{"id":2909768332,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/326-vaticano\/11588-canada-francisco-evoca-importancia-dos-avos-e-pede-futuro-que-valorize-a-memoria-"},"modified":"2025-11-07T16:34:43","modified_gmt":"2025-11-07T16:34:43","slug":"canada-francisco-evoca-importancia-dos-avos-e-pede-futuro-que-valorize-a-memoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/canada-francisco-evoca-importancia-dos-avos-e-pede-futuro-que-valorize-a-memoria\/","title":{"rendered":"Canad\u00e1: Francisco evoca import\u00e2ncia dos av\u00f3s e pede futuro que \u00abvalorize a mem\u00f3ria\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/papa_canada_vatican_media_220727111453.jpg\" \/><\/p>\n<p><p>Papa celebrou eucaristia no\u00a0<em><span class=\"color-text\">Commonwealth Stadium, em Edmonton, Canad\u00e1, e evocou o papel dos av\u00f3s na constru\u00e7\u00e3o das sociedades. Francisco alertou para &#8220;cultura do descarte&#8221; e alertou para a urg\u00eancia de &#8220;<em>cuidar das ra\u00edzes&#8221; pois s\u00f3 assim se constr\u00f3i &#8220;o futuro&#8221;<\/em><\/span><\/em><\/p>\n<p><span class=\"color-text\">Leia, na \u00edntegra, a homilia do Santo Padre<\/span><\/p>\n<p>Hoje \u00e9 a festa dos av\u00f3s de Jesus; o Senhor quis que nos encontr\u00e1ssemos em t\u00e3o grande n\u00famero precisamente nesta ocasi\u00e3o muito querida tanto para v\u00f3s como para mim. Na casa de Joaquim e Ana, o pequenito Jesus conheceu os idosos da sua fam\u00edlia e experimentou a proximidade, a ternura e a sabedoria dos av\u00f3s. Pensemos, tamb\u00e9m n\u00f3s, nos nossos av\u00f3s e reflitamos sobre dois aspetos importantes.<\/p>\n<p>O primeiro:\u00a0<em>somos filhos duma hist\u00f3ria que devemos guardar<\/em>. N\u00e3o somos indiv\u00edduos isolados, n\u00e3o somos ilhas; ningu\u00e9m vem ao mundo desligado dos outros. As nossas ra\u00edzes, o amor com que fomos aguardados e que recebemos ao vir ao mundo, os ambientes familiares onde crescemos, fazem parte duma \u00fanica hist\u00f3ria, que nos precedeu e gerou. N\u00e3o a escolhemos n\u00f3s, mas recebemo-la de prenda; \u00e9 uma prenda que somos chamados a guardar. Pois, como nos lembrou o livro de Ben Sira, somos \u00aba posteridade\u00bb de quem nos precedeu, somos a sua \u00abrica heran\u00e7a\u00bb (cf.\u00a0<em>Sir<\/em>\u00a044, 11). Uma heran\u00e7a cujo centro, mais do que nas proezas ou na autoridade de uns, na intelig\u00eancia ou na criatividade do canto e da poesia de outros, est\u00e1 na justi\u00e7a, na fidelidade a Deus e \u00e0 sua vontade. E isto no-lo transmitiram. Para acolher verdadeiramente quem somos e qu\u00e3o preciosos somos, precisamos de\u00a0<em>assumir em n\u00f3s<\/em>\u00a0aqueles de quem descendemos, aqueles que n\u00e3o pensaram s\u00f3 em si mesmos, mas transmitiram-nos o tesouro da vida. Estamos aqui gra\u00e7as aos pais, mas tamb\u00e9m gra\u00e7as aos av\u00f3s que nos fizeram experimentar ser bem-vindos no mundo. Muitas vezes foram eles a amar-nos sem reservas e sem nada esperar de n\u00f3s: tomaram-nos pela m\u00e3o quando t\u00ednhamos medo, tranquilizaram-nos na escurid\u00e3o da noite, encorajaram-nos quando, \u00e0 luz do sol, dev\u00edamos enfrentar as op\u00e7\u00f5es da vida. Gra\u00e7as aos nossos av\u00f3s, recebemos\u00a0<em>uma car\u00edcia da parte da hist\u00f3ria que nos precedeu<\/em>: aprendemos que o bem, a ternura e a sabedoria s\u00e3o ra\u00edzes s\u00f3lidas da humanidade. Na casa dos av\u00f3s, muitos de n\u00f3s respiramos o perfume do Evangelho, a for\u00e7a duma f\u00e9 que tem o sabor de casa. Gra\u00e7as a eles, descobrimos uma f\u00e9 familiar, uma f\u00e9 dom\u00e9stica; sim, porque \u00e9 deste modo que se comunica essencialmente a f\u00e9: comunica-se \u00abem dialeto\u00bb, comunica-se atrav\u00e9s do afeto e do encorajamento, da solicitude e da proximidade.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a nossa hist\u00f3ria que se deve guardar, a hist\u00f3ria de que somos herdeiros: somos filhos, porque somos netos. Os av\u00f3s imprimiram em n\u00f3s o cunho original do seu modo de ser, dando-nos dignidade, confian\u00e7a em n\u00f3s e nos outros. Transmitiram-nos algo que n\u00e3o poder\u00e1 jamais ser cancelado dentro de n\u00f3s e, ao mesmo tempo, permitiram-nos ser pessoas \u00fanicas, originais e livres. Assim, foi precisamente dos av\u00f3s que aprendemos que o amor nunca \u00e9 constri\u00e7\u00e3o, nunca priva o outro da sua liberdade interior. Joaquim e Ana amaram Maria e Jesus assim; e Maria amou assim Jesus, com um amor que nunca O sufocou nem tolheu, mas encaminhou a fim de abra\u00e7ar a miss\u00e3o para a que veio ao mundo. Procuremos aprender isto seja como indiv\u00edduos, seja como Igreja: nunca oprimir a consci\u00eancia do outro, nunca acorrentar a liberdade de quem est\u00e1 \u00e0 nossa frente e sobretudo nunca faltar ao amor e respeito pelas pessoas que nos precederam e est\u00e3o confiadas, tesouros preciosos que guardam uma hist\u00f3ria maior do que eles.<\/p>\n<p>E o livro de Ben Sira diz-nos ainda que, guardar a hist\u00f3ria que nos gerou, significa n\u00e3o ofuscar a \u00abgl\u00f3ria\u00bb dos antepassados: n\u00e3o perder a sua mem\u00f3ria, n\u00e3o nos esquecermos da hist\u00f3ria que deu \u00e0 luz a nossa vida, recordarmo-nos sempre daquelas m\u00e3os que nos acarinharam e seguraram nos bra\u00e7os, porque \u00e9 nesta fonte que encontramos consola\u00e7\u00e3o nos momentos de des\u00e2nimo, luz no discernimento, coragem para enfrentar os desafios da vida. Mas guardar a hist\u00f3ria que nos gerou significa tamb\u00e9m voltar sempre \u00e0quela escola, onde aprendemos e vivemos o amor. Significa perguntar-nos, perante as op\u00e7\u00f5es que devemos tomar hoje, que fariam no nosso lugar os idosos mais s\u00e1bios que conhecemos, que nos aconselham ou aconselhariam os nossos av\u00f3s e bisav\u00f3s.<\/p>\n<p>Queridos irm\u00e3os e irm\u00e3s, perguntemo-nos ent\u00e3o: Somos filhos e netos que sabemos guardar a riqueza recebida? Recordamos os bons ensinamentos herdados? Falamos com os nossos idosos, reservamos tempo para os escutar? E ainda: nas nossas casas, cada vez melhor equipadas, modernas e funcionais, sabemos preparar um espa\u00e7o digno para conservar as suas recorda\u00e7\u00f5es, um lugar pr\u00f3prio, um pequeno Orat\u00f3rio familiar que nos permita, atrav\u00e9s de imagens e objetos queridos, elevar tamb\u00e9m o pensamento e a ora\u00e7\u00e3o por quem nos precedeu? Conservamos a B\u00edblia e o ter\u00e7o dos nossos antepassados? Devemos rezar por eles e em uni\u00e3o com eles, dedicar tempo a repass\u00e1-los na mem\u00f3ria, guardar a heran\u00e7a: na bruma do esquecimento que invade os nossos tempos vertiginosos, irm\u00e3os e irm\u00e3s, \u00e9 fundamental\u00a0<em>cuidar das ra\u00edzes<\/em>. \u00c9 assim que cresce a \u00e1rvore; \u00e9 assim que se constr\u00f3i o futuro.<\/p>\n<p>Chegamos assim ao segundo aspeto, sobre o qual queremos refletir: al\u00e9m de\u00a0<em>filhos duma hist\u00f3ria a guardar<\/em>, somos\u00a0<em>artes\u00e3os duma hist\u00f3ria a construir<\/em>. Cada um pode reconhecer aquilo que \u00e9, com as suas luzes e sombras, conforme o amor que recebeu ou que lhe faltou. O mist\u00e9rio da vida humana \u00e9 este: todos somos filhos de algu\u00e9m, gerados e plasmados por algu\u00e9m, mas, uma vez tornados adultos, somos tamb\u00e9m chamados a ser geradores, pais, m\u00e3es e av\u00f3s de outrem. Por conseguinte, olhando para a pessoa que somos hoje, que queremos fazer de n\u00f3s mesmos? Os av\u00f3s de quem descendemos, os idosos que sonharam, esperaram e se sacrificaram por n\u00f3s, lan\u00e7am-nos uma pergunta fundamental: Que sociedade queremos construir? Recebemos tanto das m\u00e3os de quem nos precedeu, que queremos deixar em heran\u00e7a \u00e0 nossa posteridade? Uma f\u00e9 viva ou uma f\u00e9 tipo \u00ab\u00e1gua de col\u00f3nia\u00bb, uma sociedade fundada no lucro dos indiv\u00edduos ou na fraternidade, um mundo em paz ou em guerra, uma cria\u00e7\u00e3o devastada ou uma casa ainda acolhedora?<\/p>\n<p>E n\u00e3o nos esque\u00e7amos de que este movimento que d\u00e1 vida sobe das ra\u00edzes para os ramos, as folhas, as flores, os frutos da \u00e1rvore. A verdadeira tradi\u00e7\u00e3o expressa-se nesta dimens\u00e3o vertical: de baixo para o alto. Tenhamos cuidado para n\u00e3o cair numa caricatura da tradi\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o se moveria numa linha vertical \u2013 das ra\u00edzes para os frutos \u2013, mas numa linha horizontal \u2013 da frente para tr\u00e1s \u2013 que nos leva \u00e0 cultura do \u00abretrogradismo\u00bb como um ref\u00fagio ego\u00edsta e que se limita a encaixar o presente, conserv\u00e1-lo na l\u00f3gica do \u00absempre se fez assim\u00bb.<\/p>\n<p>No Evangelho que ouvimos, Jesus diz aos disc\u00edpulos que s\u00e3o bem-aventurados porque podem ver e ouvir o que muitos profetas e justos s\u00f3 puderam desejar (cf.\u00a0<em>Mt<\/em>\u00a013, 16-17). Com efeito muitos acreditaram na promessa de Deus sobre a vinda do Messias, prepararam-Lhe o caminho, anunciaram a sua chegada. Mas, agora que o Messias chegou, quantos O podem ver e ouvir s\u00e3o chamados a acolh\u00ea-Lo e anunci\u00e1-Lo.<\/p>\n<p>Irm\u00e3os e irm\u00e3s, isto vale tamb\u00e9m para n\u00f3s. Aqueles que nos precederam transmitiram-nos uma paix\u00e3o, uma for\u00e7a e um anseio, um fogo que nos cabe reavivar; n\u00e3o se trata de guardar cinzas, mas reavivar o fogo que eles acenderam. Os nossos av\u00f3s e os nossos idosos desejaram ver um mundo mais justo, mais fraterno e mais solid\u00e1rio, e lutaram para nos dar um futuro. Agora, a n\u00f3s, cabe n\u00e3o os dececionar. Cabe-nos cuidar dessa tradi\u00e7\u00e3o que recebemos, porque a tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 a f\u00e9 viva dos nossos mortos. Por favor, n\u00e3o a transformemos em tradicionalismo que, como disse um pensador, \u00e9 a f\u00e9 morta dos vivos. Sustentados por eles, pelos nossos idosos, que s\u00e3o as nossas ra\u00edzes, toca-nos a n\u00f3s dar fruto. Somos n\u00f3s os ramos que devem florescer e introduzir sementes novas na hist\u00f3ria. Coloquemo-nos, pois, uma pergunta concreta: Eu, perante a hist\u00f3ria de salva\u00e7\u00e3o a que perten\u00e7o e face a quem me precedeu e amou, que fa\u00e7o? Tenho um papel \u00fanico e insubstitu\u00edvel na hist\u00f3ria\u2026 que rasto estou a deixar para tr\u00e1s no meu caminho, que estou a fazer, que estou a deixar para quem me segue, que estou a dar de mim? Muitas vezes avalia-se a vida com base no dinheiro que se ganha, na carreira que se faz, no sucesso e considera\u00e7\u00e3o que se recebem dos outros. Mas estes n\u00e3o s\u00e3o crit\u00e9rios geradores. O problema \u00e9: que estou a gerar? Estou a gerar vida? Estou introduzindo na hist\u00f3ria um novo e renovado amor? Estou a anunciar o Evangelho onde estou a viver, estou a servir algu\u00e9m gratuitamente, como fez comigo quem me precedeu? Que fa\u00e7o pela minha Igreja, pela minha cidade e a sociedade? Irm\u00e3os e irm\u00e3s, \u00e9 f\u00e1cil criticar, mas o Senhor n\u00e3o nos quer apenas cr\u00edticos do sistema, n\u00e3o nos quer fechados, n\u00e3o nos quer \u00abretr\u00f3grados\u00bb, do n\u00famero daqueles que se voltam para tr\u00e1s, como diz o autor da Carta aos Hebreus (cf. 10, 39) mas quer que sejamos artes\u00e3os duma hist\u00f3ria nova, tecel\u00f5es de esperan\u00e7a, construtores do futuro, operadores de paz.<\/p>\n<p>Joaquim e Ana intercedam por n\u00f3s! Ajudem-nos a guardar a hist\u00f3ria que nos gerou e a construir uma hist\u00f3ria geradora. Que eles nos lembrem a import\u00e2ncia espiritual de honrar os nossos av\u00f3s e os nossos idosos, aprender com a sua presen\u00e7a para construir um futuro melhor: um futuro onde os idosos n\u00e3o sejam descartados porque \u00abj\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o de utilidade\u00bb; um futuro que n\u00e3o julgue o valor das pessoas s\u00f3 pelo que produzem; um futuro que n\u00e3o seja indiferente com quem, j\u00e1 em idade avan\u00e7ada, precisa de mais tempo, escuta e solicitude; um futuro onde, para ningu\u00e9m, se repita a hist\u00f3ria de viol\u00eancia e marginaliza\u00e7\u00e3o sofrida pelos nossos irm\u00e3os e irm\u00e3s ind\u00edgenas. \u00c9 um futuro poss\u00edvel se, com a ajuda de Deus, n\u00e3o quebrarmos o v\u00ednculo com quem nos precedeu e alimentarmos o di\u00e1logo com quem vir\u00e1 depois de n\u00f3s: jovens e idosos, av\u00f3s e netos, em conjunto. Avancemos juntos, sonhemos juntos. E n\u00e3o esque\u00e7amos o conselho de Paulo ao seu disc\u00edpulo Tim\u00f3teo: \u00abRecorda-te da tua m\u00e3e e da tua av\u00f3\u00bb (cf. 2\u00a0<em>Tim<\/em>\u00a01, 5).<\/p>\n<p><span class=\"color-text\">Tradu\u00e7\u00e3o Educris a partir do original em italiano<\/span><\/p>\n<p><span class=\"color-text\">Imagem: Vatican Media<\/span><\/p>\n<p><span class=\"color-text\">26.07.2022<\/span><\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Papa celebrou eucaristia no\u00a0Commonwealth Stadium, em Edmonton, Canad\u00e1, e evocou o papel dos av\u00f3s na constru\u00e7\u00e3o das sociedades. 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