{"id":2696294269,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/13692-domingo-vii-do-tempo-comum-amai-os-vossos-inimigos"},"modified":"2025-11-07T16:34:04","modified_gmt":"2025-11-07T16:34:04","slug":"domingo-vii-do-tempo-comum-amai-os-vossos-inimigos-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/domingo-vii-do-tempo-comum-amai-os-vossos-inimigos-2\/","title":{"rendered":"Domingo VII do Tempo Comum: \u00abAmai os vossos inimigos\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031_160503044443.jpg\" \/><\/p>\n<p><p data-adtags-visited=\"true\">1 Sm 26,2.7-9.12-13.22-23; Sl 103; 1 Cor 15,45-49; Lc 6,27-38<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">1. Continuamos, neste Domingo VII do Tempo Comum, a saborear o imenso Discurso da plan\u00edcie de Jesus (Lucas 6,27-38), em que o amor, a d\u00e1diva, a bondade, elevados at\u00e9 ao absurdo, constituem o fio condutor do inteiro Discurso, e tamb\u00e9m o verdadeiro cart\u00e3o de identidade do disc\u00edpulo de Jesus. Tamb\u00e9m aqui vale a pena atravessar o texto, deixando-nos, todavia, atravessar tamb\u00e9m pelo texto:<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\"><em>\u00abA v\u00f3s que estais a escutar, eu digo: \u201cAmai os vossos inimigos, fazei bem \u00e0queles que vos odeiam, bendizei (eulog\u00e9\u00f4) os que vos amaldi\u00e7oam (katar\u00e1omai = kat\u00e1 + ar\u00e1 [= maldi\u00e7\u00e3o]), rezai por aqueles que vos caluniam. \u00c0quele que te bater numa face, oferece tamb\u00e9m a outra, e \u00e0quele que te tirar o manto, deixa-o levar tamb\u00e9m a t\u00fanica. A todo aquele que te pede, d\u00e1, e \u00e0quele que levar o que \u00e9 teu, n\u00e3o lho reclames. Como quereis que vos fa\u00e7am as pessoas, fazei-lhes v\u00f3s do mesmo modo.<\/em><\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\"><em>E se amais os que vos amam, que gra\u00e7a (ch\u00e1ris) vos \u00e9 devida? Na verdade, tamb\u00e9m os pecadores amam aqueles que os amam. E se fazeis bem aos que vos fazem bem, que gra\u00e7a (ch\u00e1ris) vos \u00e9 devida? Tamb\u00e9m os pecadores fazem o mesmo. E se emprestais \u00e0queles de quem esperais receber, que gra\u00e7a (ch\u00e1ris) vos \u00e9 devida? Tamb\u00e9m os pecadores emprestam aos pecadores para receberem outro tanto. Em vez disso, amai os vossos inimigos e fazei bem e emprestai sem esperar receber nada em troca, e ser\u00e1 grande a vossa recompensa (misth\u00f3s), e sereis filhos do Alt\u00edssimo, porque Ele \u00e9 am\u00e1vel (chr\u00east\u00f3s) para com os ingratos (ach\u00e1ristoi) e os maus (pon\u00earo\u00ed).<\/em><\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\"><em>Tornai-vos misericordiosos (oikt\u00edrmones) como tamb\u00e9m o vosso Pai \u00e9 misericordioso (oikt\u00edrm\u00f4n). E n\u00e3o julgueis, e n\u00e3o sereis julgados; e n\u00e3o condeneis, e n\u00e3o sereis condenados; perdoai, e sereis perdoados; dai, e ser-vos-\u00e1 dado: uma medida boa, calcada, sacudida, a transbordar, ser\u00e1 dada no vosso rega\u00e7o; na verdade, com a medida com que medirdes, sereis medidos tamb\u00e9m\u201d\u00bb (Lucas 6,27-38).<\/em><\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">2. Convenhamos que se trata de um texto espantoso, Evangelho puro, sem glosas ou outras qualifica\u00e7\u00f5es, que desvenda e desfaz a nossa velha l\u00f3gica retributiva e respetivos comportamentos pautados pela paridade, reciprocidade e simetria, e desenha novos crit\u00e9rios assim\u00e9tricos e gratuitos, desconcertantes para a nossa mentalidade assente nos nossos sacrossantos direitos. Se o Antigo Testamento insistia, por mais de trinta vezes, na necessidade de amar o\u00a0<em>estrangeiro<\/em>, que \u00e9\u00a0<em>o outro diferente de mim<\/em>, nesta p\u00e1gina sublime do Evangelho, Jesus manda-nos amar o\u00a0<em>nosso inimigo<\/em>\u00a0(Lucas 6,27 e 35), que \u00e9\u00a0<em>o outro<\/em>, n\u00e3o apenas o\u00a0<em>outro diferente de mim<\/em>, mas o\u00a0<em>outro contra mim<\/em>.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">3. No que concerne aos inimigos, ensina-nos o Conc\u00edlio II do Vaticano coisas importantes, que \u00e9 oportuno recordar: \u00abEste amor e benevol\u00eancia [para com os inimigos] n\u00e3o devem de modo nenhum tornar-nos indiferentes perante a verdade e o bem. Pelo contr\u00e1rio, \u00e9 o pr\u00f3prio amor que incita os disc\u00edpulos de Cristo a anunciar a todos a verdade que salva. Mas deve distinguir-se entre o erro, que deve ser sempre refutado, e aquele que erra, que conserva sempre a dignidade de pessoa, mesmo quando maculado por ideias religiosas falsas ou menos exatas. S\u00f3 Deus \u00e9 juiz e perscruta os cora\u00e7\u00f5es; e \u00e9 por isso que nos proibe de julgar a culpabilidade interior seja de quem for\u00bb (<em>Gaudium et spes<\/em>, n.\u00ba 28) .<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">4. A avalanche da p\u00e1gina evang\u00e9lica cai sobre n\u00f3s em tr\u00eas vagas sucessivas. A primeira levanta-se dos vv. 27-31. Depois do amor aos\u00a0<em>nossos<\/em>\u00a0inimigos (note-se bem o realismo aportado pelo adjetivo\u00a0<em>vossos<\/em>,\u00a0<em>nossos<\/em>,\u00a0<em>teus<\/em>,\u00a0<em>meus<\/em>, que n\u00e3o nos deixa no plano dos inimigos em geral ou de forma virtual!), as coisas continuam, loucas e impens\u00e1veis, de acordo com a loucura de Deus (cf. 1 Cor\u00edntios 1,25), pelo caminho do paradoxo: fazei bem \u00e0queles que vos odeiam; bendizei os que vos amaldi\u00e7oam; rezai por aqueles que vos caluniam; \u00e0quele que te tirar o manto, deixa-o levar tamb\u00e9m a t\u00fanica. Esta \u00faltima maneira de fazer implica a redu\u00e7\u00e3o \u00e0 nudez, pois habitualmente, na Palestina, usavam-se apenas aquelas duas pe\u00e7as de roupa. Termina a primeira vaga da avalanche com a chamada \u00abregra de ouro\u00bb: \u00abComo quereis que vos fa\u00e7am as pessoas, fazei-lhes v\u00f3s do mesmo modo\u00bb (v. 31). Para mais informa\u00e7\u00e3o acerca da \u00abregra de ouro\u00bb, veja-se a an\u00e1lise ao Domingo V da P\u00e1scoa.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">5. Se n\u00e3o estamos ainda submersos por esta primeira, imensa vaga, exponhamo-nos \u00e0 segunda, que se levanta dos vv. 32-35, e que arrasa as nossas pretensas boas doutrinas e h\u00e1bitos assentes na reciprocidade e boas maneiras, e n\u00e3o na gra\u00e7a vertiginosa (vv. 32-34). S\u00e3o referidas tr\u00eas situa\u00e7\u00f5es emblem\u00e1ticas: amar aqueles que nos amam, fazer bem a quem nos faz bem, emprestar para receber outro tanto ou mais. Note-se que, por exemplo, na Mesopot\u00e2mia, as taxas de juro oscilavam entre os 17 e os 50%! S\u00f3 teremos direito a recompensa, que \u00e9 a gra\u00e7a, se a nossa maneira de fazer saltar fora desta engrenagem da reciprocidade, e nos tornarmos\u00a0<em>imitadores<\/em>\u00a0de Deus, que tamb\u00e9m distribui a sua gra\u00e7a aos ingratos e maus (v. 35). A\u00ed fica ent\u00e3o exposta e clara a nossa recompensa, que n\u00e3o ser\u00e1 expressa em outro tanto dinheiro destinado a ser abandonado com a morte, t\u00e3o-pouco ser\u00e1 expressa no bem-estar prometido aos justos no Antigo Testamento, mas na extraordin\u00e1ria possibilidade de nos tornarmos filhos de Deus, membros da fam\u00edlia deste Deus que ama, ama, ama (v. 35).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">6. A terceira vaga levanta-se dos vv. 36-38, e traz para a cena outra vez a \u00abimita\u00e7\u00e3o de Deus\u00bb logo naquele dito de abertura: \u00abTornai-vos\u00a0<em>misericordiosos<\/em>\u00a0como tamb\u00e9m o vosso Pai \u00e9 misericordioso\u00bb (v. 36), logo traduzido em comportamentos e estilos de vida: n\u00e3o julgar, n\u00e3o condenar, perdoar, dar (vv. 37-38).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">7. Os nossos bons (pensamos n\u00f3s) h\u00e1bitos, n\u00e3o nos deixam levar esta loucura a s\u00e9rio. Pensamos que estes ensinamentos de Jesus s\u00e3o ut\u00f3picos e irrealiz\u00e1veis, que n\u00e3o s\u00e3o para se fazer, e assim vamos tranquilizando a nossa consci\u00eancia. Sim, estamos docemente habituados e suavemente embalados pelas nossas boas maneiras ao longo de tanto tempo adquiridas. Mas chegou o tempo de renovarmos o nosso cora\u00e7\u00e3o e o respetivo cart\u00e3o de identidade! O que consta nesta alt\u00edssima carta do Evangelho n\u00e3o \u00e9\u00a0<em>ut\u00f3pico<\/em>, isto \u00e9,\u00a0<em>sem lugar<\/em>. \u00c9, antes,\u00a0<em>eut\u00f3pico<\/em>, isto \u00e9, um\u00a0<em>lugar feliz<\/em>, com outros mapas, outras estradas e outras tabuadas! \u00c9 poss\u00edvel vencer o mal com o bem (Romanos 12,14-21). Vencer sem combater, claro. Como Jesus, que desce ao nosso mundo para abra\u00e7ar, absorver e absolver as nossas raivas e os nossos \u00f3dios. Como o Deus da Sabedoria, que \u00e9 \u00abo que domina a for\u00e7a\u00bb, no belo dizer do Livro da Sabedoria 12,18.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">8. Para fazer luz e receber luz deste imenso texto do Evangelho, chega hoje tamb\u00e9m aos nossos ouvidos a figura magn\u00e2nima de David que, no deserto de Zif, n\u00e3o usou a for\u00e7a contra Saul, mas lhe poupou a vida, como narra a bela hist\u00f3ria do Primeiro Livro de Samuel 26,2.7-9.12-13.22-23. De facto, Saul n\u00e3o era apenas, como diz a bela narrativa, o \u00abungido do Senhor\u00bb (vv. 9 e 23), mas tamb\u00e9m dormia um sono ritual (<em>tardemah<\/em>), enviado pelo Senhor (v. 12).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">9. S\u00e3o Paulo faz, na Primeira Carta aos Cor\u00edntios 15,45-49, um extraordin\u00e1rio m\u00f3dulo narrativo, em que p\u00f5e em cena, na mesma p\u00e1gina, lado a lado, o primeiro\u00a0<em>Adam<\/em>\u00a0e o \u00faltimo\u00a0<em>Adam<\/em>\u00a0e ainda n\u00f3s, que levamos as marcas do primeiro, mas tamb\u00e9m as do \u00faltimo. E \u00e9 a imagem do \u00faltimo que prevalecer\u00e1 em n\u00f3s, por obra e gra\u00e7a de Deus.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">10. O Salmo 103 \u00e9 uma das joias do Antigo Testamento e constitui um grande canto ao amor de Deus, uma esp\u00e9cie de prel\u00fadio ao \u00abDeus \u00e9 amor\u00bb (1 Jo\u00e3o 4,8). Desenrola-se em dois movimentos. O primeiro (vv. 1-9) trata o amor e o perd\u00e3o de Deus com sucessivos partic\u00edpios h\u00ednicos, que mostram um Deus que perdoa, cura, redime, coroa de amor e miseric\u00f3rdia, sacia de bem, e uma s\u00e9rie de nomes (justi\u00e7a, d\u00e1 a conhecer, obras, misericordioso, gracioso). O segundo movimento (vv. 10-18) p\u00f5e lado a lado o amor permanente de Deus e a nossa humana fraqueza. A linha vertical (c\u00e9u-terra) serve para mostrar a imensid\u00e3o do amor de Deus (v. 11), escrevendo-se na linha horizontal (oriente-ocidente) a grandeza sem medida do seu perd\u00e3o (v. 12). O bel\u00edssimo v. 13 passa a imagem inultrapass\u00e1vel de Deus como um pai com ventre maternal (<em>rehem<\/em>). A fragilidade humana aparece traduzida nas imagens do p\u00f3 (v. 14) e da erva (vv. 15-16), em contraponto com a estabilidade do amor de Deus (v. 17). Sem este amor, sem esta m\u00fasica, ser\u00edamos talvez levados melancolicamente a pensar que \u00e9 o mesmo o destino das folhas outonais e dos homens! Deixemos ecoar em n\u00f3s as belas notas deste grande Salmo 103, que alguns autores j\u00e1 chamaram o\u00a0<em>Te Deum<\/em>\u00a0do Antigo Testamento.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u00a0<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1 Sm 26,2.7-9.12-13.22-23; Sl 103; 1 Cor 15,45-49; Lc 6,27-38 1. 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