{"id":3430163893,"date":"2022-04-10T00:00:00","date_gmt":"2022-04-10T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.educris.com\/v3\/326-vaticano\/11349-domingo-de-ramos-homilia-do-papa-francisco"},"modified":"2022-04-10T00:00:00","modified_gmt":"2022-04-10T00:00:00","slug":"domingo-de-ramos-homilia-do-papa-francisco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/domingo-de-ramos-homilia-do-papa-francisco\/","title":{"rendered":"Domingo de Ramos: Homilia do Papa Francisco"},"content":{"rendered":"<p class=\"img\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/educris\/imagens\/papa_ramos_vaticano_190415094819.jpg\"\/><\/p>\n<p><p>No calv\u00e1rio, confrontam-se duas mentalidades; vemos, no Evangelho, como as palavras de Jesus crucificado se contrap\u00f5em \u00e0s dos seus advers\u00e1rios. Estes v\u00e3o repetindo, como se fosse um refr\u00e3o, \u00absalva-te a ti mesmo\u00bb. Dizem-no os chefes: \u00ab<em>Salve-se a si mesmo<\/em>, se \u00e9 o Messias de Deus, o Eleito\u00bb (<em>Lc<\/em>\u00a023, 35). Proferem-no os soldados: \u00abSe \u00e9s o rei dos judeus,\u00a0<em>salva-te a ti mesmo<\/em>\u00bb (23, 37). E tamb\u00e9m um dos malfeitores, tendo ouvido tais palavras, repete-as: \u00abN\u00e3o \u00e9s tu o Messias?\u00a0<em>Salva-te a ti mesmo<\/em>\u00bb (23, 39). Salvar-se a si mesmo, olhar por si mesmo, pensar em si mesmo; n\u00e3o nos outros, mas apenas na pr\u00f3pria sa\u00fade, no pr\u00f3prio sucesso, nos pr\u00f3prios interesses; ter, poder e aparecer.\u00a0<em>Salva-te a ti mesmo<\/em>: \u00e9 o refr\u00e3o da humanidade, que crucificou o Senhor. Reflitamos nisto.<\/p>\n<p>Mas, \u00e0 mentalidade do \u00abeu\u00bb, op\u00f5e-se a de Deus; o\u00a0<em>salva-te a ti mesmo<\/em>\u00a0confronta-se com o Salvador que Se oferece a Si mesmo. No Calv\u00e1rio, segundo o Evangelho de hoje, tamb\u00e9m Jesus toma a palavra tr\u00eas vezes como os seus advers\u00e1rios (cf. 23, 34.43.46). Em nenhum dos casos, por\u00e9m, reivindica qualquer coisa para Si mesmo; na verdade, nem sequer Se defende ou justifica a Si mesmo. Reza ao Pai e oferece miseric\u00f3rdia ao bom ladr\u00e3o. Particularmente uma das suas express\u00f5es marca a diferen\u00e7a do\u00a0<em>salva-te a ti mesmo<\/em>: \u00abPerdoa-lhes, Pai\u00bb (23, 34).<\/p>\n<p>Detenhamo-nos nestas palavras. Quando s\u00e3o pronunciadas pelo Senhor? Num momento espec\u00edfico: durante a crucifix\u00e3o, quando sente os cravos perfurar-Lhe os pulsos e os p\u00e9s. Tentemos imaginar a dor lancinante que isso provocava. L\u00e1, na dor f\u00edsica mais aguda da Paix\u00e3o, Cristo pede perd\u00e3o para quem O est\u00e1 perfurando. Naqueles momentos, apetecer-nos-ia apenas gritar toda a nossa raiva e sofrimento; Jesus, ao contr\u00e1rio, diz:\u00a0<em>Perdoa-lhes, Pai<\/em>. Diversamente doutros m\u00e1rtires referidos na B\u00edblia (cf.\u00a0<em>2 Mac<\/em>\u00a07, 18-19), n\u00e3o repreende os algozes nem amea\u00e7a castigos em nome de Deus, mas reza pelos \u00edmpios. Cravado no pat\u00edbulo da humilha\u00e7\u00e3o, aumenta a intensidade do dom, que se torna \u201cper-d\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Irm\u00e3os, irm\u00e3s! Pensemos que Deus procede assim tamb\u00e9m connosco: quando Lhe provocamos dor com as nossas a\u00e7\u00f5es, Ele sofre e o \u00fanico desejo que tem \u00e9 poder perdoar-nos. Para nos darmos conta disto, contemplemos o Crucificado. \u00c9 das suas chagas, daqueles orif\u00edcios de dor causados pelos nossos cravos que brota o perd\u00e3o. Fixemos Jesus na cruz e pensemos que nunca recebemos palavras melhores:\u00a0<em>Perdoa-lhes, Pai<\/em>. Fixemos Jesus na cruz e vejamos que nunca recebemos um olhar mais terno e compassivo. Fixemos Jesus na cruz e conven\u00e7amo-nos de que nunca recebemos um abra\u00e7o mais amoroso. Fixemos o Crucificado e digamos: \u00abObrigado, Jesus! Amas-me e perdoas-me sempre, mesmo quando me custa amar e perdoar a mim mesmo\u00bb.<\/p>\n<p>L\u00e1, enquanto \u00e9 crucificado, no momento mais dif\u00edcil, Jesus vive o seu mandamento mais dif\u00edcil: o amor aos inimigos. Pensemos em algu\u00e9m que nos feriu, ofendeu, dececionou; em algu\u00e9m que nos irritou, n\u00e3o nos compreendeu ou n\u00e3o foi um bom exemplo. Quanto tempo nos demoramos a pensar em quem nos fez mal! Como tamb\u00e9m a olhar para n\u00f3s mesmos e a lamuriar-nos pelas feridas que nos infligiram os outros, a vida ou a hist\u00f3ria. Hoje Jesus ensina-nos a n\u00e3o perdermos nisso, mas a reagir, a romper o c\u00edrculo vicioso do mal e dos queixumes, a reagir aos cravos da vida com o amor, aos golpes do \u00f3dio com a car\u00edcia do perd\u00e3o. Mas n\u00f3s, disc\u00edpulos de Jesus, seguimos o Mestre ou o nosso instinto rancoroso? \u00c9 uma pergunta que devemos colocar a n\u00f3s mesmos: seguimos o Mestre ou o nosso instinto rancoroso? Se queremos verificar a nossa perten\u00e7a a Cristo, vejamos como nos comportamos com quem nos feriu. O Senhor pede-nos para responder, n\u00e3o como nos apetece a n\u00f3s nem como fazem todos, mas como Ele procede connosco. Pede-nos para quebrar a corrente do \u00abamo-te se me amares; sou teu amigo, se fores meu amigo; ajudo-te se me ajudares\u00bb. Assim n\u00e3o! Em vez disso, compaix\u00e3o e miseric\u00f3rdia para com todos, porque Deus v\u00ea um filho em cada um. N\u00e3o nos divide em bons e maus, em amigos e inimigos. Somos n\u00f3s que o fazemos, fazendo-O sofrer. Para Ele, todos somos filhos amados, que deseja abra\u00e7ar e perdoar. Vemos isto tamb\u00e9m naquele convite para o banquete de n\u00fapcias do filho: aquele senhor envia os seus servos \u00e0 encruzilhada dos caminhos, dizendo-lhes \u00abtragam todos, brancos, pretos, bons e maus, todos, s\u00e3os e doentes, todos&#8230;\u00bb ( cf.\u00a0<em>Mt<\/em>\u00a022, 9-10). O amor de Jesus \u00e9 para todos; nisto, n\u00e3o h\u00e1 privil\u00e9gios. Todos. O privil\u00e9gio de cada um de n\u00f3s \u00e9 ser amado, perdoado.<\/p>\n<p><em>Perdoa-lhes, Pai, porque n\u00e3o sabem o que fazem<\/em>. O Evangelho sublinha que Jesus \u00abdizia\u00bb (23, 34) isso, isto \u00e9, n\u00e3o o dissera uma vez por todas no momento da crucifix\u00e3o, mas passou as horas na cruz com estas palavras nos l\u00e1bios e no cora\u00e7\u00e3o. Deus n\u00e3o Se cansa de perdoar. Devemos compreender isto\u2026 e n\u00e3o s\u00f3 com a mente, mas compreend\u00ea-lo com o cora\u00e7\u00e3o: Deus n\u00e3o Se cansa de perdoar, somos n\u00f3s que nos cansamos de Lhe pedir perd\u00e3o, mas Ele nunca Se cansa de perdoar. Ele n\u00e3o suporta at\u00e9 certo ponto para depois mudar de ideias, como n\u00f3s somos tentados a fazer. Jesus \u2013 ensina o Evangelho de Lucas \u2013 veio ao mundo para nos trazer o perd\u00e3o dos nossos pecados (cf.\u00a0<em>Lc<\/em>\u00a01, 77) e, no fim, deixou-nos esta ordem concreta: pregar a todos, no seu nome, o perd\u00e3o dos pecados (cf.\u00a0<em>Lc<\/em>\u00a024, 47). Irm\u00e3os e irm\u00e3s, n\u00e3o nos cansemos do perd\u00e3o de Deus: n\u00f3s, sacerdotes, de o ministrar; e, cada crist\u00e3o, de o receber e testemunhar. N\u00e3o nos cansemos do perd\u00e3o de Deus.<\/p>\n<p><em>Perdoa-lhes, Pai, porque n\u00e3o sabem o que fazem<\/em>. Notemos mais uma coisa. Jesus n\u00e3o s\u00f3 implora o perd\u00e3o, mas diz tamb\u00e9m o motivo: perdoa-lhes,\u00a0<em>porque n\u00e3o sabem o que fazem<\/em>. Como \u00e9 poss\u00edvel? Os seus opositores tinham premeditado a morte d\u2019Ele, organizado a sua captura, os julgamentos e agora est\u00e3o l\u00e1, no Calv\u00e1rio, para assistir ao seu fim&#8230; e, todavia, Cristo justifica aqueles violentos,\u00a0<em>porque n\u00e3o sabem<\/em>. \u00c9 assim que Jesus Se comporta connosco: faz-Se nosso\u00a0<em>advogado<\/em>. N\u00e3o Se coloca contra n\u00f3s, mas por n\u00f3s contra o nosso pecado. E \u00e9 interessante o argumento que usa:\u00a0<em>porque n\u00e3o sabem<\/em>, ou seja, aquela ignor\u00e2ncia do cora\u00e7\u00e3o que temos todos n\u00f3s pecadores. Quando se usa viol\u00eancia, nada mais se sabe sobre Deus, que \u00e9 Pai, nem sobre os outros, que s\u00e3o irm\u00e3os. Esquece-se a raz\u00e3o por que se est\u00e1 no mundo e chega-se a realizar absurdas crueldades. Vemo-lo na loucura da guerra, onde se torna a crucificar Cristo. Sim, Cristo \u00e9 pregado na cruz mais uma vez nas m\u00e3es que choram a morte injusta de maridos e filhos. \u00c9 crucificado nos refugiados que fogem das bombas com os meninos no bra\u00e7o. \u00c9 crucificado nos idosos deixados sozinhos a morrer, nos jovens privados de futuro, nos soldados mandados a matar os seus irm\u00e3os. Hoje, Cristo est\u00e1 crucificado a\u00ed.<\/p>\n<p><em>Perdoa-lhes, Pai, porque n\u00e3o sabem o que fazem<\/em>. Muitos ouvem esta frase incr\u00edvel; mas apenas um a acolhe. \u00c9 um malfeitor, crucificado ao lado de Jesus. Podemos pensar que a miseric\u00f3rdia de Cristo suscitou nele uma \u00faltima esperan\u00e7a e o levou a pronunciar estas palavras: \u00abJesus, lembra-te de mim\u00bb (<em>Lc<\/em>\u00a023, 42), como se dissesse: \u00abTodos se esqueceram de mim, mas Tu pensas at\u00e9 naqueles que Te crucificam. Ent\u00e3o poderia haver tamb\u00e9m para mim um lugar contigo?\u00bb O bom ladr\u00e3o acolhe Deus, quando a vida dele est\u00e1 prestes a terminar e, assim, a sua vida recome\u00e7a; no inferno do mundo, v\u00ea abrir-se o Para\u00edso: \u00abHoje estar\u00e1s comigo no Para\u00edso\u00bb (23, 43). Eis o prod\u00edgio do perd\u00e3o de Deus, que transforma o \u00faltimo pedido dum condenado \u00e0 morte na primeira canoniza\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Irm\u00e3os, irm\u00e3s! Nesta semana, abramo-nos \u00e0 certeza de que Deus pode perdoar todo o pecado. Deus tudo perdoa; pode perdoar todo o afastamento, mudar em dan\u00e7a todo o lamento (cf.\u00a0<em>Sal<\/em>\u00a030,12); a certeza de que, com Cristo, h\u00e1 sempre lugar para cada um; a certeza de que, com Jesus, a vida nunca acaba. Nunca \u00e9 tarde demais;\u00a0<em>com Deus, sempre se pode voltar a viver<\/em>. Coragem! Caminhemos para a P\u00e1scoa com o seu perd\u00e3o. Porque Cristo intercede continuamente por n\u00f3s junto do Pai (cf.\u00a0<em>Heb<\/em>\u00a07, 25) e, olhando para o nosso mundo violento e , o nosso mundo ferido, n\u00e3o Se cansa de repetir (e em sil\u00eancio, no cora\u00e7\u00e3o, repitamos com Ele):\u00a0<em>Perdoa-lhes, Pai, porque n\u00e3o sabem o que fazem<\/em>.<\/p>\n<p>Educris|10.04.2022<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No calv\u00e1rio, confrontam-se duas mentalidades; vemos, no Evangelho, como as palavras de Jesus crucificado se contrap\u00f5em \u00e0s dos seus advers\u00e1rios. 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