{"id":2921450418,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/9316-hora-da-esperanca-e-de-fe-renovada-padre-antonio-martins"},"modified":"2025-11-07T16:33:37","modified_gmt":"2025-11-07T16:33:37","slug":"hora-da-esperanca-e-de-fe-renovada-padre-antonio-martins","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/hora-da-esperanca-e-de-fe-renovada-padre-antonio-martins\/","title":{"rendered":"\u00abHora da esperan\u00e7a e de f\u00e9 renovada\u00bb, padre Ant\u00f3nio Martins"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/hora_2_200406110031.jpg\" \/><\/p>\n<p><p>Acolhamos como Palavra dirigida particularmente a n\u00f3s, neste tempo de confinamento, o que Jesus manda dizer ao dono de uma casa em Jerusal\u00e9m: \u00abE? em tua casa que Eu quero celebrar a P\u00e1scoa com os meus disc\u00edpulos\u00bb. \u00c9 em nossas casas desarrumadas, feitas estaleiros, escrit\u00f3rios, salas de aula, gin\u00e1sios, que o Senhor quer celebrar a P\u00e1scoa este ano. N\u00e3o no templo, com uma liturgia solene, mas de forma dom\u00e9stica, familiar, com gestos simples, criativos, mas nossos.<\/p>\n<p class=\"s19\"><span style=\"background-color: #ffffff;color: #0000ff\">O Senhor quer passar connosco, quer passar por n\u00f3s, pelas nossas casas, para que fa\u00e7amos nossa a sua P\u00e1scoa. Preparemo-nos, com simplicidade e exig\u00eancia, para que em cada uma das nossas fam\u00edlias se fa\u00e7am gestos de P\u00e1scoa. Gestos que possam dizer, com verdade, a nossa apreens\u00e3o e o desejo de sair do isolamento, a ang\u00fastia da incerteza do presente e a esperan\u00e7a de um tempo novo, o isolamento necess\u00e1rio, mas tamb\u00e9m a partilha solid\u00e1ria e a compaix\u00e3o com os mais vulner\u00e1veis e exclu\u00eddos.<\/span><\/p>\n<p>Gestos verdadeiramente pascais, este ano mais do que nunca.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"134\" src=\"https:\/\/d14e8oeg5e788p.cloudfront.net\/content\/75047\/c28fbd2492d029094d14def0d97dea87.jpg\" style=\"float: right\" width=\"233\">Na narrativa da paix\u00e3o de Mateus, neste domingo de Ramos, entra em cena um casal desconcertante, Pilatos e a sua mulher. Pilatos era o governador da Judeia, oficial militar de carreira, garante da ordem p\u00fablica. Tendo consci\u00eancia da inoc\u00eancia de Jesus, com receio de revoltas populares entrega o \u00abterrorista\u00bb Barrab\u00e1s e condena Jesus \u00e0 morte de cruz. Encerra o assunto com o gesto c\u00e9nico de lavar as m\u00e3os, a indicar que n\u00e3o ter mais nada a ver com o caso. O tempo angustiante e incerto que vivemos \u00e9 a hora das decis\u00f5es pol\u00edticas, banc\u00e1rias, empresariais, familiares, acad\u00e9micas. Nenhum l\u00edder pode lavar as m\u00e3os da responsabilidade das decis\u00f5es, urgentes, necess\u00e1rias, para bem do futuro da humanidade. Este tempo julgar\u00e1 quem vai ficar para a hist\u00f3ria como Pilatos, lavando as m\u00e3os da sua responsabilidade.<\/img><\/p>\n<p>Na sombra de Pilatos, an\u00f3nima, est\u00e1 a sua esposa. N\u00e3o aparece em cena, mas manda informar o marido, no preciso momento da tomada da decis\u00e3o, da sua profunda afli\u00e7\u00e3o. Aquela mulher sem nome nem rosto intui a inoc\u00eancia de Jesus, \u00abo justo\u00bb, e previne o marido da pr\u00f3pria ru\u00edna moral: \u00abN\u00e3o te prendas com a causa desse justo, pois hoje sofri muito em sonhos por causa d\u2019Ele\u00bb. Pilatos n\u00e3o ouve a intui\u00e7\u00e3o da esposa, mas esta entra no processo da tomada da decis\u00e3o; n\u00e3o podia ficar de fora, era um imperativo de consci\u00eancia. Na mulher de Pilatos est\u00e3o presentes todas as mulheres an\u00f3nimas que, no sil\u00eancio das suas casas, decidem o quotidiano da vida, com urg\u00eancia, pragmatismo, preparando alimentos, cuidando de filhos e agora s\u00e3o tamb\u00e9m educadoras; repartem-se entre atividades profissionais e vida dom\u00e9stica acrescida, cuidam da fam\u00edlia na retaguarda, prestam voluntariado. Na paix\u00e3o da mulher de Pilatos est\u00e1 a paix\u00e3o das mulheres do tempo presente, essas que n\u00e3o podem lavar as m\u00e3os, ou quando as lavam \u00e9 para voltar a agir porque as suas m\u00e3os est\u00e3o sempre a tocar e a cuidar, mesmo correndo risco de contamina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"155\" src=\"https:\/\/images.unsplash.com\/photo-1510273557136-36129fbdb54f?ixlib=rb-1.2.1&amp;ixid=eyJhcHBfaWQiOjEyMDd9&amp;auto=format&amp;fit=crop&amp;w=750&amp;q=80\" style=\"float: left\" width=\"233\" \/>Compreendemos a paix\u00e3o da humanidade de hoje na paix\u00e3o de Cristo. Pode Deus livrar-nos da pandemia? Pode Deus salvar-nos do mal? Perguntas terr\u00edveis e inevit\u00e1veis neste tempo que todos atravessamos. N\u00e3o procuremos respostas simplistas e ing\u00e9nuas. <span style=\"color: #993300\"><strong>A violenta e mortal experi\u00eancia do mal, que a humanidade de hoje atravessa, \u00e9 uma provoca\u00e7\u00e3o a Deus e \u00e0 f\u00e9 de todos os crentes. P\u00f5e em causa a ideia bem arrumada de um Deus omnipotente, pronto-socorro.<\/strong><\/span><\/p>\n<p>A narrativa da paix\u00e3o de Cristo ajuda-nos a dar sentido \u00e0 nossa paix\u00e3o e \u00e0 paix\u00e3o de toda a humanidade. Jesus, vulner\u00e1vel, impotente e indefeso, \u00e9 exposto ao esc\u00e1rnio, \u00e0 blasf\u00e9mia, \u00e0 irris\u00e3o: \u00abTu que destru\u00edas o templo e o reedificavas em tr\u00eas dias, salva-Te a Ti mesmo\u00bb; \u00abSe e? o rei de Israel, des\u00e7a agora da cruz e acreditaremos n\u2019Ele. Confiou em Deus: Ele que O livre agora, se O ama\u00bb. E Deus n\u00e3o interv\u00e9m, permanece num terr\u00edvel sil\u00eancio e ina\u00e7\u00e3o. O Pai n\u00e3o livra o Filho da cruz; o Salvador n\u00e3o se salva. A cruz apresenta, \u00e0 primeira vista, o fracasso de Deus. O seu amor, ali, parece revelar-se impotente. Na viol\u00eancia mortal dos acontecimentos parece n\u00e3o haver salva\u00e7\u00e3o. A cruz \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o de uma conce\u00e7\u00e3o m\u00e1gica de Deus.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Cristo morre, v\u00edtima da viol\u00eancia organizada, gritando por Deus, sentindo-se abandonado pelo Pai. Grita, do profundo da sua agonia (e aqui \u00e9 a morte que triunfa sobre a vida), questionando o Pai, mas nele inteiramente confiando: paradoxo da f\u00e9: \u00abMeu Deus, meu Deus, porque Me abandonastes?\u00bb. Grito forte, de abandono, de terr\u00edvel solid\u00e3o. Grito do profundo da vida que est\u00e1 em perigo de mortal. No abismo da sua dor e da sua morte, com o Salmo, Jesus questiona o Pai: \u00abPorqu\u00ea, meu Deus?\u00bb. Na aus\u00eancia de respostas, de justifica\u00e7\u00f5es racionais, fica a pergunta como grito. No grito de Jesus na cruz est\u00e3o recolhidos os gritos de todos os homens e mulheres que, na dor e na morte, sentem a aus\u00eancia e o sil\u00eancio de Deus. Nos momentos de desola\u00e7\u00e3o, \u00e9 a mem\u00f3ria do amor que nos salva e nos d\u00e1 esperan\u00e7a e confian\u00e7a no futuro: \u00abPerten\u00e7o-te desde o seu materno; desde o seio de minha m\u00e3e, Tu \u00e9s o meu Deus\u00bb. O Salmo que Jesus reza na cruz, com tra\u00e7os de acusa\u00e7\u00e3o a Deus, termina em louvor: \u00ab&#8230; eu te louvarei no meio da assembleia\u00bb.<\/p>\n<p>Mateus conclui o evangelho da paix\u00e3o narrando o ins\u00f3lito: no pr\u00f3prio momento da morte de Jesus, os t\u00famulos abrem-se e os mortos ressuscitam. Atrapalhando os tempos da narrativa, Mateus apresenta j\u00e1 a fecundidade da morte de Jesus. Na viol\u00eancia da morte, em seu aparente triunfo, h\u00e1 uma invis\u00edvel for\u00e7a que faz viver, que abre as portas da morte. \u00abAbriram-se os tu?mulos, e muitos dos corpos de santos que tinham morrido ressuscitaram\u00bb. Aquela vulnerabilidade indefesa do Filho de Deus, que n\u00e3o se salva da cruz, \u00e9 a vulnerabilidade da for\u00e7a do amor fiel. \u00c9 a for\u00e7a do amor compassivo e silencioso de Deus que abra\u00e7a, na paix\u00e3o do Filho, a paix\u00e3o de toda a humanidade, a paix\u00e3o de cada um de n\u00f3s. H\u00e1 vida na morte, e essa vida est\u00e1 nos gestos quotidianos de amor e de servi\u00e7o com que cuidamos uns dos outros.<\/p>\n<p>O oficial militar romano v\u00ea nos acontecimentos da paix\u00e3o de Jesus o sinal da vida que brota, que renasce da morte. V\u00ea o invis\u00edvel, o que est\u00e1 para al\u00e9m da evid\u00eancia: \u00abEste era verdadeiramente Filho de Deus\u00bb.<\/p>\n<p>Esta hora de sil\u00eancio, de dor, de luta, de resist\u00eancia para todos n\u00f3s, possa ser tamb\u00e9m a hora da esperan\u00e7a e de uma f\u00e9 renovada.\u00a0<\/p>\n<div style=\"text-align: right\">Padre Ant\u00f3nio Martins\u00a0<\/p>\n<div style=\"text-align: right\">Capel\u00e3o da Capela do Rato, Lisboa<\/p>\n<div style=\"text-align: right\">professor na Faculdade de Teologia|Lisboa\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acolhamos como Palavra dirigida particularmente a n\u00f3s, neste tempo de confinamento, o que Jesus manda dizer ao dono de uma 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