{"id":2752701981,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/326-vaticano\/8432-eau-discurso-do-papa-no-encontro-interreligioso"},"modified":"2025-11-07T16:34:33","modified_gmt":"2025-11-07T16:34:33","slug":"eau-discurso-do-papa-no-encontro-interreligioso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/eau-discurso-do-papa-no-encontro-interreligioso\/","title":{"rendered":"EAU: Discurso do Papa no Encontro Interreligioso"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/papa_abu_dabhi_190204090554.jpeg\" \/><\/p>\n<p><p><em>No primeiro discurso que proferiu esta tarde em Abu Dabhi, nos Emirados \u00c1rabes Unidos, o Papa abordou o papel das religi\u00f5es na constru\u00e7\u00e3o de um mundo de paz e garantiu total empenho da Igreja no combate a todas as formas de desumaniza\u00e7\u00e3o da sociedade. Francisco afirmou que \u00e9 chegado o momento das Religi\u00f5es entrarem juntas na &#8220;nau de No\u00e9&#8221; de modo a serem &#8220;voz dos abandonados&#8221; deste mundo e a florescerem sociedade fraternas no deserto \u00e1rido da guerra.<\/em><\/p>\n<p>Leia, na \u00edntegra, o discurso do Papa Francisco<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Salam Aleikum, A paz esteja convosco!<\/p>\n<p>Agrade\u00e7o de cora\u00e7\u00e3o a sua Alteza o Sheikh Mohammed bin Zayed Al Nahyan e ao doutor Ahmad Al-Tayyib, Grande Imam de Al-Azhar, pelas suas palavras. Estou grato ao Conselho dos Anci\u00e3os pelo encontro que acab\u00e1mos de ter na Mesquita Sheikh Zayed.<\/p>\n<p>Sa\u00fado tamb\u00e9m cordialmente o Senhor Abd Al-Fattah Al-Sisi, Presidente da Rep\u00fablica \u00c1rabe do Egipto, terra de Al-Azhar. Sa\u00fado cordialmente as autoridades civis e religiosas e o corpo diplom\u00e1tico. Permitam-me tamb\u00e9m um sincero obrigado pela calorosa rece\u00e7\u00e3o que todos me reservaram, a mim e \u00e0 nossa delega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Agrade\u00e7o tamb\u00e9m a todas as pessoas que ajudaram a tornar esta viagem poss\u00edvel e que trabalharam com dedica\u00e7\u00e3o, entusiasmo e profissionalismo para este evento: os organizadores, o pessoal do protocolo, o da Seguran\u00e7a e todos aqueles que de maneiras diferentes t\u00eam contribu\u00eddo &#8220;Nos bastidores&#8221;. Um agradecimento especial ao Sr. Mohamed Abdel Salam, antigo assessor do Grande Imam.<\/p>\n<p>Da vossa p\u00e1tria dirijo-me a todos os Pa\u00edses desta Pen\u00ednsula, a quem desejo dirigir a minha sauda\u00e7\u00e3o mais cordial, com amizade e estima.<\/p>\n<p>Com gratid\u00e3o ao Senhor, no oitavo anivers\u00e1rio do encontro entre S\u00e3o Francisco de Assis e o sult\u00e3o Al-Kamil, sa\u00fado a oportunidade de vir aqui como crente sedento de paz, como um irm\u00e3o que busca a paz com irm\u00e3os. Querendo a paz, promovendo a paz, sendo instrumento de paz: estamos aqui para isto.<\/p>\n<p>O logotipo desta viagem retrata uma pomba com um ramo de oliveira. \u00c9 uma imagem que lembra a hist\u00f3ria do dil\u00favio primordial, presente em diferentes tradi\u00e7\u00f5es religiosas. De acordo com a hist\u00f3ria b\u00edblica, para preservar a humanidade da destrui\u00e7\u00e3o, Deus pede a No\u00e9 que entre na arca com a sua fam\u00edlia. N\u00f3s, tamb\u00e9m, hoje, em nome de Deus, para preservar a paz, precisamos unir-nos como uma fam\u00edlia, numa arca que possa navegar os mares tempestuosos do mundo: a arca de fraternidade.<\/p>\n<p>O ponto de partida \u00e9 reconhecer que Deus est\u00e1 na origem da \u00fanica fam\u00edlia humana. Aquele que \u00e9 o Criador de tudo e de todos e quer que vivamos como irm\u00e3os e irm\u00e3s, habitando na casa comum da cria\u00e7\u00e3o que Ele nos deu. Aqui se encontram as ra\u00edzes da nossa comum humanidade, a fraternidade, qual \u00abvoca\u00e7\u00e3o contida no des\u00edgnio de Deus\u00bb [1]. Diz-nos que todos temos igual dignidade e que ningu\u00e9m pode ser um mestre ou um escravo para os outros.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos honrar o Criador sem guardar a sacralidade de cada pessoa e de cada vida humana: cada um \u00e9 igualmente precioso aos olhos de Deus, porque Ele n\u00e3o olha para a fam\u00edlia humana com um olhar de prefer\u00eancia que exclui, mas com um olhar benevolente que inclui. Portanto, reconhecer os mesmos direitos a todo ser humano \u00e9 glorificar o nome de Deus na terra. Por conseguinte no nome de Deus Criador, est\u00e1 sem hesita\u00e7\u00f5es condenada todas as formas de viol\u00eancia, porque s\u00e3o uma profana\u00e7\u00e3o s\u00e9ria do nome de Deus usado para justificar o \u00f3dio e a viol\u00eancia contra o irm\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 viol\u00eancia que possa ser religiosamente justificada.<\/p>\n<p>Inimigo da irmandade \u00e9 o individualismo, que se traduz na vontade de se afirmar a si mesmo e ao pr\u00f3prio grupo sobre os outros. \u00c9 uma armadilha que amea\u00e7a todos os aspetos da vida, mesmo a mais alta e inata prerrogativa do homem, isto \u00e9, a abertura \u00e0 transcend\u00eancia e \u00e0 religiosidade. A verdadeira religiosidade consiste em amar a Deus de todo o cora\u00e7\u00e3o e ao pr\u00f3ximo como a n\u00f3s mesmos. A conduta religiosa, portanto, precisa de ser continuamente purificada pela recorrente tenta\u00e7\u00e3o de julgar os outros como inimigos e advers\u00e1rios. Cada credo \u00e9 chamado a superar a dist\u00e2ncia entre amigos e inimigos, para assumir a perspetiva do C\u00e9u, que abra\u00e7a os homens sem privil\u00e9gios e discrimina\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Desejo, por isso, expressar o meu apre\u00e7o pelo compromisso deste pa\u00eds em tolerar e garantir a liberdade de culto, enfrentando o extremismo e o \u00f3dio. Ao faz\u00ea-lo, enquanto se promove a liberdade fundamental de professar as suas cren\u00e7as, exig\u00eancia intr\u00ednseca da cria\u00e7\u00e3o do homem, deve tamb\u00e9m vigiar para que a religi\u00e3o n\u00e3o seja instrumentalizada e arrisque, admitindo a viol\u00eancia e o terrorismo, a negar-se a si mesma.<\/p>\n<p>A fraternidade, certamente, \u00abexprime tamb\u00e9m a multiplicidade e a diferen\u00e7a que existe entre os irm\u00e3os, embora ligados por nascimento e tendo a mesma natureza e a mesma dignidade\u00bb [2]. A pluralidade religiosa \u00e9 a sua express\u00e3o. Neste contexto, a atitude certa n\u00e3o \u00e9 nem a uniformidade for\u00e7ada, nem o sincretismo conciliat\u00f3rio: o que somos chamados a fazer, como crentes, \u00e9 a comprometermo-nos, a igual dignidade de todos, em nome do Misericordioso que nos criou e em cujo nome a composi\u00e7\u00e3o dos contrastes e da fraternidade na diversidade deve ser buscada. Gostaria aqui de reafirmar a convic\u00e7\u00e3o da Igreja Cat\u00f3lica: \u00abN\u00e3o podemos invocar Deus como o Pai de todos os homens, se nos recusarmos a nos comportar como irm\u00e3os em rela\u00e7\u00e3o a alguns dos homens que s\u00e3o criados \u00e0 imagem de Deus\u00bb [3].<\/p>\n<p>V\u00e1rias quest\u00f5es, no entanto, se imp\u00f5em: como nos protegemos na \u00fanica fam\u00edlia humana? Como nutrir uma irmandade n\u00e3o te\u00f3rica que se traduz em aut\u00eantica fraternidade? Como pode a inclus\u00e3o do outro prevalecer sobre a exclus\u00e3o em nome de algu\u00e9m com a mesma perten\u00e7a? Como, em resumo, as religi\u00f5es podem ser canais de fraternidade em vez de barreiras de separa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>A fam\u00edlia humana e a coragem da alteridade<\/strong><\/p>\n<p>Se acreditamos na exist\u00eancia da fam\u00edlia humana, segue-se que, como tal, deve ser preservada. Como em todas as fam\u00edlias, isto ocorre principalmente atrav\u00e9s de um di\u00e1logo di\u00e1rio e eficaz. Pressup\u00f5e a pr\u00f3pria identidade, da qual n\u00e3o se deve abdicar para agradar ao outro. Mas, ao mesmo tempo, pede a coragem da alteridade [4], que envolve o pleno reconhecimento do outro e da sua liberdade, e o consequente compromisso de me gastar, para que os seus direitos fundamentais sejam sempre afirmados, em toda parte e por qualquer pessoa. Porque sem a liberdade n\u00e3o somos mais filhos da fam\u00edlia humana, mas escravos. Entre as liberdades gostaria de enfatizar a religiosa. N\u00e3o se limita apenas \u00e0 liberdade de culto, mas v\u00ea no outro verdadeiramente um irm\u00e3o, um filho da minha pr\u00f3pria humanidade que Deus deixa livre e que, portanto, nenhuma institui\u00e7\u00e3o humana pode for\u00e7ar, nem mesmo em seu nome.<\/p>\n<p><strong>O Di\u00e1logo e a ora\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A coragem da alteridade \u00e9 a alma do di\u00e1logo, que se baseia na sinceridade das inten\u00e7\u00f5es. O di\u00e1logo permanece, de facto, comprometido com o fingimento, o que aumenta a dist\u00e2ncia e a desconfian\u00e7a: n\u00e3o se pode proclamar a fraternidade e agir na dire\u00e7\u00e3o oposta. De acordo com um escritor moderno, \u00abquem mente a si mesmo e ouve as suas pr\u00f3prias mentiras, chega ao ponto em que n\u00e3o consegue mais distinguir a verdade, nem dentro de si nem ao seu redor, e assim come\u00e7a a n\u00e3o mais se estimar a si mesmo, nem aos outros\u00bb [5].<\/p>\n<p>Em tudo isto, a ora\u00e7\u00e3o \u00e9 indispens\u00e1vel: enquanto incorpora a coragem da alteridade em rela\u00e7\u00e3o a Deus, na sinceridade da inten\u00e7\u00e3o, purifica o cora\u00e7\u00e3o da abstin\u00eancia para si mesmo. A ora\u00e7\u00e3o feita com o cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 repleta de fraternidade. Portanto, \u00abquanto ao futuro do di\u00e1logo inter-religioso, a primeira coisa que devemos fazer \u00e9 orar. E rezar uns pelos outros: somos irm\u00e3os! Sem o Senhor, nada \u00e9 poss\u00edvel; com ele, tudo se torna! Possa a nossa ora\u00e7\u00e3o &#8211; cada um segundo a sua pr\u00f3pria tradi\u00e7\u00e3o &#8211; aderir plenamente \u00e0 vontade de Deus, que deseja que todos os homens se reconhe\u00e7am como irm\u00e3os e vivam como tal, formando a grande fam\u00edlia humana na harmonia da diversidade\u00bb.[6].<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 alternativa: ou construiremos juntos o futuro ou n\u00e3o haver\u00e1 futuro. As religi\u00f5es, em particular, n\u00e3o podem renunciar \u00e0 tarefa urgente de construir pontes entre os povos e as culturas. Chegou o momento em que as religi\u00f5es se gastam ainda mais ativamente, com coragem e aud\u00e1cia, sem fingimentos, a ajudar a fam\u00edlia humana a amadurecer a capacidade de reconcilia\u00e7\u00e3o, a vis\u00e3o da esperan\u00e7a e os itiner\u00e1rios concretos da paz.<\/p>\n<p><strong>Educa\u00e7\u00e3o e justi\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>Voltemos ent\u00e3o \u00e0 imagem inicial da pomba da paz. At\u00e9 a paz, para levantar voo, precisa de asas que a apoiem. As asas da educa\u00e7\u00e3o e da justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Educa\u00e7\u00e3o &#8211; em latim significa extrair, puxar para fora \u2013 \u00e9 trazer \u00e0 luz os preciosos recursos da alma. \u00c9 reconfortante ver que neste pa\u00eds n\u00e3o investem apenas na extra\u00e7\u00e3o de recursos terrestres, mas tamb\u00e9m nos do cora\u00e7\u00e3o, na educa\u00e7\u00e3o dos jovens. \u00c9 um compromisso que espero que continue e se espalhe noutros lugares. At\u00e9 a educa\u00e7\u00e3o acontece no relacionamento, na reciprocidade. Na famosa antiga m\u00e1xima &#8220;conhece-te a ti mesmo&#8221; devemos combinar &#8220;conhece o teu irm\u00e3o&#8221;: a sua hist\u00f3ria, a sua cultura e a sua f\u00e9, porque n\u00e3o h\u00e1 verdadeiro autoconhecimento sem o outro. Como homens, e ainda mais como irm\u00e3os, lembremo-nos mutuamente de que nada do que \u00e9 humano pode permanecer estranho a n\u00f3s [7]. \u00c9 importante para o futuro formar identidades abertas, capazes de superar a tenta\u00e7\u00e3o de viverem para si mesmas e se tornarem r\u00edgidas.<\/p>\n<p>Investir na cultura promove uma diminui\u00e7\u00e3o do \u00f3dio e um crescimento da civiliza\u00e7\u00e3o e da prosperidade. Educa\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia s\u00e3o inversamente proporcionais. Institui\u00e7\u00f5es cat\u00f3licas &#8211; bem apreciadas neste pa\u00eds e na regi\u00e3o &#8211; promovem esta educa\u00e7\u00e3o para a paz e compreens\u00e3o m\u00fatua para prevenir a viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Os jovens, muitas vezes cercados por mensagens negativas e not\u00edcias falsas, precisam de aprender a n\u00e3o ceder \u00e0s tenta\u00e7\u00f5es do materialismo, do \u00f3dio e do preconceito; aprender a reagir \u00e0 injusti\u00e7a e tamb\u00e9m \u00e0s experi\u00eancias dolorosas do passado; aprender a defender os direitos dos outros com o mesmo vigor com que defendem os seus direitos. Um dia julgar-nos-\u00e3o: bem, se lhes dermos bases s\u00f3lidas para criar novos encontros de civiliza\u00e7\u00e3o; mal, se os deixamos apenas miragens e a perspetiva desoladora de conflitos prejudiciais de incivilidade.<\/p>\n<p>A Justi\u00e7a \u00e9 a segunda asa da paz, que muitas vezes n\u00e3o \u00e9 afetada por incidentes individuais, mas \u00e9 lentamente devorada pelo cancro da injusti\u00e7a.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode, portanto, crer em Deus e n\u00e3o tentar viver com toda a justi\u00e7a, de acordo com a Regra de Ouro: \u00abTudo o que quereis que os homens vos fa\u00e7am a v\u00f3s, fazei-lhes v\u00f3s tamb\u00e9m; porque esta \u00e9 a Lei e os Profetas\u00bb (Mt 7, 12).<\/p>\n<p>Paz e justi\u00e7a s\u00e3o insepar\u00e1veis! O profeta Isa\u00edas diz: \u00abPraticar justi\u00e7a dar\u00e1 a paz\u00bb (32,17). A paz morre quando se divorcia da justi\u00e7a, mas a justi\u00e7a \u00e9 falsa se n\u00e3o for universal. A Justi\u00e7a dirigida somente aos familiares, compatriotas, aos crentes da mesma f\u00e9 \u00e9 uma justi\u00e7a que manca, \u00e9 uma injusti\u00e7a mascarada!<\/p>\n<p>As religi\u00f5es t\u00eam tamb\u00e9m a tarefa de lembrar que a gan\u00e2ncia do lucro faz o cora\u00e7\u00e3o inerte e que as leis do mercado, exigindo tudo de uma vez, n\u00e3o ajudam ao encontro, ao di\u00e1logo, \u00e0 fam\u00edlia, dimens\u00f5es essenciais da vida que precisam de tempo e paci\u00eancia. As religi\u00f5es s\u00e3o a voz dos \u00faltimos, que n\u00e3o s\u00e3o estat\u00edsticas, mas irm\u00e3os, e ficam ao lado dos pobres; vigiando como sentinelas da fraternidade na noite do conflito, sendo vigilantes para que a humanidade n\u00e3o feche os olhos \u00e0s injusti\u00e7as e nunca se resigne \u00e0s muitas trag\u00e9dias do mundo.<\/p>\n<p><strong>O deserto que floresce<\/strong><\/p>\n<p>Depois de ter falado da irmandade como uma arca de paz, gostaria agora de me inspirar numa segunda imagem, a do deserto, que nos envolve.<\/p>\n<p>Aqui, em poucos anos, com clarivid\u00eancia e sabedoria, o deserto foi transformado num lugar pr\u00f3spero e hospitaleiro; o deserto tornou-se, partindo de um obst\u00e1culo imperme\u00e1vel e inacess\u00edvel, um ponto de encontro entre culturas e religi\u00f5es. Aqui o deserto floresceu, n\u00e3o apenas por alguns dias no ano, mas por muitos anos. Este pa\u00eds, no qual areia e arranha-c\u00e9us se encontram, continua a ser uma importante encruzilhada entre o Ocidente e o Oriente, entre o Norte e o Sul do planeta, um lugar de desenvolvimento, onde espa\u00e7os outrora in\u00f3spitos reservam empregos para pessoas de v\u00e1rias na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>At\u00e9 mesmo o desenvolvimento, no entanto, tem os seus advers\u00e1rios. E se o inimigo da irmandade era o individualismo, gostaria de destacar aquele obst\u00e1culo a desenvolvimento indiferente, que acaba convertendo as realidades florescentes em terras desertas. De facto, um desenvolvimento puramente utilit\u00e1rio n\u00e3o traz progresso real e duradouro. Somente um desenvolvimento integral e coeso tem um futuro digno para o homem. A indiferen\u00e7a impede a vis\u00e3o da comunidade humana para l\u00e1 dos ganhos e do irm\u00e3o para al\u00e9m do trabalho que desenvolve. A indiferen\u00e7a, de facto, n\u00e3o olha para o futuro; ela n\u00e3o se importa com o futuro da cria\u00e7\u00e3o, ela n\u00e3o se importa com a dignidade do estranho e o futuro das crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Neste contexto, alegro-me pelo facto do primeiro F\u00f3rum da Alian\u00e7a Inter-Religiosa para Comunidades Mais Seguras, sobre a quest\u00e3o da dignidade da crian\u00e7a na era digital, ter acontecido aqui em Abu Dhabi em novembro passado. Este evento reuniu a mensagem lan\u00e7ada um ano antes, em Roma, no congresso internacional sobre o mesmo assunto, ao qual dei todo o meu apoio e encorajamento. Agrade\u00e7o, portanto, a todos os l\u00edderes que est\u00e3o empenhados neste campo e asseguro o apoio, a solidariedade e a participa\u00e7\u00e3o da Igreja Cat\u00f3lica nesta importante causa da prote\u00e7\u00e3o de menores em todas as suas express\u00f5es.<\/p>\n<p>Aqui, no deserto, abriu-se um caminho de desenvolvimento f\u00e9rtil que, a partir do trabalho, oferece esperan\u00e7a a muitas pessoas de v\u00e1rios povos, culturas e credos. Entre eles, tamb\u00e9m muitos crist\u00e3os, cuja presen\u00e7a na regi\u00e3o remonta \u00e0 v\u00e1rios s\u00e9culos, e que encontraram oportunidades e deram um contributo significativo para o crescimento e bem-estar do pa\u00eds. Al\u00e9m das habilidades profissionais, eles trazem a genuinidade da sua f\u00e9. O respeito e a toler\u00e2ncia que encontram, bem como os lugares de culto necess\u00e1rios onde rezam, permitem-lhes a matura\u00e7\u00e3o espiritual que beneficia a sociedade como um todo. Encorajo-vos a continuar neste caminho, para que aqueles que vivem aqui ou est\u00e3o a passar preservem n\u00e3o s\u00f3 a imagem das grandes obras constru\u00eddas no deserto, mas de uma na\u00e7\u00e3o que inclui e abra\u00e7a todos.<\/p>\n<p>\u00c9 com este esp\u00edrito que, n\u00e3o s\u00f3 aqui, mas em toda a amada e nevr\u00e1lgica regi\u00e3o do Oriente M\u00e9dio, espero oportunidades concretas de encontro: sociedades onde as pessoas de diferentes religi\u00f5es tenham o mesmo direito de cidadania e onde a viol\u00eancia, em todas as suas formas, matou esse direito.<\/p>\n<p>Uma conviv\u00eancia fraterna baseada na educa\u00e7\u00e3o e na justi\u00e7a; um desenvolvimento humano, constru\u00eddo sobre a inclus\u00e3o acolhedora e sobre os direitos de todos: s\u00e3o sementes de paz, que as religi\u00f5es s\u00e3o chamadas a fazer germinar. A eles, talvez como nunca antes, nesta delicada situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, compete uma tarefa que n\u00e3o pode mais ser adiada: contribuir ativamente para desmilitarizar o cora\u00e7\u00e3o humano. A corrida ao armamento, a extens\u00e3o das suas zonas de influ\u00eancia, as pol\u00edticas agressivas em detrimento das outras nunca trar\u00e3o estabilidade. A guerra n\u00e3o pode criar nada al\u00e9m de mis\u00e9ria, armas nada al\u00e9m da morte!<\/p>\n<p>A fraternidade humana exige de n\u00f3s, representantes das religi\u00f5es, o dever de banir todas as nuances de aprova\u00e7\u00e3o da palavra guerra. Restitui-la \u00e0 sua crueldade miser\u00e1vel. Sob os nossos olhos est\u00e3o as suas consequ\u00eancias nefastas. Estou a pensar em particular no I\u00e9men, na S\u00edria, no Iraque e na L\u00edbia. Juntos, irm\u00e3os da \u00fanica fam\u00edlia humana desejada por Deus, comprometemo-nos contra a l\u00f3gica do poder armado, contra a monetariza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es, o armamento das fronteiras, a eleva\u00e7\u00e3o dos muros, o engasgo dos pobres; a tudo isto nos opomos com o doce poder da ora\u00e7\u00e3o e do compromisso di\u00e1rio com o di\u00e1logo. Estarmos juntos hoje \u00e9 uma mensagem de confian\u00e7a, um encorajamento para todos os homens de boa vontade, porque eles n\u00e3o se rendem \u00e0s inunda\u00e7\u00f5es da viol\u00eancia e \u00e0 desertifica\u00e7\u00e3o do altru\u00edsmo. Deus est\u00e1 com o homem que procura a paz. E do c\u00e9u Ele aben\u00e7oa cada passo que, neste caminho, \u00e9 realizado na terra.<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-<\/p>\n<pre>[1] Bento XVI, Discurso aos novos embaixadores junto da Santa S\u00e9, 16 de dezembro de 2010.<br \/><br \/>[2] Mensagem para a celebra\u00e7\u00e3o do Dia Mundial da Paz, 1 de janeiro de 2015, 2.<br \/><br \/>[3] Declara\u00e7\u00e3o sobre as rela\u00e7\u00f5es da Igreja com as religi\u00f5es n\u00e3o crist\u00e3s, Nostra Aetate, 5.<br \/><br \/>[4] Ver Discurso aos participantes da Confer\u00eancia Internacional para a Paz, Centro de Confer\u00eancias Al-Azhar, Cairo, 28 de abril de 2017.<br \/><br \/>[5] F.M. Dostoi\u00e9vski, Os irm\u00e3os Karamazov, II, 2, Mil\u00e3o 2012, 60.<br \/><br \/>[6] Audi\u00eancia Geral Inter-Religiosa, 28 de outubro de 2015.<br \/><br \/>[7] Ver Terence, Heautontimorumenos I, 1, 25.<\/pre>\n<p>\u00a0Tradu\u00e7\u00e3o Educris a partir do <a href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/it\/speeches\/2019\/february\/documents\/papa-francesco_20190204_emiratiarabi-incontrointerreligioso.html\">original em italiano<\/a>|04.02.2019<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No primeiro discurso que proferiu esta tarde em Abu Dabhi, nos Emirados \u00c1rabes Unidos, o Papa abordou o papel das 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