{"id":2657693834,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/12431-domingo-xxiii-do-tempo-comum-tratar-os-outros-excessivamente-bem"},"modified":"2025-11-07T16:33:56","modified_gmt":"2025-11-07T16:33:56","slug":"domingo-xxiii-do-tempo-comum-tratar-os-outros-excessivamente-bem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/domingo-xxiii-do-tempo-comum-tratar-os-outros-excessivamente-bem\/","title":{"rendered":"Domingo XXIII do Tempo Comum: \u00abTratar os outros excessivamente bem\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031.jpg\" \/><\/p>\n<p><p data-adtags-visited=\"true\">Ez 33,7-9; Sl 95; Rm 13,8-10; Mt 18,15-20<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">1. Em mar\u00e7o de 1947, o bedu\u00edno\u00a0<em>Muhammed ed-Dib<\/em>, da tribo dos pastores bedu\u00ednos\u00a0<em>Ta?amireh<\/em>, descobriu nas onze grutas situadas junto do Mar Morto os c\u00e9lebres manuscritos da comunidade ess\u00e9nia de\u00a0<em>Qumran<\/em>, que ali tinha vivido entre os s\u00e9culos II a.C. e I d.C. A partir do seu conte\u00fado, um desses manuscritos acabou por receber o t\u00edtulo de\u00a0<em>Regra da Comunidade<\/em>\u00a0ou\u00a0<em>Manual de Disciplina<\/em>. Tratava-se de uma esp\u00e9cie de \u00abregra mon\u00e1stica\u00bb, e destinava-se a orientar a vida interna daquela comunidade, contendo tamb\u00e9m uma s\u00e9rie de san\u00e7\u00f5es com que eram penalizados os membros transgressores.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">2. Um dos Cap\u00edtulos desta\u00a0<em>Regra<\/em>\u00a0\u00e9 dedicado \u00e0 corre\u00e7\u00e3o fraterna, e diz assim: \u00abCorrijam-se mutuamente com verdade, humildade e bondade. Ningu\u00e9m fale ao\u00a0<em>seu<\/em>\u00a0<em>irm\u00e3o<\/em>\u00a0com ira, resmungando e com maldade, mas advirta-o no mesmo dia em que comete a falta, para n\u00e3o carregar ele mesmo com a culpa. Ningu\u00e9m advirta o seu pr\u00f3ximo diante de todos, se primeiro n\u00e3o o fez perante algumas testemunhas\u00bb (V,24-26; VI,1).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">3. Convenhamos que se trata de medidas de grande eleva\u00e7\u00e3o, dignas de serem ainda hoje tidas em considera\u00e7\u00e3o. Esta viagem a\u00a0<em>Khirbet Qumran<\/em>\u00a0e \u00e0\u00a0<em>Regra<\/em>\u00a0de vida da comunidade judaica que a\u00ed viveu, vem a prop\u00f3sito do Evangelho deste Domingo XXIII do Tempo Comum, em que nos \u00e9 dada a gra\u00e7a de escutar um bocadinho do chamado Discurso Eclesial de Mateus, que ocupa todo o seu Cap\u00edtulo 18. Hoje ouviremos apenas Mateus 18,15-20. No pr\u00f3ximo Domingo, ouviremos a parte que resta desse Cap\u00edtulo, exatamente Mateus 18,21-35.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">4. Tendo em conta o teor da\u00a0<em>Regra da Comunidade<\/em>\u00a0de\u00a0<em>Qumran<\/em>\u00a0e o teor do Discurso Eclesial de Mateus (Mateus 18), tem sido este Discurso muitas vezes visto como\u00a0<em>A Regra da Comunidade Crist\u00e3<\/em>. No bocadinho que hoje nos cabe escutar, a\u00ed est\u00e1, \u00e0 semelhan\u00e7a de\u00a0<em>Qumran<\/em>, a pr\u00e1tica da corre\u00e7\u00e3o fraterna ou promo\u00e7\u00e3o fraterna \u2013 tenha-se presente a linguagem utilizada: \u00abo teu irm\u00e3o\u00bb (<em>ho adelph\u00f3s sou<\/em>) (v. 15[2x]) \u2013, a levar por diante de forma discreta e progressiva e sempre com o perd\u00e3o no cora\u00e7\u00e3o e no horizonte, tendo sempre em vista a dignidade da pessoa. Primeiro, tu a tu, a quatro olhos, dois cora\u00e7\u00f5es, um irm\u00e3o que procura trazer de volta outro irm\u00e3o. Tudo muito semelhante \u00e0 hist\u00f3ria acabada de contar por Jesus acerca da ovelha perdida e encontrada, e trazida pelo pastor para o seio do rebanho (Mateus 18,12-13). A ideia de fundo que subjaz a esta ida discreta e fraterna de um irm\u00e3o ao encontro do seu irm\u00e3o n\u00e3o tem como objetivo ostraciz\u00e1-lo, conden\u00e1-lo ou excomung\u00e1-lo, mas ganh\u00e1-lo, isto \u00e9, traz\u00ea-lo de volta ao rebanho ou \u00e0 comunidade que pratica o perd\u00e3o e o amor. Caso esta primeira tentativa n\u00e3o d\u00ea o resultado esperado, se o teu irm\u00e3o n\u00e3o te escutar (<em>m\u00ea ako\u00fas\u00ea<\/em>) (v. 16a), sobe-se a fasquia com o recurso a mais dois ou tr\u00eas irm\u00e3os, tamb\u00e9m ditos testemunhas (v. 16b). N\u00e3o se trata, por\u00e9m, de qualquer semelhan\u00e7a com um tribunal e da cita\u00e7\u00e3o de testemunhas para depor sobre o assunto em quest\u00e3o. N\u00e3o est\u00e1 em causa sequer a sele\u00e7\u00e3o de testemunhas id\u00f3neas, isto \u00e9, com mais autoridade ou melhor informa\u00e7\u00e3o. Trata-se sempre apenas de irm\u00e3os ou irm\u00e3s, que podem ajudar a estabelecer (<em>stath\u00easetai<\/em>) a paz e a ultrapassar a desaven\u00e7a havida, seja ela qual for. Se se der o caso de o irm\u00e3o desavindo \u00abn\u00e3o querer ouvir\u00bb (<em>parako\u00fas\u00ea<\/em>) (v. 17a), o que aumenta a gravidade da situa\u00e7\u00e3o \u2013 uma coisa \u00e9 \u00abn\u00e3o ouvir\u00bb, outra coisa, e mais grave, \u00e9 \u00abn\u00e3o querer ouvir\u00bb \u2013, ent\u00e3o o caso, at\u00e9 aqui tratado com toda a discri\u00e7\u00e3o, passa para o \u00e2mbito da \u00abassembleia\u00bb (<em>ekkl\u00eas\u00eda<\/em>), sempre multiplicando os olhos e os cora\u00e7\u00f5es, usando sempre a m\u00e1xima discri\u00e7\u00e3o e a boa inten\u00e7\u00e3o, embora o assunto seja agora do dom\u00ednio p\u00fablico. Entenda-se: multiplicando sempre a aten\u00e7\u00e3o e o amor. Note-se que a pessoa a \u00abcorrigir\u00bb ou \u00abpromover\u00bb n\u00e3o \u00e9 um fulano qualquer digno de censura, mas \u00e9 \u00abo teu irm\u00e3o\u00bb, como j\u00e1 vimos (v. 15). Refere o texto que, se tamb\u00e9m \u00abn\u00e3o quiser ouvir\u00bb (<em>parako\u00fas\u00ea<\/em>) a assembleia, considere-se ent\u00e3o como pag\u00e3o ou publicano (v. 17b).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">5. Subjaz ao itiner\u00e1rio proposto, que tem de ser sempre o amor fraterno a mover esta importante pr\u00e1tica eclesial (trata-se, como acab\u00e1mos de ver, de \u00abo teu irm\u00e3o\u00bb), e n\u00e3o aquele subtil sentimento que tantas vezes se apodera de n\u00f3s, levando-nos a pensar que somos melhores ou superiores ao nosso irm\u00e3o que erra, e que temos autoridade para o advertir. Contra este pretensiosismo, l\u00e1 est\u00e1 a clave de abertura deste Discurso Eclesial, com os disc\u00edpulos de Jesus \u2013 connosco, portanto \u2013 a entreterem-se com a quest\u00e3o in\u00fatil de quem \u00e9 o maior (v. 1), e com a paradigm\u00e1tica resposta de Jesus, chamando uma crian\u00e7a e dando-lhe o lugar do meio (v. 2). E n\u00e3o esque\u00e7amos tamb\u00e9m que s\u00f3 podemos abeirar-nos de algu\u00e9m para o advertir, tendo n\u00f3s o nosso olhar l\u00edmpido e puro. \u00c9 fulgurante, a este prop\u00f3sito, a advert\u00eancia de Jesus num outro importante Discurso no Evangelho de Mateus, o Discurso ou Serm\u00e3o da Montanha: \u00abComo podes dizer ao teu irm\u00e3o: deixa-me tirar o argueiro do teu olho, se no teu h\u00e1 uma trave? Hip\u00f3crita, tira primeiro a trave do teu olho, e depois ver\u00e1s bem para tirar o argueiro do olho do teu irm\u00e3o\u00bb (Mateus 7,4-5). Como \u00e9 importante que este dizer de Jesus esteja sempre a retinir no nosso cora\u00e7\u00e3o! E n\u00e3o esque\u00e7amos tamb\u00e9m que a crian\u00e7a \u00abno meio deles\u00bb (v. 2) \u00e9 igual a Jesus \u00abno meio deles\u00bb (v. 20). A crian\u00e7a \u00abno meio deles\u00bb (<em>en m\u00e9s\u00f4 aut\u00f4n<\/em>) reclama todas as aten\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o todas as admoesta\u00e7\u00f5es. Tal como Jesus \u00abno meio deles\u00bb. No meio de n\u00f3s. No meio da assembleia.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">6. Talvez fiquemos satisfeitos e tranquilos, e at\u00e9, se calhar, cheios de raz\u00e3o e de raz\u00f5es, com a declara\u00e7\u00e3o final deste itiner\u00e1rio de corre\u00e7\u00e3o ou de promo\u00e7\u00e3o: \u00abSeja para ti como um pag\u00e3o ou um publicano!\u00bb (v. 17). Mas \u00e9, talvez, exatamente aqui que se esconde a carga mais explosiva do Evangelho e se abre o seu horizonte mais amplo! Ou n\u00e3o \u00e9 verdade que o pr\u00f3prio Jesus se tornou companheiro de viagem e de mesa de publicanos e de pecadores, Ele que veio curar, n\u00e3o os que t\u00eam sa\u00fade, mas os doentes? (Mateus 9,12; cf. Lucas 5,31-32).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">7. Avancemos ent\u00e3o uma \u00faltima e imensa considera\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 o texto deste Domingo um exclusivo do Evangelho de Mateus? E n\u00e3o era Mateus um publicano? E n\u00e3o se abeirou dele, um dia, Jesus, quando Mateus, o publicano, estava sentado no seu tel\u00f3nio, um pouco a norte de Cafarnaum, junto da estrada internacional que ligava a Mesopot\u00e2mia ao Egito, na divis\u00f3ria das tetrarquias de Herodes Antipas e de Filipe, cobrando impostos e ouvindo insultos dos seus concidad\u00e3os? Os insultos n\u00e3o demoveram Mateus do seu of\u00edcio. Mas Jesus aproximou-se, cravou nos dois olhos tristes e cansados de Mateus os seus dois olhos repletos de amor, e disse-lhe: \u00abSegue-me!\u00bb (Mateus 9,9). Mateus levantou-se e seguiu Jesus, e refere a continua\u00e7\u00e3o do texto que foi fazer uma grande festa para celebrar esta p\u00e1gina nova e bela que Jesus tinha acabado de escrever na sua vida triste e cansada. Sim, este epis\u00f3dio \u00e9 exclusivo de Mateus, porque traduz a coisa mais bela e irresist\u00edvel que aconteceu na sua vida: aquele olhar bom e belo de Jesus, aquele olhar criador de Jesus, que fez Mateus levantar-se do loda\u00e7al e perceber o poder da l\u00f3gica do amor e do perd\u00e3o. E de saber bem que \u00e9 Jesus que est\u00e1 no meio da nossa vida!<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">8. Portanto, aquele \u00abseja para ti como um pag\u00e3o ou um publicano!\u00bb (v. 17b) n\u00e3o significa que se pode p\u00f4r um ponto final no trabalho do perd\u00e3o e do amor que s\u00e3o devidos a um irm\u00e3o, e ficar com a consci\u00eancia tranquila. Este \u00abseja para ti como um pag\u00e3o ou um publicano\u00bb \u00e9 virar a p\u00e1gina da an\u00e1lise fria e da metodologia cultural, social, eclesial e profissional em curso, e come\u00e7ar tudo de novo, absolutamente de novo, usando agora a metodologia absolutamente nova e in\u00e9dita de Jesus e do Evangelho. A n\u00e3o ser assim, tamb\u00e9m j\u00e1 podemos antecipar que o nosso ponto final posto ao trabalho do perd\u00e3o esbarraria logo a seguir com a l\u00f3gica do \u00absetenta vezes sete\u00bb de Jesus para Pedro (Mateus 18,21-22) e do Senhor da hist\u00f3ria seguinte, que \u00e9 Deus, e que, de uma assentada, perdoa a um pobre servo a m\u00f3dica quantia de mais coisa menos coisa como o equivalente a 174 toneladas de ouro! (Mateus 18,23-27), e que vamos ter a gra\u00e7a e a coragem de ouvir no pr\u00f3ximo Domingo. Note-se tamb\u00e9m que os tr\u00eas epis\u00f3dios s\u00e3o exclusivos de Mateus, e veja-se o qu\u00e3o importante \u00e9 termos feito um dia a experi\u00eancia do perd\u00e3o! Decisivo na pessoa de Mateus, e em todo o seu Evangelho, \u00e9 ter sido perdoado e chamado por Jesus!<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">9. Em plena e boa sintonia, a profecia de Ezequiel 33,7-9 tamb\u00e9m hoje escutada lembra-nos a nossa condi\u00e7\u00e3o de sentinelas atentas e ativas, sens\u00edveis, sempre sintonizadas em\u00a0<em>Hi-Fi<\/em>, velando para que n\u00e3o se desperdice a for\u00e7a performativa da Palavra de Deus. Leia-se, em contraponto, a advert\u00eancia fort\u00edssima de Isa\u00edas: \u00abTodas as sentinelas s\u00e3o cegas: n\u00e3o entendem; todas como c\u00e3es mudos: incapazes de ladrar; sonham, ficam deitadas, gostam de dormir\u00bb (Isa\u00edas 56,10).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">10. E sempre na mesma boa sintonia, desafia-nos S. Paulo (Romanos 13,8-10) a termos sempre boa consci\u00eancia para sabermos que temos uns para com os outros uma bela d\u00edvida a pagar todos os dias: o amor m\u00fatuo. Trata-se de uma d\u00edvida de que n\u00e3o podemos fugir, pois n\u00e3o nos \u00e9 permitido declarar insolv\u00eancia!<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">11. Sim, n\u00e3o nos \u00e9 permitido declarar insolv\u00eancia ou adormecer ou entorpecer, de modo a ficarmos inativos, infecundos, insens\u00edveis, tipo \u00abtanto faz!\u00bb. O Salmo 95, que hoje cantamos, e que \u00e9, para os judeus fi\u00e9is, a ora\u00e7\u00e3o de ingresso ou de entrada no s\u00e1bado (reza-se sexta-feira ao p\u00f4r-do-sol em fam\u00edlia), e para n\u00f3s, crist\u00e3os, \u00e9 o Salmo invitat\u00f3rio recitado todas as manh\u00e3s, \u00e9 o mais quotidiano dos Salmos. E deve ser um permanente despertador para n\u00e3o nos deixarmos andar ao sabor de qualquer m\u00fasica, mas apenas e sempre ao sabor da m\u00fasica de Deus. Sim, n\u00e3o \u00e9 tempo de nos instalarmos aqui, em qualquer \u00abaqui\u00bb. \u00c9 necess\u00e1rio levar a todos os lugares e a todas as pessoas este vendaval manso de gra\u00e7a e de bondade e de f\u00e9, que um dia Jesus ensinou e todos os dias mostrou aos seus disc\u00edpulos.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u00a0<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ez 33,7-9; Sl 95; Rm 13,8-10; Mt 18,15-20 1. 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