{"id":332671781,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/9352-tumulo-aberto-mas-nao-vazio-cheio-de-sinais-d-antonio-couto"},"modified":"2025-11-07T16:33:37","modified_gmt":"2025-11-07T16:33:37","slug":"tumulo-aberto-mas-nao-vazio-cheio-de-sinais-d-antonio-couto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/tumulo-aberto-mas-nao-vazio-cheio-de-sinais-d-antonio-couto\/","title":{"rendered":"\u00abT\u00famulo Aberto, mas n\u00e3o vazio: Cheio de Sinais!\u00bb, D. Ant\u00f3nio Couto"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031.jpg\" \/><\/p>\n<p><p data-adtags-visited=\"true\">1. \u00abEsta \u00e9 a Obra do Senhor!\u00bb, assim gritava com \u00abvoz forte\u00bb (grito de Vit\u00f3ria e de Revela\u00e7\u00e3o) Jesus na Cruz, deci\u00adfrando a Cruz, recitando o Salmo 22 todo (entenda?se a meto\u00adn\u00edmia de Mateus 27,46 e Marcos 15,34, citando apenas o in\u00edcio). Par\u00adticularmente ao longo da Semana Santa, dita \u00abGrande\u00bb ou \u00abdos Mist\u00e9rios\u00bb pela Igreja do Oriente, Deus exp\u00f4s (<em>pro\u00e9theto<\/em>) diante dos nossos olhos at\u00f3nitos \u2013 e logo a partir do Domingo de Ramos \u2013 o Rei Vitorioso no seu Trono de Gra\u00e7a e de Gl\u00f3ria, que \u00e9 a Cruz (veja?se aqui demoradamente Romanos 3,24?25), tomando posse da sua Igreja?Esposa para o efeito redimida na \u00ab\u00e1gua e no sangue\u00bb (Jo\u00e3o 19,34; Ef\u00e9sios 5,25?27), isto \u00e9, no Esp\u00edrito Santo, conforme ensina Jesus com \u00abvoz forte\u00bb (!) no grande texto de Jo\u00e3o 7,37-39. Para aqui apontava tamb\u00e9m a \u00abcaminhada\u00bb quaresmal, a qual \u2013 v\u00ea?se agora claramente \u2013 s\u00f3 daqui podia afinal ter partido. \u00c9 este \u00abo Mist\u00e9rio Grande\u00bb (Ef\u00e9sios 5,32) que nos foi dado a conhecer por Deus (Romanos 16,25?26; 1 Cor\u00edntios 2,7?10; Ef\u00e9sios 3,3?11; Colossenses 1,26?27). E s\u00f3 Deus pode dar tanto a conhecer (veja?se agora o texto espantoso de Ef\u00e9sios 3,14?21). \u00c9 quanto Deus operou na Cruz! Por isso, exultamos e nos alegramos (com a\u00a0<em>Char\u00e1<\/em>, a alegria grande da P\u00e1scoa), pois \u00abeste \u00e9 o Dia que o Senhor fez\u00bb (Salmo 118,24) e em que o Senhor nos fez! \u00c9 o \u00abPrimeiro Dia\u00bb (Mateus 28,1; Marcos 16,2 e 9; Lucas 24,1; Jo\u00e3o 20,1 e 19; Atos 20,7; 1 Cor\u00edntios 16,2), e tal permanecer\u00e1 para sempre (!), o \u00abDia do Senhor, o Dia Grande\u00bb (Atos 2,20; Apocalipse 1,10), o Domingo, todos os Domingos, o Ano Lit\u00fargico todo, o Ano da Gra\u00e7a do Senhor, em que a Igreja?Esposa, redi\u00admida, santificada, bela (apresentada no Apocalipse com voz forte), celebra jubilosamente o seu Senhor, \u00e0 volta do al\u00adtar, do amb\u00e3o, do batist\u00e9rio: tudo \u00absinais\u00bb do t\u00famulo aberto do Senhor Ressuscitado, donde emerge continuamente a mensagem da Ressurrei\u00e7\u00e3o. Aleluia!<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">2. O Domingo de P\u00e1scoa na Ressurrei\u00e7\u00e3o do Senhor oferece-nos o grande texto de Jo\u00e3o 20,1-10, com a descoberta do t\u00famulo aberto, mas n\u00e3o vazio! T\u00famulo aberto: a pedra muito grande (Marcos 16,4) do poder da morte tinha sido retirada, e o Anjo do Senhor sentou-se sobre ela (Mateus 28,2), impressionante imagem de soberania e vit\u00f3ria! Mas n\u00e3o vazio: est\u00e1, na verdade, cheio de sinais, que \u00e9 preciso ler com aten\u00e7\u00e3o: um jovem sentado \u00e0 direita com uma t\u00fanica branca (Marcos 16,4), dois homens com vestes fulgurantes (Lucas 24,4), as faixas de linho no ch\u00e3o e o sud\u00e1rio enrolado noutro lugar (Jo\u00e3o 20,6-7). \u00c9 importante ler os sinais e ouvir as mensagens! Se o t\u00famulo estivesse vazio, como vulgarmente e inadvertidamente dizemos, est\u00e1vamos perante uma aus\u00eancia cega e muda. Na verdade, os sinais e as mensagens mostram uma presen\u00e7a nova que somos convidados a descobrir.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">3. O texto imenso de Jo\u00e3o 20,1-10 coloca-nos ainda diante dos olhos o in\u00edcio de diferentes percursos por parte de diferentes figuras face aos sinais encontrados ou ainda n\u00e3o, lidos ou ainda n\u00e3o:<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">4. A Madalena vai de manh\u00e3 cedo, ainda escuro, ao t\u00famulo, e v\u00ea, com um olhar normal (verbo grego\u00a0<em>bl\u00e9p\u00f4<\/em>) que at\u00e9 causa afli\u00e7\u00e3o a pedra retirada (<em>\u00earm\u00e9nos<\/em>) para sempre e por Deus (Jo\u00e3o 20,1), tal \u00e9 o significado imposto por\u00a0<em>\u00earm\u00e9nos<\/em>, partic\u00edpio perfeito passivo de\u00a0<em>a\u00edr\u00f4<\/em>. De facto, at\u00e9 d\u00f3i e aflige que se veja o inef\u00e1vel como quem v\u00ea uma coisa qualquer, cegos como estamos tantas vezes pelos nossos preconceitos! Esta pedra para sempre retirada por Deus reclama e estabelece contraponto com a pedra por algum tempo retirada (aoristo de\u00a0<em>a\u00edr\u00f4<\/em>) pelos homens do t\u00famulo de L\u00e1zaro (Jo\u00e3o 11,39 e 41). Cega pelos seus preconceitos, a Madalena falha a vis\u00e3o do inef\u00e1vel, e corre logo, equivocada, a levar uma falsa not\u00edcia: \u00abRetiraram (aoristo de\u00a0<em>a\u00edr\u00f4<\/em>) o Senhor do t\u00famulo, e n\u00e3o sabemos onde o puseram\u00bb (Jo\u00e3o 20,2). Mas o leitor atento e competente do IV Evangelho n\u00e3o estranha esta cegueira da Madalena. \u00c9 que o narrador informa-nos que ela anda ainda no escuro (Jo\u00e3o 20,1), e, no IV Evangelho, quem anda na noite e no escuro, anda perdido na incompreens\u00e3o e na cegueira, e nada entende ou d\u00e1 bom resultado. A oposi\u00e7\u00e3o luz \u2013 trevas atravessa de l\u00e9s-a-l\u00e9s o inteiro texto do IV Evangelho. A Luz verdadeira que vem a este mundo para iluminar todos os homens \u00e9 Jesus (Jo\u00e3o 1,9). Sem esta Luz que \u00e9 Jesus, andamos \u00e0s escuras, na noite, na cegueira, na dor, no fracasso, na incompreens\u00e3o. \u00c9 assim, narrativamente \u2013 e, portanto, exemplarmente, para n\u00f3s, leitores \u2013, que somos levados a constatar como Nicodemos, que anda de noite (Jo\u00e3o 3,2) e nada entende, como os disc\u00edpulos, que nada pescam de noite (Jo\u00e3o 21,3) e no meio do escuro andam perdidos (Jo\u00e3o 6,17-18), como o homem da noite na noite perdido, que \u00e9 Judas (Jo\u00e3o 13,30; 18,3), enfim, como Pedro, perdido na noite e no meio dos guardas (Jo\u00e3o 18,17-18).<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">5. A not\u00edcia levada pela Madalena p\u00f5e em movimento Sim\u00e3o Pedro e o \u00abdisc\u00edpulo amado\u00bb. Anote?se a progress\u00e3o e repare-se atentamente nos verbos utilizados: 1) Maria Madale\u00adna vai ao t\u00famulo, e v\u00ea (<em>bl\u00e9p\u00f4<\/em>) a pedra (da morte) retirada. 2) O outro disc\u00edpulo, \u00abo disc\u00edpulo amado\u00bb, corria juntamente com Pedro, mas chegou primeiro (!), inclina-se e v\u00ea (<em>bl\u00e9p\u00f4<\/em>) as faixas de linho no ch\u00e3o. 3) Pedro, que corria juntamente com \u00abo disc\u00edpulo amado\u00bb, mas SEGUINDO-O e chegando depois\u2026 Na verdade, ainda em Jo\u00e3o 18,15, os dois SEGUIAM Jesus, que \u00e9 a correta postura do disc\u00edpulo. Pedro, por\u00e9m, n\u00e3o SEGUIU Jesus at\u00e9 ao fim: ficou ali estacionado no p\u00e1tio do Sumo-Sacerdote! Mais do que isso e pior do que isso, em vez de estar com Jesus, Pedro ficou com os guardas, a aquecer-se com os guardas! (Jo\u00e3o 18,18). Pedro, portanto, n\u00e3o fez o curso ou o percurso de disc\u00edpulo de Jesus at\u00e9 ao fim! Deixou por fazer umas quantas unidades curriculares. \u00c9 por isso que agora tem de SEGUIR algu\u00e9m que tenha SEGUIDO Jesus at\u00e9 ao fim. \u00c9 por isso, e s\u00f3 por isso \u2013 nada tem a ver com idades (Pedro mais idoso, o \u00abdisc\u00edpulo amado\u00bb mais jovem!) \u2013 que Pedro tem agora de SEGUIR o \u00abdisc\u00edpulo amado\u00bb, chegando naturalmente ao t\u00famulo atr\u00e1s dele. Note-se ainda que, n\u00e3o obstante um ir \u00e0 frente e o outro atr\u00e1s, correm os dois juntos. \u00c9 aquilo que ainda hoje vemos na catequese e na mistagogia crist\u00e3s: corremos sempre juntos, mas algu\u00e9m vai \u00e0 frente, para ensinar o caminho aos outros! Bel\u00edssima comunh\u00e3o em corrida!<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">6. Pedro, que corria juntamente com o \u00abdisc\u00edpulo amado\u00bb, mas SEGUINDO-O, entra no t\u00famulo que o \u00abdisc\u00edpulo amado\u00bb cuidadosamente sinaliza e lhe aponta (ele \u00e9 o grande sinalizador de Jesus: veja-se Jo\u00e3o 13,24 e 21,7), e v\u00ea (<em>the\u00f4r\u00e9\u00f4<\/em>: um ver que d\u00e1 que pensar e que abre para a f\u00e9: cf. Jo\u00e3o 2,23; 4,19; 6,2.19.40.62) as faixas de linho no ch\u00e3o e o sud\u00e1rio que cobrira o Rosto de Jesus, \u00e0 parte, dobrado cuidadosamente, como \u00absinal\u00bb do Corpo ausente do Ressuscitado! Conclus\u00e3o: o corpo de Jesus n\u00e3o foi roubado, como sup\u00f4s a Madalena equivocada! Os ladr\u00f5es n\u00e3o costumam deixar a casa roubada t\u00e3o em ordem! Por isso, Pedro v\u00ea com o olhar de quem fica a pensar no que se ter\u00e1 passado\u2026 Talvez seja coisa de Deus\u2026 Com a indica\u00ad\u00e7\u00e3o preciosa de que o v\u00e9u foi cuidadosamente retirado do seu Rosto, a Revela\u00e7\u00e3o convida agora a contemplar o Rosto divino no Rosto humano do Ressuscitado: vendo?o a Ele, v\u00ea?se o Pai (cf. Jo\u00e3o 14,9).<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">7. \u00abO disc\u00edpulo amado\u00bb entrou, viu com um olhar hist\u00f3rico (tempo aoristo) de quem v\u00ea por dentro a identidade (verbo grego\u00a0<em>ide\u00een<\/em>), e acreditou (v. 8). \u00c9 o olhar de quem v\u00ea o inef\u00e1vel, verdadeiro cl\u00edmax do relato: anote?se a passagem do verbo ver do presente para o aoristo, e de fora para dentro: \u00abo disc\u00edpulo amado\u00bb viu na hist\u00f3ria a identidade dos \u00absinais\u00bb: toda a Economia divina realizada! O relato evang\u00e9lico \u00e9 s\u00f3brio, mas rico e denso. Fiel a esta intensa sobriedade, a arte crist\u00e3 nunca se atreveu a representar a ressurrei\u00e7\u00e3o antes dos s\u00e9culos X-XI. \u00c9 tal o fulgor da Luz deste mist\u00e9rio, que ficar\u00e1 sempre no dom\u00ednio do inef\u00e1vel, que simultaneamente ilumina e esconde.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">8. A narrativa de Jo\u00e3o 20 abre com a Madalena, que vai de manh\u00e3 cedo, ainda escuro, ao t\u00famulo, e v\u00ea, com um olhar normal (verbo grego\u00a0<em>bl\u00e9p\u00f4<\/em>) a pedra\u00a0<em>retirada<\/em>\u00a0(<em>\u00earm\u00e9nos<\/em>) para sempre e por Deus (Jo\u00e3o 20,1), tal \u00e9 o significado imposto por\u00a0<em>\u00earm\u00e9nos<\/em>, partic\u00edpio perfeito passivo de\u00a0<em>a\u00edr\u00f4<\/em>. Conforme a grandiosa narrativa, a Madalena tem diante dos olhos o inef\u00e1vel. Mas cega como est\u00e1 pelos seus preconceitos, a Madalena falha a vis\u00e3o do inef\u00e1vel, e corre logo, equivocada, a levar uma falsa not\u00edcia: \u00abRetiraram (aoristo de\u00a0<em>a\u00edr\u00f4<\/em>) o Senhor do t\u00famulo, e n\u00e3o sabemos onde o puseram\u00bb (Jo\u00e3o 20,2). N\u00e3o \u00e9 de admirar, dado que a Madalena anda pelo escuro, e, no IV Evangelho, quem anda no escuro ou na noite, n\u00e3o v\u00ea a Luz.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">9. Ainda que n\u00e3o fa\u00e7a parte do Evangelho deste Dia Grande, vale a pena, para que n\u00e3o fique perdido, acostar aqui o percurso que a Madalena continua a fazer em Jo\u00e3o 20,11-18. Mudou de olhar. Aparece agora junto do t\u00famulo a chorar, inclina-se e v\u00ea, agora tamb\u00e9m (como Pedro) com um ver que d\u00e1 que pensar (verbo grego\u00a0<em>the\u00f4r\u00e9\u00f4<\/em>), dois anjos vestidos de branco (cor divina), estrategicamente colocados no t\u00famulo, como sinais. Perguntam \u00e0 Madalena: \u00abMulher, por que choras?\u00bb. Na verdade, ela ainda est\u00e1 do lado da morte, do escuro, da dor, da tristeza. A paisagem em que se move ou a p\u00e1gina que a move ainda \u00e9 o Cap\u00edtulo 19 de Jo\u00e3o, daquele Jesus morto por m\u00e3os humanas retirado (Jo\u00e3o 19,38), daquele Rei por m\u00e3os humanas retirado (Jo\u00e3o 19,15[2x]), ou at\u00e9 daquela pedra por m\u00e3os humanas retirada do t\u00famulo de L\u00e1zaro (Jo\u00e3o 11,39 e 41) \u2013 em todos os casos o verbo\u00a0<em>a\u00edr\u00f4<\/em>\u00a0no aoristo \u2013, n\u00e3o sabendo ainda ler a pedra para sempre retirada por Deus, de Jo\u00e3o 20,1. \u00c9 ainda \u00e0 procura de um corpo morto que ela anda. De um corpo morto a que ela se acha com direito de posse. Talvez seja este o preconceito que lhe tolhe o olhar e a impede de ver o inef\u00e1vel. Na verdade, responde assim \u00e0 pergunta feita pelos dois anjos: \u00abRetiraram o meu Senhor, e n\u00e3o sei onde o puseram\u00bb (Jo\u00e3o 20,13). Note-se outra vez o aoristo do verbo\u00a0<em>a\u00edr\u00f4<\/em>, e note-se agora tamb\u00e9m o possessivo \u00abmeu\u00bb afeto a Senhor.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">10. Voltando-se para o jardim, v\u00ea, outra vez com um ver que d\u00e1 que pensar (<em>the\u00f4r\u00e9\u00f4<\/em>), um homem de p\u00e9, que ela pensa ser o jardineiro, mas que, na verdade, \u00e9 Jesus, que a deixa espantada com a segunda pergunta que lhe faz: \u00abMulher, por que choras? (normal, pois ela continuava a chorar); a quem procuras?\u00bb. Esta segunda pergunta desvenda a Madalena, retirando-a dos preconceitos que a cegam. Precedendo-a, antecipando-se a ela, adivinhando-a com aquela pergunta direita ao cora\u00e7\u00e3o, Jesus d\u00e1-se a conhecer \u00e0 Madalena, deixando-a a pensar mais ou menos assim: \u00abE como \u00e9 que este desconhecido sabe que eu ando \u00e0 procura de algu\u00e9m neste jardim?\u00bb. Compreendendo-se compreendida, a Madalena come\u00e7a a sair aqui da sua cegueira, mas ainda precisa de algum tempo para mudar de paisagem, de margem, de p\u00e1gina, do Cap\u00edtulo 19 para o Cap\u00edtulo 20. A resposta que d\u00e1 \u00e9 elucidativa: \u00abSe foste tu que\u00a0<em>o<\/em>\u00a0levaste, diz-me onde\u00a0<em>o<\/em>\u00a0puseste, e eu\u00a0<em>o<\/em>\u00a0retirarei\u00bb (Jo\u00e3o 20,15).<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">11. Ao responder com um pronome tr\u00eas vezes repetido, que esconde o nome, v\u00ea-se bem que a Madalena sabe que aquele desconhecido bem sabe quem ela procura. E confessa aqui o intento que desde aquela madrugada, ainda escuro, a movia: retirar para si aquele corpo morto! Manifesta que anda ainda perdida no Cap\u00edtulo 19, quando responde \u00abem hebraico\u00bb (<em>hebra\u00efst\u00ed<\/em>) a Jesus que acabava de pronunciar o nome dela: \u00abMaria!\u00bb (Jo\u00e3o 20,16). A locu\u00e7\u00e3o adverbial \u00abem hebraico\u00bb (<em>hebra\u00efst\u00ed<\/em>) \u00e9 uma ponte para Jo\u00e3o 19,13 e 17. Equivocada como anda, ainda quer reter o Ressuscitado, mas n\u00e3o pode: aprende ainda que nada nem ningu\u00e9m pode reter o Ressuscitado, aquela vida nova, aquele modo novo de estar presente! Leva tempo at\u00e9 passar da margem da morte para a margem da vida verdadeira! E finalmente vai anunciar aos disc\u00edpulos, que Jesus significativamente chama \u00abmeus irm\u00e3os\u00bb (Jo\u00e3o 20,17), enviada pelo Ressuscitado: \u00abVi (<em>he\u00f4raka<\/em>) o Senhor!\u00bb (Jo\u00e3o 20,18). Nova mudan\u00e7a de olhar. O que ela diz agora \u00e9: Vi e continuo a ver o Senhor! \u00c9 o que significa o verbo grego\u00a0<em>hor\u00e1\u00f4<\/em>, no tempo perfeito. \u00c9 o olhar da testemunha que v\u00ea o inef\u00e1vel! Aqui termina a Madalena o seu longo e belo percurso, e sai de cena.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u00a0<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u00c9 o amor, ainda que imperfeito,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u00c9 o amor, ainda que com defeito,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u00c9 o amor que faz correr a Madalena.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u00a0<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u00c9 o amor, ainda que imperfeito,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u00c9 o amor, ainda que com defeito,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u00c9 o amor que faz chorar a Madalena.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u00a0<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Mas tu sabes, meu irm\u00e3o da p\u00e1scoa plena,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Tu sabes que h\u00e1 outro amor em cena,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">E \u00e9 esse amor que faz amar a Madalena.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u00a0<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">12. Os primeiros crist\u00e3os rapidamente fizeram do Santo Sepulcro o seu primeiro e mais venerado lugar de culto, que o Imperador Adriano (117-135) soterrou e paganizou, estabelecendo ali cultos pag\u00e3os (no lugar da Ressurrei\u00e7\u00e3o, colocou a est\u00e1tua de J\u00fapiter, e, no Calv\u00e1rio, p\u00f4s uma est\u00e1tua de V\u00e9nus em m\u00e1rmore), com o intuito de desviar deles os crist\u00e3os. O mesmo fez em todos os lugares santos da Palestina. Todavia, Em 326, Santa Helena, m\u00e3e do imperador Constantino, que a\u00ed ter\u00e1 descoberto a Cruz do Senhor, mandou demolir as constru\u00e7\u00f5es pag\u00e3s, e vieram \u00e0 luz outra vez os primitivos e venerados lugares crist\u00e3os, que foram ent\u00e3o englobados num magn\u00edfico edif\u00edcio Constantiniano, consagrado no dia 13 de Setembro do ano 335, e que era formado pela\u00a0<em>An\u00e1stasis<\/em>, grandioso mausol\u00e9u que guardava no centro o Santo Sepulcro, o Triplo P\u00f3rtico, que abrigava o rochedo do G\u00f3lgota, e o\u00a0<em>Martyrium<\/em>, que guardava o lugar da crucifix\u00e3o e morte do Senhor. No dia imediatamente a seguir \u00e0 dedica\u00e7\u00e3o da Bas\u00edlica, 14 de Setembro desse ano 335, teve lugar e origem a venera\u00e7\u00e3o da Cruz de Cristo, hoje, Festa da Exalta\u00e7\u00e3o da Santa Cruz. Esta comemora\u00e7\u00e3o ganhou novo relevo quando, em 630, o imperador Er\u00e1clio derrotou os Persas, e as rel\u00edquias da Cruz foram trazidas processionalmente para Jerusal\u00e9m. Esta bela Bas\u00edlica Constantiniana foi danificada por diversas invas\u00f5es e ocupa\u00e7\u00f5es. A atual Bas\u00edlica do Santo Sepulcro, que os ortodoxos e os \u00e1rabes chamam\u00a0<em>An\u00e1stasis<\/em>\u00a0e\u00a0<em>Qiyama<\/em>, termos que em grego e \u00e1rabe significam \u00abRessurrei\u00e7\u00e3o\u00bb, \u00e9 fruto de cinquenta anos de trabalho dos Cruzados (1099-1149). Aqui est\u00e3o guardadas as mais fundas ra\u00edzes da nossa vida crist\u00e3, hoje quase uma esp\u00e9cie de \u00abcondom\u00ednio\u00bb de tr\u00eas Igrejas crist\u00e3s, infelizmente separadas entre si: a igreja greco-ortodoxa, a romano-cat\u00f3lica e a armena. Aqui se sente ao vivo a mesma e comum f\u00e9 pascal, mas tamb\u00e9m o drama da separa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">13. Na Leitura que hoje escutamos do Livro dos Atos dos Ap\u00f3stolos (10,34-43), os Ap\u00f3stolos d\u00e3o testemunho do que viram. Foi?lhes dado ver exatamente para dar teste\u00admunho. Viram e testemunham o Batismo de Jesus, a execu\u00e7\u00e3o da sua miss\u00e3o filial batismal, a sua Morte na Cruz, a sua Ressurrei\u00ad\u00e7\u00e3o Gloriosa, a sua Vinda Gloriosa. Mas os Ap\u00f3stolos insistem que tamb\u00e9m os Profetas [= Antigo Testamento] d\u00e3o testemunho d\u2019Ele Ressuscitado, no qual se cumpre para n\u00f3s a \u00abremiss\u00e3o dos pecados\u00bb, o Jubileu divino do Esp\u00edrito Santo (v. 43). A base prof\u00e9tica \u00e9 imponente: Jeremias 31,34; Isa\u00edas 33,24; 53,5?6; 61,1; Ezequiel 34,16; Daniel 9,24. Ver depois Jo\u00e3o 20,19?23. \u00abAs Escrituras\u00bb (ent\u00e3o o Antigo Testamento) apontam para o Ressuscitado! O Ressuscitado remete para \u00abas Escrituras\u00bb. Cumplicidade entre o Ressuscitado e \u00abas Escrituras\u00bb. Na verdade, o Ressuscitado cumpre e enche as \u00abEscrituras\u00bb. N\u00e3o est\u00e1 depois delas ou no fim delas. Est\u00e1 no meio delas, f\u00e1-las transbordar, transborda delas.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">14. O Cap\u00edtulo III da Carta aos Colossenses (3,1-4) trata a \u00abvida nova\u00bb em Cristo, que \u00e9 vida batismal, operada pelo Esp\u00edrito Santo que faz morrer e renascer na Fonte da Gra\u00e7a. Por isso, adverte solenemente Paulo: \u00abprocurai as coi\u00adsas do alto\u00bb (v. 1), \u00abpensai as coisas do alto\u00bb (v. 2), exorta\u00ad\u00e7\u00e3o que ecoa ainda no Di\u00e1logo que antecede o Pref\u00e1cio: \u00abCora\u00e7\u00f5es ao alto!\u00bb, a que respondemos com a alegria e a sabedoria do Esp\u00edrito: \u00abO nosso cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 em Deus!\u00bb, enquanto ecoa ainda em cada cora\u00e7\u00e3o habitado pelo Esp\u00edrito o \u00abGl\u00f3ria a Deus nas alturas!\u00bb.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">15. Em alternativa a Colossenses 3,1-4, pode ler-se e escutar-se 1 Cor\u00edntios 5,6-8. A sua linguagem \u00e9 da cor da P\u00e1scoa (grego\u00a0<em>p\u00e1scha<\/em>, hebraico\u00a0<em>pesah<\/em>). O Novo Testamento usa o termo grego\u00a0<em>p\u00e1scha<\/em>\u00a0[= P\u00e1scoa] por 28 vezes, assim distribu\u00eddas: 24 vezes nos Evangelhos + Atos 12,4 e Hebreus 11,28, todas em refer\u00eancia exclusiva \u00e0 P\u00e1scoa hebraica do Antigo Testamento; as duas men\u00e7\u00f5es que faltam s\u00e3o precisamente 1 Cor\u00edntios 5,7 e Lucas 22,15, esta com o precioso l\u00f3gion de Jesus: \u00abDesejei ardentemente esta P\u00e1scoa (<em>to\u00fbto t\u00f2 p\u00e1scha<\/em>) comer convosco\u00bb. Em 1 Cor\u00edntios 5,7, lemos a express\u00e3o\u00a0<em>t\u00f2 p\u00e1scha h\u00eam\u00f4n et\u00fdth\u00ea Christ\u00f3s<\/em>, cuja tradu\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser \u00abCristo, a nossa P\u00e1scoa, foi imolado\u00bb, como se v\u00ea habitualmente, mas \u00abdurante a nossa P\u00e1scoa (hebraica), foi imolado Cristo\u00bb. Os motivos s\u00e3o gramaticais (<em>t\u00f2 p\u00e1scha h\u00eam\u00f4n<\/em>\u00a0\u00e9 um acusativo adverbial) e teol\u00f3gicos: o cordeiro da p\u00e1scoa n\u00e3o \u00e9 um sacrif\u00edcio imolado; n\u00e3o \u00e9 queimado sobre o altar; \u00e9 comido em fam\u00edlia. Sacrif\u00edcio da P\u00e1scoa era a\u00a0<em>?\u00f4lat-tamid<\/em>, o holocausto perp\u00e9tuo, di\u00e1rio, o sacrif\u00edcio de dois cordeiros, filhos de um ano, um de manh\u00e3 e outro de tarde, conforme \u00caxodo 29,38-42 e N\u00fameros 28,3-8, e que, sendo di\u00e1rio, precedia qualquer celebra\u00e7\u00e3o festiva. S\u00f3 depois deste sacrif\u00edcio quotidiano, se procedia, em dias de festa, como \u00e9 a P\u00e1scoa, ao sacrif\u00edcio da festa propriamente dito, sacrif\u00edcio suplementar, e que, na P\u00e1scoa, consistia num \u00absacrif\u00edcio de ovelhas e bois\u00bb, este sim, \u00abP\u00e1scoa imolada para o Senhor\u00bb (Deuteron\u00f3mio 16,2). De notar tamb\u00e9m que o Novo Testamento desconhece em absoluto o adjetivo \u00abpascal\u00bb, de que n\u00f3s fazemos uso indiscriminado, e n\u00e3o pensado. A restante linguagem da cor da P\u00e1scoa que 1 Cor\u00edntios 5,6-8 mostra \u00e9 o fermento (<em>hamets<\/em>) e os p\u00e3es \u00e1zimos (<em>matsts\u00f4t<\/em>). Servem os termos para Paulo reclamar dos crist\u00e3os vida nova (p\u00e3es \u00e1zimos), sem mal\u00edcia (fermento velho).<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u00a0<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">P\u00e1scoa \u00e9 P\u00e1scoa. Simplesmente.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Sem I.V.A. nem adjetivo pascal.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u00a0<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">P\u00e1scoa \u00e9 lua cheia, incons\u00fatil, inteira,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Sementeira de luz na nossa eira.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u00a0<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Deixa-a viver, crescer, iluminar.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Afaga-lhe a voz e o olhar.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u00a0<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">N\u00e3o lhe metas p\u00e1s, n\u00e3o lhe deites cal.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">N\u00e3o lhe fa\u00e7as mal.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">N\u00e3o s\u00e3o notas enlatadas, brasas apagadas.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u00c9 m\u00fasica nova, lume vivo e integral.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u00a0<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">N\u00e3o \u00e9 paragem, mas passagem,<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Aragem a ferver e a gravar em ponto Cruz<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">A mensagem que arde no cora\u00e7\u00e3o dos dois de Ema\u00fas.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">A P\u00e1scoa \u00e9 Jesus.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">\u00a0<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. \u00abEsta \u00e9 a Obra do Senhor!\u00bb, assim gritava com \u00abvoz forte\u00bb (grito de Vit\u00f3ria e de Revela\u00e7\u00e3o) Jesus na 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