{"id":3399999778,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/8975-domingo-xxxii-do-tempo-comum-vai-com-deus"},"modified":"2025-11-07T16:33:34","modified_gmt":"2025-11-07T16:33:34","slug":"domingo-xxxii-do-tempo-comum-vai-com-deus-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/domingo-xxxii-do-tempo-comum-vai-com-deus-2\/","title":{"rendered":"Domingo XXXII do Tempo Comum: \u00abVai com Deus\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031.jpg\" \/><\/p>\n<p><p data-adtags-visited=\"true\">1. Tendo atravessado Jeric\u00f3 e tamb\u00e9m o cora\u00e7\u00e3o de Zaqueu, como vimos no Domingo passado (Lucas 19,1-10), Jesus sobe para Jerusal\u00e9m, \u00abchora sobre ela\u00bb (Lucas 19,41), entra no Templo (Lucas 19,45), e nele come\u00e7a a ensinar o povo demoradamente (Lucas 20,1), \u00faltima etapa do seu minist\u00e9rio p\u00fablico. \u00c9 a ensinar no Templo que os saduceus o encontram e pretendem \u00abtram\u00e1-lo\u00bb avan\u00e7ando com a estranh\u00edssima hist\u00f3ria da mulher casada sucessivamente com sete irm\u00e3os, porque um a um iam morrendo sem deixar descend\u00eancia, quadro evang\u00e9lico posto diante dos nossos olhos neste Domingo XXXII do Tempo Comum (Lucas 20,27-38). Esta estranha hist\u00f3ria assenta na chamada \u00abLei do levirato\u00bb [do latim\u00a0<em>levir<\/em>\u00a0= cunhado], que manda que, se a uma mulher casada morrer o marido sem deixar descend\u00eancia, o irm\u00e3o do marido deve desposar a mulher para dar uma descend\u00eancia ao seu irm\u00e3o (ver Deuteron\u00f3mio 25,5-10). O tema da mulher que, por este processo, desposa sete maridos era tamb\u00e9m um lugar comum no folclore judaico, como se pode ver em Tobias 6,14.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">2. Os saduceus, descendentes do sumo-sacerdote Sadoq, constitu\u00edam a alta burguesia sacerdotal e liberal de Jerusal\u00e9m. A religiosidade conservadora que defendiam assentava apenas na\u00a0<em>T\u00f4rah<\/em>\u00a0de Mois\u00e9s escrita, constitu\u00edda pelos Livros do G\u00e9nesis, \u00caxodo, Lev\u00edtico, N\u00fameros e Deuteron\u00f3mio. N\u00e3o reconheciam autoridade a nenhuma tradi\u00e7\u00e3o oral, ao contr\u00e1rio dos fariseus. Tamb\u00e9m ao contr\u00e1rio dos fariseus, os saduceus n\u00e3o acreditavam na ressurrei\u00e7\u00e3o. E \u00e9 este ponto preciso que pretendem atacar e p\u00f4r a rid\u00edculo, quando contam a Jesus a hist\u00f3ria da mulher e dos seus sete maridos, para no final lhe deixarem a pergunta sarc\u00e1stica: \u00abNa ressurrei\u00e7\u00e3o, de qual dos sete ser\u00e1 esposa, uma vez que, nesta vida, os sete a tiveram por mulher?\u00bb (Lucas 20,33). Claro que a pergunta visa desacreditar e p\u00f4r a rid\u00edculo a mentalidade popular, cultivada por algumas correntes farisaicas, que passava da ressurrei\u00e7\u00e3o uma imagem demasiado materialista, segundo a qual os defuntos ressuscitariam tal como foram sepultados, com o mesmo aspeto, com as mesmas roupas e com as mesmas enfermidades. Assim, cegos, surdos, mudos, coxos ressuscitariam igualmente cegos, surdos, mudos, coxos, para que pudessem ser reconhecidos, e apenas mais tarde seriam curados.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">3. A resposta de Jesus \u00e9 original no m\u00e9todo e nos conte\u00fados. Claro que afirma a ressurrei\u00e7\u00e3o. Opera, por\u00e9m, uma clara distin\u00e7\u00e3o entre \u00abeste mundo\u00bb e o \u00abmundo que h\u00e1 de vir\u00bb, mostrando que este n\u00e3o \u00e9 um decalque do primeiro, e mostrando tamb\u00e9m a nossa inaptid\u00e3o e inabilidade para passar de um mundo para o outro. Este \u00aboutro\u00bb n\u00e3o \u00e9, na verdade, regido por n\u00f3s, seja qual for a nossa maneira de pensar. \u00c9 regido por Deus, de quem somos \u00abfilhos\u00bb (Lucas 20,36), isto \u00e9, recebedores de vida. Bel\u00edssima janela aberta para a grande teologia da diviniza\u00e7\u00e3o por gra\u00e7a. Na sua resposta, Jesus n\u00e3o cita nenhum texto b\u00edblico que fale explicitamente de ressurrei\u00e7\u00e3o, evitando assim as infind\u00e1veis discuss\u00f5es acad\u00e9micas. De forma surpreendente e inesperada, cita \u00caxodo 3,6, em que Deus se revela a Mois\u00e9s como \u00abDeus de Abra\u00e3o, Deus de Isaac e Deus de Jacob\u00bb (Lucas 20,37).<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">4. Com este procedimento, Jesus vai diretamente ao cora\u00e7\u00e3o das Escrituras, \u00e0 Revela\u00e7\u00e3o do Deus vivo. A hist\u00f3ria contada pelos saduceus era a hist\u00f3ria de uma paternidade sete vezes falhada, de vida n\u00e3o transmitida que, por oito vezes, desemboca na morte. A hist\u00f3ria que Jesus conta \u00e9 a hist\u00f3ria da vida verdadeira de Deus, vida transmitida, dada pelo Deus vivo, e Deus dos vivos, Paternidade n\u00e3o falhada, mas realizada. A ressurrei\u00e7\u00e3o, como a mostra Jesus, n\u00e3o \u00e9 a reanima\u00e7\u00e3o de um cad\u00e1ver ou um simples prolongamento desta vida. Os \u00abfilhos da ressurrei\u00e7\u00e3o\u00bb e \u00abfilhos de Deus\u00bb s\u00e3o aqueles que p\u00f5em toda a sua esperan\u00e7a em Deus, o \u00fanico verdadeiro vivente. Os que vivem como \u00abfilhos do Deus vivente\u00bb recebem de Deus a vida que n\u00e3o morre. A n\u00e3o ser assim, ter\u00e1 que se dizer que Deus n\u00e3o \u00e9 o Deus da vida, o que at\u00e9 para os saduceus seria um absurdo.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">5. Portanto, negar a ressurrei\u00e7\u00e3o \u00e9 negar a vida, e equivale a negar a pr\u00f3pria exist\u00eancia de Deus. Se Abra\u00e3o, Isaac e Jacob est\u00e3o vivos, n\u00e3o \u00e9 pelo facto de terem desposado mulheres e gerado filhos, mas pelo facto de serem eles mesmos \u00abfilhos\u00bb de Deus, para sempre recebedores da vida de Deus. Na ressurrei\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, na ordem nova da vida de Deus, o marido, a mulher e os filhos gerados n\u00e3o s\u00e3o identificados pela sua rela\u00e7\u00e3o esponsal, paternal, maternal ou filial, mas apenas pela sua rela\u00e7\u00e3o de filia\u00e7\u00e3o divina (<em>hyiothes\u00eda<\/em>) (cf. Romanos 8,15-16; G\u00e1latas 4,5), a \u00fanica verdadeira rela\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria e que n\u00e3o pode ser abolida, a mesma que define e identifica os anjos.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">6. Vida em plenitude, apenas dada e recebida da \u00fanica fonte da vida, nunca falhada, nunca terminada, vida sem ocaso. Vida grande e bela, musical, ang\u00e9lica m\u00fasica da \u00e1gua a jorrar da fonte divina inesgot\u00e1vel. \u00abDeus de Abra\u00e3o, Deus de Isaac e Deus de Jacob, n\u00e3o de mortos, mas de vivos\u00bb. Com o estupendo testemunho do fil\u00f3sofo franc\u00eas Blaise Pascal que, desde 1654 at\u00e9 \u00e0 sua morte, ocorrida em 1662, trazia, cosido no forro do seu manto (na verdade, cosia e descosia, consoante mudava de roupa), um pergaminho escrito, que come\u00e7ava com a parte final do Evangelho de hoje: \u00abDeus de Abra\u00e3o, Deus de Isaac, Deus de Jacob.\/ N\u00e3o dos fil\u00f3sofos e s\u00e1bios.\/ Certeza, Certeza. Sentimento, Alegria, Paz.\/ Deus de Jesus Cristo.\/\u00a0<em>Deum meum et Deum vestrum<\/em>\u00a0(Jo\u00e3o 20,17).\/ O teu Deus ser\u00e1 o meu Deus.\/ Esquecimento do mundo e de tudo, exceto Deus.\/ Ele n\u00e3o se encontra sen\u00e3o pelos caminhos ensinados no Evangelho\u2026\u00bb. Este pessoal\u00edssimo testemunho constitui o chamado\u00a0<em>M\u00e9moriale<\/em>\u00a0de Pascal, escrito em 1654, segunda-feira, 23 de Novembro, entre as dez e meia da noite e a meia noite e meia. Ap\u00f3s a sua morte, um criado encontrou o pergaminho com os dizeres mencionados cosido no forro do seu manto.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">7 No ano 167 a.C., o sel\u00eaucida Ant\u00edoco IV Epif\u00e2nio desencadeou uma violenta persegui\u00e7\u00e3o antijudaica, cujos ecos se podem ver, por exemplo, no Segundo Livro dos Macabeus, Cap\u00edtulos 6 e 7, um extraordin\u00e1rio d\u00edptico que mostra no Cap\u00edtulo 6 a fidelidade heroica do velho Eleazar, e no Cap\u00edtulo 7 a mesma atitude por parte dos sete jovens irm\u00e3os Macabeus. \u00c9 este segundo epis\u00f3dio (2 Macabeus 7,1-2.9-14) que hoje escutamos e que faz eco ao Evangelho. A narrativa est\u00e1 cheia de heroicidade e de f\u00e9 no Deus vivo. Estes sete jovens e a sua m\u00e3e afirmam aqui, de forma clara, a Ressurrei\u00e7\u00e3o, aludida em muitas outras passagens do Antigo Testamento. Mas vale sempre a pena recuperar o quadro de Eleazar, um anci\u00e3o de 90 anos, que tamb\u00e9m afirma e defende corajosamente a sua f\u00e9 perante os perseguidores pag\u00e3os. Os dois quadros, do velho anci\u00e3o e dos sete jovens e sua m\u00e3e, formam um bel\u00edssimo d\u00edptico que devemos colocar em lugar bem vis\u00edvel para os olhos do nosso cora\u00e7\u00e3o, como se fosse, e \u00e9, um quadro de fam\u00edlia. A tinta dos quadros ou das narrativas do Livro dos Macabeus, citando nomes e acontecimentos verdadeiros, \u00e9 tamb\u00e9m de teor edificante. O Livro de Daniel, escrito provavelmente no Outono do ano 164 a.C., l\u00ea os mesmos acontecimentos tamb\u00e9m com o objetivo de encorajar os judeus piedosos a permanecerem firmes na sua f\u00e9 durante a persegui\u00e7\u00e3o do tirano Ant\u00edoco IV Epif\u00e2nio. No dizer deste Livro (12,1-3), pessoas como Eleazar ou os sete jovens irm\u00e3os Macabeus e sua m\u00e3e s\u00e3o os mestres s\u00e1bios (<em>maskkil\u00eem<\/em>) e justificadores (<em>matsdd\u00eeq\u00eem<\/em>), isto \u00e9, dadores de vida: ensinam, n\u00e3o teorias, mas a vida verdadeira, dando a sua vida por amor: \u00e9 assim que vencem os violentos, n\u00e3o opondo-se a eles, mas amando, isto \u00e9, dando a vida e dando vida, ensinando a viver. Estes novos s\u00e1bios e justificadores s\u00e3o, diz o Livro de Daniel, as novas estrelas que brilham para sempre! Todas as outras (do cinema, da can\u00e7\u00e3o, do futebol) s\u00e3o cadentes e decadentes.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">8. Belo podermos ver hoje Paulo a rezar (2 Tessalonicenses 2,16-3,5), juntando, com um verbo no singular, \u00abNosso Senhor Jesus Cristo e Deus, nosso Pai, que nos\u00a0<em>amou<\/em>\u00a0e nos\u00a0<em>deu<\/em>\u00a0consola\u00e7\u00e3o eterna e esperan\u00e7a boa na gra\u00e7a,\u00a0<em>console<\/em>\u00a0os vossos cora\u00e7\u00f5es\u00bb (vv. 16-17). A ora\u00e7\u00e3o de Paulo \u00e9 de intercess\u00e3o a favor dos Tessalonicenses. Depois pede aos Tessalonicenses que rezem por ele, para que a palavra do Senhor corra pelo mundo inteiro e seja por todos acolhida e suavize todos os cora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">9. O Salmo 17 est\u00e1 em perfeita harmonia com a liturgia que hoje celebramos. Levanta-se um justo perseguido e apresenta a Deus o seu atestado de inoc\u00eancia (vv. 1-5). Desde o cora\u00e7\u00e3o (pensamento), passando pela boca (palavra), continuando pelos p\u00e9s (caminhos, passos), o orante exp\u00f5e-se todo diante de Deus, para que Ele possa verificar a retid\u00e3o da sua vida. A um crist\u00e3o que reza atentamente o Salmo, pode esta confiss\u00e3o parecer um pouco farisaica, mas pretende t\u00e3o s\u00f3 afirmar a ades\u00e3o a Deus e ao bem por parte do orante. A segunda parte (vv. 6-15) \u00e9 uma s\u00faplica vigorosa e apaixonada em que o orante perseguido pede a Deus que, do armaz\u00e9m da sua ira, tire a espada da vingan\u00e7a e abata os seus inimigos, cujo cora\u00e7\u00e3o, boca e olhos est\u00e3o cheios de maldade e viol\u00eancia. Mas vai mais longe o orante na sua s\u00faplica intensa, e pede que Deus espalhe o terror e fa\u00e7a beber a ta\u00e7a da sua ira tamb\u00e9m aos filhos dos seus advers\u00e1rios e aos filhos dos seus filhos. E, assim como pede que sejam saciados de fel os seus inimigos, pede tamb\u00e9m que ele pr\u00f3prio seja saciado de do\u00e7ura (v. 15). Tamb\u00e9m este intenso e alargado pedido de vingan\u00e7a pode soar mal a ouvidos crist\u00e3os. Trata-se, por\u00e9m, do realismo b\u00edblico da ora\u00e7\u00e3o. O orante sente o que sente, e diz a sua amargura a Deus, rezando. Rezando, desinstala da sua alma aqueles sentimentos, e entrega-os a Deus. E \u00e9 \u00f3bvio que Deus n\u00e3o pensa, diz e age como n\u00f3s: \u00abNa verdade, os meus pensamentos n\u00e3o s\u00e3o os vossos pensamentos, e os vossos caminhos n\u00e3o s\u00e3o os meus caminhos\u00bb (Isa\u00edas 55,9).<\/p>\n<p data-adtags-visited=\"true\">Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. 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