{"id":3131566626,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/326-vaticano\/11520-papa-francisco-a-teologia-e-servico-a-fe-viva-da-igreja"},"modified":"2025-11-07T16:34:43","modified_gmt":"2025-11-07T16:34:43","slug":"papa-francisco-a-teologia-e-servico-a-fe-viva-da-igreja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/papa-francisco-a-teologia-e-servico-a-fe-viva-da-igreja\/","title":{"rendered":"Papa Francisco: \u00abA Teologia \u00e9 servi\u00e7o \u00e0 f\u00e9 viva da Igreja\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/papa_clementina_190502095526.jpeg\" \/><\/p>\n<p><p><em>Papa encontrou-se com os formandos do semin\u00e1rio arquidiocesano de Mil\u00e3o, no 150\u00ba anivers\u00e1rio da revista teol\u00f3gica \u00abLa Scuola Catolica\u00bb [A escola Cat\u00f3lica], e desafiou \u00e0 reflex\u00e3o sobre o sentido da teologia, criticando os que promovem serm\u00f5es, \u201ccompostos de moralismos\u201d, e incapazes de \u201cfalar de Deus e responder \u00e0s quest\u00f5es de sentido\u201d<\/em><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Leia, na \u00edntegra, o discurso do Santo Padre<\/p>\n<p>Queridos irm\u00e3os e irm\u00e3s, bom dia e bem-vindos!<\/p>\n<p>Dou-vos as boas-vindas por ocasi\u00e3o do 150\u00ba anivers\u00e1rio da revista \u2018La Scuola Cattolica\u2019, express\u00e3o do Semin\u00e1rio Arquidiocesano de Mil\u00e3o. Sa\u00fado a todos, superiores e formadores e, por meio v\u00f3s, tamb\u00e9m os alunos e funcion\u00e1rios do semin\u00e1rio, assim como os editores e colaboradores da revista. Agrade\u00e7o ao reitor as palavras que me dirigiu.<\/p>\n<p>Este anivers\u00e1rio convida a deixarmo-nos interrogar sobre a tarefa a que \u00e9 chamada hoje uma escola de teologia e, em particular, sobre o papel de uma revista como a vossa. Gosto de imaginar que esta revista \u00e9 um pouco como uma vitrine, onde um artes\u00e3o exp\u00f5e os seus trabalhos e onde a sua criatividade pode ser admirada. O que amadureceu nos laborat\u00f3rios das salas de aula acad\u00e9micas, no paciente exerc\u00edcio de pesquisa e reflex\u00e3o, compara\u00e7\u00e3o e di\u00e1logo, merece ser compartilhado e tornado acess\u00edvel a outros. \u00c0 luz desta premissa, gostaria de dizer tr\u00eas coisas que acredito serem importantes.<\/p>\n<p>1. A teologia \u00e9 servi\u00e7o \u00e0 f\u00e9 viva da Igreja. Muitos pensam que a \u00fanica utilidade das ci\u00eancias teol\u00f3gicas diz respeito \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de futuros sacerdotes, religiosos e religiosas e, se houver, de agentes pastorais e professores de religi\u00e3o. Talvez na comunidade eclesial n\u00e3o se espere muito da teologia e das ci\u00eancias eclesi\u00e1sticas; \u00e0s vezes parece que mesmo os l\u00edderes, ministros e agentes pastorais n\u00e3o consideram necess\u00e1rio aquele exerc\u00edcio vivo da intelig\u00eancia crente, que \u00e9 antes de mais um servi\u00e7o precioso \u00e0 f\u00e9 viva da Igreja.<\/p>\n<p>A comunidade, de facto, precisa do trabalho de quem tenta interpretar a f\u00e9, traduzi-la e retraduzi-la, torn\u00e1-la compreens\u00edvel, exp\u00f4-la em novas palavras: um trabalho que deve ser feito sempre de novo, a cada gera\u00e7\u00e3o. A Igreja encoraja e apoia este compromisso, o esfor\u00e7o de redefinir o conte\u00fado da f\u00e9 em cada \u00e9poca, no dinamismo da tradi\u00e7\u00e3o. E \u00e9 por isso que a linguagem teol\u00f3gica deve estar sempre viva, din\u00e2mica, n\u00e3o pode deixar de evoluir e deve preocupar-se em se fazer entender. \u00c0s vezes, os serm\u00f5es ou catequeses que ouvimos s\u00e3o em grande parte compostos de moralismos, n\u00e3o suficientemente &#8220;teologais&#8221;, isto \u00e9, n\u00e3o s\u00e3o capazes de nos falar de Deus e de responder \u00e0s quest\u00f5es de sentido que acompanham a vida das pessoas, e que muitas vezes n\u00e3o encontra a coragem para os formular abertamente.<\/p>\n<p>De facto, uma das maiores doen\u00e7as do nosso tempo \u00e9 a perda de sentido, e a teologia, hoje mais do que nunca, tem a grande responsabilidade de estimular e orientar a pesquisa, de iluminar o caminho. Perguntemo-nos sempre como \u00e9 poss\u00edvel comunicar hoje as verdades da f\u00e9, tendo em conta as mudan\u00e7as lingu\u00edsticas, sociais, culturais, utilizando com compet\u00eancia os meios de comunica\u00e7\u00e3o, sem nunca diluir, enfraquecer ou &#8220;virtualizar&#8221; os conte\u00fados a transmitir. Quando falamos ou escrevemos, tenhamos sempre em mente o v\u00ednculo entre f\u00e9 e vida, tendo o cuidado de n\u00e3o cair na autorreferencialidade. Em particular, v\u00f3s, formadores e mestres, no vosso servi\u00e7o \u00e0 verdade, sois chamados a conservar e comunicar a alegria da f\u00e9 no Senhor Jesus, e tamb\u00e9m uma s\u00e3 inquieta\u00e7\u00e3o, aquele fr\u00e9mito do cora\u00e7\u00e3o diante do mist\u00e9rio de Deus. E saberemos acompanhar outros nesta procura quanto mais vivamos n\u00f3s mesmos esta alegria e esta inquietude. Ou seja, quanto mais somos &#8220;disc\u00edpulos&#8221;.<\/p>\n<p>2. Uma teologia capaz de formar especialistas em humanidade e proximidade. A renova\u00e7\u00e3o e o futuro das voca\u00e7\u00f5es s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel se houver sacerdotes, di\u00e1conos, consagrados e leigos bem formados. Cada voca\u00e7\u00e3o particular nasce, cresce e desenvolve-se no cora\u00e7\u00e3o da Igreja, e os &#8220;chamados&#8221; n\u00e3o s\u00e3o cogumelos que brotam de repente. As m\u00e3os do Senhor, que modelam estes &#8220;vasos de barro&#8221;, trabalham com o cuidado paciente dos formadores e acompanhantes; a eles \u00e9 confiado o servi\u00e7o delicado, experiente e competente de cuidar do nascimento, acompanhamento e discernimento das voca\u00e7\u00f5es, num processo que exige muita docilidade e confian\u00e7a.<\/p>\n<p>Cada pessoa \u00e9 um imenso mist\u00e9rio e traz consigo a sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria familiar, pessoal, humana, espiritual. Sexualidade, afetividade e relacionamento s\u00e3o dimens\u00f5es da pessoa a sere consideradas e compreendidas tanto pela Igreja quanto pela ci\u00eancia, tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o aos desafios e mudan\u00e7as socioculturais. Uma atitude aberta e um bom testemunho permitem ao educador &#8220;encontrar&#8221; toda a personalidade do que \u00e9 &#8220;chamado&#8221;, envolvendo a sua intelig\u00eancia, sentimentos, cora\u00e7\u00f5es, sonhos e aspira\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Quando se discerne se uma pessoa pode ou n\u00e3o empreender um processo vocacional, \u00e9 necess\u00e1rio perscrut\u00e1-la e avali\u00e1-la de forma integral: considerar o seu modo de viver os afetos, as rela\u00e7\u00f5es, os espa\u00e7os, os pap\u00e9is, as responsabilidades, bem como as suas fragilidades, medos e desequil\u00edbrios. Todo o processo deve ativar processos destinados a formar sacerdotes e consagrados maduros, especialistas em humanidade e proximidade, e n\u00e3o funcion\u00e1rios do sagrado. Superiores e formadores de semin\u00e1rios, acompanhantes e formadores s\u00e3o chamados a crescer quotidianamente na plenitude de Cristo (cf. EF 4,13), a fim de que atrav\u00e9s do testemunho de cada um, se manifeste a caridade de Cristo e a mesma solicitude da Igreja por todos, especialmente pelos \u00faltimos e exclu\u00eddos.<\/p>\n<p>Um bom formador exprime o seu servi\u00e7o numa atitude que podemos chamar de &#8220;diaconia da verdade&#8221;, porque est\u00e1 em jogo a exist\u00eancia concreta de pessoas, que muitas vezes vivem sem muitas certezas, sem orienta\u00e7\u00f5es partilhadas, sob o condicionamento pulsante de informa\u00e7\u00f5es, not\u00edcias muitas vezes contradit\u00f3rias e mensagens, que modificam a perce\u00e7\u00e3o da realidade, orientando para o individualismo e a indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Os seminaristas e os jovens em forma\u00e7\u00e3o devem saber aprender mais com a sua vida do que com as vossas palavras; poder aprender a docilidade com a vossa obedi\u00eancia, a dilig\u00eancia com a vossa dedica\u00e7\u00e3o, a generosidade com os pobres com a vossa sobriedade e disponibilidade, a paternidade com o vosso afeto casto e n\u00e3o possessivo. Somos consagrados a servir o Povo de Deus, a cuidar das feridas de todos, come\u00e7ando pelos mais pobres. A idoneidade para o minist\u00e9rio est\u00e1 ligada \u00e0 disponibilidade, alegre e gratuita, para com os outros. O mundo precisa de sacerdotes que saibam comunicar a bondade do Senhor a quem experimentou o pecado e o fracasso, de sacerdotes especialistas em humanidade, de pastores dispostos a partilhar as alegrias e os trabalhos dos irm\u00e3os, de homens que saibam ouvir o clamor de quem sofre (cf. Discurso \u00e0 Comunidade do Pontif\u00edcio Semin\u00e1rio Regional &#8220;Pio XI&#8221;, 10 de junho de 2021).<\/p>\n<p>3. A teologia ao servi\u00e7o da evangeliza\u00e7\u00e3o. Queridos irm\u00e3os, no centro do nosso servi\u00e7o eclesial est\u00e1 a evangeliza\u00e7\u00e3o, que nunca \u00e9 proselitismo, mas atra\u00e7\u00e3o a Cristo, favorecendo o encontro com Aquele que muda a vossa vida, que vos faz feliz e vos faz, todos os dias, uma nova criatura e um sinal vis\u00edvel do seu amor. Todos os homens e mulheres t\u00eam o direito de receber o Evangelho e os crist\u00e3os t\u00eam o dever de anunci\u00e1-lo sem excluir ningu\u00e9m. Todo o Povo de Deus, peregrino e evangelizador, anuncia o Evangelho porque, sobretudo, \u00e9 um povo em caminho para Deus (cf. Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica Evangelii gaudium, 14; 111). E nesta viagem n\u00e3o pode deixar de dialogar com o mundo, com as culturas e as religi\u00f5es. O di\u00e1logo \u00e9 uma forma de acolhimento e a teologia que evangeliza \u00e9 uma teologia que se nutre do di\u00e1logo e do acolhimento. O di\u00e1logo e a mem\u00f3ria viva do testemunho de amor e paz de Jesus Cristo s\u00e3o os caminhos a seguir para construir juntos um futuro de justi\u00e7a, fraternidade e paz para toda a fam\u00edlia humana.<\/p>\n<p>Recordemo-nos sempre que \u00e9 o Esp\u00edrito Santo que nos introduz no Mist\u00e9rio e impulsiona a miss\u00e3o da Igreja. \u00c9 por isso que o &#8220;h\u00e1bito&#8221; do te\u00f3logo \u00e9 o de um homem espiritual, humilde de cora\u00e7\u00e3o, aberto \u00e0s infinitas novidades do Esp\u00edrito e pr\u00f3ximo das feridas da humanidade pobre, abandonada e sofredora. Sem humildade o Esp\u00edrito foge, sem humildade n\u00e3o h\u00e1 compaix\u00e3o, e uma teologia sem compaix\u00e3o e miseric\u00f3rdia reduz-se a um discurso est\u00e9ril sobre Deus, talvez belo, mas vazio, sem alma, incapaz de servir a sua vontade de encarnar, de estar presente, para falar ao cora\u00e7\u00e3o. Porque a plenitude da verdade \u2013 \u00e0 qual o Esp\u00edrito conduz \u2013 n\u00e3o \u00e9 tal se n\u00e3o for encarnada.<\/p>\n<p>Com efeito, ensinar e estudar teologia significa viver numa fronteira, na qual o Evangelho vai ao encontro das necessidades reais do povo. At\u00e9 os bons te\u00f3logos, como os bons pastores, cheiram o povo e as ruas e, com a sua reflex\u00e3o, derramando azeite e vinho nas feridas de muitos. Nem a Igreja nem o mundo precisam de uma teologia \u201cde escrit\u00f3rio\u201d, mas de uma reflex\u00e3o capaz de acompanhar os processos culturais e sociais, em particular as transi\u00e7\u00f5es dif\u00edceis, assumindo tamb\u00e9m a responsabilidade dos conflitos. Devemos ter cuidado com uma teologia que se esgota na disputa acad\u00e9mica ou que olha a humanidade de um castelo de vidro (cf. Carta ao Gr\u00e3o-Chanceler da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica Argentina, 3 de mar\u00e7o de 2015).<\/p>\n<p>O Evangelho n\u00e3o se esquece de nos lembrar que o sal pode perder o sabor. E se vivemos mais ou menos pacificamente no meio do mundo, sem uma inquieta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel, isso pode significar que perdemos a coragem (cf. H. de Lubac, Meditation on the Church: Opera Omnia, vol. 8, Milan 1993 , 166). \u00c9 por isso que precisamos de uma teologia viva, que d\u00ea &#8220;sabor&#8221; e &#8220;saber&#8221;, que seja a base de um di\u00e1logo eclesial s\u00e9rio, de um discernimento sinodal, a ser organizado e praticado nas comunidades locais, para um reavivamento da f\u00e9 nas transforma\u00e7\u00f5es dos eventos culturais da atualidade. Uma teologia serva da vida boa, seja a via principal do vosso empenho eclesial, digna de ser exposta entre as coisas belas da vitrine da vossa revista. Uma teologia capaz de dialogar com o mundo, com a cultura, atenta aos problemas do tempo e fiel \u00e0 miss\u00e3o evangelizadora da Igreja e tamb\u00e9m fiel \u00e0s suas ra\u00edzes no semin\u00e1rio de Mil\u00e3o, chamado a ser lugar de vida, discernimento e forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Queridos irm\u00e3os, espero que esta reflex\u00e3o vos ajude a cultivar a vossa voca\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o \u00e0 f\u00e9, \u00e0 Igreja, ao mundo. Obrigado e desejo-vos tudo de bom no vosso trabalho. Aben\u00e7oo-vos cordialmente e a toda a comunidade; e pe\u00e7o-vos, por favor, que rezeis por mim.<\/p>\n<p>Imagem: Vatican Media<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o Educris a partir do<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/it\/speeches\/2022\/june\/documents\/20220617-rivista-scuolacattolica.html\" target=\"_blank\"> original em italiano<\/a>|21.06.2022<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Papa encontrou-se com os formandos do semin\u00e1rio arquidiocesano de Mil\u00e3o, no 150\u00ba anivers\u00e1rio da revista teol\u00f3gica \u00abLa Scuola Catolica\u00bb [A 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