{"id":2869346671,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/8771-solenidade-de-sao-pedro-e-sao-paulo-sobre-os-fundamentos-dos-apostolos"},"modified":"2025-11-07T16:33:31","modified_gmt":"2025-11-07T16:33:31","slug":"solenidade-de-sao-pedro-e-sao-paulo-sobre-os-fundamentos-dos-apostolos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/solenidade-de-sao-pedro-e-sao-paulo-sobre-os-fundamentos-dos-apostolos\/","title":{"rendered":"Solenidade de S\u00e3o Pedro e S\u00e3o Paulo: \u00abSobre os fundamentos dos ap\u00f3stolos\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031.jpg\" \/><\/p>\n<p><p>1. Os Santos Ap\u00f3stolos Pedro e Paulo s\u00e3o festejados em todas as Igrejas do Oriente e do Ocidente, nos antigos, como nos novos calend\u00e1rios, na mesma data, 29 de Junho. A Igreja do Oriente ainda hoje acomuna os dois Ap\u00f3stolos com o t\u00edtulo de\u00a0<em>Pr\u00f4t\u00f3thronoi<\/em>, os \u00abprimeiros na c\u00e1tedra\u00bb da doutrina divina e salv\u00edfica. A Igreja de Roma j\u00e1 existia antes da chegada de Pedro e Paulo, mas venera-os como verdadeiros \u00abfundadores\u00bb, pois s\u00f3 com eles se v\u00ea como Igreja \u00abApost\u00f3lica\u00bb, cora\u00e7\u00e3o de Pedro, cora\u00e7\u00e3o de Paulo. A pr\u00f3pria iconografia, em inumer\u00e1veis representa\u00e7\u00f5es, junta os dois Ap\u00f3stolos e M\u00e1rtires, j\u00e1 desde os s\u00e9culos II e III, sinal da venera\u00e7\u00e3o que os fi\u00e9is de Roma e do mundo inteiro lhes dedicavam. Venera\u00e7\u00e3o verific\u00e1vel, de resto, no facto de os t\u00famulos dos dois grandes Ap\u00f3stolos e M\u00e1rtires ser a meta da \u00fanica peregrina\u00e7\u00e3o do mundo crist\u00e3o antigo.<\/p>\n<p>2. Os textos da Escritura Santa hoje abertos diante de n\u00f3s p\u00f5em em relevo, naturalmente, as duas grandes figuras de Ap\u00f3stolos que hoje celebramos. O Evangelho \u00e9 de Mateus 16,13-19, e p\u00f5e em destaque a figura de Pedro. Tamb\u00e9m a passagem do Livro dos Atos 12,1-11 lhe \u00e9 dedicada. O texto do final da 2 Carta a Tim\u00f3teo 4,6-8.17-18 p\u00f5e naturalmente em realce a figura de Paulo.<\/p>\n<p>3. Cesareia de Filipe, atual\u00a0<em>Banyas<\/em>, na tetrarquia de Filipe, um dos filhos de Herodes o Grande, \u00e9 o lugar certo para se p\u00f4r a quest\u00e3o da identidade de JESUS, que atravessa o inteiro Evangelho (Mateus 16,13-19). Cesareia de Filipe, onde se encontra uma das nascentes do rio Jord\u00e3o, respirava o paganismo do deus P\u00e3 e tamb\u00e9m o culto do Imperador. A\u00ed construiu Herodes um templo dedicado ao Imperador C\u00e9sar Augusto, e o tetrarca Filipe, filho de Herodes, deu \u00e0 cidade, antes conhecida por P\u00e2nias, em honra do deus P\u00e3, o nome de Cesareia, tamb\u00e9m em honra de C\u00e9sar Augusto. Dela resta hoje a gruta do deus P\u00e3, lugar que os peregrinos da Terra Santa costumam visitar.<\/p>\n<p>4. \u00c9 a\u00ed, em Cesareia de Filipe, cidade marcada pelo paganismo e pelo culto do Imperador, que Jesus p\u00f5e a quest\u00e3o da sua identidade. Soberanamente Jesus pergunta: \u00abQuem dizem as pessoas que \u00e9 o Filho do Homem?\u00bb (Mateus 16,13), para acrescentar logo de seguida, de forma direta e enf\u00e1tica: \u00abE v\u00f3s, quem\u00a0<em>dizeis<\/em>\u00a0que Eu sou?\u00bb (Mateus 16,15). A esta pergunta, posta por Jesus aos seus disc\u00edpulos que de h\u00e1 muito o seguiam, Sim\u00e3o Pedro foi r\u00e1pido a responder: \u00abTu \u00e9s o Cristo, o Filho do Deus vivo!\u00bb (Mateus 16,16). Jesus declara Feliz (<em>mak\u00e1rios<\/em>) Sim\u00e3o, filho de Jonas, n\u00e3o por achar que ele reunia compet\u00eancia humana para expressar aquele\u00a0<em>dizer<\/em>, mas por saber que o tinha recebido do Pai (Mateus 16,17). E \u00e9 sobre este\u00a0<em>dizer<\/em>\u00a0de Sim\u00e3o Pedro,\u00a0<em>dizer<\/em>, n\u00e3o seu, mas recebido do Pai, que Jesus declara que construir\u00e1 a sua Igreja (Mateus 16,18). Note-se a asson\u00e2ncia \u00ab<em>P\u00e9tros<\/em>\u00bb \u2013 \u00ab<em>p\u00e9tra<\/em>\u00bb. Mas note-se tamb\u00e9m que quem constr\u00f3i a Igreja \u00e9 Jesus, e n\u00e3o Pedro, e a Igreja a construir tamb\u00e9m \u00e9 de Jesus, e n\u00e3o de Pedro: \u00absobre esta pedra (<em>p\u00e9tra<\/em>) construirei a\u00a0<em>minha<\/em>\u00a0Igreja\u00bb, diz Jesus. Em todo o Novo Testamento, s\u00f3 Jesus e Pedro recebem o apelativo de \u00abpedra\u00bb. \u00abRocha\u00bb, \u00abrochedo\u00bb, \u00abpedra firme\u00bb diz-se, em hebraico,\u00a0<em>ts\u00fbr<\/em>\u00a0ou\u00a0<em>sela\u2018<\/em>, terminologia usada no Antigo Testamento por 33 vezes para dizer Deus e a solidez do seu amor fiel. Veja-se, por exemplo, na boca e no cora\u00e7\u00e3o do Salmista: \u00abO Senhor \u00e9 a minha Rocha (<em>sela\u2018<\/em>) e a minha fortaleza (\u2026), nele me abrigo, meu Rochedo (<em>ts\u00fbr<\/em>), meu escudo e meu baluarte, minha torre forte e meu ref\u00fagio\u00bb (Salmo 18,3).<\/p>\n<p>5. Mas o hebraico conhece tamb\u00e9m o termo\u00a0<em>keph<\/em>, aramaico\u00a0<em>k\u00eapha\u2019<\/em>, para designar a rocha, n\u00e3o tanto na sua solidez, mas a rocha escavada, oca, esp\u00e9cie de gruta que serve de lugar de ref\u00fagio e acolhimento, onde os p\u00e1ssaros fazem os seus ninhos, os animais guardam as suas crias e os homens se refugiam em caso de guerra: n\u00e3o \u00e9 s\u00f3lido, mas d\u00e1 solidez e prote\u00e7\u00e3o a uma vida nova. Este segundo veio de termos, que traduzem a ideia de guardar, proteger, abra\u00e7ar, envolver, alarga-se num vasto campo onomatopaico:\u00a0<em>kaph<\/em>, palma da m\u00e3o;\u00a0<em>keph<\/em>, rochedo esburacado (grutas);\u00a0<em>k\u00eapha\u2019<\/em>\u00a0(aramaico), rochedo esburacado;\u00a0<em>k\u00eaph\u00e3s<\/em>\u00a0(grego), rochedo esburacado e acolhedor, nome dado por Jesus a Pedro em Jo\u00e3o 1,42, \u00fanica vez nos Evangelhos, mas v\u00e1rias vezes em Paulo (1 Cor\u00edntios 1,12; 3,22; 9,5; 15,5; G\u00e1latas 1,18; 2,9.11.14);\u00a0<em>kipah<\/em>, folha de palmeira, que serve para proteger do sol, e cobertura que os judeus ortodoxos usam na cabe\u00e7a para indicar a prote\u00e7\u00e3o de Deus;\u00a0<em>kaphar<\/em>, cobrir, perdoar;\u00a0<em>kaporet<\/em>, cobertura, perd\u00e3o. Sendo de teor onomatopaico, este som existe na composi\u00e7\u00e3o de voc\u00e1bulos em todas as l\u00ednguas. Esta terminologia abre para um Sim\u00e3o Pedro novo, casa aberta e acolhedora, atento, pr\u00f3ximo, cuidadoso e carinhoso, fr\u00e1gil, com a miss\u00e3o pastoral de alimentar e cuidar de todos os filhos de Deus. Mas, entenda-se sempre bem, a casa \u00e9 Deus, e s\u00e3o de Deus os filhos que nela s\u00e3o gerados, acolhidos e alimentados.<\/p>\n<p>6. Jesus declara de seguida: \u00abDar-te-ei as\u00a0<em>chaves<\/em>\u00a0do Reino dos C\u00e9us\u00bb (Mateus 16,19). As\u00a0<em>chaves<\/em>\u00a0representam um saber e um poder. Falamos de\u00a0<em>chaves<\/em>\u00a0de uma casa, de uma cidade, de um tesouro, da leitura de um texto. Quem as possui, possui um poder em sede administrativa, pol\u00edtica, jur\u00eddica, econ\u00f3mica ou cient\u00edfica. \u00c9 esclarecedor o texto de Isa\u00edas 22,19-23, que fala do \u00abrito das\u00a0<em>chaves<\/em>\u00bb e do poder retirado a\u00a0<em>Shebna<\/em>\u00a0e conferido a\u00a0<em>Eliaq\u00eem<\/em>. As\u00a0<em>chaves<\/em>\u00a0do Reino dos C\u00e9us s\u00e3o as\u00a0<em>chaves<\/em>\u00a0do amor e do perd\u00e3o, traves mestras de uma comunidade unida e confiante, com os p\u00e9s na terra e o olhar fixo em Deus. Diz, na verdade, a Constitui\u00e7\u00e3o Dogm\u00e1tica\u00a0<em>Lumen gentium<\/em>: \u00abAprouve a Deus salvar e santificar os homens, n\u00e3o individualmente, exclu\u00edda qualquer liga\u00e7\u00e3o entre eles, mas constituindo-os em povo\u00bb (n.\u00ba 9).<\/p>\n<p>7. \u00c9 importante, porque esclarecedora e mobilizadora, esta nota do Conc\u00edlio Vaticano II. De facto, Pedro \u00e9 a\u00a0<em>Pedra<\/em>\u00a0e tem as\u00a0<em>Chaves<\/em>\u00a0do Reino dos C\u00e9us, e \u00e9-lhe ainda dada a autoridade de\u00a0<em>ligar-desligar<\/em>, isto \u00e9, de perdoar: \u00abTudo o que ligares (<em>d\u00eas\u00eas<\/em>: conj. aor. de\u00a0<em>d\u00e9\u00f4<\/em>) sobre a terra, ficar\u00e1 para sempre ligado (<em>dedem\u00e9non<\/em>: part. perf. pass. de\u00a0<em>d\u00e9\u00f4<\/em>) nos C\u00e9us, e tudo o que desligares (<em>l\u00fds\u00eas<\/em>: conj. aor. de\u00a0<em>l\u00fd\u00f4<\/em>) sobre a terra, ficar\u00e1 para sempre desligado (<em>lelym\u00e9non<\/em>: part. perf. pass. de\u00a0<em>l\u00fd\u00f4<\/em>) nos C\u00e9us\u00bb (Mateus 16,19). Todavia, no Evangelho de Mateus, e s\u00f3 no Evangelho de Mateus, esta autoridade de\u00a0<em>ligar-desligar<\/em>, isto \u00e9, de perdoar, \u00e9 tamb\u00e9m confiada \u00e0 inteira comunidade, exatamente nos mesmos termos em que \u00e9 confiada a Pedro: \u00abEm verdade vos digo: tudo o que ligardes (<em>d\u00eas\u00eate<\/em>: conj. aor. de\u00a0<em>d\u00e9\u00f4<\/em>) sobre a terra, ficar\u00e1 para sempre ligado (<em>dedem\u00e9na<\/em>: part. perf. pass. de\u00a0<em>d\u00e9\u00f4<\/em>) no c\u00e9u, e tudo o que desligardes (<em>l\u00fds\u00eate<\/em>: conj. aor. de\u00a0<em>l\u00fd\u00f4<\/em>) na terra, ficar\u00e1 para sempre desligado (<em>lelym\u00e9na<\/em>: part. perf. pass. de\u00a0<em>l\u00fd\u00f4<\/em>) no c\u00e9u\u00bb (Mateus 18,18). \u00c9 belo ver a inteira comunidade assente na\u00a0<em>Pedra<\/em>, que \u00e9 Pedro, como Pedro, com Pedro, n\u00e3o alijando responsabilidades, mas unida, reunida e operante na pr\u00e1tica quotidiana do Perd\u00e3o!<\/p>\n<p>8. Atos 12,1-11 \u00e9 uma p\u00e1gina assombrosa, que sai fora do estilo lucano, e se aproxima mais do estilo do evangelista Marcos. N\u00e3o admira. \u00c9 mesmo para casa de Maria, m\u00e3e de Jo\u00e3o Marcos, que Pedro se dirige no epis\u00f3dio seguinte (Atos 12,12-17). Na p\u00e1gina de hoje, Pedro \u00e9 salvo miraculosamente pela interven\u00e7\u00e3o do Anjo de Deus, do pr\u00f3prio Deus, portanto. S\u00e3o significativos os cinco imperativos que o Anjo dirige a Pedro: Levanta-te, cinge-te, cal\u00e7a as sand\u00e1lias, cobre-te com o teu manto e segue-me! (Atos 12,8). Com o primeiro imperativo, caem das m\u00e3os de Pedro as correntes de ferro. Assim come\u00e7a a liberdade! Passam depois, sem qualquer sobressalto, um ap\u00f3s outro, dois postos da guarda, e abre-se automaticamente (<em>autom\u00e1t\u00ea<\/em>) o port\u00e3o de ferro que dava para fora (Atos 12,10). Quando Pedro cai em si, est\u00e1 numa rua de Jerusal\u00e9m, e reconhece a m\u00e3o de Deus nesta espetacular a\u00e7\u00e3o de liberta\u00e7\u00e3o em que \u00e9 libertado das m\u00e3os de Herodes (Atos 12,10-11). Trata-se de Herodes Agripa I, neto de Herodes o Grande. Favorecido, primeiro por Cal\u00edgula, depois por Cl\u00e1udio, foi vendo, a partir do ano 37, come\u00e7ar e aumentar o seu reinado de norte para sul: em 37, \u00e9 libertado das suas cadeias de ferro \u2013 estava preso em Roma \u2013 por Cal\u00edgula, que lhe entrega, juntamente com o t\u00edtulo de rei, as tetrarquias de Filipe e de Lis\u00e2nias; em 40, recebe a tetrarquia de Herodes Antipas, acabando de 41 a 44, ano da sua morte, por se tornar rei tamb\u00e9m sobre a Judeia, de certo modo refazendo o antigo reino de Herodes o Grande. \u00c9 no decurso destes \u00faltimos anos que se situam os acontecimentos relatados ou apenas acenados na li\u00e7\u00e3o de hoje, nomeadamente o mart\u00edrio de Tiago, filho de Zebedeu, e a pris\u00e3o de Pedro.<\/p>\n<p>9. A cena da liberta\u00e7\u00e3o de Pedro acontece na noite de P\u00e1scoa, em paralelismo com os hebreus que, no Egipto celebraram a P\u00e1scoa da liberta\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m a\u00ed acontece a interven\u00e7\u00e3o de Deus (\u00caxodo 12,8.12), tamb\u00e9m de noite, e os hebreus, como Pedro agora, comem a P\u00e1scoa com os rins cingidos e sand\u00e1lias nos p\u00e9s (\u00caxodo 12,11). E, de novo em paralelismo com os hebreus na sa\u00edda do Egipto, tamb\u00e9m Pedro deve caminhar pelas ruas da cidade e pelos caminhos do mundo. \u00c9 a\u00ed que Pedro e os Ap\u00f3stolos devem agora fazer falar a Palavra, e n\u00e3o j\u00e1 no Templo, como sucedeu no relato da liberta\u00e7\u00e3o dos Ap\u00f3stolos narrado em Atos 5,18-21.<\/p>\n<p>10. Na verdade, quando Pedro d\u00e1 por si, encontra-se na rua! Dirige-se ent\u00e3o para casa de Maria, m\u00e3e de Jo\u00e3o Marcos, onde era usual os crist\u00e3os se reunirem para rezar (Atos 12,12). Pedro bate insistentemente ao port\u00e3o exterior que d\u00e1 para o p\u00e1tio interior da casa, e, apercebendo-se, veio uma criada, de nome Rode [= Rosa] ver quem era (Atos 12,13). Mal reconheceu a voz de Pedro, ficou t\u00e3o contente que, em vez de abrir o port\u00e3o, correu para dentro anunciando que Pedro estava l\u00e1 fora (Atos 12,14). Responderam-lhe que estava maluca (<em>ma\u00edn\u00ea<\/em>) (Atos 12,15). Quando finalmente abriram o port\u00e3o, que n\u00e3o se abre automaticamente como o da cadeia, ficaram assombrados, fora de si (<em>ex\u00edst\u00eami<\/em>) (Atos 12,16). \u00c9 este o assombro maravilhoso que toma conta de Marcos, que enche o seu Evangelho, e esta p\u00e1gina de elei\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>11. Cheg\u00e1mos finalmente a Paulo e ao final da sua 2 Carta a Tim\u00f3teo 4,6-8.17-18, em que Paulo tra\u00e7a, por assim dizer, o seu testamento autobiogr\u00e1fico, recorrendo a tr\u00eas imagens. A primeira prov\u00e9m do culto, do rito de liba\u00e7\u00e3o (2 Tim\u00f3teo 4,6), hebraico\u00a0<em>nesek<\/em>\u00a0(\u00caxodo 29,40; Lev\u00edtico 23,13), que consiste em derramar um pouco de vinho ou de mosto (cerca de 1,5 litros) sobre o altar, onde ser\u00e1 queimado juntamente com a oferenda (<em>minhah<\/em>), subindo o seu perfume para o alto, para Deus. Do mesmo modo, a inteira vida de Paulo foi uma incessante subida para o seu Senhor, nada retendo para si mesmo, c\u00e1 em baixo. A segunda prov\u00e9m do mundo militar. \u00c9 o combate (<em>ag\u00f4n<\/em>), que Paulo combateu a vida inteira, e que qualifica de \u00abbelo\u00bb e \u00abbom\u00bb (<em>kal\u00f3s<\/em>) (2 Tim\u00f3teo 4,7). A terceira prov\u00e9m do mundo desportivo, concretamente do atletismo. \u00abCompletei a minha corrida (<em>dr\u00f3mos<\/em>)\u00bb (2 Tim\u00f3teo 4,7). Como o atleta sacrifica tudo para alcan\u00e7ar a vit\u00f3ria, tamb\u00e9m Paulo despendeu todas as suas energias para alcan\u00e7ar \u00aba coroa da justi\u00e7a\u00bb que o Senhor lhe dar\u00e1 (2 Tim\u00f3teo 4,8), e que \u00e9 bem diferente da \u00abcoroa corrupt\u00edvel\u00bb que os atletas conquistam no est\u00e1dio (1 Cor\u00edntios 9,25). Seja-nos permitido ir buscar ainda uma quarta imagem ao mundo dos marinheiros. \u00abO tempo (<em>ho kair\u00f3s<\/em>) come\u00e7ou j\u00e1 a recolher as velas (<em>syst\u00e9ll\u00f4<\/em>)\u00bb (1 Cor 7,29). Paulo sabe que est\u00e1 a chegar ao porto, depois de ter atravessado tempestades de toda a ordem, sempre, no entanto, assistido pelo seu Senhor, para que se cumprisse o an\u00fancio (<em>k\u00earygma<\/em>) do Evangelho a todas as na\u00e7\u00f5es (2 Tim\u00f3teo 4,17). E termina tudo com uma bela doxologia: \u00abA Ele a gl\u00f3ria pelos s\u00e9culos dos s\u00e9culos. \u00c1men\u00bb (2 Tim\u00f3teo 4,18).<\/p>\n<p>12. O Salmo 34 p\u00f5e nos l\u00e1bios dos pobres a b\u00ean\u00e7\u00e3o (<em>b<sup>e<\/sup>rakah<\/em>), que os une a Deus para sempre, e o louvor jubiloso e intenso (<em>t<sup>e<\/sup>hillah<\/em>), que \u00e9 a sua verdadeira raz\u00e3o de viver (vv. 2-3). O pobre enche o olhar de Deus e fica radiante, luminoso (v. 6), sabe que Deus o escuta e o salva, e convida a saborear a bondade de Deus (v. 9). Ou talvez mais do que isso. Na vers\u00e3o grega deste v. 9, muito utilizado no momento da comunh\u00e3o, tamb\u00e9m nas liturgias de rito bizantino, l\u00ea-se: \u00ab<em>ge\u00fasasthe ka\u00ec \u00eddete h\u00f3ti chr\u00east\u00f3s ho K\u00fdrios<\/em>\u00bb (\u00abSaboreai e vede que Bom \u00e9 o Senhor\u00bb), em que o adjetivo\u00a0<em>chr\u00east\u00f3s<\/em>, \u00abbom\u00bb, \u00e9 lido na pron\u00fancia viva:\u00a0<em>christ\u00f3s<\/em>, o que vem a resultar, na atualiza\u00e7\u00e3o crist\u00e3: \u00abSaboreai e vede que Cristo \u00e9 o Senhor\u00bb. Belo e saboroso, sem d\u00favida. Deus segue sempre o pobre de perto, cerca-o de amor (v. 8), protege at\u00e9 os seus ossos para n\u00e3o serem quebrados (v. 21), tal como \u00e9 dito do cordeiro pascal, o mais alto s\u00edmbolo de liberta\u00e7\u00e3o. No seu\u00a0<em>Caminho de perfei\u00e7\u00e3o<\/em>, Santa Teresa de \u00c1vila deixa-nos, talvez, um dos mais belos e e incisivos discursos sobre a pobreza: \u00abA pobreza \u00e9 um bem que cont\u00e9m em si todos os bens do mundo; ela confere um imp\u00e9rio imenso, torna-nos verdadeiramente donos de todos os bens c\u00e1 de baixo desde o momento em que os faz cair aos p\u00e9s\u00bb.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. 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