{"id":2721337702,"date":"2024-11-09T00:00:00","date_gmt":"2024-11-09T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/13417-domingo-xxxii-do-tempo-comum-dar-o-que-sobra-nao-tem-a-marca-de-deus"},"modified":"2024-11-09T00:00:00","modified_gmt":"2024-11-09T00:00:00","slug":"domingo-xxxii-do-tempo-comum-dar-o-que-sobra-nao-tem-a-marca-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/domingo-xxxii-do-tempo-comum-dar-o-que-sobra-nao-tem-a-marca-de-deus\/","title":{"rendered":"Domingo XXXII do Tempo Comum: \u00abDar o que sobra n\u00e3o tem a marca de Deus\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031_160503044443.jpg\"\/><\/p>\n<p><p data-adtags-visited=\"true\">1 Rs 17,10-16; Sl 146; Hb 9,24-28; Mc 12,38-44<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">1. Um bra\u00e7ado de gravetos, um copo de \u00e1gua, um punhado de farinha, um tudo nada de azeite. Juntando as pontas destes fios soltos, a vi\u00fava de Sarepta prepara-se para fazer uma \u00faltima refei\u00e7\u00e3o de despedida da vida juntamente com o seu filho \u00fanico. \u00c9 nesta terra quase a terminar, onde j\u00e1 mal se tem p\u00e9, nesta vida quase a expirar, que surge Elias, o homem de Deus, conduzido por Deus, que atira \u00e0 pobre mulher mais um fio de voz e de esperan\u00e7a a que se agarrar: Deus. N\u00e3o \u00e9 a quantidade que importa; o que importa \u00e9 a totalidade. Pelo fio de voz e de esperan\u00e7a de Elias, Deus n\u00e3o reclama alguma coisa; reclama tudo: o cora\u00e7\u00e3o todo, a alma toda, a confian\u00e7a toda, as for\u00e7as todas! E nem a farinha se esgota na amassadeira, nem o fio de azeite deixa de cair da almotolia! Extraordin\u00e1ria li\u00e7\u00e3o para a pobre vi\u00fava de Sarepta (Primeiro Livro dos Reis 17,10-16) e para n\u00f3s, que atravessamos a secura da paisagem desta terra de novembro.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">2. O cora\u00e7\u00e3o todo, a alma toda, a confian\u00e7a toda, as for\u00e7as todas: assim se ouve ou se l\u00ea no famoso\u00a0<em>Sh<sup>e<\/sup>ma? Yisra?el<\/em>\u00a0[= \u00abEscuta, Israel\u00bb], de Deuteron\u00f3mio 6,4-5, que tivemos a gra\u00e7a de ouvir no Domingo passado (XXXI). E nesse lugar se diz tamb\u00e9m a Israel que deve formar com essas palavras um fio de luz e de sentido que deve atar ao cora\u00e7\u00e3o, \u00e0s m\u00e3os, aos p\u00e9s, aos filhos (Deuteron\u00f3mio 6,6-9). Este fio \u00e9 fundamental para segurar as pontas soltas dos podres, pobres fios da nossa vida.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">3. Bem, neste contexto, o fio ou a linha po\u00e9tica e mel\u00f3dica do Salmo 146, que hoje cantamos e que p\u00f5e Deus t\u00e3o perto de n\u00f3s, a fazer justi\u00e7a aos oprimidos, a dar p\u00e3o aos que t\u00eam fome, a tomar a seu cuidado o \u00f3rf\u00e3o e a vi\u00fava, e a atirar-me todo para os bra\u00e7os de Deus, com aquele grito repetido: \u00ab\u00d3 minha alma, louva o Senhor!\u00bb. O Salmo 146 \u00e9 uma esp\u00e9cie de carrilh\u00e3o musical, e convida-nos a cantar os \u00abtreze bel\u00edssimos nomes\u00bb de Deus, decalcando aqui a express\u00e3o mu\u00e7ulmana que exalta os \u00ab99 bel\u00edssimos nomes\u00bb de\u00a0<em>Allah<\/em>. \u00c9 claro que os treze nomes que passaremos em revista n\u00e3o celebram tanto a ess\u00eancia divina, mas a sua a\u00e7\u00e3o em favor das suas criaturas, sobretudo dos mais pobres e desfavorecidos. \u00c9 assim que o Salmo evoca o Deus que fez o c\u00e9u, a terra, o mar, o Deus Criador (1), o Deus da verdade (<em>?emet<\/em>) (2), o Deus que faz justi\u00e7a aos oprimidos (3), defensor dos \u00faltimos (4), que d\u00e1 p\u00e3o aos famintos (5), que liberta os prisioneiros (6), que abre os olhos aos cegos (7), que levanta os abatidos (8), que ama os justos (9), que protege os estrangeiros (10), que sustenta o \u00f3rf\u00e3o e a vi\u00fava (11), que entrava o caminho dos \u00edmpios (12), o Deus que reina eternamente (13). Este maravilhoso Salmo ajuda-nos a saborear musicalmente toda a liturgia de hoje. Os treze nomes de Deus, aqui mencionados, podem bem articular-se com os treze atributos de Deus que a exegese rab\u00ednica contabiliza em \u00caxodo 34,6-7.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">4. Na verdade, \u00abDeus habita nos louvores de Israel\u00bb (Salmo 22,4). Habita nos nossos louvores, na nossa dedica\u00e7\u00e3o e devota\u00e7\u00e3o total a Ele, na nossa vida posta em melodia, fio ou linha mel\u00f3dica que ata o nosso cora\u00e7\u00e3o ao cora\u00e7\u00e3o de Deus, a nossa m\u00e3o \u00e0 m\u00e3o de Deus. Foi assim, em modo sacerdotal, que Jesus Cristo se ofereceu totalmente ao Pai e a n\u00f3s e por n\u00f3s, deixando-nos \u00e0 espera e a viver dessa espera na esperan\u00e7a da sua Vinda. Um fio tenso de luz e de sentido, a que se chama esperan\u00e7a, ata-nos para sempre a esse Senhor-que-Vem. Fio ou linha musical, vital, de cada Domingo, em que cantamos: \u00abSenhor, vem!\u00bb (<em>marana tha\u2019<\/em>), porque sabemos que \u00abo Senhor vem!\u00bb (<em>maran \u2019atta\u2019<\/em>). O Dia de Domingo deve imprimir em n\u00f3s o \u00abtique\u00bb da esperan\u00e7a, que em hebraico se diz\u00a0<em>tiqwah<\/em>, deixando-nos com o pesco\u00e7o esticado para Deus, situa\u00e7\u00e3o de quem O espera e vive da sua Vinda a todo o momento. \u00c9 a Li\u00e7\u00e3o de Hebreus 9,24-28.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">5. O Evangelho deste Domingo XXXII do Tempo Comum, Marcos 12,38-44, p\u00f5e em cena e em claro destaque uma vi\u00fava pobre que d\u00e1 a Deus a sua vida toda, em contraponto com os escribas e muitos outros, que fazem bom teatro religioso (n\u00e3o \u00e9 o caso do escriba do Domingo passado). Excelente inclus\u00e3o liter\u00e1ria no Evangelho de Marcos: da primeira vez que Jesus aparece a ensinar em p\u00fablico, neste Evangelho, em Cafarnaum, o povo exclama: \u00abEste ensina com autoridade (<em>exous\u00eda<\/em>), e n\u00e3o como os escribas!\u00bb (Marcos 1,22); e a terminar a sua atividade p\u00fablica neste Evangelho, \u00e9 Jesus que ensina ao povo que n\u00e3o \u00e9 como os escribas, pondo em realce o teatro religioso que os escribas fazem, e denunciando as injusti\u00e7as sociais que cometem (Marcos 12,38-40). Para o compreender, basta passar os olhos pelas atitudes que Jesus real\u00e7a no comportamento deles: deambular pelas ruas com longos vestidos brancos; prestar-se a defer\u00eancias e sauda\u00e7\u00f5es nas pra\u00e7as p\u00fablicas, obrigando mesmo as pessoas a levantar-se \u00e0 sua passagem; ocupar os primeiros lugares nas sinagogas; os primeiros div\u00e3s nos banquetes; explorar as vi\u00favas, cobrando em excesso, em vez de defender o seu estatuto de depend\u00eancia, um dos casos anunciados como sujeitos a um dr\u00e1stico julgamento de Deus em Malaquias 3,5; fazer longas ora\u00e7\u00f5es para serem vistos (cf. Marcos 12,38-40). Todo este teatro \u00e9 conden\u00e1vel, mas o leitor atento reparar\u00e1 certamente na \u00faltima nota, nas longas ora\u00e7\u00f5es s\u00f3 por fora, porque colide diretamente com o que ouvimos no Domingo passado acerca da nossa rela\u00e7\u00e3o com Deus: \u00abamar a Deus\u00bb, n\u00e3o por fora, n\u00e3o com adere\u00e7os ou acess\u00f3rios, n\u00e3o com coisas nem com truques, mas \u00abcom todo o cora\u00e7\u00e3o, com toda a alma, com todo o entendimento, com todas as for\u00e7as\u00bb (Marcos 12,30). Pelo que Jesus faz ver, os escribas interessam-se pouco com Deus, e mais, muito mais, em captar as boas gra\u00e7as das pessoas, caindo na cr\u00edtica que j\u00e1 vem desde Isa\u00edas: \u00abEste povo honra-me com os l\u00e1bios, mas o seu cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 bem longe de mim\u00bb (Isa\u00edas 29,13; cf. Marcos 7,6; Mateus 6,5).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">6. A cena central passa-se no \u00ab\u00e1trio das mulheres\u00bb do Templo de Jerusal\u00e9m, num lugar chamado \u00abCasa do Tesouro\u00bb (<em>b\u00eat ha-gaz\u00eet<\/em>) (Marcos 12,41-44). Muitos ricos deitavam a\u00ed muito do que lhes sobrava (Marcos 12,41.44a), mas veio tamb\u00e9m uma vi\u00fava pobre que deu um quadrante (Marcos 12,42), que \u00e9 uma coisa de nada, a 64.\u00aa parte de um den\u00e1rio! Jesus, que est\u00e1 l\u00e1 sentado (posi\u00e7\u00e3o do Mestre que ensina) chamou os seus disc\u00edpulos para lhes passar\u00a0<em>de forma solene<\/em>\u00a0[\u00abEm verdade vos digo\u00bb] o \u00faltimo ensinamento da sua vida p\u00fablica: \u00abEm verdade vos digo (<em>Am\u00ean l\u00e9g\u00f4 hym\u00een<\/em>): esta vi\u00fava pobre deitou mais do que todos os outros na Casa do Tesouro; todos deram do que lhes sobrava; mas ela, na sua indig\u00eancia, deu tudo quanto tinha, a sua vida toda!\u00bb (<em>h\u00f3lon t\u00f2n b\u00edon aut\u00eas<\/em>) (Marcos 12,43b-44), entenda-se: tudo o que tinha para viver. Ao dar tudo o que tinha para viver, que \u00e9 o sentido contido no termo grego\u00a0<em>b\u00edos<\/em>, a vi\u00fava pobre torna-se imagem de Cristo que dar\u00e1 a sua pr\u00f3pria vida (<em>psych\u00ea<\/em>) (Jo\u00e3o 10,11.15.17). Fio de sentido que liga este epis\u00f3dio ao que j\u00e1 encontr\u00e1mos no Primeiro Livro dos Reis 17,10-16.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">7. O Evangelho refere que a vi\u00fava \u00e9 pobre. Duplamente desfavorecida, portanto. Enquanto vi\u00fava e enquanto pobre. Mas a tecla que soa mais forte, \u00e9 que deu tudo, ainda que tenha dado pouco: duas pequenas moedas (<em>lept\u00e0 d\u00fdo<\/em>), ou seja, um quadrante (<em>kodr\u00e1nt\u00eas<\/em>). O quadrante \u00e9 uma coisa insignificante: \u00e9 a sexag\u00e9sima quarta parte de um den\u00e1rio! E um den\u00e1rio \u00e9 o sal\u00e1rio de um dia de trabalho. A pobre vi\u00fava recuper\u00e1-lo-ia rapidamente, mal se pusesse a pedir! O acento n\u00e3o est\u00e1 posto na quantidade, mas na\u00a0<em>totalidade<\/em>! \u00c9 bom que, observando bem esta cena exemplar, aprendamos a passar da mera ajuda para o dom de n\u00f3s mesmos. Dom total. O disc\u00edpulo de Jesus, \u00e0 maneira de Jesus, deve p\u00f4r em jogo a pr\u00f3pria vida, e n\u00e3o simplesmente os adere\u00e7os ou acess\u00f3rios! Tudo, e n\u00e3o apenas o sup\u00e9rfluo! Dar o que sobra n\u00e3o tem a marca de Deus, n\u00e3o \u00e9 fazer a verdadeira mem\u00f3ria de Jesus, que se entregou a si mesmo por n\u00f3s (Ef\u00e9sios 5,2), por mim (G\u00e1latas 2,20). O sup\u00e9rfluo deixa a vida intacta. O dom de si mesmo transforma a vida para sempre. A marca deste dom \u00e9 a\u00a0<em>totalidade<\/em>\u00a0e a definitividade.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">8. Dar a vida toda ou entreter-se com os adere\u00e7os, os acess\u00f3rios, o sup\u00e9rfluo, eis a verdadeira quest\u00e3o, meu irm\u00e3o deste Domingo de novembro.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Ant\u00f3nio Couto<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Educris|09.11.2024<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1 Rs 17,10-16; Sl 146; Hb 9,24-28; Mc 12,38-44 1. 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