{"id":3375956895,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/12417-domingo-xxii-do-tempo-comum-nao-se-pode-seguir-jesus-so-com-os-pes"},"modified":"2025-11-07T16:33:56","modified_gmt":"2025-11-07T16:33:56","slug":"domingo-xxii-do-tempo-comum-nao-se-pode-seguir-jesus-so-com-os-pes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/domingo-xxii-do-tempo-comum-nao-se-pode-seguir-jesus-so-com-os-pes\/","title":{"rendered":"Domingo XXII do Tempo Comum: \u00abN\u00e3o se pode seguir Jesus s\u00f3 com os p\u00e9s!\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031.jpg\" \/><\/p>\n<p><p data-adtags-visited=\"true\">Jr 20,7-9; Sl 63; Rm 12,1-2; Mt 16,21-27<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">1. O Evangelho deste Domingo XXII do Tempo Comum (Mateus 16,21-27) forma uma unidade de alto-a-baixo com o Evangelho do Domingo passado (XXI), em que escut\u00e1mos a passagem imediatamente anterior (Mateus 16,13-20), em que o reconhecimento de Jesus como o Messias por parte dos disc\u00edpulos, com Pedro \u00e0 cabe\u00e7a, constitu\u00eda um importante passo em frente, como tal assinalado com louvor por Jesus. Todavia, o epis\u00f3dio terminava com Jesus a ordenar taxativamente aos seus disc\u00edpulos que n\u00e3o dissessem a ningu\u00e9m que Ele era o Messias (v. 20). No Domingo passado n\u00e3o nos era dado saber a raz\u00e3o de t\u00e3o clara proibi\u00e7\u00e3o. Mas hoje, que ficamos a ter acesso ao texto integral, j\u00e1 n\u00e3o precisamos de ficar parados no meio da ponte ou em Cesareia de Filipe, sem nunca chegarmos a Jerusal\u00e9m. De facto, hoje ficamos a saber que a conce\u00e7\u00e3o de messianismo que os disc\u00edpulos atribu\u00edam a Jesus diferia substancialmente da conce\u00e7\u00e3o messi\u00e2nica de Jesus. A vis\u00e3o messi\u00e2nica de Jesus implicava que Ele ia sofrer muito e morrer e ressuscitar ao terceiro dia (v. 21). Ao passo que a vis\u00e3o messi\u00e2nica dos disc\u00edpulos, e do juda\u00edsmo em geral, implicava triunfo e sucesso, e apenas triunfo e sucesso, sem sofrimento e sem morte. E foi por isso, para n\u00e3o dar azo a populismos e triunfalismos v\u00e3os e f\u00e1ceis, que Jesus proibiu os seus disc\u00edpulos de dizerem que Ele era o Messias.\u00a0 Na verdade, depois de ter dado aos seus disc\u00edpulos aquela ordem taxativa de\u00a0<em>n\u00e3o dizerem<\/em>\u00a0a ningu\u00e9m que Ele era o Messias (v. 20), Jesus abre uma p\u00e1gina nova logo no vers\u00edculo seguinte, falando pela primeira vez, de forma expl\u00edcita, da sua Paix\u00e3o, Morte e Ressurrei\u00e7\u00e3o. Assim: \u00abcome\u00e7ou a mostrar aos seus disc\u00edpulos que\u00a0<em>\u00e9 necess\u00e1rio<\/em>\u00a0(<em>de\u00ee<\/em>) \u2013 este\u00a0<em>de\u00ee<\/em>\u00a0implica necessidade divina ou teol\u00f3gica \u2013 que Ele v\u00e1 para Jerusal\u00e9m, sofra muito da parte dos anci\u00e3os e dos sumo-sacerdotes e dos escribas, seja morto, e ressuscite ao terceiro dia\u00bb (v. 21). Sendo divina e teol\u00f3gica a dimens\u00e3o deste dizer de Jesus, tal implica que este n\u00e3o deva ser visto como simples leitura ou interpreta\u00e7\u00e3o dos \u00absinais dos tempos\u00bb (pol\u00edticos, religiosos e outros), mas antes \u00e0 luz da convic\u00e7\u00e3o que Jesus tinha da sua pr\u00f3pria miss\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">2. Ouvindo estes dizeres incr\u00edveis de Jesus, Pedro \u00abtomou-o consigo \u00e0 parte\u00bb (<em>proslab\u00f3menos aut\u00f3n<\/em>), e come\u00e7ou a \u00abrecrimin\u00e1-lo\u00bb (<em>epitim\u00e3n aut\u00f4<\/em>), dizendo: \u00abDeus te livre por gra\u00e7a (<em>h\u00edle\u00f4s soi<\/em>), Senhor; isso nunca (<em>ou m\u00ea<\/em>) te acontecer\u00e1\u00bb (v. 22). Que \u00e9 como quem diz: \u00abN\u00e3o \u00e9 esse o programa previsto para o Messias\u00bb. A\u00ed est\u00e1 como Pedro n\u00e3o viu nem mediu as palavras que disse, quando disse: \u00abTu \u00e9s o Cristo, o Filho do Deus vivo!\u00bb (v. 16), como vindas do Pai, por gra\u00e7a, como Jesus salientou na altura, mas como sua produ\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, dentro da sua cultura e religiosidade, colhidas na torrente da tradi\u00e7\u00e3o religiosa judaica. Para Pedro, tudo normal.\u00a0<em>Tudo<\/em>\u00a0corrente. Tudo dentro do horizonte religioso judaico. Mas aten\u00e7\u00e3o que o que aconteceu com Pedro acontece connosco muitas vezes, tantas s\u00e3o as ocasi\u00f5es em que n\u00e3o chegamos a compreender que anda por ali a gra\u00e7a de Deus e o dedo de Deus! Mas voltemos \u00e0 atitude e \u00e0s palavras de recrimina\u00e7\u00e3o que Pedro dirigiu a Jesus. Salientemos em primeiro lugar que Pedro n\u00e3o enfrenta diretamente Jesus, mas usa de alguma discri\u00e7\u00e3o e confidencialidade, chamando-o \u00e0 parte. Isto no que se refere \u00e0 atitude, comedida e respeitosa. Prestando agora aten\u00e7\u00e3o \u00e0s palavras de recrimina\u00e7\u00e3o que Pedro dirige a Jesus, e que abrem com aquele: \u00abDeus te livre por gra\u00e7a (<em>h\u00edle\u00f4s soi<\/em>), Senhor\u00bb, ficamos com a sensa\u00e7\u00e3o de que Pedro v\u00ea o quadro apresentado por Jesus, n\u00e3o tanto como meta a atingir, mas como um desastre a evitar. A express\u00e3o \u00abDeus te livre por gra\u00e7a\u00bb (<em>h\u00edle\u00f4s soi<\/em>), dif\u00edcil em grego, pode ser a reprodu\u00e7\u00e3o da locu\u00e7\u00e3o hebraica\u00a0<em>hal\u00eelah<\/em>, muito habitual nestas ocasi\u00f5es, que passa o mesmo sentido de que Deus n\u00e3o h\u00e1 de permitir que aconte\u00e7a tal desgra\u00e7a. Este sentido pode sair refor\u00e7ado por aquela nega\u00e7\u00e3o forte \u00abisso nunca (<em>ou m\u00ea<\/em>) te acontecer\u00e1\u00bb, com duas negativas acopladas (<em>ou m\u00ea<\/em>) que, por isso, n\u00e3o traduzi por um simples \u00abn\u00e3o\u00bb, mas por \u00abnunca\u00bb.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">3. Jesus responde a Pedro com palavras dur\u00edssimas e corretivas, violentas mesmo, sem nenhum aceno de diplomacia, vis\u00edvel at\u00e9 se compararmos o movimento corporal de Pedro e de Jesus: Pedro chama Jesus \u00e0 parte, dir\u00edamos com uma certa discri\u00e7\u00e3o e confidencialidade, e a recrimina\u00e7\u00e3o que dirige a Jesus tende a ajudar a amenizar a situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil e sem sa\u00edda que Jesus acaba de expor. Jesus n\u00e3o faz uso de nenhuma diplomacia, volta-se sobre Pedro (<em>straphe\u00eds<\/em>), e diz-lhe publicamente: \u00abVai para tr\u00e1s de mim, Satan\u00e1s (<em>h\u00fdpage op\u00eds\u00f4 mou, Satan\u00e2<\/em>)! Pedra de trope\u00e7o (<em>sk\u00e1ndalon<\/em>) \u00e9s para mim, porque n\u00e3o pensas as coisas de Deus, mas as coisas dos homens\u00bb (v. 23). Ponto por ponto: 1) salta \u00e0 vista, sobretudo porque temos antes a atitude diplom\u00e1tica de Pedro, o facto de Jesus se ter voltado para ficar frente-a-frente com Pedro e com todos; 2) \u00abAtr\u00e1s de mim\u00bb \u00e9 o lugar do disc\u00edpulo, exatamente o lugar que Pedro deve ocupar e para o qual foi chamado por Jesus: \u00abVinde atr\u00e1s de mim\u00bb (<em>de\u00fbte op\u00eds\u00f4 mou<\/em>), s\u00e3o estas as palavras que Jesus dirige a Pedro e a Andr\u00e9, aquando do seu chamamento (Mateus 4,19). Portanto, Pedro deve seguir atentamente atr\u00e1s de Jesus, e n\u00e3o postar-se \u00e0 sua frente para lhe barrar o caminho, e tentar que Jesus siga as suas ideias que colheu acerca do Cristo na torrente da tradi\u00e7\u00e3o cultural e religiosa judaica, que s\u00e3o ideias de sucesso e de triunfo, e pretenda desligar Jesus do seu caminho duro e ensanguentado da Paix\u00e3o e da Cruz. 3) Note-se, todavia, que o imperativo\u00a0<em>de\u00fbte<\/em>, usado no chamamento dos disc\u00edpulos, tem um colorido adverbial quase exortativo, ao passo que o imperativo\u00a0<em>hyp\u00e1ge<\/em>, agora usado por Jesus em rela\u00e7\u00e3o a Pedro, tem um colorido fortemente exclusivo; basta dizer que se trata do mesmo imperativo usado por Jesus para p\u00f4r Satan\u00e1s fora do seu caminho (Mateus 4,10). 4) O apelativo \u00abSatan\u00e1s\u00bb pode ter no caso de Pedro o vulgar significado hebraico de \u00abseparador\u00bb e \u00abadvers\u00e1rio\u00bb, mas \u00e9 tamb\u00e9m claro que lembra o outro \u00abSatan\u00e1s\u00bb de Mateus 4,8-9, \u00abo deus deste mundo\u00bb (2 Cor 4,4; Ef 2,1-3), que quer oferecer a Jesus um reino sem Cruz, atulhado de poder e gl\u00f3ria, que s\u00e3o os valores deste mundo, e que \u00e9 taxativamente exorcizado por Jesus, como j\u00e1 vimos (Mateus 4,10). Em nome dos nossos princ\u00edpios c\u00f3modos adquiridos, ignoramos ou n\u00e3o queremos saber da gra\u00e7a de Deus que agora nos indica outros caminhos. 5) \u00abPedra de trope\u00e7o\u00bb (<em>sk\u00e1ndalon<\/em>), colocada no caminho, \u00e9 o sentido primitivo do termo grego\u00a0<em>sk\u00e1ndalon<\/em>. O sentido \u00e9 fazer as pessoas trope\u00e7ar e cair, e impedi-las de continuar o seu caminho. \u00c9 claro que Jesus, usando este termo, pretende p\u00f4r a claro que Pedro, talvez com boa inten\u00e7\u00e3o, lhe quer barrar o caminho do sofrimento e da Cruz e de acesso \u00e0 Vida verdadeira.\u00a0 Mas o leitor atento n\u00e3o pode deixar de olhar um pouco para tr\u00e1s e de trope\u00e7ar no contraponto: \u00abSobre esta\u00a0<em>pedra<\/em>\u00a0edificarei a minha Igreja\u00bb (v. 18). \u00c9 a explora\u00e7\u00e3o do duplo sentido da \u00abpedra\u00bb e do nome de Pedro, positivo ou negativo.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">4. E o texto prossegue no mesmo tom determinado, com Jesus a\u00a0<em>dizer<\/em>\u00a0claramente aos seus disc\u00edpulos que, para o seguirem, \u00e9 preciso\u00a0<em>dizer n\u00e3o a si mesmos<\/em>\u00a0(<em>aparn\u00e9omai<\/em>), e carregar a cruz todos os dias, perder a vida para a ganhar. Semelhante exig\u00eancia, num mundo em que a vida terrena (<em>psych\u00ea<\/em>) \u00e9 o maior valor existente (v. 26), s\u00f3 faz sentido se houver a garantia de uma vida maior no horizonte.\u00a0<em>Dizer n\u00e3o a si mesmos<\/em>\u00a0implica entrar pelo caminho da morte terrena e seguir Jesus (v. 24), sabendo que \u00e9 perdendo esta vida terrena que se ganha a vida em plenitude. Implica p\u00f4r em Jesus a sua confian\u00e7a, e n\u00e3o nos bens, que nos gritam todos os dias: \u00abconfiai em n\u00f3s!\u00bb (ap\u00f3logo judaico de 1700). \u00abPerder a vida por causa de mim\u00bb (v. 25), diz Jesus. O que Jesus diz a estes disc\u00edpulos e a n\u00f3s, que valorizamos tanto esta vida terrena, \u00e9 que perd\u00ea-la \u00e9 um pequeno pre\u00e7o para ganhar a vida eterna. Entenda-se: perder esta vida terrena desta maneira \u00e9 perder-se nos caminhos de Jesus, \u00abimitando-o verdadeiramente, e n\u00e3o segui-lo s\u00f3 com os p\u00e9s\u00bb, para o dizer com as palavras s\u00e1bias de Erasmo de Roterd\u00e3o (1469-1536). Perder a vida n\u00e3o implica ganho nenhum. \u00c9 a vida perdida por lealdade a Jesus que garante que se ganhe a verdadeira vida.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">5. Por tudo isto se v\u00ea por que raz\u00e3o Jesus ordenou aos seus disc\u00edpulos que\u00a0<em>n\u00e3o dissessem<\/em>\u00a0a ningu\u00e9m que Ele era o Cristo. Pedro tinha dito: \u00abTu \u00e9s o Cristo!\u00bb Mas, como acab\u00e1mos de ver, fosse qual fosse a ideia que Pedro tivesse de \u00abCristo\u00bb, nela n\u00e3o cabia ainda o sofrimento, a rejei\u00e7\u00e3o, a morte, nem a ressurrei\u00e7\u00e3o, e muito menos a ades\u00e3o pessoal de Pedro a este \u00abCristo\u00bb, a um \u00abCristo\u00bb assim (v. 21-22). O que Pedro sabia era o que vinha na torrente do juda\u00edsmo desde h\u00e1 muito tempo: que o Cristo vinha para triunfar, para ter sucesso, para estabelecer um mundo de excel\u00eancia para os judeus, libertando-os dos seus advers\u00e1rios, do sofrimento e da morte. Viria, enfim, p\u00f4r fim a todas as necessidades, disc\u00f3rdias e disputas, \u00e0 guerra, \u00e0 doen\u00e7a, \u00e0 velhice e \u00e0 morte, a tudo aquilo que perturba e diminui os n\u00edveis da nossa vida. Ele viria trazer a plenitude da vida. \u00c9 por isto que Pedro e aqueles disc\u00edpulos seguem Jesus, e n\u00e3o porque andem \u00e0 procura de novas ideias religiosas, ou queiram aprender alguma ora\u00e7\u00e3o nova. Portanto, se os disc\u00edpulos de Jesus fossem\u00a0<em>dizer<\/em>\u00a0que Ele era o Cristo, era isto que iam\u00a0<em>dizer<\/em>, e era isto que a sua audi\u00eancia judaica ia perceber. Gerar-se-ia uma onda de entusiasmo popular, de populismo, que soaria a falso, como quando n\u00f3s ainda hoje falamos de messianismo.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">6. O que \u00e9 que n\u00f3s\u00a0<em>dizemos<\/em>\u00a0quando\u00a0<em>dizemos<\/em>\u00a0Cristo? E a nossa maneira de viver \u00e9 verdadeiramente a de quem segue Cristo? N\u00e3o o Cristo da tradi\u00e7\u00e3o do triunfo e do sucesso, mas o Cristo de Deus? \u00c9 verdade que o Cristo de Deus vem trazer a plenitude da vida, mas n\u00e3o \u00e9 como Pedro pensava. Muito menos como hoje, em que s\u00e3o cada vez menos os que ainda veem alguma coisa para al\u00e9m de um buraco e de um monte de terra!<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">7. O caminho de Jesus \u00e9 paradoxal e provocat\u00f3rio. Assim o considerou Pedro, mal ouviu a vers\u00e3o nova de Jesus acerca do seu messianismo. Demorou tempo, equivocou-se v\u00e1rias vezes, ficou parado no caminho, ensonado, dissentido, aqueceu-se a outro lume, mas quando foi atingido em cheio pela gra\u00e7a e pela for\u00e7a do Ressuscitado, seguiu Jesus apaixonadamente at\u00e9 ao sangue, n\u00e3o apenas com os p\u00e9s, portanto. \u00c9 neste caminho ardente que se pode inserir mais uma passagem das chamadas \u00abconfiss\u00f5es\u00bb de Jeremias, hoje Jeremias 20,7-9. Olhando para o rastro da sua vida, Jeremias confessa que foi irresistivelmente seduzido pelo seu Deus, para logo o acusar, no limite da blasf\u00e9mia, de velhacaria e engano, pois o abandonou \u00e0 sua sorte, colocando-lhe na boca palavras violentas e deixando-o \u00e0 merc\u00ea dos seus opressores, que zombam dele e o torturam sem descanso. Neste contexto, Jeremias confessa-se desanimado e tentado a abandonar a sua miss\u00e3o de profeta. Mas a Palavra de Deus volta a assalt\u00e1-lo como um fogo, uma lava ardente de que n\u00e3o se pode fugir, pois arde dentro de n\u00f3s (Jeremias 20,9). E como \u00e9 que se pode fugir de um fogo que arde dentro de n\u00f3s?<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">8. As \u00abconfiss\u00f5es\u00bb de Jeremias encontram-se em Jeremias 11,18-12,6; 15,10-21; 17,12-18; 18,18-23; 20,7-18, e s\u00e3o uma esp\u00e9cie de di\u00e1rio interior, autobiogr\u00e1fico, em que o profeta de\u00a0<em>Anat\u00f4t<\/em>, uma aldeiazinha situada a meia-d\u00fazia de km a nordeste de Jerusal\u00e9m, grita a Deus as dores e os amores da sua vida. Jeremias atravessou o per\u00edodo mais dram\u00e1tico da hist\u00f3ria do seu pa\u00eds, vendo primeiro, em 609, morrer tragicamente o justo rei Josias e subir ao trono o tirano rei Joaquim (609-597), assiste \u00e0s duas entradas do babil\u00f3nio Nabucodonosor em Jerusal\u00e9m, em 597 e 587, sendo a segunda para arrasar Jerusal\u00e9m e o Templo, deportar o rei Sedecias e p\u00f4r fim \u00e0 na\u00e7\u00e3o de Jud\u00e1.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">9. N\u00e3o coisas exteriores a n\u00f3s, mas n\u00f3s mesmos em oferta a Deus, eis o \u00abculto l\u00f3gico\u00bb (<em>latre\u00eda logik\u00ea<\/em>), isto \u00e9, racional, integral, pessoal, que Paulo nos exorta a prestar a Deus, conforme a li\u00e7\u00e3o de hoje da Carta aos Romanos 12,1-2, um texto curto, mas imenso. Claro, tudo sempre envolvido na gra\u00e7a preveniente, concomitante e consequente que nos vem de Deus e nos enche de bondade e de beleza, e que faz da nossa vida sacrif\u00edcio agrad\u00e1vel a Deus.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\" data-adtags-visited=\"true\">10. De toda esta intensidade faz eco o Salmo 63, conhecido como \u00abo canto do amor m\u00edstico\u00bb, em que o orante descreve a sua sede psicobiol\u00f3gica de Deus. Sem Deus, estiola e morre. Santa Teresa de \u00c1vila, de quem, em 2015, celebr\u00e1mos o V Centen\u00e1rio do seu nascimento, descreveu assim esta sede, no seu\u00a0<em>Caminho de perfei\u00e7\u00e3o<\/em>: \u00abA sede exprime o desejo de uma coisa, mas um desejo de tal modo intenso, que morremos se n\u00e3o o saciarmos\u00bb.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jr 20,7-9; Sl 63; Rm 12,1-2; Mt 16,21-27 1. 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