), o sucesso surge imediatamente: o surdo-mudo abre-se, e come\u00e7a a ouvir e a falar corretamente (Marcos 7,35). E a multid\u00e3o reage manifestando um estado de maravilha (<em>exepl\u00eassonto<\/em>: imperf. pass. de\u00a0<em>ekpl\u00eass\u00f4<\/em>) para al\u00e9m de todas as medidas (<em>hyperperism\u00f3s<\/em>) (Marcos 7,37a), express\u00e3o que n\u00e3o encontramos em mais nenhum lugar do Evangelho. E a palavra que acompanha o espanto: \u00ab<em>Bem<\/em>\u00a0todas as coisas\u00a0<em>fez<\/em>: os surdos faz ouvir e os mudos falar\u00bb (Marcos 7,37b). Enorme afirma\u00e7\u00e3o. Atravessa a Escritura inteira para se enla\u00e7ar com a afirma\u00e7\u00e3o de Deus em G\u00e9nesis 1,31: \u00abDeus\u00a0<em>viu<\/em>\u00a0tudo o que tinha feito, e era tudo demasiado\u00a0<em>bom<\/em>!\u00bb. \u00abO fazer\u00a0<em>bem<\/em>\u00bb ou \u00ab<em>bom<\/em>\u00bb de Jesus revela que est\u00e1 em curso a obra da nova cria\u00e7\u00e3o, e que Jesus est\u00e1 em plena comunh\u00e3o com Deus.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">5. O modo como \u00e9 compreendida a obra admir\u00e1vel de Jesus, e o modo como \u00e9 dita pelas palavras do povo carregadas de espanto e maravilha, \u00e9 coisa \u00fanica e in\u00e9dita no Evangelho e representa um dos cumes na compreens\u00e3o da obra de Jesus. Sintomaticamente, \u00e0 not\u00edcia da cura milagrosa insistentemente divulgada pelas pessoas (Marcos 7,36) n\u00e3o se segue a not\u00edcia habitual que tenham sido pedidas logo outras curas, como sucede habitualmente (cf. Marcos 1,45), mas, em vez disso, \u00e9 proclamada a import\u00e2ncia capital das a\u00e7\u00f5es de Jesus (Marcos 7,37). E isto aconteceu numa regi\u00e3o habitada por pag\u00e3os. Foi aqui que Jesus abriu os ouvidos do surdo e soltou a l\u00edngua do mudo. Tempos novos cantados por Isa\u00edas 35,5-6. Tempo novo de contempla\u00e7\u00e3o de quem sabe ver o essencial da miss\u00e3o de Jesus.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">6. Sim, esta cura de Jesus tem um car\u00e1cter \u00fanico. Fica claro para quem l\u00ea o texto que sobre a base dos prod\u00edgios realizados por Jesus n\u00e3o se levanta uma avalanche de novos pedidos de novas realiza\u00e7\u00f5es prodigiosas, como \u00e9 habitual; em vez disso, v\u00ea-se que \u00e9 compreendido o verdadeiro alcance e sentido da miss\u00e3o da Jesus. H\u00e1 uma grande afinidade entre o an\u00fancio feito por Jesus: \u00abFez-se pr\u00f3ximo de v\u00f3s o Reino de Deus\u00bb (Marcos 1,15), e a confirma\u00e7\u00e3o feita pelo povo: \u00ab<em>Bem<\/em>\u00a0todas as coisas\u00a0<em>fez<\/em>\u00bb (Marcos 7,37). A afinidade radica no car\u00e1cter definitivo e na import\u00e2ncia universal do que est\u00e1 a acontecer. Em Jesus, o poder de Deus est\u00e1 definitivamente presente. A nova cria\u00e7\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 a acontecer, e o Bem e a Bondade est\u00e3o agora \u00e0 vista de todos, tamb\u00e9m dos pag\u00e3os.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">7. Serve de ch\u00e3o ao Evangelho de hoje o texto de Is 35,4-7, que se integra no chamado \u00abPequeno Apocalipse de Isa\u00edas\u00bb (Is 34-35). o Cap\u00edtulo 35 transporta-nos para um mundo de paz e de alegria, pondo em destaque a marcha de todo um povo que se levanta da mis\u00e9ria para a esperan\u00e7a e a liberdade. \u00c9 neste contexto de felicidade, novo \u00caxodo e nova Cria\u00e7\u00e3o, que se leem as express\u00f5es: \u00abEnt\u00e3o se abrir\u00e3o os olhos dos cegos, e os ouvidos dos surdos h\u00e3o de desobstruir-se. Ent\u00e3o o coxo saltar\u00e1 como um veado, e a l\u00edngua do mudo cantar\u00e1 de alegria\u00bb (Isa\u00edas 35,5-6). O Evangelho de hoje mostra a realiza\u00e7\u00e3o deste sonho.\u00a0<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">8. S. Tiago continua, na incisiva li\u00e7\u00e3o de hoje (2,1-5), a reclamar a nossa aten\u00e7\u00e3o carinhosa para com os pobres, que s\u00e3o os escolhidos e prediletos de Deus. E adverte-nos de que n\u00e3o podemos encher os olhos com os ricos, e p\u00f4r de lado os pobres, pois n\u00e3o pode haver disjun\u00e7\u00e3o entre culto e vida, f\u00e9 e empenho eclesial. Na verdade, a nossa f\u00e9 em Cristo tem de se traduzir em obras compat\u00edveis. A aten\u00e7\u00e3o e o carinho que pusermos no nosso relacionamento com os pobres ser\u00e1 sempre o exame e a verifica\u00e7\u00e3o da nossa f\u00e9.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">9. \u00c9 assim que o Salmo 146, que \u00e9 uma esp\u00e9cie de carrilh\u00e3o musical, nos convida a cantar os \u00abdoze bel\u00edssimos nomes\u00bb de Deus, decalcando aqui a express\u00e3o mu\u00e7ulmana que exalta os \u00ab99 bel\u00edssimos nomes\u00bb de\u00a0<em>Allah<\/em>. \u00c9 claro que os doze nomes que passaremos em revista n\u00e3o celebram tanto a ess\u00eancia divina, mas a sua a\u00e7\u00e3o em favor das suas criaturas, sobretudo dos mais pobres e desfavorecidos. \u00c9 assim que o Salmo evoca o Deus que fez o c\u00e9u, a terra, o mar, o Deus Criador (1), o Deus da verdade (<em>?emet<\/em>) (2), o Deus que faz justi\u00e7a aos oprimidos, defensor dos \u00faltimos (3), que d\u00e1 p\u00e3o aos famintos (4), que liberta os prisioneiros (5), que abre os olhos aos cegos (6), que levanta os abatidos (7), que ama os justos (8), que protege os estrangeiros (9), que sustenta o \u00f3rf\u00e3o e a vi\u00fava (10), que entrava o caminho dos \u00edmpios (11), o Deus que reina eternamente (12). Este maravilhoso Salmo faz-nos saborear musicalmente toda a liturgia de hoje.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u00a0<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Is 35,4-7a; Sl 146; Tg 2,1-5; Mc 7,31-37 1. 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