{"id":312706724,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/326-vaticano\/13670-estados-unidos-papa-critica-politicas-de-expulsao-em-massa-que-ferem-a-dignidade-humana"},"modified":"2025-11-07T16:34:46","modified_gmt":"2025-11-07T16:34:46","slug":"estados-unidos-papa-critica-politicas-de-expulsao-em-massa-que-ferem-a-dignidade-humana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/estados-unidos-papa-critica-politicas-de-expulsao-em-massa-que-ferem-a-dignidade-humana\/","title":{"rendered":"Estados Unidos: Papa critica pol\u00edticas de \u00abexpuls\u00e3o em massa\u00bb que ferem \u00aba dignidade humana\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/migrantes_2025_unplash_250212035622.jpg\" \/><\/p>\n<p><p><em>Em carta aberta, aos Bispos dos Estados Unidos da Am\u00e9rica, Francisco agradece \u201csinal\u201d da Igreja Cat\u00f3lica no acolhimento de migrantes e refugiados e exorta a que n\u00e3o se ceda \u201cperante narrativas que discriminam e fazem sofrer desnecessariamente os irm\u00e3os migrantes e refugiados\u201d<\/em><\/p>\n<p>Caros Irm\u00e3os no Episcopado:<\/p>\n<p>Dirijo-vos algumas palavras nestes momentos delicados que estais a viver como Pastores do Povo de Deus que caminha nos Estados Unidos da Am\u00e9rica.<\/p>\n<p>1. O caminho da escravid\u00e3o para a liberdade que o povo de Israel percorreu, narrado no Livro do \u00caxodo, convida-nos a olhar para a realidade do nosso tempo, t\u00e3o claramente marcada pelo fen\u00f3meno da migra\u00e7\u00e3o, como um momento decisivo da hist\u00f3ria para reafirmar n\u00e3o s\u00f3 a nossa f\u00e9 num Deus sempre pr\u00f3ximo, encarnado, migrante e refugiado, mas tamb\u00e9m a dignidade infinita e transcendente de cada pessoa humana. [1]<\/p>\n<p>2.\u00ba Estas palavras com as quais come\u00e7o n\u00e3o s\u00e3o articuladas artificialmente. Mesmo um exame superficial da Doutrina Social da Igreja mostra com grande for\u00e7a que Jesus Cristo \u00e9 o verdadeiro Emanuel (cf. Mt 1,23), e que Ele n\u00e3o viveu separado da dif\u00edcil experi\u00eancia de ser expulso da sua pr\u00f3pria terra por causa de um risco iminente para a sua vida, e da experi\u00eancia de ter de se refugiar numa sociedade e numa cultura estranhas \u00e0s suas. O Filho de Deus, ao fazer-se homem, escolheu tamb\u00e9m viver o drama da imigra\u00e7\u00e3o. Gosto de recordar, entre outras, as palavras com que o Papa Pio XII iniciou a sua Constitui\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica sobre o cuidado dos migrantes, considerada a Carta Magna do pensamento da Igreja sobre a migra\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u00abA fam\u00edlia de Nazar\u00e9 no ex\u00edlio, Jesus, Maria e Jos\u00e9, emigrantes no Egito e a\u00ed refugiados para escapar \u00e0 ira de um rei \u00edmpio, s\u00e3o o modelo, o exemplo e a consola\u00e7\u00e3o dos emigrantes e peregrinos de todos os tempos e pa\u00edses, de todos os refugiados de qualquer condi\u00e7\u00e3o que, pressionados pela persegui\u00e7\u00e3o ou pela necessidade, s\u00e3o obrigados a abandonar a sua p\u00e1tria, a sua querida fam\u00edlia e os seus queridos amigos para irem para terras estrangeiras.\u00bb [2]<\/p>\n<p>3.De igual modo, Jesus Cristo, amando a todos com um amor universal, ensina-nos a reconhecer permanentemente a dignidade de cada ser humano, sem exce\u00e7\u00e3o. De facto, quando falamos de \u201cdignidade infinita e transcendente\u201d, queremos real\u00e7ar que o valor mais decisivo que a pessoa humana possui supera e sustenta qualquer outra considera\u00e7\u00e3o jur\u00eddica que se possa fazer para regular a vida em sociedade. Por conseguinte, todos os fi\u00e9is crist\u00e3os e pessoas de boa vontade s\u00e3o chamados a considerar a legitimidade das normas e pol\u00edticas p\u00fablicas \u00e0 luz da dignidade da pessoa e dos seus direitos fundamentais, e n\u00e3o vice-versa.<\/p>\n<p>4. Tenho acompanhado de perto a grande crise que est\u00e1 a ocorrer nos Estados Unidos devido ao in\u00edcio de um programa de deporta\u00e7\u00e3o em massa. <strong>Uma consci\u00eancia devidamente formada n\u00e3o pode deixar de emitir um ju\u00edzo cr\u00edtico e de manifestar a sua discord\u00e2ncia com qualquer medida que identifique, t\u00e1cita ou explicitamente, a situa\u00e7\u00e3o ilegal de alguns migrantes com a criminalidade<\/strong>. Ao mesmo tempo, deve ser reconhecido o direito de uma na\u00e7\u00e3o se defender e manter as suas comunidades seguras daqueles que cometeram crimes violentos ou graves enquanto estavam no pa\u00eds ou antes de chegarem. Posto isto, o ato de deportar pessoas que, em muitos casos, abandonaram as suas terras por motivos de extrema pobreza, inseguran\u00e7a, explora\u00e7\u00e3o, persegui\u00e7\u00e3o ou grave deteriora\u00e7\u00e3o ambiental, fere a dignidade de muitos homens e mulheres, de fam\u00edlias inteiras, e coloca-os num estado de especial vulnerabilidade e indefesa.<\/p>\n<p>5. Esta n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o menor: <strong>um verdadeiro Estado de direito verifica-se precisamente no tratamento digno que todas as pessoas merecem, especialmente as mais pobres e marginalizadas<\/strong>. O verdadeiro bem comum \u00e9 promovido quando a sociedade e o governo, com criatividade e estrito respeito pelos direitos de todos \u2014 como j\u00e1 afirmei em in\u00fameras ocasi\u00f5es \u2014 acolhem, protegem, promovem e integram os mais fr\u00e1geis, desprotegidos e vulner\u00e1veis. Isto n\u00e3o impede o desenvolvimento de uma pol\u00edtica que regule a migra\u00e7\u00e3o ordenada e legal. Contudo, a referida \u201cmatura\u00e7\u00e3o\u201d n\u00e3o pode ser constru\u00edda atrav\u00e9s do privil\u00e9gio de uns e do sacrif\u00edcio de outros. O que \u00e9 constru\u00eddo com base na for\u00e7a, e n\u00e3o com base na verdade sobre a igual dignidade de todo o ser humano, come\u00e7a mal e acabar\u00e1 mal.<\/p>\n<p>6. N\u00f3s, crist\u00e3os, sabemos muito bem que s\u00f3 afirmando a dignidade infinita de todos podemos atingir a maturidade da nossa pr\u00f3pria identidade como pessoas e como comunidades. <strong>O amor crist\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma expans\u00e3o conc\u00eantrica de interesses que se estendem gradualmente a outras pessoas e grupos.<\/strong> Por outras palavras: a pessoa humana n\u00e3o \u00e9 um mero indiv\u00edduo, relativamente expansivo, com alguns sentimentos filantr\u00f3picos! A pessoa humana \u00e9 um sujeito digno que, atrav\u00e9s da rela\u00e7\u00e3o constitutiva com todos, sobretudo com os mais pobres, pode amadurecer gradualmente na sua identidade e voca\u00e7\u00e3o. O verdadeiro <em>ordo amoris<\/em> que deve ser promovido \u00e9 aquele que descobrimos meditando constantemente na par\u00e1bola do \u00abbom samaritano\u00bb (cf. Lc 10, 25-37), isto \u00e9, meditando no amor que constr\u00f3i uma fraternidade aberta a todos, sem exce\u00e7\u00e3o. [3]<\/p>\n<p>7. Preocupar-se com a identidade pessoal, comunit\u00e1ria ou nacional, para al\u00e9m destas considera\u00e7\u00f5es, introduz facilmente um crit\u00e9rio ideol\u00f3gico que distorce a vida social e imp\u00f5e a vontade do mais forte como crit\u00e9rio de verdade.<\/p>\n<p>8. Reconhe\u00e7o os vossos valiosos esfor\u00e7os, queridos bispos dos Estados Unidos, ao trabalharem em estreita colabora\u00e7\u00e3o com os migrantes e refugiados, anunciando Jesus Cristo e promovendo os direitos humanos fundamentais. Deus recompensar\u00e1 abundantemente tudo o que fizer para proteger e defender aqueles que s\u00e3o considerados menos valiosos, menos importantes ou menos humanos!<\/p>\n<p>9. Exorto todos os fi\u00e9is da Igreja Cat\u00f3lica e todos os homens e mulheres de boa vontade <strong>a n\u00e3o cederem a narrativas que discriminam e causam sofrimento desnecess\u00e1rio aos nossos irm\u00e3os e irm\u00e3s migrantes e refugiados<\/strong>. Com caridade e clareza, todos somos chamados a viver em solidariedade e fraternidade, a construir pontes que nos aproximem cada vez mais, a evitar muros de ignom\u00ednia e a aprender a dar a nossa vida como Jesus Cristo ofereceu a sua, pela salva\u00e7\u00e3o de todos.<\/p>\n<p>10. Pe\u00e7amos \u00e0 Sant\u00edssima Virgem Maria de Guadalupe que proteja as pessoas e as fam\u00edlias que vivem com medo ou dor devido \u00e0 migra\u00e7\u00e3o e\/ou deporta\u00e7\u00e3o. Que a \u201cVirgem negra\u201d, que soube reconciliar os povos quando estavam em desacordo, nos conceda a todos o reencontro como irm\u00e3os, no seu abra\u00e7o, e assim dar um passo em frente na constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade mais fraterna, inclusiva e respeitadora da dignidade de todos.<\/p>\n<p>Fraternalmente,<\/p>\n<p>Francisco<\/p>\n<p>Imagem:\u00a0Foto de <a href=\"https:\/\/unsplash.com\/pt-br\/@barbarazandoval?utm_content=creditCopyText&amp;utm_medium=referral&amp;utm_source=unsplash\">Barbara Zandoval<\/a> na <a href=\"https:\/\/unsplash.com\/pt-br\/fotografias\/ford-mustang-preto-e-branco-na-estrada-durante-o-dia-Dn2LtEeBa9U?utm_content=creditCopyText&amp;utm_medium=referral&amp;utm_source=unsplash\">Unsplash<\/a><\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o EDUCRIS a partir do <a href=\"Foto%20de%20&lt;a%20href=\" target=\"_blank\">original <\/a>em ingl\u00eas<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em carta aberta, aos Bispos dos Estados Unidos da Am\u00e9rica, 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