{"id":2646271289,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/10676-domingo-xvi-do-tempo-comum-jesus-a-nossa-unica-referencia-"},"modified":"2025-11-07T16:33:47","modified_gmt":"2025-11-07T16:33:47","slug":"domingo-xvi-do-tempo-comum-jesus-a-nossa-unica-referencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/domingo-xvi-do-tempo-comum-jesus-a-nossa-unica-referencia\/","title":{"rendered":"Domingo XVI do Tempo Comum: \u00abJesus, a nossa \u00fanica refer\u00eancia\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031.jpg\" \/><\/p>\n<p><p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">1. O Evangelho deste Domingo XVI do Tempo Comum (Marcos 6,30-34) insere-se numa bela sequ\u00eancia de preciosos textos. Importante n\u00e3o perder de vista o fio de ouro (ou de sentido) que entretece os epis\u00f3dios que, com extrema habilidade, Marcos coloca diante dos nossos olhos. Em Marcos 6,1-6, Jesus \u00e9 rejeitado na sua p\u00e1tria, prolepse de tudo o que lhe vai acontecer. No epis\u00f3dio seguinte, Marcos 6,7-13, Jesus envia os \u00abDoze\u00bb em miss\u00e3o. Envia-os dois a dois, leves, sem nada a que se agarrar ou distrair. A sua \u00fanica bagagem \u00e9 o Evangelho. Logo a seguir, em Marcos 6,14-29, \u00e9 narrada a vers\u00e3o popular do mart\u00edrio de Jo\u00e3o Batista, que difere da vers\u00e3o pol\u00edtica de Fl\u00e1vio Josefo. Em Marcos 6,30, \u00abos Ap\u00f3stolos\u00bb (<em>hoi ap\u00f3stolloi<\/em>) re\u00fanem-se junto de Jesus, e narraram-lhe tudo o que tinham feito e ensinado.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">2. De notar, em primeiro lugar, que a miss\u00e3o dos \u00abDoze\u00bb aparece premonitoriamente colocada entre a rejei\u00e7\u00e3o de Jesus e o mart\u00edrio de Jo\u00e3o Batista. Esta leitura sai ainda refor\u00e7ada se tivermos em conta que o epis\u00f3dio do mart\u00edrio de Jo\u00e3o Batista rasga em duas partes a miss\u00e3o dos \u00abDoze\u00bb, intrometendo-se entre o envio, a partida de junto de Jesus e o an\u00fancio feito pelos \u00abDoze\u00bb (Marcos 6,7-13), e o regresso de \u00abos Ap\u00f3stolos\u00bb a Jesus (Marcos 6,30).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">3. De notar, em segundo lugar, a permanente refer\u00eancia a Jesus por parte dos \u00abDoze\u00bb. Na verdade, \u00e9 Jesus que os envia, e envia-os dois a dois, \u00e9 d\u2019Ele que partem, \u00e9 d\u2019Ele que s\u00e3o arautos, mensageiros ou testemunhas, \u00e9 a Ele que regressam, \u00e9 a Ele que fazem a \u00abrela\u00e7\u00e3o\u00bb do acontecido.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">4. Uma intelig\u00eancia mais profunda do envio \u00abdois a dois\u00bb: n\u00e3o v\u00e3o em nome pr\u00f3prio, mas s\u00e3o apenas testemunhas daquele que os enviou. E, porque \u00e9 de testemunho que se trata, para que este seja v\u00e1lido, requer-se a presen\u00e7a de duas ou tr\u00eas testemunhas (cf. Deuteron\u00f3mio 19,15 e Jo\u00e3o 8,17). Neste caso, as testemunhas est\u00e3o vinculadas a Jesus. Mas o v\u00ednculo a Jesus sai ainda refor\u00e7ado neste \u00abdois a dois\u00bb, se tivermos em conta a palavra de Jesus: \u00abOnde est\u00e3o dois ou tr\u00eas reunidos em meu nome, ali estou Eu no meio deles\u00bb (Mateus 18,20).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">5. Esta centralidade de Jesus na vida dos \u00abDoze\u00bb est\u00e1 ainda referida no facto de regressarem a Ele e de a Ele apresentarem a \u00abrela\u00e7\u00e3o\u00bb de tudo o que aconteceu. Note-se que n\u00e3o fazem uma \u00abrela\u00e7\u00e3o\u00bb por alto, mas uma \u00abrela\u00e7\u00e3o\u00bb exaustiva: \u00abde tudo\u00bb. Tudo o que fizeram e ensinaram tinha, na verdade, Jesus como \u00fanica refer\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">6. Depois de noticiado este regresso a Jesus e da men\u00e7\u00e3o ao relat\u00f3rio exaustivo da miss\u00e3o, os \u00abDoze\u00bb s\u00e3o, pela primeira vez, chamados \u00abos Ap\u00f3stolos\u00bb (<em>hoi ap\u00f3stoloi<\/em>) (Marcos 6,30). E Jesus retoma agora a iniciativa, vinculando-os ainda mais, se assim se pode dizer, a si mesmo, convidando-os \u00e0 comunh\u00e3o com Ele (\u00abVinde\u00bb), separando-os para o efeito da multid\u00e3o que os apertava (Marcos 6,31). \u00abE partiram na barca para um lugar deserto, \u00e0 parte\u00bb (Marcos 6,32). No Evangelho de Marcos, a \u00abbarca\u00bb (<em>t\u00f2 plo\u00eeon<\/em>) demarca um espa\u00e7o privilegiado que Jesus partilha unicamente com os seus disc\u00edpulos.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">7. Fica-se unicamente pela barca a estreita comunh\u00e3o de Jesus com os seus disc\u00edpulos. \u00c9 mesmo s\u00f3 a comunh\u00e3o que sai real\u00e7ada, pois nada nos \u00e9 dito sobre nenhum particular assunto de conversa durante a viagem. Sa\u00eddos na barca da press\u00e3o da multid\u00e3o, ei-los que, ao sair da barca, est\u00e3o de novo no meio da multid\u00e3o. E o narrador l\u00e1 est\u00e1 para nos dizer que \u00abEle viu\u00bb (<em>e\u00eeden<\/em>) (Marcos 6,34). \u00c9 a quinta vez, neste Evangelho, que o narrador nos diz que Jesus \u00abviu\u00bb (Marcos 1,10; 1,16; 1,19; 2,14; 6,34).\u00a0 A primeira vez, \u00abviu\u00bb os c\u00e9us abertos e o Esp\u00edrito a descer (Marcos 1,10). A segunda vez, \u00abviu\u00bb Sim\u00e3o e Andr\u00e9 (Marcos,1,16). A terceira vez, \u00abviu\u00bb Tiago e Jo\u00e3o (Marcos 1,19). A quarta vez, \u00abviu\u00bb Levi (Marcos 2,14). Nestas quatro primeiras vezes, este \u00abver\u00bb de Jesus desencadeia um agir novo e decisivo. Tamb\u00e9m agora, na quinta vez, o olhar de Jesus abre para uma p\u00e1gina de sublime miseric\u00f3rdia (<em>esplagchn\u00edsth\u00ea<\/em>) (Marcos 6,34), que leva Jesus a reunir e abra\u00e7ar aquela multid\u00e3o de ovelhas sem pastor, e a ensin\u00e1-las demoradamente, dando resposta plena \u00e0 preocupa\u00e7\u00e3o de Mois\u00e9s no deserto, \u00e0 entrada da Terra Prometida, pedindo a Deus um novo guia \u00abpara que a comunidade do Senhor n\u00e3o seja como um rebanho sem pastor\u00bb (N\u00fameros 27,17). Depois, Jesus repartir\u00e1 com eles o p\u00e3o. Primeiro, ensin\u00e1-los-\u00e1 demoradamente. Depois, repartir\u00e1 com eles o p\u00e3o. O gr\u00e3o do esp\u00edrito precede o gr\u00e3o de trigo.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">8. Jeremias 23,1-6 constitui um marco, tra\u00e7a uma fronteira entre um tempo velho e a cair de podre, marcado por aquele \u00abAi (<em>h\u00f4y<\/em>) dos pastores que perdem e dispersam as ovelhas\u00bb (Jeremias 23,1), que retoma aquele \u00abAi\u00bb que arrasa o tirano rei Joaquim (609-597), e o toma como paradigma dos maus pastores (Jeremias 22,11 e 18). O grande profeta de Anat\u00f4t v\u00ea bem a ru\u00edna dos poderosos, mas v\u00ea e sente na pr\u00f3pria pele tamb\u00e9m a desgra\u00e7a que se abate sobre os pobres, porque n\u00e3o h\u00e1 pastores bons e justos que lhes indiquem os caminhos a seguir. Jeremias, o profeta do ramo de amendoeira (Jeremias 1,11), n\u00e3o pode ficar com os olhos enterrados na lama, mas j\u00e1 v\u00ea vir, l\u00e1 ao longe, um \u00abG\u00e9rmen justo\u00bb (<em>tsemah tsadd\u00eeq<\/em>), um pastor bom e justo, que trar\u00e1 a salva\u00e7\u00e3o, e o seu nome ser\u00e1 \u00abYHWH, nossa justi\u00e7a\u00bb (<em>YHWH tsidqen\u00fb<\/em>) (Jeremias 23,6). Este nome novo, no plural, atinge e condena tamb\u00e9m o rei Sedecias (<em>tsidqiyah<\/em>) (597-587), cujo nome significa \u00abYHWH, minha justi\u00e7a\u00bb, no singular, e que, devido aos seus cambalachos pol\u00edticos entre a Babil\u00f3nia e o Egito, acarretou sobre o povo de Jud\u00e1 o desastre de 587. Mas \u00e9 sobretudo not\u00f3rio que o \u00abG\u00e9rmen justo\u00bb, que receber\u00e1 o nome de \u00abYHWH, nossa justi\u00e7a\u00bb, da descend\u00eancia de David e que salvar\u00e1 o seu povo, aponta j\u00e1 para Jesus, o Bom e Belo Pastor, que sente compaix\u00e3o pelas suas ovelhas, como se v\u00ea no Evangelho de hoje.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">9. Na li\u00e7\u00e3o da Carta aos Ef\u00e9sios 2,13-18, Paulo p\u00f5e diante de n\u00f3s todos, judeus e pag\u00e3os, a a\u00e7\u00e3o salvadora e unificadora de Jesus Cristo. Nele, na sua Cruz, no seu Corpo, novo Templo, n\u00e3o h\u00e1 mais lugar para separa\u00e7\u00f5es, cai o muro que, no velho Templo, separava o \u00e1trio dos pag\u00e3os do \u00e1trio dos judeus. Jesus Cristo, aproximando-se de todos, aproximou-nos a todos, os de longe e os de perto, destruiu \u00f3dios e toda a esp\u00e9cie de barreiras, e estabeleceu a Paz entre n\u00f3s. O Evangelho, que \u00e9 Cristo, une, re\u00fane, enla\u00e7a, entrela\u00e7a, gera fraternidade. Bem \u00e0 vista no Evangelho de hoje.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">10. Quanto ao mais, todo o tempo \u00e9 tempo para nos deixarmos conduzir pela m\u00e3o carinhosa e pela voz maternal e melodiosa do Bom e Belo Pastor, cantando o Salmo 23. Sim, Ele recebe bem os seus h\u00f3spedes: faz-nos uma visita guiada pelos seus prados muito verdes, cheios de \u00e1guas muito azuis, unge com \u00f3leo perfumado a nossa cabe\u00e7a, estende no ch\u00e3o do seu c\u00e9u a \u00abpele de vaca\u00bb (<em>shulhan<\/em>), que \u00e9 a sua mesa, serve-nos vinhos generosos\u2026 \u00c9 a alegria da nossa fam\u00edlia reunida. Confessou o fil\u00f3sofo franc\u00eas Henri Bergson: \u00abAs centenas de livros que li nunca me trouxeram tanta luz e conforto como os versos do Salmo 23\u00bb.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">11. Deixamos j\u00e1 aberta a p\u00e1gina que se segue no Evangelho de Marcos: o p\u00e3o, o p\u00e3o, o p\u00e3o! No texto grego, original, o nome \u00abJesus\u00bb aparece em Marcos 6,30, para reaparecer depois s\u00f3, 89 vers\u00edculos depois, em Marcos 8,27. Escritura sublime: desaparece o nome \u00abJesus\u00bb e a paisagem textual enche-se com o nome \u00abp\u00e3o\u00bb (21 vezes). Clar\u00edssimo convite a aprendermos a ver Jesus no p\u00e3o! Mas nos pr\u00f3ximos cinco Domingos (XVII a XXI), n\u00e3o leremos Marcos, mas Jo\u00e3o 6, que cont\u00e9m o grande discurso do p\u00e3o da vida.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u00a0<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. O Evangelho deste Domingo XVI do Tempo Comum (Marcos 6,30-34) insere-se numa bela sequ\u00eancia de preciosos textos. 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