{"id":3410536174,"date":"2013-11-01T00:00:00","date_gmt":"2013-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/328-liturgia\/14166-domingo-xx-do-tempo-comum-um-fogo-novo"},"modified":"2025-11-07T16:34:06","modified_gmt":"2025-11-07T16:34:06","slug":"domingo-xx-do-tempo-comum-um-fogo-novo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/domingo-xx-do-tempo-comum-um-fogo-novo\/","title":{"rendered":"Domingo XX do Tempo Comum: \u00abUm fogo novo\u00bb"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/antonio_couto_sorriso_160417093031_160503044443.jpg\" \/><\/p>\n<p><p class=\"has-text-align-justify\">Jeremias 38,4-6.8-10; Salmo 40; Hebreus 12,1-4; Lucas 12,49-53<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">1. Abre assim a extraordin\u00e1ria li\u00e7\u00e3o do Evangelho deste Domingo XX do Tempo Comum (Lucas 12,49-57): \u00abO fogo Eu vim trazer sobre a terra, e como Eu desejo que j\u00e1 tivesse sido aceso (<em>an\u00eaphth\u00ea<\/em>: aoristo passivo de\u00a0<em>an\u00e1pt\u00f4<\/em>)! Tenho um batismo para ser batizado, e como estou sob\u00a0<em>stress<\/em>\u00a0(<em>syn\u00e9ch\u00f4mai<\/em>) at\u00e9 que ele seja consumado (<em>telesth\u00ea<\/em>: aoristo conjuntivo passivo de\u00a0<em>tel\u00e9\u00f4<\/em>\u00a0[= levar \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o]\u00bb! (Lucas 12,49-50). Um claro paralelismo sinon\u00edmico, assente em dois passivos divinos ou teol\u00f3gicos. Fogo ainda por acender, batismo ainda por receber. N\u00e3o \u00e9, portanto, o batismo do Jord\u00e3o. Esse ficou j\u00e1 para tr\u00e1s. Trata-se, isso sim, de levar \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o a miss\u00e3o filial batismal recebida no batismo do Jord\u00e3o, que ser\u00e1 cumprida no batismo da Cruz Gloriosa com a D\u00e1diva do fogo do Esp\u00edrito Santo a todos n\u00f3s! Digamo-lo uma vez mais: no decurso da sua vida terrena, embora possu\u00edsse o Esp\u00edrito Santo em plenitude, Jesus ainda n\u00e3o o podia dar a n\u00f3s, pois ainda n\u00e3o tinha sido glorificado (cf. Jo\u00e3o 7,39). E o Esp\u00edrito Santo vem para n\u00f3s do Corpo Glorificado de Jesus, \u00fanica fonte do Esp\u00edrito Santo para n\u00f3s.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">2. N\u00e3o \u00e9, pois, de um vulgar inc\u00eandio que se trata, e a que, infelizmente, temos estado e continuamos sujeitos nestes dias. Este fogo \u00e9 novo! N\u00e3o \u00e9 nosso. \u00c9 de Deus. Vem de Deus. Mas arde e queima e opera dentro de n\u00f3s, como um bisturi de dois gumes, at\u00e9 dividir alma e esp\u00edrito, junturas e medulas, e julga mesmo as considera\u00e7\u00f5es e inten\u00e7\u00f5es do cora\u00e7\u00e3o (Hebreus 4,12). \u00c9 a pr\u00f3pria Palavra de Deus que \u00e9 como um fogo devorador (Jeremias 23,29). Veja-se o cora\u00e7\u00e3o a arder dos dois disc\u00edpulos de Ema\u00fas (Lucas 24,32). Veja-se a sar\u00e7a que ardia e n\u00e3o se consumia, mas chamava por Mois\u00e9s (\u00caxodo 3,2-4). Veja-se o fogo que arde no cora\u00e7\u00e3o e nos ossos de Jeremias, e que ele n\u00e3o consegue dominar (Jeremias 20,9). Vejam-se as l\u00ednguas de fogo do Pentecostes! (Atos 2,3).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">3. O batismo \u00e9 um lume que alumia e queima e prepara para a luta do amor (<em>ag\u00f4n t\u00eas \u00e1gap\u00eas<\/em>).\u00a0<em>Ag\u00f4n<\/em>\u00a0[= luta] e\u00a0<em>ag\u00e1p\u00ea<\/em>\u00a0[= amor] t\u00eam a mesma etimologia. V\u00ea-se, portanto, at\u00e9 etimologicamente, que o amor \u00e9 uma luta que implica decis\u00f5es todos os dias e a todas as horas. Sim, biblicamente, o amor n\u00e3o \u00e9 um estado mais ou menos rom\u00e2ntico ou id\u00edlico que se sofre, mas uma catadupa de decis\u00f5es que temos de tomar. \u00c9 preciso mesmo decidir amar os inimigos. Entenda-se bem: \u00abamar\u00bb, n\u00e3o \u00abmatar\u00bb. Por isso, Jesus n\u00e3o veio trazer a paz ang\u00e9lica, mas a divis\u00e3o evang\u00e9lica (Lucas 12,51) ou a espada, como refere bem o paralelo de Mateus 10,34. \u00abN\u00e3o vim trazer a paz, mas a divis\u00e3o\u00bb (Lucas 12,51), clarifica Jesus. Claro que a divis\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o objetivo da miss\u00e3o, mas pode ser a consequ\u00eancia da ades\u00e3o ao an\u00fancio de Jesus! Sim, para quem ama verdadeiramente no seguimento de Jesus, nada pode ser indiferente ou equivalente. Cada momento tem de deixar marcas, pois implica decis\u00f5es e incis\u00f5es at\u00e9 ao sangue (Hebreus 12,4). N\u00e3o amaciemos e anestesiemos n\u00f3s o Evangelho, n\u00e3o o domestiquemos nem lhe retiremos o vigor, a alma, o lume, o gume, at\u00e9 o pormos a concordar com tudo e com todos, at\u00e9 o tornarmos in\u00fatil como o sal que perde o sabor! As pessoas n\u00e3o precisam de entretenimentos, mas de Jesus Cristo! E a ades\u00e3o a Jesus Cristo nunca \u00e9 sem consequ\u00eancias.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">4. E o batismo de Jesus (e o nosso) coloca-nos tamb\u00e9m no caminho duro da decis\u00e3o que \u00e9 sempre incis\u00e3o, do sangue e do combate. O batismo \u00e9, na verdade, uma imers\u00e3o na morte de Cristo (Romanos 6,3), e n\u00e3o nas \u00abclaras, frescas, doces \u00e1guas\u00bb id\u00edlicas, como acontecia nos rituais batismais greco-romanos de fecundidade do deus P\u00e3, ou nas m\u00faltiplas imers\u00f5es de purifica\u00e7\u00e3o que ao tempo de Jesus se cumpriam na comunidade de Qumran. Corramos, pois, com paci\u00eancia (<em>hypomon\u00ea<\/em>) para o combate (<em>ag\u00f4n<\/em>) (Hebreus 12,1), pois ainda n\u00e3o resistimos at\u00e9 ao sangue no combate (<em>ag\u00f4n<\/em>) contra o pecado (Hebreus 12,4), assim nos ser\u00e1 dado ouvir no serm\u00e3o da Carta aos Hebreus que hoje nos atinge (Hebreus 12,1-4).<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">5. \u00c9 de uma luta de todos os dias que se fala. E de um amor que imp\u00f5e decis\u00f5es, incis\u00f5es e lutas todos os dias. Torna-se ent\u00e3o necess\u00e1rio aprender e cultivar a paci\u00eancia, cujo voc\u00e1bulo grego,\u00a0<em>hypomon\u00ea<\/em>, significa etimologicamente \u00abestar debaixo de\u00bb, carregando e suportando o peso que transportamos. Portanto, a paci\u00eancia remete para sofrimento, mas n\u00e3o se trata de um sofrimento masoquista e in\u00fatil, que abate quem o sofre, mas que faz de quem o sofre a base para a vit\u00f3ria, no caso militar ou desportivo ou de quem queira triunfar em qualquer atividade. Vendo mais longe e mais fundo, como requer sempre o Evangelho, a paci\u00eancia \u00e9 o suporte ou fundamento que segura e mant\u00e9m de p\u00e9 o inteiro edif\u00edcio do universo. E os Santos s\u00e3o os verdadeiros \u00abcarregadores\u00bb do mundo.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">6. Um epis\u00f3dio da vida do poeta russo Serghei Esenin (1895-1925) ajuda a ilustrar melhor o car\u00e1cter combativo do nosso batismo e do caminho crucial da vida crist\u00e3. \u00c0 beira do suic\u00eddio, o poeta refugia-se num quarto de um albergue desconhecido. Mas adveio-lhe, nesse instante, do fundo da alma, a vontade irresist\u00edvel de escrever uma \u00faltima poesia. Por\u00e9m, no albergue n\u00e3o havia tinta. Foi assim que Esenin foi levado a fazer uma incis\u00e3o, um corte, no bra\u00e7o, e a escrever com o pr\u00f3prio sangue o seu \u00faltimo poema. Serve o epis\u00f3dio mencionado apenas para percebermos que s\u00f3 com o pr\u00f3prio sangue, isto \u00e9, com a nossa vida, podemos escrever a nossa ades\u00e3o ao Reino de Deus. E o nosso batismo n\u00e3o pode ficar apenas registado com tinta em algum poeirento arquivo paroquial. Temos de o escrever com o nosso pr\u00f3prio sangue, no dia-a-dia.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">7. Sim, o tom combativo que enche a p\u00e1gina do Evangelho de Lucas n\u00e3o se refere aos \u00faltimos tempos. N\u00e3o est\u00e1 para vir. \u00c9 no nosso dia-a-dia que se trava este combate. S\u00e3o coisas \u00abdeste tempo\u00bb (<em>kair\u00f3s<\/em>) (Lucas 12,56), em que vivemos, e que devemos saber ler. Sintomaticamente, sabemos ler os sinais atmosf\u00e9ricos e meteorol\u00f3gicos do tempo segmentado (<em>chr\u00f3nos<\/em>) que vivemos. Mas temos dificuldade em ler o\u00a0<em>kair\u00f3s<\/em>, que \u00e9 o nosso tempo segmentado (<em>chr\u00f3nos<\/em>) inundado pela enchente da Palavra de Deus, pela gra\u00e7a da Presen\u00e7a do pr\u00f3prio Deus, a que temos de responder agora, e n\u00e3o podemos n\u00e3o responder ou adiar a resposta.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">8. Jeremias, de cuja profecia ouvimos hoje um extrato (38,4-10), \u00e9 bem o \u00edcone incandescente das lutas sem fim em defesa da verdade da Palavra de Deus. Quer quando tem pela frente o tirano Joaquim (609-598), colocado no trono pelo eg\u00edpcio Nekao II, ou o troca-tintas Sedecias (597-587), colocado no trono pelo babil\u00f3nio Nabucodonosor, os militares, a aristocracia, a sua pr\u00f3pria fam\u00edlia, ou o povo em geral. Claramente, e sem equ\u00edvocos de nenhuma esp\u00e9cie, Jeremias anuncia a morte a quem quiser permanecer na defesa da cidade de Jerusal\u00e9m, e apregoa a rendi\u00e7\u00e3o aos babil\u00f3nios como \u00fanica esperan\u00e7a de sobreviv\u00eancia. Por causa desta \u00abalta trai\u00e7\u00e3o \u00e0 p\u00e1tria\u00bb, assim julgam os ministros e os chefes militares, Jeremias ser\u00e1 lan\u00e7ado numa cisterna e atolar-se-\u00e1 no lodo (v. 6). Da\u00ed ser\u00e1 retirado por um estrangeiro compadecido (vv. 7-10), e ser\u00e1 depois, no fat\u00eddico ano de 586, em que Jerusal\u00e9m ser\u00e1 arrasada, protegido pelos babil\u00f3nios. Mas o rei Sedecias e o seu ex\u00e9rcito n\u00e3o ter\u00e3o igual sorte. Fugir\u00e3o da cidade, mas ser\u00e3o perseguidos e alcan\u00e7ados. Sedecias ver\u00e1 os seus filhos serem degolados \u00e0 sua frente. Depois, ser-lhe-\u00e3o vazados os olhos, e ser\u00e1 levado com cadeias para a Babil\u00f3nia.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">9. O Salmo 40 apresenta um primeiro andamento de a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as (vv. 1-10), seguido logo por um movimento de s\u00faplica e lamenta\u00e7\u00e3o (vv. 11-18). Parece, pois, haver no corpo do Salmo uma estranha divis\u00e3o. Quem \u00e9 o \u00abeu\u00bb que constata e agradece os benef\u00edcios de Deus no v. 1, e quem \u00e9 o \u00abeu\u00bb que, no v. 14, implora ainda com veem\u00eancia o aux\u00edlio de Deus? Este insistente pedido de ajuda ouve-se novamente no v. 18, que hoje serve de refr\u00e3o ao Salmo. Esta not\u00f3ria divis\u00e3o no corpo do Salmo n\u00e3o \u00e9 il\u00f3gica, como muitas vezes tem sido vista. \u00c9 humana, dado ser tamb\u00e9m a nossa vida tecida por momentos de sonho e de outros tempos de maior ou menor dificuldade. Em sintonia com o Evangelho de hoje, e tamb\u00e9m com a li\u00e7\u00e3o de Jeremias e do Serm\u00e3o da Carta aos Hebreus. H\u00e1, por\u00e9m, um dado novo, um canto novo: seja qual for a nossa situa\u00e7\u00e3o, est\u00e1 sempre l\u00e1 o bom Deus, a quem nos podemos dirigir com confian\u00e7a.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Couto<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jeremias 38,4-6.8-10; Salmo 40; Hebreus 12,1-4; Lucas 12,49-53 1. 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