{"id":3300274656,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/12392-domingo-xix-do-tempo-comum-eu-sou-nao-tenhais-medo"},"modified":"2025-11-07T16:33:56","modified_gmt":"2025-11-07T16:33:56","slug":"domingo-xix-do-tempo-comum-eu-sou-nao-tenhais-medo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/domingo-xix-do-tempo-comum-eu-sou-nao-tenhais-medo\/","title":{"rendered":"Domingo XIX do Tempo Comum: \u00abEu Sou! N\u00e3o tenhais medo!\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031.jpg\" \/><\/p>\n<p><p data-adtags-visited=\"true\">1 Rs 19,9a.11-13a; Sl 85; Rm 9,1-5; Mt 14,22-33<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">1. A Igreja primitiva considerava a Barca como figura da Igreja. Tertuliano (150-220) parece ter sido o primeiro a expressar esta tem\u00e1tica por escrito (<em>De Baptismo<\/em>, XII, 7). E \u00e9 f\u00e1cil perceber a liga\u00e7\u00e3o: a Barca aparece como um dos lugares em que Jesus est\u00e1 no meio dos seus disc\u00edpulos e a s\u00f3s com eles. De facto, a Barca demarca um espa\u00e7o privilegiado que Jesus partilha unicamente com os seus disc\u00edpulos. Mais ningu\u00e9m entra nesta Barca. No relato de Mateus, apenas por uma vez, e \u00e9 o texto que temos a gra\u00e7a de escutar neste Domingo XIX (Mateus 14,22-33; cf. Marcos 6,45-52; Jo\u00e3o 6,16-21), os disc\u00edpulos sobem sozinhos, sem Jesus, para a Barca e dirigem-se para a outra margem do Mar da Galileia. Jesus n\u00e3o sobe para a Barca com eles, mas \u00e9 Ele que os for\u00e7a a subir para a Barca e a fazer a travessia (v. 22). Enquanto os disc\u00edpulos s\u00e3o for\u00e7ados a embarcar nesta aventura, Jesus despede a multid\u00e3o e sobe ao monte para rezar a s\u00f3s (v. 23). Veio a noite, e a Barca, com os disc\u00edpulos a bordo, j\u00e1 navegava em pleno Mar. Entretanto, as ondas come\u00e7aram a agitar a Barca, pois o vento era contr\u00e1rio (v. 24), e \u00e9 sabido que estas embarca\u00e7\u00f5es eram pouco resistentes. A arqueologia p\u00f4s a descoberto, na costa ocidental do Mar da Galileia, nas proximidades de Magdala, uma Barca de pesca do tempo de Jesus. Media 8 metros de comprimento por 2,5 metros de largura. J\u00e1 se v\u00ea que se trata de uma embarca\u00e7\u00e3o fr\u00e1gil, presa f\u00e1cil das ondas. A Igreja como a Barca, fr\u00e1geis as duas, com Jesus por perto e seguindo as suas ordens.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">2. Importa sublinhar e n\u00e3o perder de vista que Jesus est\u00e1 no monte a rezar. E, no Evangelho de Mateus, o monte, muitas vezes referido neste Evangelho, traz consigo a iniciativa de Jesus e mostra-o a abra\u00e7ar e abrir caminhos novos para a nossa fr\u00e1gil humanidade. \u00c9 assim o deserto e o monte da tenta\u00e7\u00e3o (Mateus 4,8), que prepara o in\u00edcio da prega\u00e7\u00e3o de Jesus, o monte das bem-aventuran\u00e7as (Mateus 5,1), o monte da ora\u00e7\u00e3o (Mateus 14,23), o monte das curas (Mateus 15,29-31), o monte da Transfigura\u00e7\u00e3o (Mateus 17,1.9) e, finalmente, o monte indicado por Jesus na Galileia (Mateus 28,16), monte do reencontro de Jesus com os seus disc\u00edpulos e do envio por todo o mundo e todo o tempo a anunciar o Evangelho.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">3. Portanto, do cimo do monte em que reza ao Pai, Jesus n\u00e3o deixa de velar pelos seus disc\u00edpulos, atarefados a lutar com o escuro da noite, o vento e as ondas. Esta importante cena de contornos pedag\u00f3gicos em que os disc\u00edpulos s\u00e3o, por assim dizer, atirados para a luta por Jesus, serve para fazer compreender aos disc\u00edpulos que v\u00e3o encontrar dificuldades e que v\u00e3o ter de as enfrentar, mas que n\u00e3o v\u00e3o conseguir resolv\u00ea-las sozinhos. Tenhamos sempre presente que esta situa\u00e7\u00e3o foi preparada por Jesus, que for\u00e7ou os seus disc\u00edpulos a subir sozinhos para aquela Barca e a avan\u00e7ar mar adentro para a outra margem. Li\u00e7\u00e3o para os disc\u00edpulos: \u00e9 Jesus que nos envia, n\u00e3o para um mundo c\u00f3modo, feito \u00e0 medida, mas para um mundo repleto de persegui\u00e7\u00f5es e adversidades. E \u00e9 ainda neste contexto que os disc\u00edpulos v\u00e3o fazer a experi\u00eancia da aparente aus\u00eancia de Jesus naquela Barca, e que sozinhos n\u00e3o conseguem superar as provas que t\u00eam pela frente. No meio dos disc\u00edpulos, na mente e no cora\u00e7\u00e3o dos disc\u00edpulos, tem de ressoar sempre aquela palavra de Jesus: \u00absem mim, nada podeis fazer\u00bb (Jo\u00e3o 15,5). Aparente aus\u00eancia. Esta experi\u00eancia serve tamb\u00e9m para Jesus ir preparando os seus disc\u00edpulos para os tempos que se avizinham em que Ele deixar\u00e1 de estar presente fisicamente, mas em que estar\u00e1 presente de modo novo, n\u00e3o vis\u00edvel e sens\u00edvel. Mas estar\u00e1 l\u00e1 sempre com mansid\u00e3o, sem que sequer nos apercebamos da sua presen\u00e7a! N\u00e3o podemos \u00e9 ficar de tal modo atolados nas circunst\u00e2ncias e nos problemas que deixemos de ver Jesus!<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">4. Mas nesta noite, no monte, Jesus reza ao Pai, e n\u00e3o deixa de velar tamb\u00e9m sobre os seus disc\u00edpulos e de vir ao seu encontro nas horas mais dif\u00edceis ou na hora de acordar. Portanto, ei-lo que vem ao encontro deles caminhando sobre o mar (v. 25). Os relatos de Mateus e de Marcos anotam a hora da chegada de Jesus: quarta vig\u00edlia da noite, que o mesmo \u00e9 dizer, entre as tr\u00eas e as seis horas da madrugada, portanto, na parte final da noite. Recordemos que a hora habitual de acordar rondava as seis horas da manh\u00e3. \u00abAndar sobre o mar\u00bb \u00e9 claramente um indicador divino, que a Escritura Santa Antiga reserva s\u00f3 a Deus, sendo Deus Aquele \u00abcuja estrada \u00e9 no meio do mar,\/ e o seu caminho sobre as muitas \u00e1guas\u00bb (Salmo 77,20; cf. Job 9,8; Habacuc 3,15). Ao ver um vulto a caminhar sobre o mar, pensaram aqueles disc\u00edpulos que se tratava de um fantasma (muito em voga na mentalidade popular de ent\u00e3o), e os \u00edndices do medo, j\u00e1 elevados por causa do vento e das ondas, subiram ainda mais face a esta nova amea\u00e7a, e gritaram de pavor (v. 26). \u00c9 ent\u00e3o que Jesus interv\u00e9m, descodificando-se diante deles com uma palavra de revela\u00e7\u00e3o (verbo grego\u00a0<em>lal\u00e9\u00f4<\/em>): \u00abCoragem! Eu sou! N\u00e3o tenhais medo!\u00bb (v. 27). Sobretudo aquele \u00abEu sou\u00bb (<em>eg\u00f4 eimi<\/em>), Nome com que Deus se revela a Mois\u00e9s (\u00caxodo 3,14) e que atravessa a Escritura Santa Antiga. Sob a prote\u00e7\u00e3o de Jesus, n\u00e3o h\u00e1 mais lugar para medos de esp\u00e9cie alguma.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">5. Mateus empresta ainda a este epis\u00f3dio uma tonalidade pr\u00f3pria, pois \u00e9 o \u00fanico dos Evangelistas a inserir o di\u00e1logo de Pedro com Jesus. Tamb\u00e9m Pedro vai caminhar sobre as \u00e1guas, a seu pedido, e seguindo a ordem de Jesus: \u00abVem!\u00bb (v. 28-29). Entenda-se ent\u00e3o: Pedro caminha sobre as \u00e1guas como Jesus, mas n\u00e3o com autoridade pr\u00f3pria. O que Pedro faz assenta na Palavra de Jesus e na F\u00e9 que o liga a Jesus. Importante li\u00e7\u00e3o: Pedro faz o mesmo que faz Jesus enquanto permanecer vinculado a Jesus pela F\u00e9. Esmorecendo a F\u00e9 em Jesus, deixando de fixar o olhar em Jesus e colocando a sua aten\u00e7\u00e3o apenas nas circunst\u00e2ncias envolventes, Pedro torna-se presa f\u00e1cil de outras for\u00e7as e d\u00e1 por si a sucumbir no meio da tempestade. Pedro como n\u00f3s. Mas, sentindo o perigo, Pedro volta-se uma vez mais para Jesus, e grita: \u00abSalva-me, Senhor!\u00bb (v. 30). E sente logo a m\u00e3o de Jesus que o segura, ao mesmo tempo que o repreende: \u00abhomem da\u00a0<em>pequena f\u00e9<\/em>\u00a0(<em>olig\u00f3pistos<\/em>), por que duvidaste?\u00bb (v. 31). N\u00f3s como Pedro. N\u00f3s como Pedro, mas tamb\u00e9m como os outros disc\u00edpulos que viram tudo desde a Barca, e sentem agora o vento amainar (v. 32), e se prostram diante de Jesus, express\u00e3o cultual, e confessam a sua f\u00e9: \u00abVerdadeiramente, Tu \u00e9s Filho de Deus!\u00bb (v. 33).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">6. A outra figura deste Domingo \u00e9 Elias, \u00abo fugitivo\u00bb (1 Reis 19,9-13). \u00abFugitivo\u00bb de si mesmo, de todos e de tudo. Todos o procuram para o matar, o mundo perdeu o seu encanto e o seu sentido, e at\u00e9 Deus n\u00e3o parece ser mais o mesmo. Como esta li\u00e7\u00e3o est\u00e1 cheia de atualidade\u2026 E o certo \u00e9 que este Elias, que surge solto na p\u00e1gina, sem pai nem m\u00e3e, sem livro anagr\u00e1fico, apenas com Deus do seu lado (cf. 1 Reis 17,1-24), continua a ser conduzido e comandado por Deus, que o salva da morte no deserto (cf. 1 Reis 19,5-8), e o liberta das suas pr\u00f3prias amarras, fazendo-o sair [SAI!] para fora do escuro e do medo (cf. 1 Reis 19,11), e abrindo \u00e0 sua frente um caminho novo, tenro e fr\u00e1gil, como o que espera um beb\u00e9 que sai do ventre materno. Sair (<em>yatsa\u2019<\/em>) \u00e9 o verbo do \u00caxodo, mas \u00e9 tamb\u00e9m o verbo do nascimento! Ouve-se, nesta p\u00e1gina imensa por duas vezes: no v. 11, no imperativo: \u00abSai!\u00bb, e no v. 13, no indicativo: \u00abElias saiu\u00bb.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">7. \u00c9 assim que o menino Elias, rec\u00e9m-nascido e rec\u00e9m-libertado, assiste no Sinai \u00e0 sequ\u00eancia teof\u00e2nica antiga: vento forte, terramoto, fogo! Tudo manifesta\u00e7\u00f5es desatualizadas e deformadas de Deus. Outra vez a sequ\u00eancia ret\u00f3rica 3 + 1, a fazer apostar toda a aten\u00e7\u00e3o no 4! E aqui, depois do vento, do terramoto, do fogo, Elias ouve \u00aba voz de um fino sil\u00eancio!\u00bb (1 Reis 19,12b). Entenda-se: a voz de um sil\u00eancio cortante, voz de Deus que arde e opera dentro de n\u00f3s. Colagem de figuras: \u00abA tua Palavra ardia no meu cora\u00e7\u00e3o como um fogo devorador,\/ encerrado dentro dos meus ossos\u00bb, confessa Jeremias 20,9. J\u00e1 Mois\u00e9s tinha descoberto aquela chama viva, que ardia no meio da sar\u00e7a, e que n\u00e3o obedecia \u00e0s leis da combust\u00e3o, n\u00e3o queimava,\/ mas chamava (cf. \u00caxodo 3,2-4). Tamb\u00e9m os dois de Ema\u00fas sentiram o cora\u00e7\u00e3o a arder, devido \u00e0 Palavra e ao Sentido novo que abria caminhos onde caminhos n\u00e3o havia (Lucas 24,32). Elias encontrou essa Palavra nova na \u00abvoz de um fino sil\u00eancio\u00bb (1 Reis 19,12), escrita fina de Deus,\/ com ponta de diamante,\/ no cora\u00e7\u00e3o do homem (cf. Jeremias 17,1; 31,33). E o autor da Carta aos Hebreus compara esse \u00abfino dizer\u00bb ou \u00abescrever\u00bb a uma espada de dois gumes, um bisturi, que opera dentro de n\u00f3s e limpa a esclerose do nosso cora\u00e7\u00e3o (cf. Jo\u00e3o 15,3) e o zelo est\u00e9ril, que rasga o \u00e2mago do homem e lhe deixa soltas as pregas do cora\u00e7\u00e3o (cf. Hebreus 4,12; Apocalipse 1,16). \u00c9 claro que este sil\u00eancio suave n\u00e3o \u00e9 o sil\u00eancio que Elias se preparou para fazer. Elias n\u00e3o se preparou para sil\u00eancio nenhum. Ele partiu para o Sinai \u00e0 espera de se encontrar l\u00e1 com o Deus forte e invenc\u00edvel, Senhor do vento, do terramoto e do fogo, que atrav\u00e9s desses poderosos elementos se expressava! N\u00e3o \u00e9, portanto, o sil\u00eancio que move Elias. N\u00e3o \u00e9 Elias que faz sil\u00eancio! \u00c9 o sil\u00eancio que faz Elias! N\u00e3o sou eu que fa\u00e7o sil\u00eancio! \u00c9 o sil\u00eancio que me faz!<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">8. Na li\u00e7\u00e3o de hoje da Carta aos Romanos, S. Paulo lembra-nos que h\u00e1 um amor maior, que o leva at\u00e9 ao ponto de desejar dar a vida pelos seus irm\u00e3os! (Romanos 9,1-5). V\u00ea-se bem que Paulo atingiu a estatura de Cristo! (cf. Ef\u00e9sios 4,13).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">9. Sim, anda por a\u00ed um amor maior, que \u00e9 o tesouro e a pedra precios\u00edssima de Mateus 13,44-46, que tivemos a gra\u00e7a de escutar no Domingo XVII. Anda por a\u00ed a maravilha, e n\u00f3s continuamos, desfocados pelo medo do vento ou da tempestade, ou \u00e0 procura de maravilhas, e, sem dar por isso, estamos a perder a capacidade de cantar! Cantemos ent\u00e3o, percorrendo as bel\u00edssimas avenidas do Salmo 85, que aqui redesenhamos com as palavras do poeta ingl\u00eas John Milton (1608-1674): \u00abSim, a Fidelidade e a Justi\u00e7a, ent\u00e3o,\/ retornar\u00e3o ao encontro dos homens,\/ envoltas num arco-\u00edris,\/ e, gloriosamente vestida,\/ a Bondade sentar-se-\u00e1 no meio\u2026\/ E o c\u00e9u, como para uma festa,\/ escancarar\u00e1 as portas do seu pal\u00e1cio excelso\u00bb.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">10. Sim, as avenidas s\u00e3o por dentro! \u00c9 dentro que arde o fogo, que fala o sil\u00eancio, que opera o bisturi! Aten\u00e7\u00e3o, portanto, ao modo novo, intransitivo, de viver!<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1 Rs 19,9a.11-13a; Sl 85; Rm 9,1-5; Mt 14,22-33 1. A Igreja primitiva considerava a Barca como figura da Igreja. 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