{"id":2826424770,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/12031-domingo-iii-da-quaresma-o-mais-belo-dialogo-do-novo-testamento"},"modified":"2025-11-07T16:33:54","modified_gmt":"2025-11-07T16:33:54","slug":"domingo-iii-da-quaresma-o-mais-belo-dialogo-do-novo-testamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/domingo-iii-da-quaresma-o-mais-belo-dialogo-do-novo-testamento\/","title":{"rendered":"Domingo III da Quaresma: \u00abO Mais belo di\u00e1logo do Novo Testamento\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031.jpg\" \/><\/p>\n<p><p data-adtags-visited=\"true\">Ex 17,3-7; Sl 95; Rm 5,1-2.5-8; Jo 4,5-42<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">1. No programa de \u00abprepara\u00e7\u00e3o\u00bb para a Noite Pascal Batismal, in\u00edcio e meta da vida crist\u00e3, o Domingo III da Quaresma est\u00e1 marcado pelos primeiros \u00abescrut\u00ednios\u00bb para os catec\u00famenos: primeira \u00abchamada\u00bb para a Liberdade. Em ordem a uma melhor compreens\u00e3o integrada dos Domingos da Quaresma, e particularmente do Domingo III que hoje nos ocupa, tenha-se sempre presente a linha dos Evangelhos: Cristo batizado, tentado no deserto na sua condi\u00e7\u00e3o de batizado, e Vitorioso, assumindo a hist\u00f3ria do seu povo e salvando-a (Domingo I), confirmado na sua miss\u00e3o filial batismal com a Transfigura\u00e7\u00e3o, li\u00e7\u00e3o para os disc\u00edpulos, igualmente confirmados para a sua miss\u00e3o futura (Domingo II), promete a \u00c1gua da Vida (Domingo III), d\u00e1 a Luz (Domingo IV), d\u00e1 a Ressurrei\u00e7\u00e3o (Domingo V). A linha cristol\u00f3gica torna-se tamb\u00e9m \u00abantropol\u00f3gica\u00bb. A \u00abobra\u00bb divina na Humanidade do Filho dirige-se, nesta mesma Humanidade, com amor, aos homens. \u00c1gua, Luz, Ressurrei\u00e7\u00e3o, s\u00e3o os elementos batismais prim\u00e1rios (simbologia batismal da Quaresma) quer para os batizados quer para os catec\u00famenos.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">2. O Evangelho deste Domingo III da Quaresma oferece-nos o grande di\u00e1logo de Jesus com a samaritana (Jo\u00e3o 4,5-42). A meticulosa prepara\u00e7\u00e3o da cena (Jo\u00e3o 4,1-6) mostra-nos Jesus a fazer a viagem da Judeia para a Galileia, com o narrador a anotar que \u00ab<em>era preciso<\/em>\u00a0(<em>\u00e9dei<\/em>) passar pela Samaria\u00bb (v. 4). Aquilo que parece \u00f3bvio \u00e0 primeira vista, na verdade n\u00e3o o \u00e9. Quem, no tempo de Jesus, fazia essa viagem, evitava mesmo passar pela Samaria: desde logo porque o caminho era montanhoso, mas tamb\u00e9m porque eram hostis as rela\u00e7\u00f5es entre judeus e samaritanos. Os judeus de Jerusal\u00e9m consideravam os samaritanos uma popula\u00e7\u00e3o mista, semipag\u00e3 (cf. 2 Reis 17,24-41), tendo-os impedido de participar na reconstru\u00e7\u00e3o do Templo depois do ex\u00edlio (cf. Esdras 4,1-24), e catalogavam-nos com desprezo como \u00abo est\u00fapido povo que habita em Siqu\u00e9m\u00bb (Ben Sira 50,26). Por tudo isto, a viagem habitual fazia-se, descendo de Jerusal\u00e9m para Jeric\u00f3, atravessando depois o Jord\u00e3o para Oriente, junto de\u00a0<em>Damyiah<\/em>, percorrendo ent\u00e3o por terra plana o Al\u00e9m-Jord\u00e3o (atual Jord\u00e2nia) sempre junto do rio Jord\u00e3o, para voltar depois a atravessar o Jord\u00e3o, agora para Ocidente, junto de\u00a0<em>B\u00eat-Shean<\/em>, um pouco a sul do Mar da Galileia. E estava-se na Galileia. Evitava-se assim a estrada montanhosa da Samaria, bem como eventuais hostilidades com os samaritanos. Se o narrador coloca Jesus a calcorrear o caminho montanhoso da Samaria, \u00e9 assunto n\u00e3o geogr\u00e1fico, mas teol\u00f3gico, explicitado, de resto, naquele \u00abera preciso\u00bb: trata-se de revestir Jesus dos tra\u00e7os do mensageiro de Isa\u00edas 52,7: \u00abComo s\u00e3o belos,\u00a0<em>sobre os montes<\/em>, os p\u00e9s do mensageiro que leva boas novas a Si\u00e3o\u00bb, e do noivo do C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos 2,8, de quem a noiva diz: \u00abA voz do meu amado: ei-lo que vem correndo\u00a0<em>sobre os montes<\/em>\u00bb. O que faz correr\u00a0<em>sobre os montes<\/em>\u00a0\u00e9, pois, uma grande not\u00edcia ou um grande amor. As duas realidades movem Jesus.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">3. O texto refere ainda que Jesus\u00a0<em>se sentava<\/em>\u00a0com tempo (<em>ekath\u00edzeto<\/em>: imperfeito que implica dura\u00e7\u00e3o) junto do po\u00e7o-fonte de Jacob (v. 6). \u00c9 sabido, desde o Antigo Testamento, que o po\u00e7o-fonte (<em>p\u00eag\u00ea<\/em>) \u00e9 visto como um cen\u00e1rio de noivado. \u00c9 assim em G\u00e9nesis 24, onde, junto de um po\u00e7o, se trata o casamento de Isaac com Rebeca; \u00e9 assim em G\u00e9nesis 29, onde, junto de um po\u00e7o, se trata o casamento de Jacob com Raquel; \u00e9 assim em \u00caxodo 2, onde, junto de um po\u00e7o, se prepara o casamento de Mois\u00e9s com S\u00e9fora. Um grande amor e grandes e belas not\u00edcias movem Jesus, na sua viagem \u00abnecess\u00e1ria\u00bb\u00a0<em>sobre os montes<\/em>\u00a0da Samaria. Fazendo-o sentar com tempo junto do po\u00e7o-fonte, s\u00e3o cen\u00e1rios de noivado que o narrador evoca e cuidadosamente prepara. Ao anotar, outra vez com tinta teol\u00f3gica, que \u00abera por volta do\u00a0<em>meio-dia<\/em>\u00a0[= hora sexta]\u00bb (v. 6), o narrador evoca outra vez a hora do Noivo dos C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos 1,7, mas deixa-nos tamb\u00e9m expostos \u00e0 m\u00e1xima e irresist\u00edvel revela\u00e7\u00e3o com que Paulo \u00e9 atingido em pleno meio-dia (Atos 22,6; 26,13). O meio-dia representa a luz a pique, penetrante, como uma espada de dois gumes (cf. Hebreus 4,12). Em contraponto, procurar Jesus de\u00a0<em>noite<\/em>, como fez Nicodemos na p\u00e1gina anterior (Jo\u00e3o 3,2) \u00e9 come\u00e7ar e acabar por n\u00e3o entender nada, como os disc\u00edpulos que nada pescam de\u00a0<em>noite<\/em>\u00a0(Jo\u00e3o 21,3) e no meio do\u00a0<em>escuro<\/em>\u00a0andam perdidos (Jo\u00e3o 6,17-18), como a Madalena que vai de madrugada, ainda\u00a0<em>escuro<\/em>, ao t\u00famulo de Jesus, e nada entende (Jo\u00e3o 20,1), como o homem da\u00a0<em>noite<\/em>\u00a0na\u00a0<em>noite<\/em>\u00a0perdido, que \u00e9 Judas (Jo\u00e3o 13,30; 18,3), enfim, como Pedro, perdido na\u00a0<em>noite<\/em>\u00a0e no meio dos guardas, com os guardas e sem Jesus (Jo\u00e3o 18,17-18).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">4. Eis ent\u00e3o Jesus sentado, com tempo, junto do po\u00e7o-fonte \u00e0 hora do meio-dia. E a\u00ed vem a noiva, a mulher da Samaria. E Jesus desce pedagogicamente ao n\u00edvel da mulher que vinha buscar \u00e1gua, com aquele pedido direto: \u00abD\u00e1-me de beber!\u00bb (v. 7), com que se abre o maior di\u00e1logo de todo o Novo Testamento (sete interven\u00e7\u00f5es de Jesus; seis da mulher da Samaria). Salta \u00e0 vista que Jesus se transforma em pedinte com o intuito de transformar em pedinte a mulher: a maravilhosa delicadeza de um Deus que pede para dar! De facto, pedagogicamente conduzida por Jesus, no final do di\u00e1logo sobre a \u00e1gua do po\u00e7o-fonte que apenas mata a sede moment\u00e2nea e a \u00e1gua que d\u00e1 a\u00a0<em>vida eterna<\/em>, \u00e9 a mulher que diz para Jesus: \u00abSenhor,\u00a0<em>d\u00e1-me<\/em>\u00a0dessa \u00e1gua\u2026\u00bb (v. 15). \u00c9 f\u00e1cil compreender que a melhor \u00e1gua que bebemos n\u00e3o pode manter-nos sen\u00e3o na vida que j\u00e1 temos, mas n\u00e3o pode salvar-nos da morte e dar-nos a vida eterna.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">5. Neste ponto preciso, Jesus imprime um novo ritmo ao di\u00e1logo, dizendo agora \u00e0 mulher: \u00abVai, chama o teu marido, e vem aqui\u00bb (v. 16). Ao que a mulher responde: \u00ab<em>N\u00e3o tenho<\/em>\u00a0marido!\u00bb (v. 17). Quem tem o ouvido sintonizado na onda fin\u00edssima que percorre o Evangelho de Jo\u00e3o, come\u00e7a j\u00e1 a aperceber-se do verdadeiro efeito ret\u00f3rico deste \u00ab<em>n\u00e3o tenho<\/em>\u00bb, e para onde nos leva este\u00a0<em>n\u00e3o ter<\/em>. Na verdade, pouco antes, em plenas bodas de Can\u00e1, Maria tinha anotado para Jesus: \u00ab<em>N\u00e3o t\u00eam<\/em>\u00a0vinho!\u00bb (Jo\u00e3o 2,3). E a verdade \u00e9 que v\u00e3o ter vinho em excesso! Em Jo\u00e3o 5,7, anota-se o caso do doente que n\u00e3o \u00e9 curado, porque\u00a0<em>n\u00e3o tem<\/em>\u00a0ningu\u00e9m que o lance \u00e0 \u00e1gua. Mas vai ter cura, e cura em excesso! \u00c9 ainda o caso dos disc\u00edpulos que, \u00e0 pergunta de Jesus: \u00abFilhinhos (<em>paid\u00eda<\/em>),\u00a0<em>n\u00e3o tendes<\/em>\u00a0alguma coisa para comer,\u00a0<em>pois n\u00e3o<\/em>?\u00bb, respondem: \u00ab<em>N\u00e3o<\/em>!\u00bb (Jo\u00e3o 21,5). Tamb\u00e9m j\u00e1 se sabe que ir\u00e3o ter peixe em excesso! \u00c9, portanto, de suspeitar, por parte do leitor atento de Jo\u00e3o, que a mulher da Samaria, que\u00a0<em>n\u00e3o tem<\/em>\u00a0marido, v\u00e1 encontrar o esposo definitivo, o pr\u00f3prio Deus, cumprindo Isa\u00edas 62,5: \u00abComo um jovem desposa uma virgem, assim te desposar\u00e1 o teu edificador. Como a alegria do noivo pela sua noiva, assim o teu Deus se alegrar\u00e1 em ti\u00bb.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">6. E a\u00ed est\u00e1 Jesus, o conhecedor que nos conhece, e a quem n\u00f3s ainda n\u00e3o conhecemos, a entrar dentro da mulher da Samaria e de n\u00f3s mesmos, dizendo: \u00abDisseste bem: \u201c<em>N\u00e3o tenho<\/em>\u00a0marido\u201d. Na Verdade tiveste\u00a0<em>cinco maridos<\/em>, e o que tens agora [=\u00a0<em>sexto<\/em>]\u00a0<em>n\u00e3o \u00e9<\/em>\u00a0teu marido\u201d\u00bb (v. 17-18). Abre-se aqui outra janela de luz e de sentido. Olhando atrav\u00e9s dela, podemos ver uma mulher at\u00f3nita, a olhar para Jesus com redobrado espanto, e a dizer consigo mesma: \u00abMas como \u00e9 que este desconhecido sabe tanto de mim? Como \u00e9 que este desconhecido conhece a minha vida toda?\u00bb E que experi\u00eancia ser\u00e1 esta de nos sentirmos ditos, adivinhados, conhecidos? N\u00e3o ser\u00e1 o conhecimento conhecido, obra de Deus em n\u00f3s, de que fala Paulo em 1 Cor\u00edntios 13,12? Seguramente que a mulher experimenta a estranha sensa\u00e7\u00e3o de estar perante o saber que a ultrapassa de algu\u00e9m que a conhece perfeitamente, e a quem ela ainda n\u00e3o conhece, mas come\u00e7a a suspeitar. Come\u00e7ou por ver nele um simples judeu (v. 9). Mas agora j\u00e1 v\u00ea que \u00e9 um profeta (v. 19), e pouco depois dir\u00e1 que sabe que vir\u00e1 o Cristo, que explicar\u00e1 tudo (v. 25), e como tal o ir\u00e1 apresentar na Samaria (v. 29). Apercebendo-se que est\u00e1 perante um \u00abhomem de Deus\u00bb, a mulher aproveita para colocar um problema de lugar de culto: \u00ab\u00e9 em Jerusal\u00e9m ou no monte Garizim que se deve adorar?\u00bb (v. 20). A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 sobre rezar, mas adorar Deus, reconhec\u00ea-lo como Criador e Senhor, que implica a a\u00e7\u00e3o de a pessoa se ajoelhar e beijar o ch\u00e3o (cf. Apocalipse 4,9-11; 7,11-12). Jesus responde que n\u00e3o se trata mais do\u00a0<em>lugar<\/em>\u00a0onde adorar, mas do\u00a0<em>modo<\/em>\u00a0de adorar (v. 21-24).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">7. No que se refere \u00e0 t\u00e9cnica da \u00abantecipa\u00e7\u00e3o\u00bb ou \u00abadivinha\u00e7\u00e3o\u00bb pode ver-se noutras passagens do IV Evangelho, pelo que, se a mulher \u00e9 completamente surpreendida, o leitor competente n\u00e3o o \u00e9. De facto, a mesma estrat\u00e9gia narrativa j\u00e1 foi encontrada em Jo\u00e3o 1,45-49, quando Jesus se adianta a Natanael, dizendo dele: \u00abEis um verdadeiro israelita!\u00bb (Jo\u00e3o 1,47), ao que Natanael reage com espanto: \u00abDe onde me conheces?\u00bb (Jo\u00e3o 1,48). Ver-se-\u00e1 tamb\u00e9m em Jo\u00e3o 20,15, quando aquele que, aos olhos da Madalena, era um simples jardineiro, se adianta a ela, atravessando-a com uma pergunta penetrante: \u00abMulher, por que choras? A quem procuras?\u00bb (Jo\u00e3o 20,15a). Se a primeira pergunta (\u00abPor que choras?\u00bb) parece \u00f3bvia (porque a Madalena estava, de facto, a chorar), a segunda (\u00abA quem procuras?\u00bb) apanha a Madalena completamente de surpresa. Na verdade, pensar\u00e1 a Madalena: \u00abQuem ser\u00e1 este que sabe que eu procuro algu\u00e9m neste jardim?\u00bb E se sabe que eu procuro algu\u00e9m, seguramente saber\u00e1 tamb\u00e9m quem eu procuro. Por isso, porque se sentiu adivinhada e pressente que ele sabe bem quem ela procura, responde-lhe em c\u00f3digo, usando pronomes, e nunca dizendo o nome: \u00abSe foste tu\u00a0<em>o<\/em>\u00a0levaste, diz-me onde\u00a0<em>o<\/em>\u00a0puseste, e eu\u00a0<em>o<\/em>\u00a0retirarei\u00bb (Jo\u00e3o 20,15b). Jesus responde: \u00abMaria!\u00bb (v. 16). Esta estrat\u00e9gia pode ver-se ainda na manifesta\u00e7\u00e3o de Jesus Ressuscitado a Tom\u00e9. Na verdade, depois de Tom\u00e9 ter dito aos outros disc\u00edpulos que afirmaram diante dele terem visto o Senhor (Jo\u00e3o 20,25), que n\u00e3o acreditaria se ele pr\u00f3prio n\u00e3o visse nas suas m\u00e3os a marca dos cravos, e se n\u00e3o metesse o seu dedo na marca dos cravos e a sua m\u00e3o no seu lado (Jo\u00e3o 20,25), surge Jesus, dirige-se a Tom\u00e9 e diz: \u00abTraz o teu dedo aqui e v\u00ea as minhas m\u00e3os, e traz a tua m\u00e3o e mete-a no meu lado, e n\u00e3o sejas incr\u00e9dulo, mas crente!\u00bb (Jo\u00e3o 20,27). Tom\u00e9 j\u00e1 n\u00e3o vai investigar nada e, certamente at\u00f3nito, porque adivinhado (como \u00e9 que Jesus tomou conhecimento das condi\u00e7\u00f5es postas por ele?!), responde de imediato: \u00abMeu Senhor e meu Deus!\u00bb (Jo\u00e3o 20,28), a mais alta confiss\u00e3o de f\u00e9 no plano narrativo do IV Evangelho.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">8. E quanto \u00e0s contas feitas com os maridos, o leitor atento, mas que ainda n\u00e3o atingiu o n\u00edvel de leitor modelo, contentar-se-\u00e1, talvez, com a simples aritm\u00e9tica, mas se conseguisse fazer as opera\u00e7\u00f5es mentais e afetivas reclamadas pelo texto (a que s\u00f3 o leitor modelo tem acesso), seria ent\u00e3o levado a compreender que aquela mulher da Samaria, que agora\u00a0<em>n\u00e3o tem<\/em>\u00a0marido, que j\u00e1 teve cinco, e que o que tem agora, e que \u00e9 o\u00a0<em>sexto<\/em>,\u00a0<em>n\u00e3o \u00e9<\/em>\u00a0seu marido. Em resumo: teve cinco, o que tem agora e que\u00a0<em>n\u00e3o \u00e9<\/em>\u00a0seu marido, \u00e9 o\u00a0<em>sexto<\/em>. Compreende-se ent\u00e3o que aquela mulher j\u00e1 vai no\u00a0<em>sexto<\/em>\u00a0marido\u00a0<em>provis\u00f3rio<\/em>, sendo\u00a0<em>seis<\/em>\u00a0um n\u00famero\u00a0<em>imperfeito<\/em>. Mas o\u00a0<em>sexto<\/em>, enquanto\u00a0<em>provis\u00f3rio<\/em>\u00a0e\u00a0<em>imperfeito<\/em>, aponta para o\u00a0<em>definitivo<\/em>\u00a0e\u00a0<em>perfeito<\/em>. Em boa gram\u00e1tica simb\u00f3lica, aponta para\u00a0<em>o s\u00e9timo<\/em>, que est\u00e1 ali \u00e0 beira, que est\u00e1 aqui \u00e0 beira, e \u00e9 Jesus! \u00c9 por isso que Jesus diz \u00e0 mulher: \u00ab\u2026 e vem aqui\u00bb (v. 16), porque \u00e9 ele o noivo, aquele que vem, trazendo o tempo novo da alegria nova e definitiva, a alegria grande da P\u00e1scoa, o Messias suspeitado (v. 25) e confesso: \u00abEU SOU (<em>eg\u00f4 eimi<\/em>), o que estou a FALAR contigo (<em>ho lal\u00f4n soi<\/em>)!\u00bb (v. 26), verdadeiro cl\u00edmax narrativo e da revela\u00e7\u00e3o neste imenso texto. E a samaritana, encontrada pelo Noivo novo definitivo esperado, procede, de facto, como as mulheres na manh\u00e3 de P\u00e1scoa: abandona o c\u00e2ntaro antigo e provis\u00f3rio (v. 28), que servia apenas para recolher a \u00e1gua antiga e provis\u00f3ria tirada do po\u00e7o antigo e provis\u00f3rio (v. 11), e\u00a0<em>correu<\/em>\u00a0\u00e0 cidade para dizer a todos\u2026 (v. 28). Not\u00e1vel movimento Batismal Pascal!\u00a0<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">9. Mas o que \u00e9 que diz a mulher aos homens da Samaria? Diz: \u00abVinde ver um Homem que me disse tudo o que eu fiz. N\u00e3o ser\u00e1 ele o Cristo?\u00bb (v. 29). Note-se o importante dizer reticente e pedag\u00f3gico, mas tamb\u00e9m cristol\u00f3gico, da mulher da Samaria. Dizendo como diz, a mulher da Samaria evita dizer \u00abjudeu\u00bb e \u00abmessias\u00bb, duas realidades que provocariam nos samaritanos uma rea\u00e7\u00e3o de hostilidade, e n\u00e3o os mobilizariam para irem ao encontro de Jesus. Usando, por\u00e9m, o t\u00edtulo de \u00abHomem\u00bb, aqui dado a Jesus pela primeira vez no Evangelho de Jo\u00e3o, mas que o atravessa completamente (cf. 4,29; 5,12; 7,46; 8,40; 9,11.16.24; 10,33; 11,47.50; 18,14.17.29; 19,15), e mesmo a inteira Escritura desde o G\u00e9nesis 1,26-30, \u00e9 a singular humanidade de Jesus que se salienta, o seu saber penetrante, bem como a sua palavra mansa e dial\u00f3gica. E a interroga\u00e7\u00e3o: \u00abN\u00e3o ser\u00e1 ele o Cristo?\u00bb n\u00e3o \u00e9 express\u00e3o de d\u00favida acerca da identidade de Jesus, mas uma fin\u00edssima e deliciosa interroga\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica, que provoca nos samaritanos a curiosidade e acende neles o desejo de fazerem a experi\u00eancia, de irem ver Jesus. Muitas vezes, uma afirma\u00e7\u00e3o p\u00f5e fim a um processo de pesquisa. A interroga\u00e7\u00e3o, ao contr\u00e1rio, mobiliza e desperta. Foi assim que os samaritanos foram ver e ouvir a voz do Noivo, Aquele-que-Vem, e chegaram \u00e0 f\u00e9 em Jesus, confessando que Ele \u00e9 verdadeiramente \u00abo Salvador do mundo\u00bb (v. 42). O definitivo.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">10. \u00c9 estranho, mas tamb\u00e9m pedag\u00f3gico e ilustrativo, que enquanto Jesus dialoga com a samaritana, circulando entre os dois o verbo \u00ab<em>dar<\/em>\u00bb, os seus disc\u00edpulos andem pelo\u00a0<em>shopping<\/em>\u00a0a \u00ab<em>comprar<\/em>\u00bb! \u00c9 ainda mais estranho que, mal Jesus inicia o di\u00e1logo com a samaritana, pedindo: \u00ab<em>D\u00e1-me<\/em>\u00a0de beber!\u00bb (v. 7), o narrador nos informe que os seus disc\u00edpulos tinham ido \u00e0 cidade\u00a0<em>comprar<\/em>. Por l\u00e1 andam o tempo todo. Regressam no v. 27, quando Jesus tinha acabado de fechar o di\u00e1logo no v. 26, com aquele solene: \u00abEu Sou\u2026\u00bb. \u00c9 ainda estranho e nada edificante que estes disc\u00edpulos de Jesus, ao regressar do\u00a0<em>shopping<\/em>, tenham ficado admirados ao ver Jesus a falar com uma mulher, mas evitem fazer qualquer pergunta a Jesus (v. 27-28). Em vez disso, convidam Jesus a comer alguma coisa, e ouvem de Jesus um dizer espantoso: \u00abTenho para comer um alimento que v\u00f3s n\u00e3o conheceis\u00bb (v. 32). N\u00f3s, que assistimos ao crescendo das rea\u00e7\u00f5es da samaritana \u00e0s propostas de Jesus, achamos agora estranh\u00edssimo que estes disc\u00edpulos n\u00e3o digam a Jesus: \u00abD\u00e1-nos ent\u00e3o tamb\u00e9m desse alimento!\u00bb, e que nem sequer formulem a pergunta: \u00abEnt\u00e3o que alimento novo \u00e9 esse?\u00bb Em vez disso, diz-nos o narrador que perguntavam, n\u00e3o a Jesus, de quem, pelos vistos, n\u00e3o querem mesmo ouvir nada, mas uns aos outros: \u00abPorventura algu\u00e9m lhe ter\u00e1 trazido alguma coisa de comer?\u00bb (v. 33). Estranhos disc\u00edpulos desacertados de Jesus e do seu tempo novo. Descompassados e descompensados. Andam ainda no tempo do inverno e da sementeira: \u00abN\u00e3o dizeis v\u00f3s que faltam ainda quatro meses para a ceifa?\u00bb, pergunta Jesus (v. 35a). Eles n\u00e3o querem ouvir, mas Jesus abre diante deles um tempo novo: \u00abLevantai os olhos e vede os campos: est\u00e3o brancos para a ceifa!\u00bb (Jo\u00e3o 4,35b). Sim, o tempo que Jesus abre diante de n\u00f3s \u00e9 o tempo novo da ceifa e da alegria (cf. Salmo 126,6).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">11. O relato do Livro do \u00caxodo (17,3-7) mostra-nos hoje que o Senhor est\u00e1 sempre no meio de n\u00f3s e sacia a nossa sede\u00a0<em>no deserto<\/em>\u00a0da caminhada da vida. Ent\u00e3o a sua \u00abobra\u00bb nova n\u00e3o consiste tamb\u00e9m em fazer jorrar a \u00e1gua\u00a0<em>no deserto<\/em>? (Isa\u00edas 35,6-7; 41,18; 43,19-20). Deus \u00e9 muitas vezes, por 33 vezes, designado no Antigo Testamento, sobretudo nos Salmos, como a\u00a0<em>Rocha<\/em>\u00a0ouo\u00a0<em>Rochedo<\/em>\u00a0da nossa salva\u00e7\u00e3o. Por isso, \u00e9 da\u00a0<em>Rocha<\/em>, do\u00a0<em>Rochedo<\/em>\u00a0que jorra a \u00e1gua que mata a sede do povo de Israel, e a nossa,\u00a0<em>no deserto<\/em>. Como sempre, o Antigo Testamento aponta para o Novo: no Evangelho de hoje, Jesus, o Filho de Deus, oferece a \u00c1gua da Vida que mata a nossa sede para sempre. E Paulo, encontrado pelo Senhor Ressuscitado (Filipenses 3,12), que \u00e9 quem d\u00e1 a \u00c1gua da Vida que \u00e9 o Esp\u00edrito Santo, pode agora dizer, relendo o Antigo Testamento, que aquela\u00a0<em>Rocha<\/em>\u00a0donde jorrava a \u00e1gua\u00a0<em>no deserto<\/em>\u00a0\u00e9 Cristo (1 Cor\u00edntios 10,4).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">12. A Rocha, o Po\u00e7o e a \u00c1gua viva. Deixo aqui a bela interpreta\u00e7\u00e3o que os\u00a0<em>targ\u00fbm\u00eem<\/em>\u00a0(par\u00e1frases aramaicas) fizeram da passagem do Livro dos N\u00fameros 21,16-18: \u00abFoi ent\u00e3o que Israel cantou este poema de louvor, no momento em que voltou o po\u00e7o que lhes tinha sido dado por m\u00e9rito de Miriam, depois de ter estado escondido: \u201cSobe, po\u00e7o! Sobe, po\u00e7o!\u201d, assim cantavam. E ele subia. O po\u00e7o que tinham escavado os patriarcas, Abra\u00e3o, Isaac e Jacob, os pr\u00edncipes de outrora, os chefes do povo, Mois\u00e9s e Aar\u00e3o, perfuraram-no os dirigentes de Israel, mediram-no com as suas varas. E, depois do deserto, deu-se a eles como um dom. E depois de se dar a eles como um dom, p\u00f4s-se a subir com eles pelas altas montanhas, a descer com eles pelos vales. Passando por todo o territ\u00f3rio de Israel, dava-lhes de beber a todos e a cada um \u00e0 entrada da sua tenda\u00bb. Um po\u00e7o que acompanha o povo por todo o lado, por montes e vales, e que d\u00e1 de beber ao povo. Bela met\u00e1fora que pode traduzir tamb\u00e9m o Jesus de Jo\u00e3o 4, que vai \u00e0 nossa procura e sacia a nossa sede mais profunda.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">13. Na Carta aos Romanos (5,1-2.5-8), Paulo d\u00e1 testemunho do acontecimento central da sua e da nossa vida. D\u00e1 testemunho do Evangelho. Cristo morreu por n\u00f3s, dando-nos a \u00c1gua da Vida que \u00e9 o Esp\u00edrito Santo (de novo Atos 2,32-33; Jo\u00e3o 19,30.34 decifrado por Jo\u00e3o 7,38-39). O Esp\u00edrito Santo\u00a0<em>dado<\/em>(Romanos 5,5) como\u00a0<em>selo<\/em>\u00a0(Ef\u00e9sios 4,30) para a vida eterna ensina-nos tudo sobre o Pai \u2013 em n\u00f3s clama:\u00a0<em>Abb\u00e1<\/em>\u00a0(G\u00e1latas 4,6); nele clamamos:\u00a0<em>Abb\u00e1<\/em>\u00a0(Romanos 8,15) \u2013 e sobre o Filho: \u00abningu\u00e9m pode dizer \u201cSenhor \u00e9 Jesus\u201d a n\u00e3o ser no Esp\u00edrito Santo\u00bb (1 Cor\u00edntios 12,3). \u00c9 ele que derrama o amor de Deus no nosso cora\u00e7\u00e3o: unidos a Deus at\u00e9 \u00e0 vida eterna (Romanos 8,16-17; 1 Cor\u00edntios 12).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">14. Sim, n\u00e3o nos \u00e9 permitido adormecer ou entorpecer, de modo a ficarmos inativos, infecundos, insens\u00edveis, tipo \u00abtanto faz!\u00bb. O Salmo 95, que hoje cantamos, e que \u00e9, para os judeus fi\u00e9is, a ora\u00e7\u00e3o de ingresso ou de entrada no s\u00e1bado (reza-se sexta-feira ao p\u00f4r-do-sol), e para n\u00f3s, crist\u00e3os, \u00e9 o Salmo invitat\u00f3rio recitado todas as manh\u00e3s, \u00e9 o mais quotidiano dos Salmos. E deve ser um permanente despertador para n\u00e3o nos deixarmos andar ao sabor de qualquer m\u00fasica, mas apenas e sempre ao sabor da m\u00fasica de Deus. Sim, n\u00e3o \u00e9 tempo de nos instalarmos aqui, em qualquer \u00abaqui\u00bb. \u00c9 necess\u00e1rio levar a todos os lugares e a todas as pessoas este vendaval manso de gra\u00e7a e de bondade e de f\u00e9 que um dia Jesus ensinou \u00e0 mulher da Samaria e todos os dias mostrou e mostra aos seus disc\u00edpulos.\u00a0<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ex 17,3-7; Sl 95; Rm 5,1-2.5-8; Jo 4,5-42 1. 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