{"id":2529604952,"date":"2022-06-29T00:00:00","date_gmt":"2022-06-29T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/326-vaticano\/11543-homilia-do-papa-na-solenidade-de-sao-pedro-e-sao-paulo"},"modified":"2022-06-29T00:00:00","modified_gmt":"2022-06-29T00:00:00","slug":"homilia-do-papa-na-solenidade-de-sao-pedro-e-sao-paulo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/homilia-do-papa-na-solenidade-de-sao-pedro-e-sao-paulo\/","title":{"rendered":"Homilia do Papa na Solenidade de S\u00e3o Pedro e S\u00e3o Paulo"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/palio-30_170701100213.jpg\"\/><\/p>\n<p><p><em>Na eucaristia de onde foram benzidos os P\u00e1lios para os novos arcebispos, e onde esteve D. Jos\u00e9 Cordeiro, arcebispo de Braga, o papa Francisco reafirmou a ideia de que &#8220;na igreja h\u00e1 lugar para todos&#8221; porque n\u00e3o existem &#8220;crist\u00e3os de primeira e de segunda&#8221; e criticou um certo &#8220;cristianismo clerical e formalista&#8221; que subsiste<\/em><\/p>\n<p>Leia, na \u00edntegra, a homilia do Santo Padre<\/p>\n<p>Revive, hoje, na Liturgia da Igreja o testemunho dos dois grandes Ap\u00f3stolos Pedro e Paulo. O primeiro, que o rei Herodes metera na pris\u00e3o, ouve o anjo do Senhor dizer-lhe: \u00abErgue-te depressa\u00bb (<em>At<\/em>\u00a012, 7); o segundo, resumindo toda a sua vida e apostolado, diz: \u00abcombati a boa batalha\u00bb (<em>2 Tm<\/em>\u00a04, 7). Tendo diante dos olhos estes dois aspetos \u2013\u00a0<em>erguer-se depressa<\/em>\u00a0e\u00a0<em>combater a boa batalha<\/em>\u00a0\u2013, perguntemo-nos que podem eles sugerir \u00e0 Comunidade Crist\u00e3 de hoje, empenhada no processo sinodal em curso.<\/p>\n<p>Antes de mais nada, os Atos dos Ap\u00f3stolos falam-nos da noite em que Pedro foi libertado das correntes da pris\u00e3o; um anjo do Senhor tocou-lhe o lado enquanto dormia, despertou-o e disse: \u00abErgue-te depressa!\u00bb (12, 7). Desperta-o e pede-lhe para se erguer. Esta cena evoca a P\u00e1scoa, porque aqui encontramos dois verbos usados nas narra\u00e7\u00f5es da ressurrei\u00e7\u00e3o:\u00a0<em>despertar<\/em>\u00a0e\u00a0<em>erguer-se<\/em>. Significa que o anjo despertou Pedro do sono da morte e o impeliu a erguer-se, isto \u00e9, a ressurgir, a sair para a luz, a deixar-se conduzir pelo Senhor para superar o limiar de todas as portas fechadas (cf.\u00a0<em>At<\/em>\u00a012, 10). \u00c9 uma imagem significativa para a Igreja. Tamb\u00e9m n\u00f3s, como disc\u00edpulos do Senhor e como Comunidade Crist\u00e3, somos chamados a erguer-nos depressa para entrar no dinamismo da ressurrei\u00e7\u00e3o e deixar-nos conduzir pelo Senhor ao longo dos caminhos que Ele nos quiser indicar.<\/p>\n<p>Sentimos ainda tantas resist\u00eancias interiores que n\u00e3o nos deixam p\u00f4r em marcha. Tantas resist\u00eancias! \u00c0s vezes, como Igreja, somos dominados pela pregui\u00e7a e preferimos ficar sentados a contemplar as poucas coisas seguras que possu\u00edmos, em vez de nos erguermos a fim de lan\u00e7ar o olhar para horizontes novos, para o mar alto. Muitas vezes estamos acorrentados como Pedro no c\u00e1rcere do ramerr\u00e3o, assustados pelas mudan\u00e7as e presos \u00e0 corrente das nossas habitudes. Mas, assim, cai-se na mediocridade espiritual, corre-se o risco de \u00abir sobrevivendo\u00bb mesmo na vida pastoral, esmorece o entusiasmo da miss\u00e3o e, em vez de ser sinal de vitalidade e criatividade, a impress\u00e3o que se d\u00e1 \u00e9 de tibieza e in\u00e9rcia. Ent\u00e3o, como escrevia Padre Henri de Lubac, a grande corrente de novidade e de vida, que \u00e9 o Evangelho nas nossas m\u00e3os, torna-se uma f\u00e9 que \u00abcai no formalismo e na habitude, (&#8230;) religi\u00e3o de cerim\u00f3nias e devo\u00e7\u00f5es, de ornamentos e vulgares consola\u00e7\u00f5es (&#8230;). Cristianismo clerical, cristianismo formalista, cristianismo morti\u00e7o e endurecido\u00bb (<em>O drama do humanismo ateu. O homem diante de Deus<\/em>, Mil\u00e3o 2017, 103-104).<\/p>\n<p>O S\u00ednodo, que estamos a celebrar, chama-nos a ser uma Igreja que se ergue em p\u00e9, n\u00e3o dobrada sobre si mesma, capaz de olhar mais al\u00e9m, de sair das suas pris\u00f5es para ir ao encontro do mundo, com a coragem de abrir portas. Naquela mesma noite, insidiava outra tenta\u00e7\u00e3o (cf.\u00a0<em>At<\/em>\u00a012, 12-17): aquela jovem assustada, em vez de abrir a porta, volta para tr\u00e1s contando algo que, para os presentes, s\u00f3 podia ser obra da sua fantasia. Abramos as portas. \u00c9 o Senhor que chama. N\u00e3o sejamos como Rode que voltara para tr\u00e1s&#8230;<\/p>\n<p>Uma Igreja sem correntes nem muros, onde cada qual se possa sentir acolhido e acompanhado, onde se cultive a arte da escuta, do di\u00e1logo, da participa\u00e7\u00e3o, sob a \u00fanica autoridade do Esp\u00edrito Santo. Uma Igreja livre e humilde, que \u00abse ergue depressa\u00bb, que n\u00e3o adia, n\u00e3o acumula atrasos face aos desafios de hoje, n\u00e3o se demora nos recintos sagrados, mas deixa-se animar pela paix\u00e3o do an\u00fancio do Evangelho e pelo desejo de chegar a todos, e a todos acolher. N\u00e3o esque\u00e7amos esta palavra:\u00a0<em>todos<\/em>. Todos! Ide pelas encruzilhadas e trazei todos, cegos, surdos, coxos, doentes, justos, pecadores: todos, todos! Esta palavra do Senhor deve ressoar\u2026 ressoar na mente e no cora\u00e7\u00e3o: todos! Na Igreja, h\u00e1 lugar para todos. E muitas vezes tornamo-nos uma Igreja de portas abertas, mas para despedir as pessoas, para condenar as pessoas. Ontem dizia-me um de v\u00f3s: \u00abPara a Igreja, este n\u00e3o \u00e9 o tempo dos despedimentos, mas o tempo do acolhimento\u00bb. \u00abN\u00e3o vieram ao banquete&#8230;\u00bb \u2013 Ide pelas encruzilhadas. Todos, todos! \u00abMas s\u00e3o pecadores!\u00bb \u2013 Todos.<\/p>\n<p>Depois, a segunda Leitura prop\u00f4s-nos as palavras de Paulo que, repassando toda a sua vida, afirma: \u00abcombati a boa batalha\u00bb\u00a0<em>(2 Tm<\/em>\u00a04, 7). O Ap\u00f3stolo refere-se \u00e0s in\u00fameras situa\u00e7\u00f5es, \u00e0s vezes marcadas pela persegui\u00e7\u00e3o e a tribula\u00e7\u00e3o, em que n\u00e3o se poupou a anunciar o Evangelho de Jesus. Agora, no final da vida, v\u00ea que, na hist\u00f3ria, est\u00e1 ainda em curso uma grande \u00abbatalha\u00bb, porque muitos n\u00e3o est\u00e3o dispostos a acolher Jesus, preferindo correr atr\u00e1s dos seus pr\u00f3prios interesses e doutros mestres mais condescendentes, mais facilitadores, mais conformes \u00e0 nossa vontade. Paulo enfrentou o seu combate e, agora que terminou a corrida, pede a Tim\u00f3teo e aos irm\u00e3os da comunidade para continuarem esta obra com a vigil\u00e2ncia, o an\u00fancio, o ensino; enfim, cada um cumpra a miss\u00e3o que lhe foi confiada e fa\u00e7a a pr\u00f3pria parte.<\/p>\n<p>\u00c9 uma Palavra de vida, tamb\u00e9m para n\u00f3s, despertando a consci\u00eancia de que, na Igreja, cada um \u00e9 chamado a ser disc\u00edpulo-mission\u00e1rio e a prestar a sua contribui\u00e7\u00e3o. Aqui v\u00eam-me ao pensamento duas perguntas. A primeira:\u00a0<em>Que posso fazer eu pela Igreja<\/em>? N\u00e3o lamentar-me da Igreja, mas empenhar-me em prol da Igreja. Participar com paix\u00e3o e humildade: com paix\u00e3o, porque n\u00e3o devemos ficar espectadores passivos; com humildade, porque envolver-se na comunidade nunca deve significar ocupar o centro do palco, nem sentir-se o melhor impedindo aos outros de se aproximarem. Igreja em processo sinodal significa isto: todos participam, mas ningu\u00e9m no lugar dos outros ou acima dos outros. N\u00e3o h\u00e1 crist\u00e3os de primeira e segunda classe; mas todos, todos s\u00e3o chamados.<\/p>\n<p>Entretanto participar significa tamb\u00e9m continuar aquela \u00abboa batalha\u00bb de que fala Paulo. Trata-se realmente duma \u00abbatalha\u00bb, porque o an\u00fancio do Evangelho n\u00e3o \u00e9 neutral \u2013 por favor! Que o Senhor nos livre de destilar o Evangelho para o tornar neutral: o Evangelho n\u00e3o \u00e9 \u00e1gua destilada \u2013, n\u00e3o deixa as coisas como est\u00e3o, n\u00e3o aceita a ced\u00eancia \u00e0s l\u00f3gicas do mundo, mas acende o fogo do Reino de Deus l\u00e1 onde, ao contr\u00e1rio, reinam os mecanismos humanos do poder, do mal, da viol\u00eancia, da corrup\u00e7\u00e3o, da injusti\u00e7a, da marginaliza\u00e7\u00e3o. Desde que Jesus Cristo ressuscitou, agindo como linha divis\u00f3ria da hist\u00f3ria, \u00abcome\u00e7ou uma grande batalha entre a vida e a morte, entre esperan\u00e7a e desespero, entre resigna\u00e7\u00e3o ao pior e luta pelo melhor, uma batalha que n\u00e3o conhecer\u00e1 tr\u00e9guas at\u00e9 \u00e0 derrota definitiva de todas as for\u00e7as do \u00f3dio e da destrui\u00e7\u00e3o\u00bb (C. M. Martini,\u00a0<em>Homilia na P\u00e1scoa da Ressurrei\u00e7\u00e3o<\/em>, 04\/IV\/1999).<\/p>\n<p>Vimos a primeira pergunta; agora a segunda:\u00a0<em>Que podemos fazer juntos, como Igreja, para tornar o mundo em que vivemos mais humano, mais justo, mais solid\u00e1rio, mais aberto a Deus e \u00e0 fraternidade entre os homens?<\/em>\u00a0Certamente n\u00e3o devemos fechar-nos nos nossos c\u00edrculos eclesiais nem perder-nos em certas discuss\u00f5es est\u00e9reis. Cuidado para n\u00e3o cairdes no clericalismo; o clericalismo \u00e9 uma pervers\u00e3o. O ministro que se faz clerical adotando atitudes clericais, embocou um caminho errado; pior ainda s\u00e3o os leigos clericalizados. Estejamos atentos a esta pervers\u00e3o que \u00e9 o clericalismo. Ajudemo-nos a ser fermento na massa do mundo. Juntos, podemos e devemos fazer gestos cuidadores a bem da vida humana, da tutela da cria\u00e7\u00e3o, da dignidade do trabalho, dos problemas das fam\u00edlias, da condi\u00e7\u00e3o dos idosos e de quantos se veem abandonados, rejeitados e desprezados. Enfim, ser uma Igreja que promove a cultura do cuidado, da ternura, a compaix\u00e3o pelos fr\u00e1geis e a luta contra toda a forma de degrada\u00e7\u00e3o, incluindo a das nossas cidades e dos lugares que frequentamos, para resplandecer na vida de cada um a alegria do Evangelho: esta \u00e9 a nossa \u00abbatalha\u00bb, este \u00e9 o nosso desafio. As tenta\u00e7\u00f5es para ficar no passado s\u00e3o muitas; a tenta\u00e7\u00e3o da nostalgia que nos faz olhar para outros tempos como sendo melhores. Por favor, n\u00e3o caiamos no saudosismo, neste saudosismo de Igreja que est\u00e1 na moda hoje.<\/p>\n<p>Irm\u00e3os e irm\u00e3s, hoje, segundo uma bela tradi\u00e7\u00e3o, benzi os P\u00e1lios para os Arcebispos Metropolitas rec\u00e9m-nomeados, muitos dos quais participam na nossa celebra\u00e7\u00e3o. Em comunh\u00e3o com Pedro, s\u00e3o chamados a \u00aberguer-se depressa\u00bb, n\u00e3o dormir, para ser sentinelas vigilantes do rebanho. Levanta-te para \u00abcombater a boa batalha\u00bb, nunca sozinhos, mas com todo o santo Povo fiel de Deus. E como bons pastores devem estar \u00e0 frente do povo, no meio do povo e atr\u00e1s do povo, mas sempre com o santo povo fiel de Deus, porque fazem parte do santo povo fiel de Deus. De cora\u00e7\u00e3o, sa\u00fado a Delega\u00e7\u00e3o do Patriarcado Ecum\u00e9nico, enviada pelo querido irm\u00e3o Bartolomeu. Obrigado! Obrigado pela vossa presen\u00e7a e pela mensagem de Bartolomeu! Obrigado! Obrigado por caminhar juntos, porque, s\u00f3 juntos, podemos ser semente de Evangelho e testemunhas de fraternidade.<\/p>\n<p>Pedro e Paulo intercedam por n\u00f3s, intercedam pela cidade de Roma, intercedam pela Igreja e pelo mundo inteiro. Amen.<\/p>\n<p>Educris|29.06.2022<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na eucaristia de onde foram benzidos os P\u00e1lios para os novos arcebispos, e onde esteve D. 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