{"id":3240040836,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/11980-domingo-vii-do-tempo-comum-oh-sublime-ciencia-das-alturas"},"modified":"2025-11-07T16:33:54","modified_gmt":"2025-11-07T16:33:54","slug":"domingo-vii-do-tempo-comum-oh-sublime-ciencia-das-alturas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/domingo-vii-do-tempo-comum-oh-sublime-ciencia-das-alturas\/","title":{"rendered":"Domingo VII do Tempo Comum: \u00abOh Sublime Ci\u00eancia das Alturas\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031.jpg\" \/><\/p>\n<p><p data-adtags-visited=\"true\">Lv 19,1-2.17-18; Sl 103; 1 Cor 3,16-23; Mt 5,38-48<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">1. Neste Domingo VII do Tempo Comum, continuamos a escutar nas alturas, em alta-frequ\u00eancia e alta-fidelidade, o que n\u00e3o se pode escutar c\u00e1 por baixo, em onda m\u00e9dia, no meio do barulho e do entulho. E soam hoje, aos nossos ouvidos at\u00f3nitos, no nosso cora\u00e7\u00e3o at\u00f3nito, as duas \u00faltimas das \u00abseis ant\u00edteses\u00bb proferidas por Jesus no SERM\u00c3O da MONTANHA, e referentes \u00e0 lei de tali\u00e3o e ao amor ao pr\u00f3ximo (Mateus 5,38-48).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">2. Diz a conhecida \u00abLei de tali\u00e3o\u00bb, do latim\u00a0<em>talio<\/em>,\u00a0<em>talis<\/em>\u00a0[tal, igual] ou\u00a0<em>ius talionis<\/em>\u00a0[lei do corte ou contus\u00e3o], assim formulada no Livro do \u00caxodo: \u00abvida por vida, olho por olho, dente por dente, m\u00e3o por m\u00e3o, p\u00e9 por p\u00e9, queimadura por queimadura, ferida por ferida, contus\u00e3o por contus\u00e3o\u00bb (\u00caxodo 21,24-25). Formula\u00e7\u00e3o semelhante desta Lei j\u00e1 se encontra, de resto, nos par\u00e1grafos 196 e 197 do famoso c\u00f3digo de Hammurabi, que remonta mais ou menos a 1700 anos antes de Cristo. E, ao contr\u00e1rio do que se diz habitualmente, esta Lei n\u00e3o representa a barbaridade, mas um avan\u00e7o civilizacional, pois assenta, n\u00e3o na multiplica\u00e7\u00e3o desenfreada da vingan\u00e7a e da viol\u00eancia, mas na sua conten\u00e7\u00e3o, pois condena o agressor a receber apenas a san\u00e7\u00e3o igual \u00e0quela que ele provocou \u00e0 v\u00edtima.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">3. Bem diferente \u00e9 a chamada Lei da vingan\u00e7a desenfreada, traduzida, por exemplo, no famoso \u00abC\u00e2ntico da espada\u00bb de Lamec, que se expressa assim no Livro do G\u00e9nesis: \u00abEu matei um homem por uma ferida, uma crian\u00e7a por uma contus\u00e3o. Sim, Caim \u00e9 vingado sete vezes, mas Lamec setenta e sete vezes!\u00bb (G\u00e9nesis 4,23-24). O que se v\u00ea aqui \u00e9 que Lamec respira uma vingan\u00e7a irracional, um \u00f3dio irracional. O que ouvimos nas alturas da Montanha \u00e9 que Jesus respira e ensina um amor irracional, at\u00e9 ao paroxismo, at\u00e9 ao absurdo e \u00e0 estupidez (!), dissolvendo completamente os \u00f3dios, vingan\u00e7as e viol\u00eancias do \u00abC\u00e2ntico de Lamec\u00bb, mas ultrapassando tamb\u00e9m a fria simetria da \u00abLei de tali\u00e3o\u00bb. \u00abOuvistes o que foi dito: \u201cOlho por olho, dente por dente\u201d. Por\u00e9m, eu digo-vos: \u201cN\u00e3o resistais (<em>anth\u00edst\u00eami<\/em>\u00a0= levantar-se contra) ao homem mau. E exemplifica: se algu\u00e9m te bater na face direita, oferece-lhe tamb\u00e9m a esquerda; se algu\u00e9m te levar ao tribunal para ficar com a tua t\u00fanica (<em>chit\u00f4n<\/em>), oferece-lhe tamb\u00e9m o manto (<em>him\u00e1tion<\/em>); se algu\u00e9m te for\u00e7ar a acompanh\u00e1-lo durante uma milha, acompanha-o durante duas!\u201d\u00bb (Mateus 5,38-41). A milha (<em>m\u00edlion<\/em>) romana media mil passos, o equivalente a 1478,5 metros.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">4. Pura assimetria. Levantar-se contra o homem mau, ou fazer-lhe frente, implica aumentar a viol\u00eancia e o mal. Portanto, ao mal n\u00e3o se responde com o mal, \u00abn\u00e3o se paga (ou retribui) o mal com o mal\u00bb (Romanos 12,17; cf. 1 Tessalonicenses 5,15); \u00abn\u00e3o te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem\u00bb (Romanos 12,21), sentencia e recomenda S. Paulo, que sabe bem que fazer o mal seja a quem for, inclusive a quem acaba de nos fazer mal, significa sempre perder, ser vencido pelo mal, e n\u00e3o ser vencedor do mal. Ser vencido pelo mal significa que o mal manda em mim, me domina, em vez de ser eu a dominar o mal. Para fazer ver melhor esta realidade e para a fazer entrar pelos nossos olhos dentro, Jesus opera uma esp\u00e9cie de redu\u00e7\u00e3o ao absurdo, quando refere que a quem nos bater numa face se deve oferecer tamb\u00e9m a outra, que a quem nos quiser levar a t\u00fanica devemos oferecer-lhe tamb\u00e9m o manto, e a quem nos obrigar a fazer um servi\u00e7o de transporte por uma certa dist\u00e2ncia, devemos at\u00e9 fazer o dobro. Na cultura do M\u00e9dio Oriente Antigo, em que a B\u00edblia se insere, esbofetear algu\u00e9m constitu\u00eda uma afronta grave \u00e0 pr\u00f3pria dignidade da pessoa (cf. Job 16,10; Lamenta\u00e7\u00f5es 3,30). Alguns profetas, como Miqueias e o Servo do Senhor, de Isa\u00edas, sofreram este tipo de insulto (cf. 1 Reis 22,24; 2 Cr\u00f3nicas 18,23; Isa\u00edas 50,6). E Jesus tamb\u00e9m (cf. Mateus 26,67). Face a este tipo de insulto, Jesus prop\u00f5e, n\u00e3o a retalia\u00e7\u00e3o, mas o perd\u00e3o excessivo! No mesmo mundo do M\u00e9dio Oriente Antigo, as pessoas usavam habitualmente um traje exterior, que \u00e9 uma esp\u00e9cie de manto, que servia tamb\u00e9m de resguardo ou cobertor durante a noite, e uma pe\u00e7a de vestu\u00e1rio por baixo, que \u00e9 a t\u00fanica. Ora, se a quem nos quiser tirar a t\u00fanica, lhe dermos tamb\u00e9m o manto, ficamos nus e expostos ao frio e \u00e0 vergonha. Quanto ao servi\u00e7o de transporte, as pessoas eram muitas vezes requisitadas pelas for\u00e7as de ocupa\u00e7\u00e3o, a fazer estes servi\u00e7os: veja-se o caso de Sim\u00e3o de Cirene (Mateus 27,32).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">5. E Jesus continua em alta sintonia, alt\u00edssima alegria, alt\u00edssimo amor, estendendo o amor para al\u00e9m dos c\u00edrculos restritos das nossas simpatias, at\u00e9 aos nossos pr\u00f3prios inimigos! Amar os inimigos, em vez de os odiar (cf. Mateus 5,43-44), \u00e9 mais uma imensa provoca\u00e7\u00e3o. O \u00f3dio aos inimigos n\u00e3o aparece em nenhum mandamento do Antigo Testamento, mas \u00e9 expressamente incutido (cf. Salmo 109,6-20). Ora, Jesus manda amar os inimigos, e, em vez de se invocarem maldi\u00e7\u00f5es sobre eles (ver outra vez o Salmo 109,6-20), Jesus manda rezar por eles. Amor assim\u00e9trico e radical, portanto, que Jesus ensina agora nas alturas, e que praticar\u00e1 e ensinar\u00e1 at\u00e9 \u00e0 Cruz! Ele leva at\u00e9 ao alto do Monte das Bem-Aventuran\u00e7as e at\u00e9 ao alto do Calv\u00e1rio os nossos \u00f3dios desenfreados, a nossa fria justi\u00e7a distributiva, a nossa cinzenta indiferen\u00e7a, e restitui-nos em troca o perd\u00e3o excessivo e o amor transbordante.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">6. Ao tempo de Jesus, o panorama do juda\u00edsmo palestinense era dominado por duas escolas: a escola conservadora e rigorista de Shammai e a escola liberal de Hillel. Conta-se que, um dia, um homem se ter\u00e1 apresentado na escola de Shammai, e fez ao mestre um estranho pedido: \u00abquero que\u00bb, diz o homem, \u00abenquanto eu me mantiver apenas com um p\u00e9 no ch\u00e3o, tu me expliques toda a Lei\u00bb. Diz-se que Shammai se limitou a pegar na sua vara de mestre e a correr o homem pela porta fora, pois era \u00f3bvio que o homem fazia um pedido imposs\u00edvel de cumprir, tal era a vastid\u00e3o da Lei, e o pouco tempo concedido para a sua explica\u00e7\u00e3o. Mas o homem n\u00e3o desanimou e dirigiu-se \u00e0 escola de Hillel, a quem formulou o mesmo pedido. E Hillel ter\u00e1 respondido de pronto: \u00abNada mais f\u00e1cil: \u201cN\u00e3o fa\u00e7as aos outros o que n\u00e3o queres que te fa\u00e7am a ti!\u201d\u00bb. A esta senten\u00e7a de Hillel, na sua formula\u00e7\u00e3o negativa, deu-se o nome de \u00abregra de ouro\u00bb. Em boa verdade, ela j\u00e1 aparece no Livro de Tobias 4,15. \u00c9, todavia, f\u00e1cil de verificar, que esta senten\u00e7a \u00e9 de f\u00e1cil cumprimento. Dado que o seu teor \u00e9 negativo, para a cumprir, basta a algu\u00e9m cruzar os bra\u00e7os e nada fazer. Procedendo assim, nada far\u00e1 de inconveniente a ningu\u00e9m, cumprindo assim escrupulosamente a senten\u00e7a formulada.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">7. Tentando talvez evitar a ina\u00e7\u00e3o acoitada na formula\u00e7\u00e3o negativa anterior, os Evangelhos apresentam desta m\u00e1xima uma formula\u00e7\u00e3o positiva: \u00abFaz aos outros o que queres que te fa\u00e7am ti!\u00bb (Mateus 7,12; Lucas 6,31). Levando a s\u00e9rio esta formula\u00e7\u00e3o, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 suficiente jogar \u00e0 defesa e nada fazer, mas \u00e9, de facto, requerido fazer alguma coisa. Seja como for, as duas formula\u00e7\u00f5es apresentadas, quer a negativa quer a positiva, padecem do mesmo v\u00edcio: sou eu o centro, \u00e9 \u00e0 minha volta que tudo roda, e o que eu fa\u00e7o ou deixo de fazer \u00e9 com o objetivo claro de que me seja retribu\u00eddo outro tanto! O tom positivo da referida \u00abregra de ouro\u00bb recebe ainda outra bem conhecida formula\u00e7\u00e3o: \u00abAma o teu pr\u00f3ximo como a ti mesmo!\u00bb, que atravessa a inteira Escritura: Lev\u00edtico 19,18; Mateus 22,39; Romanos 13,9; G\u00e1latas 5,14; Tiago 2,8. Mas tamb\u00e9m esta formula\u00e7\u00e3o \u00e9 perigosa: primeiro, porque eu continuo o ser o centro, sendo eu a medida do amor devido aos outros; segundo, porque, se algu\u00e9m n\u00e3o se ama a si mesmo (e s\u00e3o, infelizmente, cada vez mais os casos!), como poder\u00e1 cumprir devidamente esta m\u00e1xima?<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">8. \u00c9 aqui que cai, como uma l\u00e2mina, a for\u00e7a do Evangelho que sai dos l\u00e1bios de Jesus: \u00abAmai-vos uns aos outros como Eu vos amei!\u00bb (Jo\u00e3o 13,34; 15,12). Aqui, a medida n\u00e3o sou eu. Aqui, a medida \u00e9 Jesus, o das alturas, o do alto das montanhas. Aqui, a medida \u00e9 sem medida! Aqui, o amor n\u00e3o \u00e9 interesseiro. Aqui, o amor \u00e9 puro, radical, incondicional, assim\u00e9trico, sem retorno. Aqui, o amor \u00e9 at\u00e9 ao fim! Oh sublime ci\u00eancia das alturas!<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">9. O texto do Antigo Testamento que faz hoje companhia ao Evangelho \u00e9 retirado do Livro do Lev\u00edtico 19,1-2.17-18, e nele fica desenhado o caminho e a fonte da santidade: \u00abSede santos, porque Eu, o Senhor vosso Deus, sou santo\u00bb (Lev\u00edtico 19,2); mas \u00e9 tamb\u00e9m tirado a limpo que o nosso caminho, isto \u00e9, o nosso comportamento para com os nossos irm\u00e3os, n\u00e3o pode passar nunca pelo \u00f3dio nem pela vingan\u00e7a, mas apenas pelo amor (Lev\u00edtico 19,18), ainda que numa formula\u00e7\u00e3o muito sim\u00e9trica: \u00abAma o teu pr\u00f3ximo como a ti mesmo\u00bb, a \u00fanica vez, de resto, que encontramos esta formula\u00e7\u00e3o no AT.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">10. O Ap\u00f3stolo Paulo continua a interpelar, com a for\u00e7a do Evangelho, a comunidade crist\u00e3 de Corinto e as nossas comunidades crist\u00e3s de hoje (1 Cor\u00edntios 3,16-23). Sim, diz Paulo com extrema precis\u00e3o: \u00abO Esp\u00edrito Santo habita em v\u00f3s\u00bb (1 Cor\u00edntios 3,16). E acrescenta ainda: \u00abTudo \u00e9 vosso, mas v\u00f3s sois de Cristo, e Cristo \u00e9 de Deus\u00bb (1 Cor\u00edntios 3,22-23). Portanto, tudo e todos caminhamos para a casa do Pai; entretanto, \u00e9 Cristo o \u00fanico Senhor, o \u00fanico caminho e o \u00fanico companheiro da nossa vida.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">11. O Salmo 103 \u00e9 uma das joias do Antigo Testamento e constitui um grande canto ao amor de Deus, uma esp\u00e9cie de prel\u00fadio ao \u00abDeus \u00e9 amor\u00bb (1 Jo\u00e3o 4,8). Desenrola-se em dois movimentos. O primeiro (v. 1-9) trata o amor e o perd\u00e3o de Deus com sucessivos partic\u00edpios h\u00ednicos, que mostram um Deus que perdoa, cura, redime, coroa de amor e miseric\u00f3rdia, sacia de bem, e uma s\u00e9rie de nomes (justi\u00e7a, d\u00e1 a conhecer, obras, misericordioso, gracioso). O segundo movimento (v. 10-18) p\u00f5e lado a lado o amor permanente de Deus e a nossa humana fraqueza. A linha vertical (c\u00e9u-terra) serve para mostrar a imensid\u00e3o do amor de Deus (v. 11), escrevendo-se na linha horizontal (oriente-ocidente) a grandeza sem medida do seu perd\u00e3o (v. 12). O bel\u00edssimo v. 13 passa a imagem inultrapass\u00e1vel de Deus como um pai com ventre maternal (<em>rehem<\/em>). A fragilidade humana aparece traduzida nas imagens do p\u00f3 (v. 14) e da erva (v. 15-16), em contraponto com a estabilidade do amor de Deus (v. 17). Sem este amor, sem esta m\u00fasica, ser\u00edamos talvez levados melancolicamente a pensar que \u00e9 o mesmo o destino das folhas outonais e dos homens! Deixemos ecoar em n\u00f3s as belas notas deste grande Salmo 103, que alguns autores j\u00e1 chamaram o\u00a0<em>Te Deum<\/em>\u00a0do Antigo Testamento.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u00a0<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lv 19,1-2.17-18; Sl 103; 1 Cor 3,16-23; Mt 5,38-48 1. 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