{"id":2737391121,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/34-destaques\/9375-quando-sairmos-de-casa-que-igreja-queremos-ser-pedro-valinho"},"modified":"2025-11-07T16:32:49","modified_gmt":"2025-11-07T16:32:49","slug":"quando-sairmos-de-casa-que-igreja-queremos-ser-pedro-valinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/quando-sairmos-de-casa-que-igreja-queremos-ser-pedro-valinho\/","title":{"rendered":"\u00abQuando sairmos de casa, que igreja queremos ser?\u00bb, Pedro Valinho"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/photo-1538766017398-415434a31a5b_200416100614.jfif\" \/><\/p>\n<p><p style=\"text-align: right\"><span style=\"color: #800000\"><em>Quando sairmos de casa, que igreja queremos ser?<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"color: #800000\"><em>Um povo sacerdotal em tempos de isolamento<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"color: #800000\"><em><br \/><\/em><\/span><\/p>\n<p>N\u00f3s n\u00e3o sab\u00edamos que \u00e9ramos um povo de sacerdotes. Quero dizer: n\u00f3s conhec\u00edamos a express\u00e3o, at\u00e9 a t\u00ednhamos lido numa qualquer carta de um qualquer disc\u00edpulo de Jesus, talvez Pedro, e \u201cpovo sacerdotal\u201d \u00e9 express\u00e3o usada naquele c\u00e2ntico suficientemente antigo para ter passado pelos nossos ouvidos e os nossos l\u00e1bios. Mas, no fundo, n\u00e3o sab\u00edamos que \u00e9ramos povo de sacerdotes.<\/p>\n<p>De repente, um v\u00edrus desconhecido e invis\u00edvel atirou-nos para dentro de casa. Fecharam as escolas e as universidades, fecharam os com\u00e9rcios e os restaurantes, fechou tudo o que n\u00e3o era indispens\u00e1vel para que a vida continuasse. No lote de coisas prescind\u00edveis estavam as igrejas. E muito bem. N\u00f3s n\u00e3o sab\u00edamos, mas a verdadeira igreja n\u00e3o est\u00e1 nas pedras de uma catedral, mas nas pedras vivas agora isoladas nas suas casas. As igrejas fecharam, mas a igreja continua aberta. As igrejas fecharam precisamente porque a igreja continua aberta e, na sua abertura, n\u00e3o podia sen\u00e3o assumir a responsabilidade que o tempo exige e manter a dist\u00e2ncia para o bem de todos. Nunca como hoje o isolamento foi t\u00e3o sinal de comunh\u00e3o. Fechar-se no seu casulo \u00e9, neste momento, o \u00fanico sinal poss\u00edvel de abertura e respeito pelo irm\u00e3o. \u00c0s vezes, o isolamento \u00e9 comunh\u00e3o.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m nunca como hoje estivemos t\u00e3o equipados para viver em isolamento. Sem sair das nossas quatro paredes, temos o mundo todo nas m\u00e3os. Nada do que se passa no globo nos \u00e9 estranho, porque tudo recebemos \u00e0 escala das dimens\u00f5es de um ecr\u00e3. A escola toda parece caber no monitor de um computador. O trabalho parece fazer-se \u00e0 dist\u00e2ncia de cliques e de chamadas telef\u00f3nicas. E estou em crer que a maior tenta\u00e7\u00e3o, para a igreja, esteja em achar tamb\u00e9m que tudo o que somos pode ser vivido \u00e0 escala virtual das dimens\u00f5es de um ecr\u00e3.<\/p>\n<p>Talvez nos perguntemos para que serve uma igreja fechada em casa. Para que serve uma igreja que n\u00e3o se pode reunir para celebrar, para comungar o corpo de Cristo, para ouvir a proclama\u00e7\u00e3o da palavra, para ser educada na f\u00e9? Talvez nos perguntemos se uma igreja assim continua a ser sinal prof\u00e9tico ou se n\u00e3o ser\u00e1 antes sinal de medo e impot\u00eancia. Talvez nos perguntemos se, quando sairmos de casa, ainda seremos igreja.<\/p>\n<p>N\u00f3s n\u00e3o sab\u00edamos, mas a nossa hist\u00f3ria come\u00e7ou a\u00ed, no lugar do isolamento, quando doze homens e uma mulher se fecharam do mundo em ora\u00e7\u00e3o. Naquela sala, havia medo tamb\u00e9m e n\u00e3o foi o medo que impediu que o Esp\u00edrito surgisse como o vendaval que haveria de transformar o mundo. N\u00f3s n\u00e3o sab\u00edamos, mas foi de isolamento, at\u00e9 mesmo de um misto de receio e de esperan\u00e7a, de inquieta\u00e7\u00e3o e de coragem, que se fez tantas vezes o lugar onde se disse a f\u00e9: numas catacumbas escavadas debaixo da cidade de Roma, em eremit\u00e9rios long\u00ednquos no deserto, na solid\u00e3o de cora\u00e7\u00f5es incompreendidos em todos os tempos e em todos os lugares. N\u00f3s n\u00e3o sab\u00edamos, mas ainda hoje \u00e9 no isolamento que a f\u00e9 se diz em tantas latitudes do nosso mundo, onde o padre n\u00e3o chega todos os anos, onde dizer-se crist\u00e3o \u00e9 condenar-se a uma minoria, quantas vezes perseguida, onde s\u00f3 no segredo de casa pode o nome de Cristo ser proclamado.<\/p>\n<p><strong><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"\" class=\"s13\" height=\"401\" src=\"https:\/\/images.unsplash.com\/photo-1508404530815-6625db882a72?ixlib=rb-1.2.1&amp;ixid=eyJhcHBfaWQiOjEyMDd9&amp;auto=format&amp;fit=crop&amp;w=633&amp;q=80\" style=\"float: left\" width=\"267\">Mas, perguntemo-nos. Perguntemo-nos para que serve uma igreja assim fechada em casa?<\/img><\/strong><\/p>\n<p>Recordo-me de visitar em Paris, no cimo do monte da Bas\u00edlica do Sacr\u00e9 Coeur, logo ao lado desse impressionante monumento nacional que \u00e9 ponto alto de qualquer roteiro tur\u00edstico, um pequeno e muito discreto convento de irm\u00e3s carmelitas, quase impercet\u00edvel ao mundo que passa. Impressionou-me, nessa visita, que, no meio da cidade das luzes, no cimo do monte que tem uma das vistas panor\u00e2micas mais deslumbrantes sobre a cidade de Paris, as irm\u00e3s tenham erguido muros altos que lhes impedem de ver outra coisa que n\u00e3o o c\u00e9u e a cruz no cimo da torre da Bas\u00edlica. Creio que aqueles muros s\u00e3o met\u00e1fora da vida crist\u00e3 e talvez particularmente em tempos de isolamento: dizem-nos que \u00e9 no segredo de uma vida focada em Deus, alimentada por esta rela\u00e7\u00e3o, trabalhada na intimidade da ora\u00e7\u00e3o, escutada e meditada no sil\u00eancio, que chegamos a ser \u00edntimos do Deus incarnado. Independentemente de onde estamos, esta \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o que alimenta todas as rela\u00e7\u00f5es, tudo o que fazemos e somos.<\/p>\n<p>Em tempos de isolamento, assistimos a uma prolifera\u00e7\u00e3o de celebra\u00e7\u00f5es que cabem nas polegadas de um plasma. Inquieta-me esta celebra\u00e7\u00e3o virtualizada que nos faz crer que h\u00e1 mais valor em <em>assistir <\/em>a uma missa celebrada numa igreja vazia do que em <em>celebrar <\/em>a f\u00e9 com os que est\u00e3o comigo, que eu posso abra\u00e7ar, com quem posso partir o alimento da Palavra, e que s\u00e3o, tamb\u00e9m eles, sinal eficaz da comunh\u00e3o dos irm\u00e3os e da presen\u00e7a de Deus. Bem sei que a transmiss\u00e3o televisiva de uma missa \u00e9, para muitos, o \u00fanico sinal de comunh\u00e3o que recebem, porque est\u00e3o s\u00f3s ou porque n\u00e3o podem ou n\u00e3o sabem celebrar de outra forma. Mas inquieta-me que a igreja fechada em casa n\u00e3o possa ou n\u00e3o saiba celebrar de outra forma. \u00c9 talvez sinal de que n\u00f3s n\u00e3o sab\u00edamos que \u00e9ramos um povo de sacerdotes.<\/p>\n<p>N\u00f3s n\u00e3o sab\u00edamos da presen\u00e7a real de Cristo na palavra que podemos partir e dar em sua mem\u00f3ria. N\u00f3s n\u00e3o sab\u00edamos da presen\u00e7a real de Cristo entre os que amamos e que podemos ainda abra\u00e7ar como quem partilha a paz do Ressuscitado. N\u00f3s n\u00e3o nos record\u00e1vamos que o \u00absacrif\u00edcio vivo, santo, agrad\u00e1vel a Deus\u00bb (Rm 12,1) \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o contrito que o busca de verdade na fragilidade dos meios que tem \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A aus\u00eancia da comunidade e da celebra\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria pode ser tamb\u00e9m liturgia. Uma das experi\u00eancias que mais marcaram o meu caminho de f\u00e9 foi a visita a dois mission\u00e1rios irlandeses com quem pouco falei. Viviam numa regi\u00e3o semideserta no norte do Qu\u00e9nia. Durante cerca de 40 anos ali estiveram junto de um povo n\u00f3mada, os Pokot. N\u00e3o me hei de esquecer daquele natal de 2002. N\u00e3o s\u00f3 porque o nosso carro avariou no semideserto a meio da noite e tivemos de percorrer uns 15 km a p\u00e9 at\u00e9 \u00e0 miss\u00e3o mais pr\u00f3xima, num lugar que \u2013 vim a saber no dia seguinte \u2013 era frequentado por hienas; n\u00e3o s\u00f3 porque em vez do nosso tradicional bacalhau, eu tive, naquele almo\u00e7o de natal, um prato de honra atribu\u00eddo aos convidados repleto de tripas cozidas; mas sobretudo pelo exemplo de vida daqueles dois mission\u00e1rios. Vivia cada um deles, sozinho, em miss\u00f5es que distavam uns 30 ou 40 km uma da outra. Durante dezenas de anos a sua miss\u00e3o foi estar. A sua pastoral era dizer \u00e0quele povo que o seu Deus os amava, mesmo antes deles o conhecerem, e que esse Deus estava ali, presente, atrav\u00e9s daquele estrangeiro. N\u00e3o batizaram ningu\u00e9m nos primeiros dez, quinze anos. Entretanto, trouxeram assist\u00eancia m\u00e9dica, empenharam-se na alfabetiza\u00e7\u00e3o, na promo\u00e7\u00e3o da mulher e das crian\u00e7as, abriram po\u00e7os&#8230; quase sem palavras, diziam que ali estavam porque o seu Deus amava aquele povo mesmo antes desse povo o ter conhecido. E foi preciso esperar quinze, vinte anos at\u00e9 que algu\u00e9m desejasse ser chamado da fam\u00edlia desse Deus.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso ser alimentado por uma esperan\u00e7a imensa, e uma fidelidade \u00e0 promessa de Deus, para persistir em ser sinal no meio do fracasso. Para persistir em ser sinal para um povo que n\u00e3o compreendia, nem poderia compreender aquela op\u00e7\u00e3o de vida. \u00c9 preciso ter uma f\u00e9 de s\u00e1bado santo, que sabe que a aus\u00eancia de sinal \u00e9 ainda presen\u00e7a de Deus.<\/p>\n<p>Acredito que ser povo de sacerdotes \u00e9 isto: celebrar a f\u00e9, a esperan\u00e7a e o amor, com a fragilidade dos meios de que dispomos, sem querer abafar a aus\u00eancia da comunidade com virtualismos. O jejum de s\u00e1bado santo \u00e9 caminho imprescind\u00edvel para a alegria da ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Quando sairmos de casa, que igreja queremos ser?<\/strong><\/p>\n<p>O que espera o mundo da igreja? O mundo tem direito a exigir da igreja uma hist\u00f3ria capaz de captar a sua imagina\u00e7\u00e3o. E talvez importem menos os meios e os f\u00f3runs, mas nos seja exigido um testemunho de vida que se torna hist\u00f3ria narrada dessa aventura. Talvez importe sobretudo aquilo que S. Paulo pede aos cor\u00edntios: que os crist\u00e3os sejam carta aberta sobre Deus conhecida e lida por todos os homens (2 Cor 3,2). Ser disc\u00edpulo de Cristo n\u00e3o \u00e9 aprender de cor a sua vida, nem \u00e9 seguir um manual de prescri\u00e7\u00f5es morais, nem \u00e9 cumprir fielmente um ritual no respeito fidel\u00edssimo de todas as rubricas. A proposta da f\u00e9 n\u00e3o \u00e9 a soma de argumentos ou a certeza de um ganho. \u00c9 antes a proposta de uma amizade com uma pessoa que se conhece na rela\u00e7\u00e3o. Este \u00e9 um processo eclesial bem mais dif\u00edcil: n\u00e3o h\u00e1 estrat\u00e9gias pastorais eficazes nem sucesso aparente. N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de t\u00e9cnicas e mec\u00e2nicas. N\u00e3o se faz pastoral como quem monta a engenharia de um motor controlando todas as pe\u00e7as. Mas, na medida em que as comunidades estejam dispostas a serem testemunhas de uma rela\u00e7\u00e3o, ser\u00e1 o dinamismo da incarna\u00e7\u00e3o a ganhar forma no cora\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria igreja. Mesmo em tempos de isolamento. Porque somos um povo de sacerdotes.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: right\">Pedro Valinho Gomes<\/p>\n<p style=\"text-align: right\">Investigador no Instituto Religions, Spiritualit\u00e9s, Cultures, Soci\u00e9t\u00e9s (UCLouvain)<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando sairmos de casa, que igreja queremos ser? 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